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Barragens da Região Metropolitana do Recife estão à beira do colapso

Raíssa Ebrahim / 21/01/2021

Parte da Região Metropolitana do Recife (RMR) está sofrendo com uma grave crise de desabastecimento. Em Olinda, há casas com as torneiras secas há quase um mês. Quem tem dinheiro está comprando caminhão-pipa, cujo preço subiu por conta da procura. Mas quem não tem condições está sofrendo ainda mais em meio à maior crise sanitária do século com a pandemia da covid-19. 

A Marco Zero Conteúdo teve acesso a relatórios internos da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) e a situação de algumas barragens é extremamente crítica, a pior dos últimos 10 anos. A previsão é que chova abaixo da média nestes primeiros três meses do ano nas áreas atualmente mais afetadas. 

Botafogo, uma das principais fontes hídricas do Sistema Botafogo, que abastece Olinda, Paulista, Igarassu e Abreu e Lima – e que tem problemas históricos -, está no vermelho, com, segundo relatório do último dia 12, menos de 7% de sua capacidade total, que é de 27,5 milhões de metros cúbicos de água.

O nível de algumas barragens é ainda pior. A do Goitá, localizada entre Paudalho e São Lourenço da Mata, está com apenas 1,65% de sua capacidade, também de acordo com o relatório do dia 12 de janeiro. Confira a situação das barragens, a cor vermelha mostra situação crítica e a amarela, alerta:  

Para se ter ideia da gravidade, há exatos dois anos, em janeiro de 2019, a Barragem de Botafogo estava com menos de 18% da sua capacidade e o nível que já era considerado crítico e de pré-colapso em comunicado da própria Compesa. Na época, a companhia anunciou que o rodízio de fornecimento de água nas áreas abastecidas por essa fonte seria ampliado de um dia com água e cinco sem para um dia com água e seis sem.

No ano passado, a Compesa realizou uma manutenção no Sistema Botafogo para garantir o abastecimento durante o Carnaval. Na época, 69 bairros ficaram sem água durante os dias do serviço. Na gestão do ex-governador Eduardo Campos (PSB), uma de suas promessas prioritárias chegou a ser a construção de uma adutora para transpor as águas do Rio Capibaribe para o reservatório de Botafogo, permitindo uma injeção de mais litros de água por segundo.

A preocupação cresce porque, para o primeiro trimestre deste ano, a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) prevê chuvas abaixo da média em todo o estado, principalmente no Grande Recife e na Zona da Mata, assim como aconteceu em 2020. O “normal” é calculado com base em 30 anos.

Sem água e sem informação

Além de não haver água, não há, até o momento, comunicação de solução nem informações básicas por parte da Compesa. Somente após protesto, cobertura da imprensa e uma quantidade infindável de reclamações nos canais oficiais, a companhia irá se pronunciar publicamente em coletiva de imprensa marcada para esta sexta (22) junto com a Apac. 

Enquanto isso, os consumidores seguem sendo cobrados normalmente e os dias com água seguem marcados no calendário de abastecimento, apesar de não chegar às torneiras. Há uma crise hídrica, mas há também uma crise de comunicação na Compesa.

O clima da população é de revolta, sobretudo porque ninguém consegue entender o motivo de algumas casas terem água e outras próximas, no mesmo bairro, não receberem. Nesta quinta (21), a água chegou em algumas ruas do Sítio Histórico de Olinda, mas, segundo moradores, o fornecimento só durou 20 minutos.  

Na terça (19), moradores do Sítio Histórico de Olinda e de outras áreas fecharam a Rua do Sol, no Carmo, em protesto para exigir providências. A Compesa, por sua vez, diz à imprensa que vem “promovendo ajustes operacionais nos sistemas de abastecimento, com o objetivo de melhorar a oferta de água para o Sítio Histórico, em Olinda”.

O desespero é tão grande que um pipa que teve problemas mecânicos na terça (19) no Amaro Branco resolveu abrir as mangueiras e a população correu com vasilhames para pegar a água.

A reportagem procurou a Compesa na terça (19) para confirmar os relatórios recebidos, além de questionar por que a companhia anunciou que, com a finalização da manutenção do sistema Tapacurá e áreas da RMR, o abastecimento voltaria a ser regularizado a partir do dia 14, porém não foi isso que aconteceu.

Também perguntamos quais os planos para resolver a crise de desabastecimento. A companhia não se pronunciou. Nesta quinta (21), comunicou que fará a coletiva na sexta (22) e que por isso não pode adiantar informações.

Situação beira o colapso

A Marco Zero Conteúdo conversou com o professor da área de recursos hídricos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Almir Cirilo, que, ao saber do relatório das barragens, disse que a situação é extremamente crítica, praticamente de colapso. Ele traçou um histórico da situação de abastecimento da RMR que ajuda a entender o retrato geral da realidade atual.   

Do ponto de vista de reservatórios e volume de água, o Recife e a Mata Sul tiveram melhoras significativas nos últimos anos, depois das obras de Pirapama, dobrando a capacidade de produção de água. Em 1999, chegou a haver na região um dia de água para nove sem. Na seca de 2012, o ano mais seco do século no Nordeste inteiro e que também atingiu região metropolitana, o regime de racionamento foi um dia com água e outro não, graças a Pirapama.

Mas há o problema da má distribuição, responsável por fazer a água chegar às torneiras. Muitas tubulações da rede são antigas. A Compesa investiu bastante, sobretudo na primeira metade da década passada, mas a necessidade de investimento ainda é muito grande.

Já Olinda e a Mata Norte têm situações mais complicadas. As fontes de água são muito mais escassas. As barragens são menores e têm menos capacidade, além de serem mais irregulares, com um período chuvoso menos uniforme. Por isso as barragens têm mais dificuldade e são mais vulneráveis a períodos de estiagem como o atual.

Outra situação que também merece atenção são as áreas de morro, mais elevadas, que necessitam de mais infraestrutura. Os investimentos vinham numa situação mais confortável até 2013, mas, de lá para cá, diminuíram e os recursos federais também ficaram escassos.

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AUTOR
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Raíssa Ebrahim

Jornalista pela UFPE, foi trainee no Estadão, trabalhou seis anos no Jornal do Commercio, foi editora e chefe de redação do PorAqui (startup de jornalismo hiperlocal do Porto Digital). É fellowship da Thomson Reuters Foundation sobre Transição Justa (2023), foi bolsista do Instituto ClimaInfo (2022) e venceu o Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo (2020). Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com