Abuso de poder: Polícia Militar impede troça que critica o governo de desfilar no Galo da Madrugada

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Na manhã deste Sábado de Zé Pereira, um episódio de extrema gravidade abalou nacionalmente aquela ideia de que o carnaval de Pernambuco é um espaço democrático e plural, onde a população pode se expressar com liberdade, criatividade e irreverência. Pouco antes de começar a desfilar no Galo da Madrugada, a troça carnavalesca “Empatando tua Vista” teve fantasias, adereços e o próprio estandarte apreendidos pela Polícia Militar. Os policiais também recolheram máscaras do governador Paulo Câmara e do prefeito Geraldo Julio, ambos do PSB. Como se não bastasse a arbitrariedade, um dos PMs ainda invadiu um prédio privado, sem mandado judicial, para recolher material da troça. Os vídeos mostrando a ação truculenta da polícia se espalharam rapidamente pelas redes sociais, gerando uma onda de protestos e solidariedade por todo país.

Para quem não acompanha o carnaval e a política do Recife, a troça “Empatando tua Vista”, que se define como “um ato político-folião crítico à verticalização excessiva, que negligencia o planejamento urbano na cidade de Recife-PE”, é conhecida por fazer críticas contundentes e bem-humoradas tanto ao prefeito Geraldo Julio quanto ao governador Paulo Câmara. Chama a atenção o fato de no ano passado a troça também ter sido impedida de desfilar pela Diretoria de Controle Urbano (Dircon) da Prefeitura do Recife. Daí a suspeita generalizada de que a operação policial pode ter sido articulada nos altos escalões do governo.

De qualquer forma, a ação policial deste sábado foi totalmente desproporcional e fora dos padrões. Segundo o que mostram os vídeos gravados no momento da operação, o que está registrado no Boletim de Ocorrência feito pelos integrantes da troça, o que consta nos depoimentos dos envolvidos e o que foi apurado pela Marco Zero Conteúdo, tudo começou por volta da 8h quando uma viatura da Polícia Militar de Pernambuco chegou ao local de concentração da troça, uma rua sem saída no bairro da Boa Vista. Da viatura desceram um major e mais outros três policiais e foram logo abordando o grupo dizendo que tinham recebido uma denúncia.

Que denúncia? Não disseram. Revistaram o carro e não encontraram nada além de tecido e pequenas taliscas que formavam um conjunto de fantasias e alguns adereços. Questionado, o major disse que havia “recebido ordens”. Falava o tempo todo com alguém pelo celular. Em meio à confusão, a moradora de um prédio próximo pegou algumas fantasias e levou para dentro do edifício. À força e sem nenhum mandado judicial, um dos policiais invadiu o prédio para recolher mais peças da indumentária da troça.

Quando os policiais foram embora, os integrantes da “Empatando tua Vista” juntaram o que sobrou de fantasia, entraram no carro e seguiram para o desfile do Galo da Madrugada. Mas a tranquilidade durou pouco. A viatura policial, que os seguia a distância, fez uma abordagem em cima da ponte 6 de Março, conhecida como Ponte Velha. O major, irritado, desceu com o cassetete dizendo que agora iria recolher tudo. Continuava com o celular ao ouvido, supostamente sendo orientado por alguém. Cumpriu a promessa e recolheu tudo. Aos integrantes da troça restou postar as imagens feitas nas redes sociais e fazer um Boletim de Ocorrência na Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco.

O caso ganhou repercussão nacional. O prefeito Geraldo Julio, em um dos camarotes privados a poucos quilômetros do ocorrido, ao ser questionado sobre o assunto pelo portal de notícias Leia Já foi, no mínimo, evasivo na resposta: “Não conheço esta troça que você [repórter] está falando. Agora certamente deve ter sido uma ação normal de controle urbano como aconteceu com muitas outras certamente no dia de hoje”.

A integrante do “Empatando tua Vista”, Angélica Reis fez algumas observações sobre a declaração do Prefeito do Recife na sua página do Facebook:

1- Não só ele [o prefeito]conhece, que ano passado os funcionários da PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE, fizeram algo parecido. O abuso também foi divulgado em várias mídias. Se ele não sabe quem somos, ele não sabe de nada na cidade que ele diz administrar.
2- No comentário dessa postagem, colocarei uma foto de nossa troça/fantasias. Gostaria que o Sr. Prefeito nos explicasse por qual motivo nossa troça/fantasias não estão adequadas para brincar o carnaval do Recife.
3- Os PMs chegaram onde nós estávamos umas 8h00 (rua sem saída e não dentro do foco da folia), como eles sabiam onde estávamos?
4- Eles nos seguiram à distância e nos abordaram na ponte pela SEGUNDA vez. Continuaram passando com o carro e parando perto de nós como uma forma de intimidação, mesmo depois de ter pego tudo que nos restaram naquele momento. PS: Não estávamos vestidos com as fantasias, trazíamos elas nas mãos.
5- O Major a todo momento ficava no telefone (vcs podem ver isso nos vídeos), recebendo ordens de alguém. Quem era esse alguém para dar ordens a um MAJOR da PM?

Imagem de arquivo do "Empatando tua Vista": essa foram as fantasias confiscadas pela Polícia Militar

Imagem de arquivo do “Empatando tua Vista”: essas foram as fantasias confiscadas pela Polícia Militar

Diante da repercussão do caso, o comando da Polícia Militar de Pernambuco emitiu uma nota à imprensa:

“A PM informa que o caso da apreensão de materiais da troça Empatando a sua Vista está sendo apurado pela Corregedoria da SDS. A operação no bairro da Boa Vista não teve o conhecimento do Comando da corporação nem do batalhão da área. Por isso, os policiais envolvidos foram encaminhados para prestarem depoimento à Corregedoria. A PM atua no estrito cumprimento das leis e na garantia da ordem, sem jamais interferir na livre manifestação democrática, quaisquer que sejam seus posicionamentos e orientações político-partidárias. É fundamental esclarecer que o Comando Geral da PM, assim como a tropa, tem como foco e missão garantir a segurança da população, preservando a alegria e a pluralidade do nosso Carnaval”.

A nota da Polícia Militar, embora protocolar à primeira vista, reconhece de alguma maneira que o procedimento adotado pelos PMs fugiu do padrão. Caso contrário não iniciariam um processo de apuração. Por isso também, enfatizou o fato do comando da corporação e o próprio Batalhão da área não terem conhecimento prévio da ação.  O importante agora é que a Polícia Militar vá além das palavras escritas na nota, apure os fatos, sane as dúvidas que foram levantadas, responda aos questionamentos feitos pela sociedade, puna os responsáveis (inclusive quem deu as ordens) e, principalmente, crie mecanismos para que episódios como este não se repitam.

Aqui os vídeos gravados pelos integrantes e que se espalharam pelas redes sociais:


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Sobre o autor

Formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, trabalhou no Diario de Pernambuco entre 1998 e 2014. Começou a carreira como repórter da editoria de Esportes onde, em 2002, passou a ser editor-assistente. Ocupou ainda os cargos de editor-executivo (2007 a 2014) e de editor de Política (2004 a 2007). Em 2011 concluiu o curso Master em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais, vinculado à Universidade de Navarra. Venceu o Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo (2005), o Prêmio Caixa de Jornalismo Social (2006) e foi finalista do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo (2004/2005) e do Prêmio Embratel de Jornalismo (2007).

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