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Quem tem carro e mora nos bairros centrais das capitais não costuma se preocupar quando lê algo sobre mudanças em uma linha de ônibus qualquer que circula na periferia. A distância, mais social que geográfica, não permite que pessoas de classe média imaginem o quanto uma decisão dessas – sem consulta aos prinicipais interessados – atinge e muda a rotina de vida de milhares de homens e mulheres que precisam do transporte coletivo todos os dias. Recentemente, a retirada das linhas Arthur Lundgren II/TI Macaxeira e Mirueira/TI Macaxeira gerou uma série de reclamações, principalmente de moradores dos bairros de Paratibe e Arthur Lundgren I que precisam ir até as zonas norte e oeste do Recife.
Primeiro, vamos falar das alterações para o leitor se situar.
De acordo com o consórcio Grande Recife, a linha 1902 (Mirueira/TI Macaxeira) possuía dois ônibus e transportava, diariamente, 950 passageiros. Essa linha passou a se chamar TI Abreu e Lima/Mirueira, obrigando as pessoas que precisam ir até o terminal integrado da Macaxeira, na zona norte da capital, a usar a linha 1906 (TI Pelópidas/ TI Macaxeira via Mirueira), que a assessoria do consórcio de transporte diz ter um tempo de deslocamento de 20 a 25 minutos. Se quiserem ir até o terminal integrado, de Abreu e Lima, a viagem duraria entre 40 e 50 minutos.
O segundo caso foi a alteração da linha 1948 (Arthur Lundgren II/TI Macaxeira), que deu lugar à TI Abreu e Lima/Arthur Lundgren II, que contava com quatro veículos e atendia todos os dias 2.337 passageiros dos bairros Arthur Lundgren II, Arthur Lundgren I, Paratibe, Aurora e Jardim Paulista Baixo. Assim, quem não mora em Arthur II ficou sem uma segunda opção para ir trabalhar. A nova linha circula apenas no bairro, deixando as comunidades vizinhas atendidas apenas por linhas que levam ao terminal Pelópidas da Silveira, na rodovia PE-15.
A aridez dos parágrafos acima pode dar a falsa impressão de que esta reportagem diz respeito a detalhes técnicos do sistema de transporte rodoviário da metrópole. A partir de agora, será possível entender como essas decisões mexe até com o sono de quem vive nesses bairros.
Cada morador sente o impacto de uma maneira diferente. Lorena Torres, assistente administrativa, de 27 anos, mora em Paratibe e há seis anos trabalha numa empresa na zona norte do Recife. Antes, para chegar no trabalho às 8h, saía de casa por volta das 6h40min, 6h50min, no máximo. Com as mudanças das linhas, passou a acordar mais cedo, pois tem de sair às 6h em ponto, qualquer minuto perdido gera um efeito dominó de atrasos.
Quando a linha Arthur II/TI Macaxeira estava em atividade, Lorena pegava dois ônibus e passava por apenas um terminal de integração para pegar outro ônibus. Agora para chegar no mesmo destino pega três ônibus e tem de entrar nas filas nas plataformas de embarque de duas integrações. Na última semana de abril, a Marco Zero a acompanhou na ida ao trabalho, uma viagem que levou quase duas horas (uma hora e cinquenta e cinco minutos pra ser mais exata) de Paratibe ao bairro do Poço da Panela.
Lorena agora pega três ônibus e passa por três integrações para ir ao trabalho
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
“Eu tô acordando de 4h30, antes eu acordava às 5h. Antes eu tomava café um pouco mais tranquila porque sabia a hora que o ônibus ia passar, hoje eu evito, coloco na bolsa pra quando chegar no trabalho comer alguma coisa. Essa é a questão: não ter um tempo de qualidade antes de trabalhar, agora é acordar, tomar banho e sair”, explica Lorena.
Considerando que a maioria dos usuários de ônibus de Paulista só vai a outras cidades passando por terminais de integração, já no primeiro ônibus fomos em pé. Entre o tempo de espera até a chegada no TI Pelópidas foram 30 minutos. Com a fila grande precisamos aguardar três ônibus para conseguir ir sentados, o que só aconteceu aproximadamente 13 minutos depois de chegarmos ao terminal.
O ônibus seguiu lotado. Com o fluxo intenso de carros na BR-101, a chegada ao TI Macaxeira só aconteceu às 7h50min, ou seja, uma hora e vinte minutos depois de sairmos de Paratibe. Esse era o tempo que Lorena levava para chegar ao seu destino. Essa mudança não afetou apenas o tempo do trajeto, mas toda a dinâmica do dia da jovem. “Acaba sendo bem mais cansativo e pegando mais tempo. Um tempo que a gente não tem, tanto para vim trabalhar quanto para voltar para casa e descansar mesmo”, conta.
