O El Niño vai trazer seca para o Nordeste, principalmente na parte oeste da região, mas vai trazer principalmente calor, muito calor, com temperaturas acima da média. Em junho, a Marco Zero entrevistou o climatologista Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Naquela época, a certeza era de que haveria um El Niño, mas sua intensidade ainda era objeto de debate. Ouvimos o cientista novamente na segunda semana de setembro: é um El Niño muito intenso e, pior, que ainda não atingiu seu pico.
Apesar de o El Niño estar ofuscado pela campanha eleitoral, Humberto Barbosa reforça que governos já deveriam ter começado a se preparar para enfrentar o fenômeno – que é natural, mas tem se intensificado por conta das mudanças climáticas. Em entrevista para a Marco Zero, o cientista explica o que é o fenômeno e quais são seus impactos diretos e indiretos, a grande influência do oceano no clima e o que já se sabe sobre como serão os próximos meses. Em vários momentos da entrevista usa o verbo “castigar” para falar sobre os efeitos do fenômeno no Brasil.
Humberto Barbosa, meteorologista, coordenador do Lapis/UFAL
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
“A partir do momento em que é um El Niño intenso, já se sabe que há um padrão clássico: seca no Nordeste e enchentes no Sul. Mas isso vai depender também, no caso do Nordeste, do Atlântico. Onde está muita incerteza é em relação ao leste (a costa do Nordeste) até metade do interior. Até fevereiro, a pré-estação chuvosa pode ser até boa e isso ilude muitas vezes os agricultores. Podemos ter uma boa pré-estação, que é de dezembro a janeiro, criando até uma expectativa no agricultor, mas chega fevereiro, março, e aí entram os veranicos, diminuindo a chuva. Olhando agora, eu consigo fazer uma análise até fevereiro: a costa está normal. Ou seja, aquela variabilidade não está interferindo. O Atlântico e o Pacífico estão quase se cancelando. Pode ser que isso mude daqui a alguns meses, em função mais do Atlântico do que do Pacífico.
O que temos que esperar é o final de outubro. É quando vai nos dar uma clareza maior de como vai ser o resto da estação chuvosa, que é a estação mais crítica do semiárido, que vai de fevereiro a maio.
O problema do Nordeste não é só a questão da chuva. Na verdade, a região semiárida do Nordeste tem até um volume de chuva acima de muitas outras regiões semiáridas. O problema é a evaporação, em função das altas temperaturas. O Nordeste é uma área-piloto. Se eu quiser testar um modelo climático e não funcionar para o Nordeste, ele não funciona para lugar nenhum, porque é uma região onde os oceanos controlam o clima de fevereiro a maio. Se esse modelo não conseguir prever para essa região, jogue-o fora, porque não vai ter outra região do globo em que ele consiga entender o impacto”.
“Na costa leste é um cenário favorável. O litoral do Nordeste foi abaixo da média de chuvas, mas poderia ter sido muito pior. Não foi muito pior porque o Atlântico está aquecido, e aumentou a passagem de frentes frias, principalmente de julho para setembro. Essas frentes frias terminam jogando mais umidade em direção à costa leste. Como as águas do mar estão mais quentes, terminam aumentando a convecção, o que chamamos de cavados, que são sistemas de baixa pressão. Por isso as chuvas foram um pouquinho mais bem distribuídas em Pernambuco.
Mas se olharmos para Alagoas e Sergipe, já indo para a Bahia, é outro cenário, é um cenário mais seco. Esses dois estados estão muito abaixo da média, estão chamando muito a atenção. Você tem uma mancha de redução de chuva nos últimos meses que chama muito a atenção sobre os estados de Alagoas, Sergipe e algumas áreas da Bahia. O Atlântico não salvou, porque as águas estavam mais neutras, mas, como sob forte influência do El Niño, terminaram não trazendo a chuva esperada para essa época do ano, que é a estação chuvosa deles.
Já em Pernambuco até o Rio Grande do Norte, esses últimos meses, considerando que já estamos sob uma influência de El Niño muito forte, até que esse final da estação chuvosa foi bom. Saímos no lucro. O leste já terminou a estação chuvosa, pegou El Niño já na metade da estação chuvosa, e com o Atlântico não foi tão castigada.
Toda a região costeira tem uma tendência de estar mais quente, e mais quente até mesmo do que o Atlântico Norte, e isso nos beneficia, porque, com essas altas temperaturas, se alguns sistemas chegam ali ao meio do Atlântico, os ventos terminam ajudando, trazendo um pouco de alívio para essa região. Até fevereiro, a costa leste está a dizer assim: olha, está normal. Se algum sistema meteorológico chegar aqui, não vai ter nenhuma inibição: vai provocar chuva.
