Crédito: Arquivo Secretaria de Saúde/PCR

Quando Israel começou a vacinação contra a covid-19, lá em dezembro de 2020, havia uma esperança: a de erradicar o vírus do país. Se Israel iria conseguir, por que não o mundo? Era uma ousadia possível, afiançada pelas vacinas de mRNA e a promessa então de uma eficácia superior a 95% contra infecção. A Pfizer fez de Israel sua vitrine. Com boa parte da população vacinada, não tinha erro: o vírus pararia de circular.

No Brasil, no mês seguinte, a história era bem diferente. A única vacina disponível era a Coranavac, importada da China, com índice de eficácia para evitar infecção só algumas casas decimais acima do limite mínimo aceito pela Anvisa. Trazia uma promessa bem mais modesta: a de evitar, na maioria dos casos, as formas graves e óbitos pela terrível doença que já matou quase 580 mil brasileiros. Os casos iriam continuar, não havia ilusões. Mas muitas e muitas vidas seriam salvas.

A variante delta veio para mudar o jogo. Pouco mais de seis meses após o início da vacinação, Israel se viu em uma nova onda de casos, mesmo com cerca de 80% da população adulta vacinada. Como os novos picos no Reino Unido, nos Estados Unidos e em Israel mostram, a delta fez com que todas as vacinas passassem a prometer o mesmo que a coronavac em janeiro: evitar a maioria dos casos graves e mortes. A promessa de estancar a disseminação da doença, por ora, não existe mais.

Enquanto países que estavam em franca queda de casos voltam em algumas restrições impostas pela pandemia, o Brasil avança na liberação das atividades ao mesmo tempo em que a vacinação também avança. Mas isso é um erro, dizem especialistas.

“A vacina não consegue frear o vírus sozinha. Ela diminui muito as chances de doença grave, mas não é infalível. Além disso, ainda não sabemos se elas impedem a transmissão. Ou seja, se o vírus continua circulando sem nenhum impedimento, as pessoas que estão susceptíveis podem se contaminar e adoecer. Somente com a vacinação em massa e o apoio das medidas restritivas iremos conseguir controlar a pandemia”, alerta a virologista Lorena Chaves, pesquisadora da universidade Emory Atlanta, nos Estados Unidos.

Ainda que não haja dúvidas de que a vacinação é o principal fator para o controle da pandemia, essa estratégia precisa ser feita a nível global. “Infelizmente o vírus SARS-CoV-2 não irá desaparecer nos próximos anos. A tendência é que a vacinação avance no mundo e menos indivíduos susceptíveis sejam encontrados pelo vírus, diminuindo assim a circulação viral e o aumento no número de casos de covid-19”, comenta o pesquisador da Fiocruz-PE Rafael Dhalia. “O SARS-CoV-2 é um vírus muito transmissível, mas não é muito letal. Ainda poderemos esperar surtos da doença no futuro, mas já teremos mais experiência para lidar com isso também”, avalia.

O pesquisador acredita que a tendência é de que os futuros surtos de SARS-CoV-2 serão mais facilmente controlados. “Isso se aprendermos as lições de distanciamento social, higiene de mãos e uso de máscaras que tivemos nessa pandemia”, diz.

Vacinação para todo mundo, todo ano?

Esta ainda é uma resposta em aberto – ao contrário da necessidade de terceira dose para imunossuprimidos ou idosos, por exemplo. Uma pesquisa da Universidade de Oxford, em uma publicação ainda não revisada, apontou que os anticorpos produzidos pela vacina da Pfizer têm uma presença mais curta e desaparecem com mais rapidez do que os produzidos por vacinas de vetores de adenovírus, como a da AstraZeneca. Isso, porém, não é uma prova cabal para uma terceira dose, apontam especialistas.

A virologista Lorena Chaves afirma que análises mais profundas da duração da resposta imunológica de memória após a vacinação ainda estão em andamento. “E somente após essas análises que poderemos dar uma resposta mais definitiva sobre a real necessidade da revacinação na população em geral”, afirma.

