Ato público em frente ao Congresso em apoio ao super pedido de impeachment de Bolsonaro. Crédito: Lula Marques/FotosPúblicas

Eduardo Jorge Souza da Silva*

Vivemos um momento crítico no Brasil. Mentiras são espalhadas como método e como fundamento de ação para o exercício do poder político e usurpação do poder econômico. Elas são publicizadas como ameaças degeneradas à democracia, no mais vil estilo “se colar, colou”.

Tais mentiras são protagonizadas por um conluio “civil-militar” encastelado no Estado brasileiro. Uma ação orquestrada, que ameaça de morte os esforços de aprofundamento de nossa jovem democracia. Com base em mentiras sistemáticas usadas como método de ação, destacam-se no tempo recente, o jogo combinado da verborragia autoritária originada na caserna, defensora do tal voto impresso, e o desprezo pela vida humana, originado na defesa do tal “tratamento precoce” contra a Covid-19.

Defendendo o tal voto impresso, entrou em ação esta semana um general, alto membro do governo, que ao tudo indica utilizou-se de uma “mula” para vociferar o veneno de sua intenção vil de dar uma facada real contra a Constituição, qual seja, mandar o recado de que sem o voto impresso não haverá processo eleitoral em 2022.

Sobre a atitude deste general, o articulista Jeferson Miola nos brinda com uma síntese exata: “O partido dos generais é constituído por embusteiros profissionais que enganam, camuflam, promovem operações psicológicas e guerras de [des]informação. Eles distorcem a realidade e operam causando caos, tumulto e confusão para distrair, iludir e dificultar a capacidade de percepção da sociedade acerca deles mesmos.”

Na esteira de tantas mentiras, ontem o The Intercept trouxe à luz outra farsa deslavada aplicada contra a CPI do Senado que investiga a forma desastrosa e desumana com a qual está sendo conduzida a política de saúde do governo federal diante da mais devastadora crise sanitária já enfrentada pelo povo brasileiro.

Apoiado em um vídeo, Leandro Demori escancara como, de viva voz, a secretária de gestão do trabalho e educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, assume que foi treinada e preparada para ludibriar e mentir em seu depoimento à CPI do Senado.

Mayra Pinheiro protagonizou diante dos senadores um cínico show de horrores com um único objetivo, lançar névoa, cortina de fumaça sobre como o tal “tratamento precoce”, sem nenhuma comprovação da ciência, foi utilizado como política de Estado para o combate da pandemia Covid-19. Sem compaixão com centenas de milhares de vidas brasileiras e o decorrente sofrimento de suas famílias, Mayra Pinheiro foi conscientemente treinada para mentir, mentir e mentir.

O “partido militar”, junto com a conivência cínica de civis, vem massacrando desde março de 2020 o povo brasileiro, e este massacre se fundamenta no uso da mentira como método de ação política.

Desta forma, civis e militares disputam a subjetividade de ampla fração da população brasileira, operando na sombra, apostando na confusão, na desorganização psicológica, para se apropriar do butim derivado do assalto aos recursos públicos do Estado, são artífices de um macabro ataque à vida, à dignidade do povo brasileiro.

Se eles operam com a imposição do medo, nós, o povo brasileiro, vamos operar com o sentido da coragem militante. Como disse Bertolt Brecht, “Numa época em que corre o sangue. Em que o arbítrio tem força de lei, em que a humanidade se desumaniza, não digam nunca: Isso é natural. A fim de que nada passe por imutável”. Se estamos desafiados a colocar à prova nossa capacidade de indignação, de organização, e de luta na defesa dos valores da vida e da democracia, e assim o faremos, as ruas que nos esperem!

* Professor do Departamento de Educação da UFRPE.