Como o Atlântico Sul está mais quente, é muito provável também que a zona de convergência em algum momento esteja um pouquinho fraca, mas favorável para essas chuvas que ocorrem no Nordeste em fevereiro. As ondas de leste, a partir de março, já começam a aparecer.
Em 2027, a estação chuvosa da costa leste pode ser que tenha um início irregular, ali por abril, mas vai melhorando à medida que vão chegando os meses de junho e julho. Pode ser favorável para alguns estados e outros nem tanto. Mas a parte leste do sul do Nordeste, pegando Alagoas, Sergipe e a Bahia, já vem nos últimos anos com redução de chuva significativa. E isso tudo são pontos que vão começar a ficar mais agudos a partir do final deste ano e do primeiro semestre de 2027″.
O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) divulgou na quarta-feira passada (16) um novo mapa de monitoramento mensal da precipitação, baseado em dados de satélite (foto abaixo). O mapa destaca o volume e a distribuição das chuvas nas regiões brasileiras no período de nove de agosto a 10 de setembro.
De acordo com o Lapis, a distribuição de chuvas se concentrou fortemente na região Sul, além de áreas pontuais da Amazônia e do leste do Nordeste. No Nordeste, o interior consolidou uma seca relâmpago, que é um evento de rápida intensificação da seca, associado às altas temperaturas.
O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, registrou no dia 16 de setembro um total de 641 municípios brasileiros em situação de emergência por seca e estiagem. São cerca de 5 milhões de pessoas atingidas. O semiárido concentra a maior parte dos municípios afetados pela seca.
Crédito: Lapis/UFAL
“Esse é um período mais seco na Amazônia, mas está ficando ainda mais seco em função do resfriamento ali na costa setentrional. Isso pega um pouco também do Norte e do Nordeste, já ali entre Maranhão, Piauí, e isso já é consequência do resfriamento do Atlântico, que tem uma relação direta com o El Niño. É uma tendência que vai continuar. Olhando do leste indo para o interior do Nordeste, essa chuva começa a diminuir. E essa diminuição se torna mais significativa à medida que se vai para a região oeste do Nordeste, onde está o Matopiba, que é Maranhão, Tocantins, Piauí e o oeste da Bahia. Essa região vai ser muito castigada pela seca. Essa tendência se mantém até pelo menos o início de 2027. Tudo vai estar muito influenciado por essas condições do El Niño. O Atlântico não vai conseguir reverter, porque ele é muito intenso.
A transição entre a Caatinga e o Cerrado é uma região produtora de grãos, uma região de agronegócio que vai ter problemas. O oeste do Nordeste vai entrar agora em outubro já na fase chuvosa. E tudo indica que o início da estação chuvosa do oeste, que é muito próximo ali da Amazônia, também vai estar abaixo da média.
O oeste do Nordeste é muito pouco falado, porque normalmente tem uma distribuição de chuva um pouco mais frequente. Mas neste ano a região vai chamar a atenção por essa variabilidade de impacto do El Niño, de seca mais aguda para essa área do que para qualquer outra região do Nordeste do Brasil”.
“A Amazônia entre 2023 e 2024 foi duramente castigada, a ponto de ter os rios em um nível muito baixo, tanto que até mesmo para a entrega de alimentos, distribuições, teve um impacto. Houve morte até de botos, enfim, foi muito impactante. Tudo indica novamente que a Amazônia vai ser castigada, muito impactada. A realidade vai ser um país com uma redução de chuva significativa na Amazônia, muito possivelmente, ou até talvez um pouco pior do que foi entre 2023 e 2024”.
“A região Sudeste também vai ser muito castigada, porque nos El Niños anteriores havia mais o aumento das temperaturas, mas pela primeira vez estamos vendo que as secas estão mais agudas nessas regiões. Esse padrão atmosférico do El Niño indica que a região Sudeste vai ser também significativamente afetada por uma redução de chuva. Muito parecido com o que ocorreu na seca de 2015-2016. As usinas hidrelétricas também podem ser impactadas”.
