Leilão da rotativa que imprimia o Diário Oficial de Pernambuco, marcado para o próximo dia 7 de julho, é exemplo literal do momento de transformação por que passa a mídia e do nascimento de um jornalismo pós-industrial

Durante mais de quatro décadas, a impressora rotativa Goss Community off-set, ano 1967, imprimiu com eficiência o Diário Oficial de Pernambuco. Com o fim da edição impressa do D.O, justamente no centenário do surgimento da imprensa oficial pernambucana, o complexo maquinário de impressão ficou sem utilidade. No próximo dia 7 de julho, às 10h, a velha e boa Goss e seus acessórios irão à leilão. De acordo com o edital 027/2015, o preço mínimo sugerido pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), cuja oficina abrigou a rotativa norte-americana por todos esses anos, é de R$ 150 mil. Mais do que o aparente rotineiro ato administrativo, o leilão está cercado de simbolismo e pode ser visto como um exemplo literal do momento de transformação pelo qual as empresas de mídia passam atualmente.

O leilão, caso alguém arremate a rotativa (vale lembrar que essa é a segunda tentativa. Na primeira, no dia 18 de junho, não apareceu comprador), será o ponto final de um longo período de transição em que o Diário Oficial migrou do papel para o digital. Começou em 1996, na gestão do jornalista Evaldo Costa, com a marca do pioneirismo. Naqueles meados da década de 1990, jornal na internet era coisa rara. Se contava nos dedos.

Para se ter uma ideia da ousadia do pessoal do D.O. pernambucano, o lendário Jornal do Brasil, o primeiro a entrar no mundo digital no país, só havia estreado na rede um ano antes, em 1995. Em uma época pré-Google e em que Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, ainda era uma criança de 11 anos de idade, a velha e boa rotativa Goss Community ainda dava as ordens e imprimia mais de seis mil exemplares do jornal oficial do estado. Nesse período, também era impresso nela a edição pernambucana da Gazeta Mercantil, a mais prestigiada publicação de economia da época.

Cerimônia de lançamento do Diário Oficial de Pernambuco na web, em 1996. Evaldo Costa apresenta a ideia a o então governador, Miguel Arraes , e ao então secretário de governo, Eduardo Campos

Cerimônia de lançamento do Diário Oficial de Pernambuco na web, em 1996. Evaldo Costa apresenta a ideia ao governador, Miguel Arraes , e ao então secretário de governo, Eduardo Campos. Foto: Arquivo/Cepe

Mas o que começou como pioneirismo em 1996, pouco menos de duas décadas depois terminou por pura necessidade. Com o passar do tempo, a edição impressa do Diário Oficial tornou-se insignificante e a apresentar uma insustentável relação de custo/benefício para os cofres do estado. Quando a decisão de encerrar a publicação em papel e disponibilizar o D.O somente na versão digital foi efetivada, no último dia 30 de abril, a tiragem era de apenas 323 jornais por dia. Desses poucos exemplares, 280 eram destinados para as repartições do próprio governo estadual por inércia burocrática. Enquanto isso, a edição digital chegava à marca média de 80 mil páginas acessadas diariamente. Mais barata, rápida e eficiente.

O curioso é que tanto o Jornal do Brasil, que inspirou a criação de uma edição digital do Diário Oficial de Pernambuco há 20 anos, quanto a Gazeta Mercantil, que foi por um tempo impressa nas oficinas da Cepe, hoje não existem mais. Os dois, que não resistiram ao vendaval provocado pela revolução tecnológica dos últimos anos e a administrações devastadoras, são os principais exemplos de veículos de comunicação que fecharam as portas nestes tempos de crise da grande mídia. Mas não são os únicos. No rastro do vendaval, tombaram vários títulos importantes e outros se sustentam não se sabe como.

