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À espera da dragagem, rio Beberibe transborda lixo, lama e doenças a cada enchente

Raíssa Ebrahim / 13/05/2026
A imagem mostra uma área urbana precária. À esquerda, há uma casa improvisada feita de chapas metálicas e pedaços de madeira. O chão está coberto de lama e lixo espalhado. À direita, corre um canal estreito com água turva, indicando possível poluição. O cenário transmite condições difíceis de moradia e saneamento.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Quase duas semanas depois das chuvas de 1º de maio, famílias que vivem às margens do rio Beberibe em Peixinhos, na periferia de Olinda, ainda estão limpando a lama e tentando reorganizar a vida e o que sobrou das casas. Enquanto imploram, há mais de uma década, por uma dragagem, comunidades como Beira Rio, Nova Esperança, Embalo, Condor e Cabo Gato enfrentaram mais uma enchente. Por causa da intensidade das chuvas, no dia seguinte o governo estadual decretou situação de emergência em 27 municípios, incluindo Olinda.

Moradores relatam que, no feriado do Dia do Trabalhador, “nadaram”, dentro de casa, com lixo, ratos e cobra, literalmente. Para muita gente, a cheia deste ano foi pior que a provocada pelas chuvas de maio de 2022. Agora, as famílias temem pelo aumento dos casos de arboviroses e leptospirose, como acontece todos os anos.

A Marco Zero esteve nas comunidades de Peixinhos, na semana passada, para acompanhar a situação. Debaixo da ponte Campina do Barreto, que liga Recife a Olinda, só o que restou, do lado olindense, foram entulhos e os porcos, em meio a muita sujeira e um odor forte de lixo misturado com bicho morto que não passa. “É o cheiro da cheia”, definem os moradores.

Foto aérea mostra um conjunto de barracos improvisados e estruturas de madeira deterioradas ao redor de um terreno coberto por lixo e entulho. Entre os resíduos, vários porcos circulam e procuram alimento. Há telhas quebradas, pedaços de metal enferrujado e restos de móveis espalhados pelo local. Ao fundo, um canal de água escura passa ao lado das construções, enquanto algumas árvores verdes contrastam com o cenário de degradação e pobreza.

Dias depois da enchente, mau cheiro ainda era forte às margens do Beberibe

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo

A última vez que o Beberibe passou por uma dragagem foi em 2013, penúltimo ano da segunda gestão do então governador Eduardo Campos (PSB). Antes disso, uma dragagem tinha sido realizada em 1982. A calha do rio está bastante obstruída por resíduos sólidos, restos de construção, vegetação, troncos, galhos, sedimentos e plantas flutuantes. Por isso, a cada ano, o nível da água sobe mais quando chove forte, invadindo até mesmo casas mais distantes das margens, que são ocupadas por moradias irregulares.

Na sexta-feira (8), com o período chuvoso já tendo começado, a governadora Raquel Lyra (PSD) anunciou mais um serviço emergencial de limpeza do Beberibe, entre as pontes Dalva de Oliveira e avenida Cidade de Monteiro, no Recife — o que ajuda, mas não resolve o problema.

A gestão fez o mesmo há exato um ano: era dia 19 de maio quando o governo iniciou a limpeza (também emergencial) do rio, começando justamente por Olinda. Agora, mais uma chuva forte veio, outras estão à caminho e o questionamento das famílias de Beira Rio, Nova Esperança, Embalo, Condor e Cabo Gato é um só: “cadê a dragagem?”.

A imagem mostra uma vista aérea de uma área urbana densamente ocupada, com casas simples e construções improvisadas próximas a um rio de águas turvas. Um estreito passarela de madeira atravessa o rio, ligando os dois lados da comunidade. As moradias estão muito próximas umas das outras, e há vegetação misturada com entulho nas margens. No canto superior, vê-se um galpão e uma área pavimentada, sugerindo uma zona industrial ou comercial próxima.

Moradores de Peixinhos esperam por dragagem que não vem

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Em agosto de 2024, a vice-governadora Priscila Krause (PSD) celebrou o anúncio da dragagem que, segundo o discurso dela, estaria na iminência de ser licitada. “A dragagem no rio Beberibe já está com edital de contratação publicado e estamos garantindo R$ 84 milhões em obras … Vamos remover sedimentos acumulados no leito do rio e assim contribuir para melhorar a qualidade de vida dessa população que vive na divisa com a cidade do Recife”, anunciou Krause em seu perfil no Instagram.

Quase dois anos depois, no entanto, a obra capaz de resolver boa parte do problema dessas famílias ainda não saiu do papel, apesar de a empresa contratada em fevereiro de 2025 já ter realizado os devidos estudos técnicos e elaborado os projetos executivos. 