“Na região Sul, o Atlântico não tem a mesma influência, porque já está numa região quase no fim dos trópicos e extratrópicos, mas ainda assim determina. Tudo indica que o Atlântico vai ficar um pouco mais neutro. Isso só já dá um certo alívio, mas não para tirar a região do extremo Sul do Brasil das chuvas intensas, como já está acontecendo. Então isso vai se estender ainda para o período de janeiro e fevereiro. Poderia até ser pior, mas o Atlântico pode ainda aliviar. Mas esse alívio não é tanto quando comparamos com o Nordeste do Brasil: o papel do Atlântico, porque aqui é uma região tropical, termina sendo mais determinante do que na região do extremo Sul. Essas chuvas que estão ocorrendo no Sul já são consequência do El Niño”.
“O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas”.
“O agravante em relação aos outros El Niños muito intensos são as altas temperaturas. Quase todo o Brasil vai ser impactado. O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas. Essa é a ligação direta. Qualquer pessoa pode até discutir se aquela seca é 100% por causa do El Niño. Pode chegar a 80%, 70%. Mas as altas temperaturas são um efeito direto e têm dois componentes que trazem uma complicação.
Primeiro, porque os gases de efeito estufa trazem desequilíbrio térmico ao planeta. Ou seja, a Terra esquenta mais, está guardando mais energia em função não só do vapor d’água, mas dos gases do efeito estufa que estão presentes na atmosfera. Mas tem um adicional, que é o El Niño. É um impacto direto.
Muito se debate qual é o acréscimo na temperatura. No Brasil como um todo – tirando um pouco o Sul, que vai ter muita nebulosidade – as temperaturas podem ficar em média um a dois graus acima da média histórica.
Devemos passar de 1,5 grau na temperatura global [em relação ao período pré-industrial (1850-1900), a referência usada pelo Acordo de Paris], o que traz imprevisibilidade, porque os eventos extremos estão diretamente relacionados com esse aquecimento. Quanto mais calor tiver na atmosfera, mais umidade vai aumentar nessa atmosfera, e com isso eu vou ter eventos extremos de chuva. Mas o contrário também acontece: quanto menos umidade se tem, quanto mais calor tiver, mais seco vai ficar, e as grandes secas vão ocorrer, os incêndios florestais que já estamos vendo. Isso tudo é um aditivo já do El Niño com a questão do aquecimento global”.
“Começamos a entrar num aquecimento do planeta nunca antes registrado. Não sabemos como os sistemas vão se acomodar, porque o planeta busca o equilíbrio, mas, para buscar esse equilíbrio, ele vai jogar todo o excesso de energia em regiões onde vai ter mais chuva, mais seca, para encontrar o equilíbrio termodinâmico. Alguém injetou muito calor nele, ele vai ter que dissipar esse calor. Ele não guarda, ele implode. Então, o planeta tem que distribuir isso com chuvas e com campos de pressão.
É um planeta em desequilíbrio. Desde os anos 1980, está saindo menos energia do que entra, e a Terra está ficando mais quente. Esse aquecimento no Pacífico vai interferir nas temperaturas em todo o globo. E aí ele provoca mais ondas de calor, mais queimadas, tudo em função das altas temperaturas, que estão mexendo nos padrões de precipitação e pressão.
Tipo assim: vou fazer uma fogueirinha. Eu vou controlar aquele fogo. Mas à medida que você começa a colocar mais lenha, mais fogo, você acha que controla o fogo, mas ele começa a tomar uma dimensão sobre a qual você não tem mais controle”.
“Seco e quente é a pior combinação, porque aí tem uma tipologia de seca. Fizemos até um estudo, o primeiro estudo na América do Sul, sobre a combinação das altas temperaturas e da redução de chuva. É o pior cenário, porque isso acontece em poucas semanas. O solo perde muita umidade e a atmosfera está mais seca também. Uma atmosfera mais seca está sugando muito mais rápido essa umidade do solo, que também está recebendo menos carga d’água. Quando os dois combinam, isso acelera essa seca, que chamamos de seca relâmpago.
E é o primeiro sinal para que as outras secas clássicas, a seca meteorológica, a seca hidrológica e a agrícola, ocorram. Só vemos o impacto delas, não vemos o início. Já a seca relâmpago, sabemos como determinar o início e o fim dela. E o que determina a seca relâmpago? É a umidade do solo. Se essa umidade do solo estiver abaixo de 20%, já posso contar os dias em que a seca já está atuando. E normalmente, para o solo perder essa água, é porque também as temperaturas estão altas. Os açudes secam mais rápido”.
“O calor tem um impacto direto não só na economia, mas na saúde. O calor mata. Aqui na região tropical nos adaptamos. Estamos vendo o que aconteceu no verão da Europa. Os jovens, as crianças e os idosos são os mais vulneráveis. E a nossa infraestrutura, ainda que boa parte do país esteja na região tropical, ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há bebedouros, não há pontos de refrescamento públicos. Você fica muito vulnerável em dias de altas temperaturas. Já houve mortes em shows. Vamos ter um carnaval muito quente.