De acordo com Rafael Dhalia, o que se sabe hoje é que, após cerca de seis meses, pode ser evidenciada uma queda expressiva na concentração de anticorpos neutralizantes, nos indivíduos completamente vacinados. “A consequência disso está sendo investigada, embora seja um forte indício da necessidade de uma terceira dose de reforço. Vários países já estão, inclusive, aplicando a terceira dose em grupos prioritários. Doses de reforços são comuns em várias outras vacinas como BCG, hepatite B, DTP, poliomielite etc”, afirma.

O intervalo que essa terceira dose geral será aplicada “pode variar de meses a anos”, explica. “Isso vai depender da natureza de cada vacina e dos estudos realizados, em termos de eficácia e duração da resposta imune. A vacina contra a febre amarela, por exemplo, tem um intervalo bem superior às demais em relação à necessidade de dose de reforço (dez anos)”, diz.

Na outra ponta em relação à vacina da febre amarela, a vacina de influenza (gripe) tem campanhas anuais, por conta da variação das cepas. “As mutações acumuladas pelo vírus da gripe tornam imperativo a necessidade de uma nova formulação, anual, para acompanhar as mudanças do vírus (mantendo-se a proteção contra os mesmos). Em relação ao novo coronavírus, diversas mutações estão sendo observadas e algumas variantes mais preocupantes no momento (alfa, beta, gama e delta). Estas variantes, consideradas de preocupação, demonstram uma maior capacidade de disseminação e de infecção mesmo em indivíduos completamente vacinados, como vem sendo relatado principalmente em relação à cepa delta. A consequência maior deste espalhamento é o aumento de número de casos de internações e de óbitos, inegavelmente numa proporção infinitamente superior em indivíduos não vacinados”, comenta Dhalia.

A saída para a resistência das vacinas às variantes – ainda que não haja escape, há perda de eficácia – está em doses extras, intercambialidade (quando é usado mais de uma tipo de vacina contra covid-19) e ainda na atualização das vacinas. “Em síntese, é bastante provável que a vacinação contra a Covid-19 seja anual e heteróloga (uso de tipos de vacinas diferentes). Não só pela queda observada nos títulos dos anticorpos neutralizantes, mas também pela necessidade de supressão das variantes do vírus”, afirma o pesquisador.

Uma convivência menos traumática com o novo coronavírus, no futuro, também passa por remédios eficazes. Até agora, os mais promissores são os anticorpos monoclonais, mas que são caríssimos e não chegam perto da eficácia das vacinas. Um antiviral eficaz ainda deve levar alguns anos para chegar ao mercado. “Tratamento à base de fármacos para doenças virais em geral é algo muito difícil de se fazer. São anos e anos de pesquisa para desenvolver algo que seja específico e adequado para aquela doença viral”, comenta Lorena Chaves. “Geralmente, os fármacos que estão no mercado e que atuam no tratamento de doenças virais, visam impedir a replicação do vírus dentro das nossas células. Isso não é uma tarefa fácil e demanda muito estudo. Existem poucos medicamentos antivirais de amplo espectro no mundo, justamente pela necessidade de tratar doenças virais de forma específica e não generalizada”, explica.

Por ora, a ciência oferece a melhor prevenção possível, que são as vacinas, ainda que não seja o momento de abandonar as outras formas: ventilação natural, distanciamento, uso correto de máscaras e higienização frequente das mãos. “A covid-19 está sendo um aprendizado contínuo. Temos que respeitar esse vírus”, diz o médico Eduardo Jorge Fonseca, integrante dos comitês de imunização contra o coronavírus de Pernambuco e do Recife. “Com a vacinação, estamos em um caminho sério. O Brasil, por sorte, tem uma população que quer tomar a vacina. Há países em que as pessoas não querem. Teve uma semana em que 99% dos pacientes em UTI nos Estados Unidos eram de pessoas não-vacinadas. Eles têm as vacinas sobrando e as pessoas não querem. Essa não é uma questão do Brasil. Aqui, temos que acelerar a vacinação o máximo que puder. Estamos em um momento epidemiológico, com a delta e indicadores ainda altos, que devemos fazer várias ações”, afirma.