Organizadores e produtoras do Festival Fala! se confraternizam ao final da primeira edição presencial do evento, no Teatro Gregório de Mattos, em Salvador. Crédito: Fernanda Maia

Um encontro para demarcar o protagonismo da comunicação e da cultura como fundamentos na construção de uma democracia pautada na justiça social, é dessa forma que a terceira edição do festival FALA! deve ser lembrado por aqueles que participaram do evento. Unindo apresentações artísticas e debates, realizados por uma maioria feminina e negra, o FALA! demonstrou como as novas formas de produção de informações estão preocupadas em quebrar o mito do jornalismo imparcial, enfatizando que sempre há um lado a ser legitimado e visibilizado. 

A primeira edição presencial do evento não poderia ter acontecido em outro local senão o Centro de Salvador, uma capital que carrega uma tradição formada e sustentada pelo povo negro e onde as ruas contam histórias de um Brasil muitas vezes invisibilizado pela mídia corporativa. “Muitas vezes, são pessoas periféricas e querem de alguma forma comunicar que estão ali, que estão resistindo e quem têm o direito de intervir neste espaço urbano”, declarou a artista visual Luna Bastos em sua fala sobre o poder da arte em ocupar a cidade com narrativas de vida das pessoas minorizadas. 

Fortalecendo o discurso de Luna e defendendo o poder da arte e da cultura na construção de uma narrativa social mais justa e inclusiva, a cineasta pernambucana Yane Mendes falou sobre a sua experiência na Rede Tumulto, um coletivo que promove ações de formação para jovens das periferias do Recife. “Não me interessa produzir um filme que não chegue nos ‘pirraia’ da minha comunidade… A comunicação é uma arma, quando eu peguei a câmera pela primeira vez eu me senti poderosa”, disse durante sua participação na mesa de debates “Novas formas de ver e contar o mundo”.

A poetisa do Slam das Minas, Fabiana Lima, que dividiu a mesa com Yane, defendeu a importância de ter pessoas negras e periféricas no centro das produções artísticas ao afirmar que: “todo mundo pode fazer poesia marginal, mas poesia preta é diferente, nós temos uma oralidade que é só nossa e isso é poderoso”. Além das falas das mesas de debates, as performances artísticas presentes no festival evidenciaram a pluralidade e diversidade dos modos de fazer comunicação no Brasil. No terceiro e último dia do evento, a performance de Diego Mamba Negra e o show de encerramento de Gabi Guedes com o grupo Pradarrum foram potentes imersões na ancestralidade e na resistência e sensibilizaram o público.

Gabi Guedes e o grupo Pradarrum fecharam o festival com uma apresentação artística que sintetizou a perspectiva da ancestralidade enfatizada nas mesas de debate como marca da comunicação independente que vai se consolidando em várias partes do país. Crédito: Fernanda Maia

O Brasil do cocar e do quilombo

A participação de lideranças indígenas foi algo marcante no festival FALA!. A mesa “Nós por nós: identidade, cultura ancestral e combate ao silenciamento”, que encerrou a programação da terceira edição do evento, contou com discursos contundentes de Erisvan Guajajara, Joyce Cursino e Natureza França. 

Coordenador da rede Mídia Índia, que reúne produções jornalísticas e artísticas dos povos indígenas de todo o Brasil, Erisvan Guajajara enfatizou a necessidade de fortalecer iniciativas de comunicação realizadas pelos povos originários e apoiar projetos políticos voltados para essa população. “Antes do Brasil da coroa, existia o Brasil do cocar. Precisamos lembrar disso. Nós queremos participar do governo para lutar por nós”, disse Erisvan. 

Erisvan Guajajara, coordenador do Mídia Índia, participou da mesa “Nós por nós: identidade, cultura ancestral e combate ao silenciamento”. Crédito: Fernanda Maia.

Já a educadora Natureza França expôs a invisibilidade dos povos indígenas ao declarar que “ainda há um vazio muito grande, um silenciamento muito grande”. “Nas escolas ainda não está o que a gente precisa saber, mas vamos tentando buscar nesse silêncio e nessas violências todas que atravessam a vida de uma mulher na periferia. Uma mulher negra, pensando no IBGE, tem a caracterização preta e parda, mas onde está a minha ancestralidade Tupinambá nessa história?”. 

Com os debates da última mesa foi possível notar a demanda urgente em unir as pautas das pessoas minorizadas na construção de uma contranarrativa à comunicação hegemônica, que foi responsável pela violência e pelo apagamento das histórias de diversos povos, sobretudo os negros e indígenas. 

Pensando ainda nas contranarrativas, a oficina de encerramento do FALA! teve a participação das jornalistas da TV brasileira Joyce Ribeiro (TV Cultura), Aline Midlej (Globonews) e Valéria Almeida (TV Globo). Com o tema “Pluralidade: representatividade e empoderamento no centro do debate”, as jornalistas falaram sobre a experiência de serem mulheres negras em um espaço de maioria masculina e branca e as estratégias criadas para pautar o racismo na produção jornalística da TV. 

“Nós fazemos parte dessa mudança na forma de nos expor, de expor as nossas comunidades, valorizando e buscando espaço para que a gente tenha capacidade de (nos) desenvolver plenamente em todos os aspectos possível. Eu acho que é essa a nossa missão”, afirmou a apresentadora do Jornal da Tarde da TV Cultura, Joyce Ribeiro. 

Valéria Almeida, Joyce Ribeiro, Rosane Borges e Aline Midlej debateram os caminhos da representatividade e do empoderamento de jornalistas negras no jornalismo produzido pelas TVs brasileiras. Crédito: Fernanda Maia

Lançamento do Instituto FALA!

Ao final do festival, os representantes dos veículos de comunicação 1 Papo Reto, Alma Preta, Marco Zero Conteúdo e Ponte Jornalismo anunciaram o lançamento do Instituto FALA!. A instituição, que será coordenada pelas mesmas organizações realizadoras do festival, buscará impulsionar as discussões e os debates sobre o jornalismo de causas. 

O primeiro projeto do instituto é o Edital FALA!, que tem o objetivo estimular a produção de conteúdos jornalísticos que dialoguem com narrativas e linguagens sobre arte e culturas comprometidas com a diversidade e em defesa dos direitos humanos e da democracia a partir das vivências dos territórios periféricos.

O edital, que tem previsão de lançamento para os próximos meses, será destinado a grupos de mídia independente, coletivos de comunicação popular e jornalismo local, arte e cultura. As propostas apresentadas devem ser voltadas à produção de conteúdo informativo que visibilize histórias e cultura de resistência nos territórios periféricos.

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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