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por Telma de Oliveira Melo*
Outro dia, li entre um plantão e outro da vida, a fala solene no STF em defesa dos “penduricalhos”. Palavra curiosa, essa. Na minha infância, penduricalho era enfeite de árvore de Natal. Agora descubro que também pode enfeitar contracheque e com muito mais brilho.
Sou enfermeira. Quarenta e dois anos de Ministério da Saúde nas costas, nos joelhos, na lombar, na vista cansada de ler prontuário. Foram anos em hospitais, na lida direta com o paciente; depois na policlínica, equilibrando demanda, urgência e escassez, e atualmente no nível central da gestão da saúde, como técnica em saúde, onde os papéis pesam tanto quanto os plantões de outrora. Poderia me aposentar, é verdade. Mas a aposentadoria, para nós mortais do serviço público sem penduricalhos, costuma ser uma espécie de dieta forçada: corta-se aqui, reduz-se ali, e de repente o plano de saúde que já consome uns modestos 25% do salário, passa a olhar para mim com aquele ar faminto. E os remédios, sempre pontuais como um boleto, aumentam com a mesma disciplina que eu tive ao pegar ônibus sob sol, chuva e greve.
Durante anos fui fiel ao transporte coletivo. Fizesse sol ou chuva, lá estava eu, com bolsa, marmita e compromisso. Compromisso é compromisso, sempre foi meu lema. Até que, depois de muito esforço, contas ajustadas no limite do possível e uma boa dose de coragem, consegui comprar um carro. Financiado, claro, porque milagre não consta no meu plano de carreira. Mas aquele carro representou mais do que quatro rodas: foi o alívio do desgaste físico, a economia de tempo, a preservação de um pouco da sanidade depois de plantões longos. Não foi luxo, foi sobrevivência com parcelas mensais.
Enquanto isso, descubro que há quem receba, líquidos, a bagatela de R$ 709 mil ao longo do ano. Líquidos. A palavra me chama atenção porque, no hospital, líquido é soro, na folha de pagamento, parece ser outra substância, mais rara, quase etérea.
Fiquei pensando na logística dos meus próprios “penduricalhos”. Ao longo dos anos, no setor em que estou cedida ao SUS, lotada aqui, encaixada ali, eu e meus colegas compramos café, chá, cafeteira, micro-ondas. Não por luxo, mas por sobrevivência gastronômica. Como não havia local adequado para esquentar a marmita, improvisamos. Nosso penduricalho é a extensão elétrica. Nosso benefício é a vaquinha do fim do mês.
E então ouço a fala da doutora, meritíssima? excelência? Confesso que, nesse ponto, o tratamento virou detalhe. Não me interessa o título, porque respeito não depende de pronome de tratamento, depende de sensibilidade. E é aí que mora meu espanto, a tentativa de se apresentar como coitadinha em meio a uma multidão de servidores que, na maioria, não recebem nem 1% do que ela chama de vencimentos.
Não escrevo movida por ira, embora a pressão arterial tenha seus comentários a fazer, mas por essa necessidade quase terapêutica de organizar o espanto. Se é desabafo ou catarse, pouco importa. Talvez seja apenas a velha enfermeira tentando medir os sinais vitais da República.
E, olhando os números, confesso: a febre é alta.
Enquanto isso, amanhã estarei de novo a caminho do trabalho, agora ao volante do meu carro parcelado, quitando com esforço cada prestação, com meu crachá, minha marmita e meus próprios, discretíssimos, penduricalhos: dignidade, compromisso e um café dividido entre colegas. Esses, sim, rendem muito.
*Enfermeira e servidora pública federal é concursada há mais de 40 anos. Ao longo de sua trajetória, acumulou ampla experiência no sistema público de saúde, atuando na assistência hospitalar, na gestão de unidades de saúde e em funções estratégicas na administração central.
É um coletivo de jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.