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Enquanto dez das mais tradicionais agremiações de frevo de Olinda receberam, juntas (e com atraso), menos de R$ 500 mil em cachês no Carnaval do ano passado, a prefeitura de Mirella Almeida (PSD) empenhou quase R$ 3 milhões para aproximadamente 30 artistas e bandas de pequeno porte sem qualquer histórico na cena cultural do Estado.
A Marco Zero analisou, no portal da transparência do município e na ferramenta Tome Conta, do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), os 407 contratos artísticos da festa de 2025 e encontrou um padrão: diversas contratações desse tipo por cachês bastante altos. Em sua maioria, no valor de R$ 50 mil — mas até de R$ 70 mil — para apresentações em polos descentralizados e blocos da periferia, vários ligados a políticos locais, incluindo o vereador Felipe Nascimento (PSD), marido e Mirella, e o ex-prefeito Lupércio Nascimento (PSD), tio de Felipe.
Além disso, a reportagem encontrou, ao longo da apuração, relações de parentesco entre os sócios de algumas das produtoras que mais receberam pagamento no Carnaval e que agenciaram esse tipo de show. Sendo que quatro dessas empresas estão cadastradas num mesmo endereço, uma rua sem asfalto em Igarassu, na Região Metropolitana do Recife (confira detalhes ao longo deste texto).
São grupos como o Forró Arreda e Dance, que tocou cinco vezes no último Carnaval, a um cachê de R$ 50 mil, totalizando R$ 250 mil pagos com verba pública. Todos os shows têm comprovação publicada no Youtube. A MZ conseguiu o contato do produtor da banda e telefonou para saber quanto seria o cachê para uma suposta festa particular. A resposta: entre R$ 5 mil e R$ 6 mil.
Outra questão que chamou a atenção no levantamento da MZ é que, em sua maioria, os termos de autorização das contratações da folia de 2025 foram assinados pela secretária de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia, Gabriela Campelo, que na gestão de Lupércio ocupou a secretária de Cultura de 2021 a 2024. O orçamento de 2025 da pasta, no entanto, sequer menciona a palavra “carnaval”, conforme pode ser verificado nas páginas 134 e 135 da lei orçamentária de 2025. Todo o orçamento da festa, pouco mais de R$ 13,6 milhões, está concentrado na Secretaria de Patrimônio, Cultura e Turismo.
As apresentações do Forró Arreda e Dance aconteceram no Polo Tabajara e em quatro blocos da periferia, todos bancados com verba pública pela atual gestão. Dois desses blocos estão ligados ao vereador Felipe Nascimento, com apoio cultural de Lupércio. Um desses dois blocos é o Rouxinol, em Rio Doce, reduto eleitoral dos Nascimento. O nome de Felipe e de Lupércio aparece em diversas postagens no Instagram.
O outro bloco é o Priquitudas. Neste vídeo do show do Arreda e Dance, o apresentador do palco menciona expressamente os apoios. Ele diz assim: “Com vocês, para vocês, um oferecimento da Prefeitura de Olinda, vereador Felipe Nascimento e Professor Lupércio no palco das Priquitudas”.
As outras duas apresentações do Arreda e Dance foram no bloco O Tabacudo do Vizinho, ligado ao vereador Ricardo Sousa (Avante), pai da secretária de Comunicação de Olinda, Dandara Maryanna, jornalista recém-formada e nomeada para o cargo, no final do ano passado, com apenas 22 anos. E no bloco Os Chegados, apoiado pelo vereador Milcon Rangel (MDB).
Outra banda dentro desse padrão encontrado pela reportagem no portal da transparência de Olinda é a Farra Boa, que realizou quatro apresentações no último Carnaval, com cachês de R$ 40 mil cada, totalizando R$ 160 mil. A Farra Boa se apresentou na TCM Acorda Tu, apoiada pelo vereador Biai (Avante), em seu nono mandato consecutivo; no Bloco Menina de Rio Doce, apoiado pelo ex-vereador Tonny Magalhães (PSB); Os Papudinhos do Santa; e no Polo de Rio Doce.
A empresa agenciadora da banda Arreda e Dance é a AO Produções, registrada em nome de Breno Nascimento de Andrade. Breno é um jovem dono de uma oficina de motos na Várzea, zona oeste do Recife, e filho de Anderson Oliveira, produtor cultural, cujas iniciais dão nome à produtora. Somente em 2025, a Prefeitura de Olinda empenhou um total de R$ 600 mil e pagou R$ 302 mil à AO até a data de publicação desta reportagem.
O endereço de cadastro da empresa — rua Maria Luiza da Silva, 1000, em Igarassu — é o mesmo de outras três agenciadoras de bandas de pequeno porte e sem histórico na cena cultural do estado que fecharam contrato com a gestão Mirella no último Carnaval. São elas: P2 Produções, Argos e Bereshit.
