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	<title>Arquivos Direito à Cidade - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 04 Jun 2026 20:42:22 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Direito à Cidade - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Moradores do Ibura de Baixo sofrem por causa de obra da prefeitura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Jun 2026 01:23:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[alagamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Ibura]]></category>
		<category><![CDATA[obra]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem mora na rua Manaíra, exatamente ao lado do muro da cabeceira da pista do aeroporto, está sempre atento ao ruído dos motores dos aviões que passam a poucos metros dos telhados de suas casas. No entanto, após o início das obras da nova ligação entre as avenidas Recife e Dom Helder Câmara, essa comunidade [&#8230;]</p>
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<p>Quem mora na rua Manaíra, exatamente ao lado do muro da cabeceira da pista do aeroporto, está sempre atento ao ruído dos motores dos aviões que passam a poucos metros dos telhados de suas casas. No entanto, após o início das obras da nova ligação entre as avenidas Recife e Dom Helder Câmara, essa comunidade no Ibura de Baixo passou a se preocupar mais com problemas ao nível do solo do que com as aterrissagens dos airbus e boeings.</p>



<p>Desde que os operários da empresa contratada pela prefeitura do Recife começaram a construir a nova via de acesso ao Ibura, os moradores passaram a conviver com alagamentos praticamente em tempo integral &#8211; pouco importando se chove ou faça sol &#8211; mau cheiro contínuo da água estagnada, problemas de saúde e rachaduras nas paredes dos imóveis.</p>



<p>A obra é resultado de convênio entre a prefeitura e o Ministério das Cidades, com aporte de R$12,5 milhões feito pelo órgão federal. A placa que sinaliza a construção é clara: início em novembro de 2024 e encerramento em novembro de 2025, com realização de serviço de pavimentação, drenagem, macrodrenagem e urbanização do acesso entre as duas avenidas. No entanto, até agora, junho de 2026, apenas metade do trecho anunciado foi concluído.</p>



<p>A lista de reclamações é extensa, começando pela falta de diálogo do poder público e culminando nos transtornos descritos no segundo parágrafo deste texto. </p>



<p>O catador de recicláveis Alexsandro Silva, de 41 anos, mora entre os trilhos da ferrovia Transnordestina e o muro do aeroporto há 15 anos, mas este ano foi a primeira vez que viu a casa ser tomada pela água.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:38% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="683" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-683x1024.jpg" alt="A foto mostra Alexsandro Silva em pé sobre uma calçada estreita ao lado de uma casa com paredes desgastadas e pintura verde-azulada descascada. Ele está com os braços cruzados, vestindo camiseta cinza e bermuda listrada, e olha firme para a câmera. Ao lado dele corre um canal estreito de água, cercado por vegetação e entulho, com uma muralha alta e enferrujada do outro lado. O céu azul com nuvens claras contrasta com o cenário urbano precário." class="wp-image-75714 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-683x1024.jpg 683w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-768x1152.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-1024x1536.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k-150x225.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293538133_61ffbc1384_k.jpg 1365w" sizes="(max-width: 683px) 100vw, 683px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Durante a chuva do dia 1º de maio, que deixou pessoas desabrigadas, com vários pontos de alagamentos na cidade, inclusive na avenida Recife, Sandro, como é conhecido, foi surpreendido quando seus pertences e materiais de trabalho foram levados pela correnteza.Ele conta que a área já tinha alagado outras vezes, mas dessa vez atingiu proporções bem maiores. Para piorar, boa parte da água não escorreu, ficando empoçada, sem ter por onde escoar.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Não foi só o grande volume de chuva. A construção do canal que fará parte do novo sistema de drenagem e macrodrenagem, está aterrando o mangue por trás de um campinho de futebol, o campo do Real, e formou uma espécie de lago na área que foi aberta para passar o canal. Segundo os moradores com quem conversamos, para drenar este “lago”, os funcionários da prefeitura utilizam uma bomba que joga os dejetos em um curso d&#8217;água natural que já existia ali. Os resíduos acabaram obstruindo o córrego, agravando o problema.</p>



<p>“Antes a água batia no peito nesse córrego, o pessoal tomava banho, pegava beta. Agora não, porque isso não é só lama, é dejeto, vem uma ‘murrinha’ de um trator, puxa e vai jogando pro lado de cá. E quando eles tocam esse trabalho, é catinga de merda pura, ninguém aguenta ficar aqui dentro de casa não. É rato correndo de um lado pro outro, porque tão tirando os caminhos deles que ficam ali por trás, então de noite os ratos vem pra cá, disputando espaço com a gente”, explica Sandro.</p>