O governo informou, em nota, que está agora em fase final do processo licitatório para definição da empresa responsável pela execução do serviço, que será realizado entre o Recife e Olinda, da avenida Cidade do Monteiro, em Porto da Madeira, até a Escola Aprendizes de Marinheiro.

No mês passado, a licitação da dragagem foi parar no Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE), que determinou a suspensão do processo, por meio de medida cautelar, em razão da ausência de documentação ambiental relacionada aos serviços previstos no edital. Saiba mais no final da reportagem.

Em comunicado à imprensa, a gestão disse que a nova ação emergencial de limpeza “visa diminuir os riscos de inundação durante o período chuvoso, beneficiando todas as comunidades existentes ao longo do curso do rio. A operação inicia nesta sexta (8) e seguirá pelo tempo necessário, até que sejam concluídos os trabalhos em todas as áreas do rio. Os equipamentos empenhados na operação são quatro retroescavadeiras, oito caminhões caçamba e uma escavadeira”.

Com a ação, o governo prevê a retirada de 2 mil metros cúbicos de lixo, entulhos, vegetação aquática e demais materiais que potencializam os transbordamentos e as inundações.

A imagem mostra uma rua estreita e de terra em uma comunidade de moradias simples. As casas são feitas de materiais reaproveitados, como tábuas, chapas metálicas e pedaços de madeira. Há fios elétricos expostos sobre as construções e lixo espalhado pelo chão. Algumas pessoas aparecem na cena: um homem magro, de camiseta regata amarela e bermuda calara, caminha em primeiro plano, outro mais velho e sem camisa está sentado em uma cadeira plástica, e mais ao fundo há moradores conversando ou observando o movimento. Árvores e vegetação cercam parte das casas, trazendo um pouco de verde ao ambiente.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
A imagem mostra uma rua estreita e de terra em uma área de moradias simples. As casas são feitas de chapas metálicas, madeira e outros materiais reaproveitados, com sinais de ferrugem e desgaste. No centro, há um sofá velho e rasgado colocado diretamente no chão, próximo à parede de uma das casas. Duas pessoas passam pela cena — uma mulher à esquerda, vestindo camiseta branca e calça jeans, e outra figura desfocada à direita, sugerindo movimento. Ao fundo, vê-se um coqueiro alto e fios elétricos cruzando o céu.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
A imagem mostra o rio Beberibe entre Recife e Olinda, cercado por casas simples e muito próximas à margem. As construções são feitas de madeira, tijolos e chapas metálicas, algumas apoiadas sobre estacas para evitar contato direto com a água. O rio aparece barrento e cheio de resíduos, com vegetação e lixo acumulado nas bordas. Ao fundo, há árvores grandes e o céu parcialmente nublado, sugerindo um dia após chuva.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
A imagem mostra uma rua estreita e enlameada em uma área de moradias simples. As casas são feitas de materiais reaproveitados, como tábuas, chapas metálicas e pedaços de madeira, com sinais de desgaste e ferrugem. No centro, uma mulher caminha com cuidado pelo chão escorregadio, vestindo blusa branca e shorts jeans, enquanto segura a parte de trás da roupa para evitar o barro. O ambiente é úmido, com poças d’água e lixo espalhado, e há vegetação crescendo entre as construções.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
Foto colorida mostra uma rua estreita de terra e cimento em uma comunidade urbana. No centro da imagem, um homem caminha descalço usando bermuda estampada e camiseta rosa enquanto carrega um colchão escuro sobre a cabeça. As casas ao redor têm paredes pintadas em tons fortes de verde e azul, contrastando com o céu nublado. O chão apresenta poças de lama e marcas de desgaste, enquanto fios elétricos atravessam o alto da cena. À direita, há um portão metálico azul e estruturas em construção, reforçando o aspecto simples e cotidiano do local.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Rio Beberibe agoniza

Com as chuvas mais recentes, em alguns pontos da comunidade a água arrastou tudo que havia dentro das casas. Foi o caso de Socorro Maria Fernandes, de 57 anos. Analfabeta, ela vive com o pai acamado, de 88 anos. “Consegui colocar meu pai na casa da minha irmã. Ele terminou adoecendo, está com uma diarreia que não passa, eu não sei o que é. Esses dias, dormindo, começou a chamar pela minha mãe, já falecida, dizendo ‘Lica, cuidado com a cheia’”, conta a dona de casa.

Objetos, móveis e eletrodomésticos de Socorro foram levados para o quintal pela força da correnteza. Só o que ela conseguiu salvar foi uma geladeira. “Eu fiquei com a água na cintura e os ratos nadando e subindo pelas paredes”, detalha.