O índice de calor é calculado pela combinação de alta umidade, ou seja, muito vapor d’água na atmosfera, com altas temperaturas. Quando se tem 33 graus e mais 60% ou 70% de umidade, se entra em zonas perigosas. O nosso corpo humano está adaptado a mais ou menos 36 graus, e não oscila muito: ou eu vou transpirar muito, ou meus vasos sanguíneos vão se contrair quando está frio, para manter esses 36 graus. Mas quando começa a ter muita umidade, muito calor, o cérebro não consegue dar conta da demanda, mesmo que eu esteja hidratando o corpo, num período muito curto. Em poucas horas o cérebro não consegue administrar essa mudança corporal, e aí entra em colapso.
Quando começa a ficar todo verão nessas condições, a sociedade civil também começa a pressionar os gestores e a cobrar investimentos. Não se fala muito sobre isso, mas poderemos precisar de abrigos contra o calor. Os centros de convenções são uma alternativa, já que a maioria tem estrutura de ar-condicionado, principalmente nas capitais. Numa semana de onda de calor, é preciso ter onde abrigar quem está vulnerável, num lugar com a temperatura controlada”.
Um estudo do Laboratório de Impacto Climático, um consórcio de várias universidades, divulgado nesta quarta-feira (23), estima que 451 mil pessoas podem morrer no mundo até fevereiro de 2027 por conta do El Niño. Para o Brasil, a estimativa é de até 13,3 mil mortes.
“Maio e junho foram os meses em que tivemos uma intensidade crescente, até acima do que havia sido previsto. A comunidade científica também esperava um El Niño intenso e forte, mas ele foi ainda um pouco acima do que era esperado. Ele vem numa intensidade muito forte, acima de dois graus e crescente: ainda continua aumentando esse aquecimento no Pacífico.
Já passou dos dois graus, que normalmente a mídia coloca como super El Niño. Mas, para os climatologistas, não há essa classificação de ‘super El Niño’, ‘El Niño Godzilla’. Temos a classificação de fraco, moderado, muito forte e extremo. O atual já está saindo da condição “muito forte” e indo para “extremo”. Tem regiões que já estão em mais de três graus acima da média.
Este El Niño já é caracterizado como o mais intenso registrado, no mínimo, nos últimos 50 anos. E ele continua ainda se desenvolvendo de uma forma crescente. Para nós, climatologistas, que trabalhamos com dados, a partir do momento em que ele chega a 2,5 ou três graus, não necessariamente a atmosfera vai responder linearmente na mesma intensidade. Pode ser até que alguns pontos sejam muito intensos, mas não é tão direta essa relação”.
“O pico do El Niño vai ser em novembro. A resposta dele vai chegar em fevereiro, do ponto de vista da atmosfera, porque há um delay. O oceano chega ao seu pico e aí vai diminuindo, mas continua presente. Mas a atmosfera só começa a responder a esse pico entre fevereiro e março. Sempre tem uns dois a três meses de delay para que o sistema oceano-atmosfera vá se ajustando a essas condições.
Pegando os grandes El Niños, os mais conhecidos, 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, sempre chegam ao fim entre março e abril. Há uma expectativa de que este de 2026-2027, entre março e abril, chegue ali próximo de 0,5 grau de aumento na temperatura do Pacífico, o que já estaria fraco, e em maio já estaria neutro. Essa é uma tendência, não uma previsão.
Quando colocamos o fim em abril, pode ser que ele ainda vá um pouquinho mais do que isso, porque não é o El Niño olhando as temperaturas, mas é a atmosfera, o El Niño atmosférico. A intensidade dele de 2 graus já foi embora, o oceano já esqueceu a temperatura mais alta, já está com águas mais frias, mas a atmosfera ainda está ligada com aquela memória de quando o El Niño estava forte. Ele não desaparece assim”.
“…nossa infraestrutura ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há pontos de refrescamento públicos”.
“O El Niño é natural e recorrente. A cada dois a sete anos, embora já tenha mudado para três a cinco anos, você tem esse fenômeno. Não é algo novo. Não se entendia bem o que era, mas já havia registro desde os anos 1800. Quando eu falo do El Niño, eu estou falando de uma região no Pacífico em que os ventos de leste enfraquecem, e com isso essa água começa a se aquecer ali na costa da América do Sul, no Equador, no Peru. Os peruanos notaram que a água estava mais quente e associaram que havia um fenômeno acontecendo ali. E, como isso acontecia por volta de dezembro, coincidindo com o nascimento de Jesus Cristo, veio o nome El Niño.