<p>Por medo que os filhos contraíam doenças, Sandro e a esposa, Daniele Patrícia, decidiram deixar os filhos com a avó. “Nem os filhos a gente pode deixar em casa, como dois adolescentes, um de 16 anos e outro de 14, vão ficar em casa numa situação dessa?”, questiona Sandro.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Algumas famílias também enfrentam falta de iluminação, pois algumas casas foram desapropriadas, algumas já foram demolidas e outras estão vazias, a espera do momento de irem abaixo. Só depois de reclamar junto aos funcionários da empreiteira, conseguiram que instalassem uma pequena lâmpada para iluminar o trecho. O ponto de luz foi ligado a uma gambiarra precária conectando a fiação das casas desapropriadas, com a das casas que permanecerem, por meio de fio e bocal, em uma das paredes que ainda ficaram de pé.</p>
<p>“Por medo disso cair numa noite de chuva e a fiação das casas da gente ir junto, dar um curto circuito e queimar nossos barracos, a gente foi atrás da empresa de novo. Só depois de oito dias eles vieram aqui, mas às sete da noite já dá medo de passar”, afirma a dona de casa Alessandra da Silva, que mora na Manaíra há dez anos.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">“Faz medo cair por cima”</h2>



<p>“Perdi dois guarda-roupa, rachou a casa, ainda tá rachada lá, faz medo cair por cima, né?” Essas palavras são de Jailton Nunes, que, há pelo menos 12 anos, mora com a esposa e as filhas em um beco com mais de 15 casas. Assim como seu vizinho Sandro, em todo esses anos sua família nunca tinha perdido móveis por causa de um alagamento.</p>



<p>A situação na casa de Jailton parece ser mais grave do que na vizinhança, pois duas paredes estão com grandes rachaduras. “É uma sensação ruim! Já tinha enchido na avenida Recife e num pedaço da área da linha de trem, mas aqui nunca! Mas depois dessa obra começou a encher, a água veio por trás e por frente”, conta. Quando ele fala &#8220;por trás&#8221;, se refere ao que restou do manguezal que está em processo de aterramento para construção do canal. &#8220;Pela frente&#8221; é onde tem a espécie de lago de águas podres formado em consequência da obra.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55292480317_0ce80c14f6_k-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55292480317_0ce80c14f6_k-1024x683.jpg" alt="A foto mostra um beco estreito entre construções antigas e desgastadas. As paredes estão manchadas e com mofo, e há uma porta encostada no chão, sugerindo abandono ou reforma. No muro à direita, vê-se a inscrição “URB 106” feita com tinta preta em spray, enquanto ao fundo há outra marca semelhante. O telhado de zinco está danificado, com partes faltando e fios expostos, e o chão apresenta poças d’água e sujeira. A cena transmite uma atmosfera de degradação urbana, típica de áreas periféricas ou em processo de demolição." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Moradores dizem que fFuncionários da prefeitura marcaram as casas sem explicar motivo
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A casa da família de Jailton é uma das que foram marcadas pelas equipes da prefeitura antes do início das obras. Apesar das marcações, ele afirma que ninguém da prefeitura foi ao local para orientar ou tratar do assunto. “A gente falou com algumas pessoas, engenheiros, mas ainda não informaram nada a gente. Não falaram de indenização. Estão pagando o pessoal aos poucos, mas a gente ainda não sabe de nada, ninguém tomou decisão pra resolver nada”, lamenta Jailton.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Diálogo difícil com a prefeitura</h3>



<p>Todos os moradores que conversamos disseram que o diálogo com a prefeitura é difícil. Além de não terem sido consultados para a obra, mesmo após os problemas aparecerem, não se sentem ouvidos nem apoiados. Segundo Joelma Andrade, liderança do Centro Comunitário Mário de Andrade, mais de 230 casas foram desapropriadas para construção do acesso. No início do processo, as casas começaram a ser marcadas, mas as pessoas não tinha noção do que se tratava. Foi aí que Joelma procurou o Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec) e a Defensoria Pública, que solicitaram a apresentação do projeto aos moradores, o que só teria acontecido depois de duas reuniões.</p>



<p>&#8220;Foi aí que eles apresentaram o projeto. No momento eu questionei para onde as águas iriam quando a chuva viesse. Disseram que nenhuma família iria sofrer mas, no entanto, é isso que está acontecendo, elas estão sofrendo&#8221;, conta Joelma.</p>



<p>A assistente social do Cendhec, Cristinalva Lemos, afirmou que apenas em 2025, após a provocação dessas organizações a prefeitura começou a se mobilizar para apresentar os projetos e dialogar minimamente com as famílias. A organização tem atuado junto às mulheres da região para discutir, sobretudo, a justiça socioambiental. No sentido de buscar os órgãos competentes que possam dar alguma resposta em relação aos transtornos que as pessoas. &#8220;O diálogo com o poder público é muito difícil&#8221;, conta.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que diz a prefeitura:</span>

