Crédito: David López/DAKI

*com informações da Articulação do Semárido (ASA)

No dia seguinte ao 8 de Março, 1.669 agricultoras, agricultores e técnicos agrícolas de três regiões da América Latina que convivem com a escassez de chuvas irão participar de uma iniciativa inédita no continente: um programa de formação em Agricultura Resiliente ao Clima, o projeto DAKI Semiárido Vivo. O curso vai durar nove meses e é direcionado especificamente para quem cultiva alimentos no Semiárido brasileiro, no Corredor Seco de El Salvador e no Chaco argentino. DAKI é a sigla em inglês para ‘Iniciativa de Adaptação em Terras Secas’.

Três organizações da sociedade civil dos três países promovem a formação. No Brasil, a Articulação do Semiárido (ASA) com seu conhecido Programa Um Milhão de Cisternas; na Argentina, a responsável é a Fundação para o Desenvolvimento em Justiça e Paz (Fundapaz); e, em El Salvador, a Fundação Nacional para o Desenvolvimento (Funde). Os recursos são do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), um dos organismos das Organizações das Nações Unidas (ONU). Estão inscritas pessoas de sete países: Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, El Salvador, Honduras e Nicarágua.

A ideia dos organizadores é ampliar as capacidades das comunidades que vivem da agricultura familiar e das instituições de assistência técnica rural – governamentais ou não – para enfrentarem as situações cada vez mais comuns provocadas pelo aquecimento do planeta, principalmente as secas prolongadas, perda de produtividade do solo, avanço da desertificação e tempestades.

A formação será toda online, com diferentes estratégias em cada uma das regiões para superar os limites de acesso e conexão à internet de quem mora nas áreas rurais. Mas o programa não se restringirá a aulas, conteúdo e oficinas: ao mesmo tempo, será estimulada a formação ou o fortalecimento de redes territoriais de camponeses e técnicos que já trabalham com técnicas da chamada agricultura resiliente, a exemplo da agroecologia.

“Buscamos o enraizamento dos aprendizados não apenas nos participantes que estão participando diretamente das sessões educativas, mas também para as pessoas que vivem nestas comunidades, nestes territórios, os diferentes atores sociais, as organizações de referência. Ou seja: que todos possam beber um pouco da fonte rica que vai ser esta formação”, explica Rodica Weitzman, coordenadora do componente de formação do projeto.

A mulher é a solução

Mulheres, negras, indígenas e mestiças são maioria entre o total de 1.669 pessoas inscritas no programa. De acordo com praticamente todos os estudos dos organismos da ONU, as mulheres e os jovens são os grupos mais vulneráveis às consequências do aumento da temperatura do planeta, afinal historicamente, são eles que ficam nas áreas rurais secas, quando os homens migram em busca de trabalho em outras regiões. Por essa razão, 60% das participantes são mulheres.

“O problema não é só elas ficarem com as consequências. É como elas estão preparados para lidar com o isso. Porque elas não têm a tomada de decisão, elas não têm o conhecimento e as variações climáticas extremas e o uso do solo estão deixando essas terras improdutivas. Então, se ela depende da sua subsistência dessa área, ela vai ter que a migrar para outras áreas. O conhecimento tem que ser melhor direcionado para a questão do problema. Então, a mulher é a solução”, salienta o professor Humberto Barbosa, metereologista e doutor em Solo, Água e Ciências Ambientais pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos.

Mulheres agricultoras são maioria no programa inédito financiado pela ONU. Crédito: Nicolas Avellaneda/DAKI

Norma Ramirez, agricultora familiar do município de Berlín, em El Salvador, é uma dessas mulheres que sofrem com as mudanças climáticas. Ela já tem em mente o que quer aprender na formação: “gostaria de capacitação sobre a agricultura orgânica para que eu tenha mais conhecimento. E também como fazer para que não falte água para nossos cultivos.” Berlín é um dos municípios de El Salvador que está dentro do Corredor Seco, território com clima subúmido que corta cinco países da América Central.

A mais de 5.300 quilômetros ao sul de Berlín, no departamento de Santiago del Estero, na região do Chaco argentino, Dora Corvalán revela sua expectativa: “Que possamos aprender a partir de outras experiências e colocar este conhecimento em prática adaptando-o à realidade de cada lugar, cada território”, sustenta ela, acrescentando que também espera uma boa adesão dos jovens para criarem “mais raízes”.

Em Barra do Mundaú, estado do Ceará, Raquel de Castro, uma jovem da etnia dos Tremembé, também se diz motivada a participar da formação. “Quero intensificar ainda mais essa agricultura agroecológica sustentável, que já trabalhamos dentro do território de forma individual e coletiva, essa agricultura que só vem a fortalecer ainda mais a terra com a diversidade de plantações”.