Isso acontece porque os ventos alísios de leste ficam mais fracos. São eles que normalmente empurram a água quente da superfície para o oeste do Pacífico, na direção da Indonésia, e é por isso que aquele lado do oceano é o mais quente. Quando os alísios enfraquecem, esse empurrão diminui: a água quente deixa de se deslocar e se espalha pelo centro e pelo leste do Pacífico. É essa mudança que altera toda a circulação, chamada de circulação de Walker, e que interfere em toda a região tropical global.
Cidades brasileiras não estão preparadas para calor extremo
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroQuando o El Niño alcança o nível em que ele se encontra agora, muito forte, ele tem uma presença muito marcante na atmosfera. Em função desse aquecimento, através da circulação, afeta toda a distribuição de chuvas e dos campos de pressão. São condições únicas. Nunca tivemos essa experiência no passado. Eu posso comparar até a intensidade dele, mas não como é a resposta desse aquecimento. A atmosfera reage de formas diferentes: é heterogênea, não é tão linear.
Mesmo nos anos de El Niño muito intenso, como foi em 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, 2023-2024, cada um tem sua identidade. Mas alguns sinais são clássicos: muita chuva em uma região, menos chuva na outra.
Essa circulação não é tão linear porque o oceano é mais estável, é água, e a atmosfera é fluida, ela tem outros campos de pressão, tem topografia, tem vegetação, tem os outros oceanos interferindo. Então ela torna esses impactos muito mais complexos. Mas sempre entendendo: quando eu falo de seca relacionada com El Niño, é um impacto indireto, nunca é direto. É um impacto que até nós, climatologistas, sempre associamos diretamente, mas não é. A enchente é indireta, os incêndios florestais são indiretos. Porque dependem da chuva: a redução da chuva vai deixar a folha mais seca, e isso vai fazer acontecer um incêndio. Então nunca é em função da temperatura do oceano. Mas as altas temperaturas, não. Essas são diretas.
“O El Niño está interferindo no Atlântico Norte, no sentido de estar resfriando. Na maioria dos casos, o Pacífico e o Atlântico Norte têm quase o mesmo relógio: quando um esquenta, o outro também esquenta. Este ano estamos tendo o inverso: o Pacífico está muito quente e o Atlântico Norte, principalmente ali próximo da região do Equador, está mais frio do que se espera.
Normalmente se fala muito do Pacífico e não se dá a devida atenção ao Atlântico. Mas, de fato, a nossa atmosfera hoje, a circulação de como essas áreas estão sendo impactadas, é exatamente a dança dos dois. Às vezes os dois estão dançando juntos, às vezes os dois estão dançando separados. Não que seja anormal, isso já aconteceu, mas não é tão frequente: estamos tendo um ano em que eles não estão dançando juntos. E eles têm impactos distintos, que podem ser acumulativos, ou podem atuar juntos para inibir um pouco, ou diminuir esse impacto. E o Nordeste do Brasil agora vai começar também a entrar nessa dança.
Na região tropical, o oceano e a atmosfera estão bem coladinhos mesmo, dançando juntos. Só tem um delay: um está escutando a música, e aí depois o outro, dois minutos, cinco minutos, é que escuta a mesma palavra. O cara falou uma palavra aqui, ele demora três minutos para escutar, mas estão juntinhos dançando. Fora dos trópicos, aí eles já não dançam juntos. Eles são um casal separado. Aí vai depender do nível de separação: tem uns amigáveis, outros não tão amigáveis, mas eles não estão juntos.
Na região tropical, o calor vai se dissipando para as altas latitudes, então eles também estão influenciando nas regiões de altas latitudes. Mas é na região tropical que os efeitos são mais significativos, mais impactantes, porque eles estão juntinhos. Qualquer perturbação no oceano vai, com o tempo, chegar à atmosfera”.
Jornalista pela UFPE, com especialização em Experiências Digitais. É repórter da Marco Zero desde 2018. Foi repórter e editora no Diario de Pernambuco e jornalista multimídia na Revista Coletiva, além de colaborar com diversos outros veículos. Venceu os prêmios Caixa de Jornalismo Social, Urbana e Inaldo Sampaio. É membra da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência) e da Society of Environmental Journalists (SEJ). Contato: carolsantos@marcozero.org