Um dos principais cursos d’água da região metropolitana, o rio Beberibe nasce em Camaragibe e passa por Recife e Olinda, percorrendo 24 km, até se juntar ao rio Capibaribe e desaguar no Atlântico. No lado recifense, estão os bairros Campina do Barreto, Porto da Madeira, Beberibe, Dois Unidos e Linha do Tiro. Já do lado olindense, estão Águas Compridas, Caixa D’água e Peixinhos.

A imagem mostra uma mulher em pé entre muitos objetos acumulados, como caixas plásticas, baldes, um colchão encostado e outros utensílios domésticos. Ela veste uma camiseta vermelha com estampa de personagem e shorts jeans, e parece observar algo fora do quadro. O ambiente é apertado e improvisado, com uma parede de tijolos sem reboco ao fundo e diversos materiais empilhados, sugerindo um espaço de moradia em condições precárias.

Socorro Maria conseguiu retirar a tempo o pai acamado

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Nesse curso, o rio arrasta bastante poluição, em meio ao saneamento básico precário e a construções irregulares, muitas inseridas em Áreas de Preservação Permanente (APP), por causa da falta de soluções habitacionais e de planejamento urbano. Quem vive às margens do Beberibe divide espaço com o lixo e a criação de porcos e cavalos, que ajudam no sustento.

Larissa Gomes da Cunha, de 19 anos, vivia com o filho de um ano e nove meses na beira do rio. Perdeu tudo. A reportagem esteve na casa dela, só havia lama e pedaços de objetos agora imprestáveis. Quando conversou com a MZ, Larissa estava no abrigo montado pela prefeitura na Escola Estadual Monsenhor Arruda Câmara. Sem moradia, ela não sabia para aonde ir depois do encerramento das atividades do abrigo, que chegou a receber mais de 400 pessoas no sábado (2).

Na casa de Aldeci Maria da Silva, de 54 anos, até cobra apareceu. “Minha neta, de 12 anos, pede o tempo todo ‘vó, vamos sair dessa casa’. Mas vamos para onde?”, questiona a faxineira, que ganha menos de um salário mínimo por mês.

A imagem mostra uma mulher adulta e uma menina sentadas em um sofá simples dentro de uma casa de paredes pintadas de azul. A mulher à direita usa uma blusa estampada e shorts claros, enquanto a jovem ao lado veste uma camiseta escura e shorts. O ambiente é pequeno e modesto, com um refrigerador branco à esquerda e um corredor ao fundo que leva a outro cômodo iluminado em tom amarelado. O chão é coberto por pedaços de cerâmica irregular, e há uma cortina clara separando os espaços.

Aldeci da Silva não tem para aonde ir com a neta de 12 anos

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação de Pernambuco (Seduh), “está prevista a implantação de 464 unidades habitacionais em área localizada ao lado da Compesa, no bairro de Peixinhos, bem como aproximadamente 700 unidades habitacionais adicionais, atualmente em fase de prospecção, destinadas ao atendimento da demanda identificada”.

Para quem vive em Olinda, o valor do auxílio-moradia é de apenas R$ 260 mensais. Atualmente, de acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação, 778 pessoas recebem o valor, em toda a cidade.

Dragagem vai parar no TCE

Após a suspensão da licitação da dragagem pelo conselheiro Ranilson Ramos, no mês passado, através de uma medida cautelar, por causa de documentos ambientais, o Governo do Estado foi autorizado, no último dia 5, a dar prosseguimento ao processo licitatório, também por meio de cautelar, que agora seguiu para homologação na Segunda Câmara do TCE-PE, no próximo dia 19.

Depois do recurso apresentado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação e pela Companhia Estadual de Habitação e Obras de Pernambuco (Cehab/PE), o conselheiro relator dos processos da Seduh autorizou a retomada.

A nova decisão levou em consideração a apresentação de medidas de viabilidade ambiental autorizadas pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH), além da situação de emergência decretada pelo Governo de Pernambuco em municípios do Estado no dia 2 de maio. O Tribunal de Contas informou que continuará acompanhando tanto a licitação quanto a execução dos serviços de dragagem do rio Beberibe.

A imagem mostra o interior de uma casa muito simples e deteriorada, construída com chapas metálicas enferrujadas e tábuas de madeira. O teto é de zinco corroído, com furos por onde entra luz natural. O chão é de terra batida, coberto por entulhos e objetos quebrados, como pedaços de madeira e plásticos. Há também um fio verde pendurado do teto, sugerindo improvisação elétrica. O ambiente parece abandonado ou em ruínas, sem móveis ou sinais de uso recente.

Isto é tudo que sobrou da casa onde Larissa Cunha mora com o filho pequeno

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

AUTOR
Foto Raíssa Ebrahim
Raíssa Ebrahim

Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com