Duas mulheres seguram faixa comprida, com cinco listas, sendo a superior e a inferior azul calara, seguidas de duas faixas rodas, acima e abaixo de cada lista azul, e uma faixa branca ao centro, onde está escrito em letras pretas: "Respeito, do morro ao asfalto, travestis e transexuais existem de fato!" A faixa está na frente de uma escadaria de um prédio antigo, com três portas em arco ao fundo, onde algumas pessoas estão encostadas perto de outras panos (faixas ou bandeiras) nas mesmas cores, jogadas nos degraus.
Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Um novo recorde nas candidaturas de pessoas trans no Brasil. O já tradicional levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) encontrou 76 candidaturas neste ano. É a quinta eleição em que esse estudo é realizado. Desta vez, houve um expressivo aumento de 44% das candidaturas em relação a 2018, quando 53 pessoas trans saíram candidatas. 

Das 76 candidaturas, 67 (88%) são de travestis e mulheres trans, cinco (7%) são homens trans e quatro (5%) candidaturas são de pessoas com identidades não binárias. Trinta e seis estão disputando as eleições com nome social. 

As candidaturas trans não são um bloco único. Pelo menos 17 partidos estão na disputa, sendo o PSOL o com maior número de candidaturas, 26, seguido do PT com 11 e do PDT com 10. PSB lançou 7 candidaturas, MDB 4, PSDB e CIDADANIA com 3 cada, 2 na REDE e também no PCdoB, e o Unidade Popular, União Brasil, Solidariedade, PV, PP, PMN, PMB e PCB lançaram 1 candidatura cada. 

A grande maioria é progressista: mais de 85% das candidaturas estão concentradas em partidos de esquerda, que representavam 52% em 2020; 5,3% no centro e 9,2% na direita, quando em 2020 eram 11% e 37% respectivamente.

Em Pernambuco há três candidaturas trans: para deputada estadual, há Anderia Deloizi, pelo Psol, e Adamequis Souza, pela Rede. E para deputada federal tem Robeyoncé Lima, do PSOL, que participou do mandato coletivo Juntas na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

Para a presidenta da Antra, Keila Simpson, a maioria das pessoas trans que foram eleitas anteriormente têm feito mandatos de destaque, o que inspira a comunidade. “As travestis, as mulheres transsexuais e os homens trans que estão eleitos têm se destacado bastante na defesa do seu mandato, das ações que estão sendo desenvolvidas. Então esse aumento de candidaturas vem muito da inspiração desses mandatos que estão fazendo um diferencial enorme”, diz.

Outro dado importante que o levantamento traz é o aumento de um para cinco de homens trans na disputa, em relação a 2018. Ainda assim, representa apenas 7% das candidaturas trans. “Temos pouca pouca representatividade na política e pouca representatividade no geral. Tem a questão da visibilidade da pessoa trans masculina, que é minúscula. E, para além da visibilidade, existe a questão da construção social. Existe uma diferença grande da luta social das mulheres trans e travestis e da luta social de homens trans e pessoas trans masculinas, que é muito mais recente. Então, é natural que elas consigam se organizar politicamente melhor ou em maior número. Mas estamos estamos nos organizando também”, comenta Bernardo Gael, coordenador de comunicação do Ibrat – Instituto Brasileiro de Transmasculinidades de São Paulo.

Em 2018, Thammy Gretchen foi o primeiro homem trans eleito, conseguindo uma vaga de vereador em São Paulo. É um tema delicado, já que ele faz parte de um partido de direita, o PL de Bolsonaro, e não abraçou a pauta trans. “Não adianta apenas ser uma candidatura trans, mas sim uma pessoa candidata que está em diálogo com as pautas trans masculinas”, reforça Gael.

Por conta da ameaça conservadora ou apesar dela?

A professora e assessora parlamentar mineira Sayonara Nogueira, da Rede Trans Brasil e do Instituto Brasileiro Trans de Educação, acredita que, após o golpe sofrido pela presidenta Dilma Rousseff, a violência política ficou “escancarada”. “Houve a expansão do ódio por grupos de extrema direita direcionado à população LGBTQIA+. Chegam ao ponto de usar a liberdade de expressão como um manto para encobrir esse tipo de crime, que vai desde ameaças à propagação de fake news nas redes sociais”, diz.