Jornalismo industrial

Impressoras como a rotativa Goss Community já tiveram seus dias de glória. Quando a notícia obedecia a um ciclo de 24 horas, máquinas como a Goss, umas mais outras menos potentes, inundavam as ruas de todo o mundo com milhares e milhares de exemplares de jornal impresso, que serviam à população como principal fonte de informação. A notícia parecia esperar os exemplares chegarem nas mãos dos leitores para acontecerem. As caras e complexas rotativas eram as estrelas de um modelo de negócio baseado na produção de conteúdo, comercialização de publicidade, venda de assinaturas e na distribuição do produto. O monopólio da notícia pertencia a uma chamada indústria jornalística.

Uma indústria que, pelo menos simbolicamente, nasceu quando Johannes Gutenberg, um imaginativo ouvires e lapidador de joias alemão, pôs a funcionar a primeira impressora do mundo com tipos móveis. Era por volta de 1450 quando ele começou a impressão da sua bíblia. Como um milagre, o processo de impressão despertou o fogo intelectual no final da Idade Média, ajudando a produzir o Iluminismo. “Gutenberg amplificou a voz humana de tal maneira que ela pôde ser ouvida em todo o mundo”, como bem definiu o jornalista Hugh Hewitt, autor do best-seller “Blog, entenda a revolução que vai mudar seu mundo”.

Estátua de Gutenberg, Mainz, Alemanha

Estátua de Gutenberg, Mainz, Alemanha (Reprodução/Internet)

A impressão industrial, primeiro de livros e depois de jornais, mudou a percepção que as pessoas tinham do ambiente e, por extensão, do mundo. Antes de Gutenberg, a comunicação era oral e o conhecimento ouvido. Seguia o ritmo de uma vida rural, cíclica, marcada pelo badalo dos sinos das igrejas. Depois de Gutenberg, o conhecimento passou a ser lido e a atingir mais pessoas. Em vez de ciclos, a sociedade passou a ver as coisas em linha reta, para frente. Criou uma nova forma de pensar: organizada, linear, hierarquizada, eficiente e, também, mais individualizada.

As aldeias foram se transformando em cidades e as ruas se enchendo de estranhos. Neste contexto do urbano se sobrepondo ao rural, a imprensa passa a funcionar como a única “conversa” em comum. Jornais se multiplicam, produto de um modelo de negócio que se desenvolveu e se aprimorou para dar ao jornalismo o respaldo de uma indústria poderosa, respeitável e rentável. Um modelo que funcionou, de maneira geral, muito bem. Funcionou, não funciona mais.

Jornalismo pós-industrial

Hoje, com seus 13 metros de comprimento e 28 toneladas, a Goss Community parece não caber no mundo onde a notícia, digital, passou a ser constantemente atualizada, melhorada, mudada, capaz de produzir conversação, compartilhamento e colaboração. É o mundo do “on line”, “on time”, “full time”. Se as rotativas simbolizavam – e alimentavam, por assim dizer – o mundo do jornalismo como uma indústria, o leilão da Goss Community da Cepe é o exemplo literal do surgimento de um jornalismo pós-industrial, para usar aqui o conceito desenvolvido pelo Tow Center (Columbia University) no mais completo estudo realizado sobre a nova realidade do jornalismo.

O estudo do Tow Center, lançado em 2012, é um retrato detalhado do momento de transformação do jornalismo. Apesar de esclarecedor e instigante, ele tem como objeto a realidade norte-americana. Para conhecer a realidade brasileira, o documento do jornalista Caio Túlio Costa, “Um modelo de negócio para o jornalismo digital”, baseado em uma pesquisa realizada também na Columbia University Graduate School of Journalism, é o mais esclarecedor.

Os dois estudos, porém, apresentam algumas conclusões em comum. A principal delas é que o jeito antigo de produzir informação, cujo monopólio da distribuição pertencia à uma indústria chamada jornalística, mudou. Ela agora pode ser produzida e distribuída pelas mãos de qualquer um. “Combinou-se meio e comunicação. Nasceu a superdistribuição. Acabou-se a era industrial do jornalismo. Fruto da disrupção no mercado da informação provocada pelo avanço tecnológico que permitiu a sociedade em rede”, define Caio Túlio Costa.

