por Rodrigo de Abreu Pinto*
Lula foi reeleito e se tornou o primeiro candidato, desde a redemocratização, a vencer um segundo turno depois de chegar atrás no primeiro. O petista reverteu uma desvantagem de 2,2 milhões de votos para Flávio Bolsonaro e terminou com 4,4 milhões à frente.
As três semanas que separaram as duas votações foram de intensa mobilização, em nada parecida com o que se via até então. Na véspera do primeiro turno, o cientista político Jairo Nicolau descreveu na Folha de S. Paulo uma campanha sem pulso: “poucos carros com adesivos, comícios e carreatas muito mais vazios do que em eleições anteriores, menos conversas sobre política”.
Ao menos na esquerda, havia uma boa dose de salto alto nisso. Parte vinha de uma visão economicista, segundo a qual os bons números da economia bastariam. Outra parte, de certo apelo messiânico em torno de Lula, que disputava sua última eleição. Deu no que deu.
Mas, olhando para trás, é difícil imaginar a virada sem aquele tropeço. A verdade é que a derrota pôs a esquerda em marcha. Primeiro vieram reações espontâneas, como o ato puxado por estudantes da UFF em Niterói menos de 24 horas depois da apuração. Depois, para alcançar quem não tem a militância dos universitários, veio o método proposto pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), o “general” do Exército do Lula.
Logo após o primeiro turno, o eleitorado de esquerda estava cindido entre a vontade de fazer algo e a sensação de que nada adiantaria. As missões de Janones destravaram esse impasse. Com tarefas diárias e concretas, as pessoas recuperaram a capacidade de agir e, mais do que isso, o sentimento de que faziam parte de algo maior.
O que movia as pessoas não era a ação em si, mas ver seu efeito: cada resultado alimentava a ação seguinte. Pela primeira vez, a esquerda deixou de usar as redes como instrumento e passou a entendê-las como uma arquitetura com regras próprias. À medida que milhões de “soldados” cumpriam as missões, a esquerda passou a pautar o algoritmo, em vez de ser pautada por ele.
Diante disso, a campanha petista (“a menos organizada desde 1989”, nas palavras do próprio Lula) teve ao menos um mérito, o da humildade. Em vez de tentar comandar o levante espontâneo, deixou-se levar por ele. Foi assim com o exército de Janones e com outros nativos digitais, como a deputada eleita Ana Elisa (PT-MG), de quem partiu o conselho para que Lula gravasse vídeos curtos olhando direto para a câmera frontal do celular. O primeiro deles ultrapassou 23 milhões de visualizações em um dia.
O espaço conquistado nas redes acendeu o pavio nas ruas, numa imbricação entre real e digital que não se via à esquerda desde junho de 2013. Em escala macro, voltaram as grandes manifestações, como o ato na avenida Paulista na véspera da eleição, apontado pelo cientista político André Singer como o maior da história política brasileira. Em escala micro, o corpo a corpo para virar votos resgatou a tradição de trabalho de base que está na origem do PT, nas Comunidades Eclesiais de Base, nos sindicatos e nos clubes de mães, todos dedicados a discutir os problemas concretos das pessoas, como descreve Celso Rocha de Barros no ótimo PT, uma história.
O resultado foi o que se viu nos quatro cantos do país nos últimos dias de campanha. Gente contando que tinha virado um, dois, três votos, como quem acaba de completar uma maratona. Gente que combinou de buscar a avó que não tinha votado no primeiro turno. Gente que pôs o carro à disposição dos vizinhos. Gente que passou dias no grupo da família desfazendo fake news. Gente que levou a discussão sobre a escala 6×1 para o almoço do trabalho. Inúmeras tecnologias afetivas de formação de comunidade, que levaram 3 milhões de pessoas a mais às urnas no segundo turno e ajudaram Lula a somar 10,4 milhões de votos entre um turno e outro, contra só 3,7 milhões de Flávio.
Além da vitória, a esquerda sai da eleição com o esboço de uma estética (a retomada do verde e amarelo), de uma comunicação de massa (os vídeos de Ana Elisa no TikTok, as aulas de Jones Manoel, os episódios do Revelando), de um diálogo com a espiritualidade popular (a defesa de Nossa Senhora Aparecida) e de uma utopia: a da solidariedade como meio de transformar a realidade. A missão agora é converter mobilização em organização, e rápido, enquanto ainda está viva nas pessoas a descoberta de que podem mudar o rumo da história.
A combinação de rede e rua segue indispensável, mas o modelo hierárquico das missões funciona para um tiro curto, com alvo definido. O dia a dia de um governo é uma disputa pulverizada, travada em 38 ministérios e em incontáveis temas. O Exército do Lula representou um letramento digital: a cada missão, o eleitor aprendia algo sobre o algoritmo. Esse conhecimento deve servir agora para criar um ecossistema que não seja tão descentralizado a ponto de nada acontecer, nem tão centralizado a ponto de não dar conta da realidade. Precisa ser policêntrico, e os primeiros polos podem ser as jovens lideranças recém-eleitas, como Ana Elisa, Guilherme Cortez, Jones Manoel, Luna Zarattini, Rick Azevedo e Rosa Amorim.
E por que isso importa tanto? Porque, diante de um Congresso hostil e mais à direita, o governo precisará recorrer ao que os cientistas políticos chamam de presidencialismo plebiscitário, em que o presidente busca no apoio direto da população a força que lhe falta no Parlamento. Esse modelo, de levar pautas à sociedade e deixar que a pressão faça o resto, já foi testado na luta pelo fim da escala 6×1, pauta nascida nas redes que boa parte dos parlamentares via com maus olhos e que, sob pressão, acabou aprovada por maiorias acachapantes na Câmara e no Senado. Falta transformá-lo em método de governo.
Rodrigo de Abreu Pinto é advogado, filósofo e presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais
É um coletivo de jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.