A P2 Produções somou R$ 1,5 milhão em empenho e R$ 882 mil em valores pagos. Entre suas agenciadas, está a banda Farra Boa. Quem comanda a P2 é Leo Pimentel. A empresa está registrada no nome do pai dele, Aurides de Sousa Pimentel, falecido em julho de 2025. Já a mãe de Leo, Maria Linete Soares da Fonseca, é o nome que aparece no registro da Argos Produções, agenciadora da Brasil Nambuco, uma orquestra de seis integrantes.
A Brasil Nambuco fez três apresentações no Carnaval 2025, cada cachê foi R$ 50 mil: Bloco do Rouxinol, Bloco Cachorro Teimoso, Bloco dos Churros e Polo Guadalupe. Ainda segundo o portal da transparência, a gestão Mirella empenhou R$ 863 mil para a Argos e pagou, até agora, R$ 341 mil.
A quarta e última empresa com o mesmo endereço na rua sem asfalto na periferia de Igarassu é a Bereshit (nome hebraico), uma produtora especializada em eventos gospel. O registro da Bereshit está em nome de Paulo Luiz Correia do Carmo, barbeiro e fiel da igreja evangélica Embaixada da Comunhão, em Maranguape, município de Paulista, Região Metropolitana do Recife, cujo pastor sênior é Leonardo Martins, que aparece em posts collab com Leo Pimentel no Instagram.
Uma das bandas agenciadas pela Bereshit na festa do ano passado foi a Bregueço do Brasil, que somou três shows e um total de R$ 150 mil cachês. O grupo se apresentou nos blocos Menina de Rio Doce, Cachorras de Jatobá e Gato Mia.
A reportagem tentou contato com Leo Pimentel por telefone e WhatsApp, mas não teve retorno até o fechamento desta publicação.
Além das bandas que receberam seus cachês por meio de pagamentos feitos às quatro produtoras de Igarassu, os mais de 400 contratos analisados indicam que outras bandas e cantores poucos conhecidos receberam valores acima dos praticados no mercado. Foram os casos de um cantor chamado Maurinho, das bandas Pegada Prime, Rabo da Gata e da autointitulada rainha do bregocha, Natália Rosa. Todos com cachês acima de R$ 40 mil por cada apresentação em festas de blocos ou nos acanhados palcos de bairro. Outra cantora, Luanny Vital, aparece como beneficiária de R$ 80 mil referentes a dois shows, mas os empenhos aparecem como anulados tanto no portal da transparência e no site do TCE.
Enquanto isso, agremiações tradicionais receberam, para realizar vários desfiles, cachês bem mais baixos do que a soma de muitas dessas bandas citadas pela reportagem, a exemplo de Elefante de Olinda (R$ 42 mil) — para três desfiles: Trote, abertura do Carnaval e desfile oficial —; Pitombeira (R$ 123 mil); Ceroula (R$ 54 mil); Cariri (R$ 40 mil); Boi da Macuca (R$ 27 mil); Homem da Meia Noite (R$ 100 mil); John Travolta (R$ 40 mil); Vassourinhas (R$ 43 mil); Menino da Tarde (R$ 12 mil); e Flor da Lira (R$ 12 mil).
Para uma agremiação ir para rua, é preciso mobilizar uma grande cadeia produtiva, que passa pelos clarins, carregadores de faixa, seguranças, passistas, porta-estandarte, orquestra e confecção de fantasias. Para além desses elementos unânimes em quase todas elas, existem custos operacionais durante o ano e atividades formativas que algumas agremiações assumem, como aulas e cursos.
A MZ apresentou dados do levantamento do Portal da Transparência à Associações das Agremiações de Frevo de Olinda (Afrevo), disse ter recebido as informações com “espanto”. “Nós recebemos com espanto esses dados, porém isso só comprova o nosso sentimento de que a maior fatia dos investimentos públicos em contratações durante o Carnaval já não era para as tradicionais agremiações de rua. Mesmo entendendo a importância dos polos descentralizados e das atrações dos mais variados gêneros durante o Carnaval, como forma de tornar plural e acessível o contato com a cultura em todas áreas da cidade, é preciso que a maior parte dos investimentos públicos sejam destinados para os fazedores de cultura tradicionais da nossa cidade”, afirmou em nota.
Questionada, a gestão Mirella respondeu através de nota. Confira na íntegra:
A Prefeitura de Olinda esclarece que todas as contratações artísticas realizadas para o Carnaval seguem rigorosamente os princípios da legalidade, da transparência, da impessoalidade e do interesse público, por meio de convocatória pública amplamente divulgada, com regras, critérios técnicos e limites financeiros previamente estabelecidos.