O que mudou na rota de Lorena até o terminal da Macaxeira
Crédito: Marco Zero Conteúdo
As alterações não afetam apenas os trabalhadores. Estudantes que precisam chegar aos campi da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) também sentiram a mudança. É o caso de Afonso Farias, 21 anos, estudante de Geografia na UFPE. Morador de Arthur Lundgren 1, para chegar na universidade de maneira que dê tempo para jantar antes do início da aula, ele agora tem de sair pelo menos uma hora antes do horário que fazia antes das mudanças nas rotas.
Afonso explica como foram essas mudanças: “atrás da minha casa tem uma parada de ônibus e o Arthur II/TI Macaxeira passava lá. Era uma mão na roda, porque quando eu perdi o Macaxeira, aí eu pegava o Arthur I. Agora, obrigatoriamente, eu tenho de pegar o Arthur I para ir para Pelópidas e quando eu perco esse, que é a minha única opção de ônibus, eu tenho que ir andando até a parada do Novo Atacarejo (próximo à avenida Marechal. Floriano Peixoto), que é bem longinha, aí já fico cansado, já para pegar mais dois ônibus”.
Afonso sai da aula da UFPE às 21h30 e só chega em casa perto de meia-noite
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
O que mais pesa é o retorno para casa. Antes, ao largar às 21h30min, o jovem ainda conseguia chegar em casa por volta das 22h40min, mas hoje chega depois de 23h30min. “Parece que 22h10min da noite é horário de pico. No primeiro dia que eu peguei o TI Pelópidas/TI Macaxeira, depois dessa paralisação do Arthur II/TI Macaxeira, a fila do TI Pelópidas estava batendo em duas filas depois”, conta.
“Para ir no ‘busão’ em que eu fui, eu tive que esperar outro, e ainda assim fui em pé, porque no primeiro que saiu tinha tanta gente que nem em pé eu conseguiria ir. Se eu quisesse ir sentado, acho que ia ter que esperar mais um ou outro”, conta. Ele explica que, se acontecesse de perder o Arthur II/Macaxeira de 22h15min, o próximo só chegava às 23h05min, então chegava em casa às 23h30min por causa desses eventuais contratempos. “E esse é o horário que eu estou chegando todo dia agora. Eu não tenho mais a opção de chegar cedo. Todo dia eu estou chegando quase meia-noite em casa”, lamenta.
Jean Luca, de 24 anos, é estudante de Serviço Social e estuda à tarde, o que o obriga a pegar o ônibus em pleno horário de pico. O jovem calculou em três horas o tempo que está gastando para chegar em casa. Por isso, tem preferido aguardar horas para pegar uma carona, do que esperar horas dentro do ônibus. “Se já era demorado, com a existência dessa linha, imagina agora. Vou ter que pegar mais um transporte. Quando a gente é estudante e trabalhador, o nosso período de trabalho é prolongado por conta do trajeto, por conta das condições e agora vai se estender mais ainda por conta de uma linha que vai prejudicar toda a comunidade”, analisa.
Jean Luca prefere esperar por uma carona do que passar três horas em ônibus e terminais
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
Oficialmente, quem mora em Arthur Lundgren II e precisa usar ônibus leva de de 35 a 45 minutos para se deslocar nas linhas 1948 – TI Abreu e lima/TI Arthur Lundgren II e 901 – TI Abreu e lima/TI Macaxeira. Ao menos, esse é o cálculo do consórcio Grande Recife, que não respondeu quando perguntamos se seus técnicos fizeram a análise do trajeto dos moradores de Paratibe e Arthur I que também pegavam o antigo Arthur II/TI Macaxeira. O consórcio informou apenas que “praticamente, o tempo de deslocamento permaneceu o mesmo, porém o Grande Recife está trabalhando em alternativas para melhorar o serviço”.
Essa mudança também não está sendo bem recebida, pois os moradores disseram que não foram ouvidos no processo de mudança e, só ficaram sabendo dias antes. Quanto a isto o Grande Recife respondeu que “foram realizadas várias reuniões com as lideranças comunitárias de ambos os bairros e também com a Prefeitura de Paulista apresentando ambas as propostas. O projeto faz parte de uma série de mudanças que o CTM está realizando nos Terminais da Macaxeira e Abreu e Lima com objetivo de dimensionar os serviços de transporte público na região”.