A chamada grande imprensa, ancorada na indústria do jornalismo, demorou para perceber a mudança. O estudo do Tow Center é claro quanto a isso. “Muitas das mudanças discutidas na última década como parte da futura realidade do jornalismo já ocorreram; boa parte do futuro vislumbrado para o jornalismo já se converteu em presente (é como disse o escritor William Gibson lá atrás: ‘O futuro já chegou, só não está uniformemente distribuído’)”.

O ponto de partida para descrever o jornalismo pós-industrial, segundo o estudo, é uma premissa simples. “As organizações jornalísticas já não possuem o controle da notícia, como se supunha que possuíam, e o grau maior de defesa do interesse público por cidadãos, governos, empresas e até redes com elos fracos é uma mudança permanente, à qual organizações jornalísticas devem se adaptar”.

A consequência dessa mudança permanente é que, tomando as palavras de Caio Túlio Costa, “qualquer indivíduo, qualquer instituição, qualquer organização hoje tem o poder de mídia. Por mais que se queira proteger o jornalismo, na sua forma clássica, é evidente que ele tomou outra configuração e o jornalista deixou de ser o ator principal no sistema da informação – ele agora é um ator coadjuvante, o que não lhe retira importância, mas muda a sua forma de atuar”.

O Parêntese de Gutenberg

Thomas Pittitt, dinamarquês defensor da teoria do Parêtese de Gutenberg

Thomas Pittitt, dinamarquês defensor da teoria do “Parêntese de Gutenberg” (Reprodução/Internet)

A indústria jornalística era sólida. Já o modelo que se apresenta agora está mais para fluido, adequado ao conceito de “modernidade líquida” do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Neste contexto é de se pensar na hipótese formulada por Thomas Pettitt, o professor dinamarquês que defende a teoria do “Parêntese de Gutenberg”. Segundo ele, a web e, principalmente, as redes sociais fizeram a humanidade voltar um estado pré-Gutenberg, onde a comunicação era baseada na oralidade. Pettitt argumenta que a maneira como se pensa agora seria uma reminiscência do modo de pensar de um camponês medieval, com base em fofocas, boatos e muita conversa. Assim, o período pós-Gutemberg, a época da imprensa escrita e dos livros, seria apenas um parêntese na história da humanidade, uma interrupção no fluxo normal da comunicação humana.

Em uma entrevista à jornalista Fernanda Godoy e publicada no jornal O Globo, em novembro de 2010, Pettitt falou sobre a conexão entre a difusão da imprensa e grandes mudanças na cultura europeia como o Renascimento, a Reforma, a revolução científica. “Se isso for verdade, podemos esperar que nossa revolução digital tenha um efeito radical sobre a maneira de pensar. Minha teoria é que há uma conexão entre os livros e uma visão de mundo que separa as coisas em categorias rígidas. A tribo que chamo de ‘gente do livro’ parece gostar de categorias. É apenas durante o Parêntese de Gutenberg que as pessoas insistiram tão ‘categoricamente’ em que alguém é macho ou fêmea, negro ou branco, humano ou animal, ser vivo ou máquina. Na Idade Média, antes da imprensa, as misturas eram mais toleradas, e parece que estamos voltando a essa tolerância”.

Para Pettitt, as novas mídias (smartphones, laptops, tablets e suas conexões de internet) estão tomando conta dessa comunicação pelo som, e até ampliando-a. “Claro que elas também são usadas, talvez até mais, para a comunicação pela palavra escrita, mas isso é feito de maneira diferente da usada pela imprensa. Em alguns dos meios mais difundidos (e-mails, SMS, Twitter), alguém pode receber uma mensagem escrita quase tão rapidamente como se estivesse falando com a pessoa. É como se estivéssemos falando pelos dedos, então a maneira de escrever é muito mais próxima da fala”.

E como fica o jornalismo nessa história toda? Thomas Pettitt deu pistas disso em uma palestra no Nieman Lab, da Universidade de Harvard, em 2013. “Imprimir não é mais uma garantia de verdade. A sobrevivência dos meios de comunicação estará cada vez mais vinculada à sua credibilidade”.