O aumento das candidaturas trans se dá mesmo com o aumento do conservadorismo ou apesar dele? Essa é uma pergunta que tem povoado as discussões de Caia Maria, vice-coordenadora da Associação de Travestis e Transexuais de Pernambuco (Natrape) e cofundadora da Rede Autônoma de Travestis e Pessoas Trans de Pernambuco. “Temos mandatos coletivos se desfazendo, pessoas trans que foram eleitas e não vão se candidatar para a reeleição. E isso é uma situação bastante complexa, não saberia responder se as pessoas trans aumentaram nas candidaturas por conta de Bolsonaro ou se uma possível reeleição do governo Lula estimula esse ambiente”, diz.

Caia Maria faz uma comparação com a Operação Tarântula, quando, em 1987, a polícia de São Paulo fez uma ofensiva prendendo cerca de 300 travestis, com a desculpa de que estava combatendo a Aids. Foi um marco na luta trans: a “operação” só foi suspensa porque grupos de travestis e mulheres trans se organizaram e se fizeram ouvir pelo governo paulista. “Acredito que as pessoas trans continuam apostando na importância de estar nesses lugares institucionais, que se reflete em várias ocupações, como da ciência, do cinema, universidade. As pessoas trans estão virando a mesa”, diz Caia.

Para Bernardo Gael, o aumento do conservadorismo “dá uma acordada na esquerda”. “Como nossos corpos são políticos, acho que a gente está preenchendo essas lacunas. É uma resposta. Mas ainda assim é um número muito pequeno de candidaturas trans quando vemos que são mais de 28 mil candidaturas ao todo”, pondera.

Violência política X candidaturas

Em 2012 a professora e assessora parlamentar Sayonara Nogueira, da Antra e do Instituto Brasileiro Trans de Educação, foi candidata pelo PSB em Minas Gerais. Mas acabou abandonando a campanha por conta do preconceito.

“Na época, éramos 16 travestis candidatas em todo país. Minha candidatura teve um impacto positivo pois vários veículos de comunicação entraram em contato e pude fazer um trabalho de conscientização em relação à representatividade e visibilidade trans. Ao mesmo tempo, sofri várias retaliações da mídia local, o que me fez desistir na metade da campanha de ir para a rua pedir votos”, conta Sayonara.

Para ela, houve um aumento na violência durante o governo Bolsonaro. “Sobretudo quando saímos para a campanha de rua. A violência existia antes também, mas de forma mais velada. Hoje está mais explícita, pois o próprio presidente incentiva essa prática através de seus discursos”, afirma.

A violência política atingiu praticamente todos os mandatos de pessoas trans: Duda Salabert (MG) recebeu ameaças de morte. O gabinete da vereadora Érika Hilton (SP) foi invadido. Recentemente, a vereadora Larissa Camponesa (ES) foi sequestrada.

Infelizmente, a violência política não é muito diferente da violência que as pessoas trans enfrentam no dia a dia. Há anos o Brasil aparece no topo da lista dos países que mais matam pessoas trans no mundo. No ano passado, foram 140 assassinatos dessa população, colocando o Brasil, pelo 13º ano consecutivo, como o país onde mais pessoas trans foram assassinadas.

“O clima para essas eleições está bem propício, a despeito da violência que está inerente no nosso processo de convivência, já somos escoladas por essa violência que está aí. E não estou aqui naturalizando a violência, mas não podemos deixar o medo nos paralisar. Temos que ficar muito atentas”, diz Keila Simpson, da Antra.

Segundo ela, as recomendações internas é de que as pessoas trans candidatas tentem fazer campanha com toda segurança possível. “Quanto mais se acirram os ânimos, quanto mais aparecem pesquisas demonstrando que o bolsonarismo está perdendo, mais eles investem em violências. E aí nós somos um alvo”, alerta. “Mas a violência não vai nos paralisar. Pelo contrário. Vai nos impulsionar a continuar apostando que só a democracia nos salva”, diz Simpson.

Mesmo recebendo muito mais agressões e ameaças do que outras candidaturas, a vida política pode ser um ambiente até mais seguro para a população trans. “Há mais segurança disponível, já que contam com o aparato dos mandatos”, diz Caia Maria.

Keila Simpson reforça que as candidaturas trans seguem aumentando eleição após eleição. E que isso não vai mudar. “É ocupando esses espaços que vamos de fato responder a essas violências. A população trans chegou pra ocupar o campo político partidário e ela não vai voltar para trás. É daqui pra frente. Se voltar pra margem é para buscar quem ainda está lá”, declara.

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