A produção desta reportagem contou com a colaboração do Escambo Coletivo, que atua há 16 anos, a partir da necessidade de cultura e lazer para jovens de Paratibe, defendendo direito à cidade e valorizando o território dos moradores, com ações que vão da ocupação cultural à denúncia das faltas estruturais.
Os integrantes do coletivo relatam que a situação das linhas de ônibus em Paulista é marcada por desorganização e falta de diálogo com a população. Eles contam que muitos terminais foram desativados e que linhas desapareceram sem aviso, deixando moradores esperando em paradas onde ainda constam placas indicando rotas que não existem mais. Isso gera confusão e frustração, já que os usuários permanecem aguardando ônibus que nunca passam.
O coletivo critica a ausência de consulta pública antes das mudanças feitas pela Grande Recife, afirmando que a comunidade não foi ouvida sobre suas necessidades. Para eles, o transporte é um direito essencial ligado ao direito à cidade, mas a gestão trata o tema de forma unilateral, sem planejamento participativo. Uma outra mudança que ocorreu na região foi a retirada alteração da linha 1949 (Caetés/Paulista Centro) que passou a ser 1949 – TI Abreu e Lima (Circular Paulista), também com mudança de intinerário.
“A gente estava observando que nas paradas de ônibus ainda tem as duas linhas. E o pessoal continua esperando a linha passar, porque quando vai na parada, está lá escrito. E o pessoal simplesmente tem esperado o ônibus, porque tá lá, né? Vai passar. Então, você passa tipo um dia esperando sem saber”, conta Wilka Márcia, integrante do coletivo.
O professor de engenharia civil e doutor em Engenharia de Transportes pela UFPE, Leonardo Meira, explica que o sistema de transporte público da Região Metropolitana é pensado para que se atenda a maior quantidade de pessoas possível dentro de uma rede completa. Segundo ele, pelo mundo afora, quando se trata dessa rede de transportes, eventualmente, determinada comunidade que tinha uma linha, pode dar lugar a outro itinerário que os técnicos julgam ser melhor pensando em rede. Como consequência, parte da população pode precisar readaptar suas rotas.
Ao pensar na efetividade dos terminais integrados que fazem parte dessa rede, o professor avalia que foram essenciais nos anos 1980 e 1990, por exemplo, mas que hoje com a tecnologia da integração temporal são importantes, mas não são fundamentais. “Hoje eu não diria que eles são absolutamente fundamentais, mas eu diria que eles ainda são muito importantes, porque ainda são usados no mundo inteiro para esse tipo de estação, ou esse tipo de terminal, seja de ônibus, seja de trem, seja do que for, ao redor do mundo ainda é muito utilizado”, conta.
Para Meira, a importância dos terminais está de no fato de se ter “um local determinado onde as pessoas possam esperar pelo ônibus, onde você sabe que vai ter ônibus saindo para vários locais diferentes, mas perdeu a importância no sentido do pagamento da tarifa, que antigamente dentro do terminal você não precisava pagar outra tarifa. E hoje com a tecnologia, com a integração temporal, você consegue fazer isso sem obrigar que a pessoa vá até o terminal”, explica.
O grande problema, na visão do professor, não são exatamente os terminais de integração, mas o tempo de espera. “Às vezes lhe obrigam a ir ao terminal integrado e lá você espera 20, 25, 30 minutos ou mais para aquele ônibus chegar. Então, o problema não é exatamente a existência do terminal integrado. O problema é a velocidade que os coletivos andam”, analisa.
Ele também explica que essa demora acontece por consequências de um trânsito que não dá condições para que esse trajeto flua. “Não tem faixa exclusiva na maioria das cidades, os ônibus ficam presos nos congestionamentos, ficam presos em protesto, ficam presos em alagamento, aumentando o tempo de viagem, ou seja, independente do motivo, a gente tem que se preocupar em aumentar a velocidade do transporte público”, conta. E isso só acontecerá com faixas exclusivas para que o ônibus não dispute espaço com outros veículos.
“Tem toda uma questão política de tirar espaço do automóvel, onde a classe média que anda de automóvel na sua SUV de 300 mil reais, não quer dividir espaço com o ônibus. Só que a SUV de 300 mil reais leva um passageiro e o ônibus leva dezenas de passageiros. É uma discussão política muito mais de dar velocidade às pessoas que mais necessitam que são aquelas que usam o transporte público”, explica.
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
Jornalista formada pelo Centro Universitário Aeso Barros Melo (UNIAESO). Contato: jeniffer@marcozero.org.