Os valores pagos às atrações artísticas são definidos a partir de critérios objetivos previstos em edital público, que incluem a comprovação de preço de mercado, o detalhamento completo dos custos envolvidos, a quantidade de apresentações autorizadas e as características específicas de cada formato de evento.
É fundamental destacar que não existe um valor único ou padronizado para apresentações artísticas, pois cada contratação considera variáveis como número de integrantes, equipe técnica envolvida, estrutura de produção, logística, tempo de apresentação e responsabilidades tributárias. Dessa forma, comparações diretas entre atrações de naturezas distintas, como bandas de palco, orquestras itinerantes e cortejos de cultura popular, não refletem adequadamente a complexidade de cada contratação.
Os valores divulgados nos contratos correspondem ao valor global da contratação, que engloba cachê artístico, pagamento de músicos, equipe técnica, produção, logística, impostos e encargos legais. Esse modelo assegura formalização, rastreabilidade dos recursos públicos e fiscalização administrativa de toda a cadeia produtiva envolvida.
Além disso, todas as propostas passam por análise técnica e administrativa, com possibilidade de negociação e adequação de valores, conforme previsão expressa no edital, sempre observando os valores praticados no mercado e a disponibilidade orçamentária.
Pernambuco, e Olinda, em especial, é reconhecido nacionalmente como um celeiro de talentos, com uma produção artística diversa, contínua e em permanente renovação. A política cultural do Carnaval de Olinda prioriza a valorização do artista pernambucano, diretriz expressa na convocatória pública, que estabelece que no mínimo 95% da programação seja composta por atrações do Estado.
Embora não exista qualquer obrigatoriedade de repetição de artistas entre um ano e outro, é natural que determinados nomes voltem a integrar a programação, especialmente nos polos descentralizados e eventos de bairro, pensados para ampliar oportunidades, fortalecer trajetórias locais e garantir circulação artística nos territórios.
A eventual recorrência de atrações decorre exclusivamente da habilitação regular nos editais, do atendimento aos critérios técnicos e do interesse público, não havendo qualquer forma de indicação política, privilégio ou direcionamento, sendo vedada, inclusive, a contratação de artistas que afrontem as normas legais e os dispositivos de prevenção ao nepotismo.
A Prefeitura de Olinda reconhece a centralidade histórica e cultural das agremiações de frevo para a identidade do Carnaval da cidade. Por esse motivo, após o Carnaval, a gestão municipal já alinhou com a Associação do Frevo a realização de um seminário específico, com o objetivo de avaliar, discutir e realinhar os parâmetros de cachês das agremiações, considerando suas particularidades, custos reais, sustentabilidade das entidades e a valorização do patrimônio cultural imaterial.
A iniciativa reforça o compromisso da Prefeitura com o diálogo permanente com o setor cultural e com o aprimoramento contínuo dos instrumentos de fomento e contratação artística.
A participação de artistas em edições posteriores do Carnaval de Olinda está sempre condicionada ao cumprimento integral das regras da convocatória vigente, à apresentação de documentação atualizada, à análise técnica e à negociação administrativa prevista nos instrumentos normativos.
Não há recondução automática de atrações, tampouco garantia prévia de contratação, sendo todas as participações submetidas aos critérios legais, técnicos e orçamentários da Administração Pública.
No Carnaval de 2025, foi adotada uma organização administrativa integrada, com divisão de responsabilidades entre secretarias, visando garantir maior eficiência, controle e capacidade de execução de um evento de grande porte.
A produção executiva dos palcos dos polos ficou sob responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo, Inovação e Tecnologia, enquanto a Secretaria de Patrimônio, Cultura e Turismo concentrou sua atuação nos cortejos de cultura popular, nas agremiações tradicionais e nas expressões diretamente vinculadas ao patrimônio cultural imaterial da cidade.
Essa divisão foi formalizada por decreto municipal, com abertura de crédito específico e definição clara das competências de cada pasta, não representando desvio de finalidade nem sobreposição de funções, mas sim uma estratégia administrativa de gestão integrada do evento.
A Prefeitura de Olinda reafirma seu compromisso com a transparência, a valorização da cultura local, o fortalecimento da economia criativa e o uso responsável dos recursos públicos. Todas as contratações passam por controle documental, prestação de contas e fiscalização administrativa, estando disponíveis para consulta nos canais oficiais de transparência.
A gestão municipal permanece à disposição para prestar esclarecimentos adicionais, sempre com base em dados oficiais, documentos públicos e nos instrumentos legais que orientam a política cultural do município.
*Colaborou Inácio França
Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com