		<p>A Prefeitura do Recife esclarece que as obras no Ibura fazem parte de um pacote de intervenções de R$ 12 milhões, financiado por convênio com o Ministério do Desenvolvimento Regional e a Caixa Econômica Federal, com contrapartida da gestão municipal. O projeto prevê a criação de uma nova rota de saída do bairro, com 1.100 metros de extensão ligando a Avenida Dom Hélder Câmara à Avenida Recife, além de obras de pavimentação, drenagem, macrodrenagem e urbanização de áreas públicas.</p>
<p>As obras de macrodrenagem seguem normas técnicas e têm autorização ambiental. O canal está em uma área anteriormente assoreada e sem profundidade suficiente para escoamento, e o projeto prevê dimensões capazes de absorver as águas em situações de chuva. A intervenção também viabiliza a requalificação da Avenida Dom Hélder Câmara, que será nivelada e receberá um reservatório subterrâneo para armazenar o volume de água que hoje escoa para a Avenida Recife.</p>
<p>Em relação às famílias que vivem às margens da linha do trem, a Prefeitura reconhece as dificuldades enfrentadas e esclarece que a região tem histórico de alagamentos, agravado pelo período chuvoso. Com a conclusão das obras do canal e das desapropriações, as águas passarão a seguir o curso projetado, reduzindo os alagamentos na área.</p>
<p>Sobre as casas da rua Manaíra, a gestão municipal informa que as residências nas imediações do número 46 estão incluídas no processo de desapropriação. As demais moradias com indícios de danos estruturais já foram vistoriadas, os valores de indenização foram negociados e estão em processo de pagamento.</p>
<p>Desde a fase de desenvolvimento do projeto, a gestão municipal manteve diálogo com a comunidade por meio de assembleias, reuniões e contato com lideranças locais. As negociações para desapropriação tiveram início em 2024 e estão sendo concluídas em 2026.</p>
<p>O projeto prevê ainda a urbanização de áreas públicas com novos espaços de lazer e convivência, incluindo quadra esportiva, parque infantil, campo de futebol requalificado e área para piquenique, além de arborização e paisagismo em todo o trecho da intervenção.</p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/55293537858_cfdb2d5f38_k-1024x683.jpg" alt="A imagem mostra uma área periférica em processo de transformação, com casas simples de tijolo e vegetação densa ao redor de um canal de água parada. O solo parece irregular e há entulho e lama, sugerindo obras ou reconstrução. À esquerda, vê-se uma estrutura metálica enferrujada coberta por plantas, e algumas pessoas caminhando ao longe. O céu está parcialmente nublado, com tons dourados e azulados, indicando o fim de tarde. A cena transmite uma mistura de vulnerabilidade ambiental e cotidiano urbano, onde a natureza e a ocupação humana coexistem em condições precárias." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Com aterro do manguezal, águas da chuva não tem para onde escoar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
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<p></p>
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		<item>
		<title>Vizinhos do Dona Lindu conseguem na Justiça proibição de festa durante a madrugada</title>
		<link>https://marcozero.org/vizinhos-do-dona-lindu-conseguem-na-justica-proibicao-de-festa-durante-a-madrugada/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 May 2026 14:27:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[concessão privada]]></category>
		<category><![CDATA[parques do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[parques públicos]]></category>
		<category><![CDATA[rave]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Justiça de Pernambuco barrou a realização do evento de música eletrônica AUMMA, que inauguraria a nova fase da galeria Janete Costa, no Parque Dona Lindu, como um espaço também de aluguel para festas. O local está sob gestão privada da empresa Viva Parques desde março do ano passado, mas, na prática, a galeria deixou [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Justiça de Pernambuco barrou a realização do evento de música eletrônica AUMMA, que inauguraria a nova fase da galeria Janete Costa, no Parque Dona Lindu, como um espaço também de aluguel para festas. O local está sob gestão privada da empresa Viva Parques desde março do ano passado, mas, na prática, a galeria deixou de funcionar como espaço voltado para as artes plásticas desde 26 de abril, data do encerramento da última exposição e <a href="https://www.instagram.com/galeriajanetecosta?igsh=bDJ4eWQ3czM3cGI3">seu perfil no Instagram sequer está sendo atualizado.</a> No final de semana de 23 e 24 de maio, por exemplo, o espaço foi tomado por um evento do mercado de café.</p>



<p>Na sexta-feira (29), oito condomínios das redondezas do Parque Dona Lindu solicitaram uma liminar ao Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) para impedir a realização do evento, alegando possível perturbação sonora. Horas antes do início da festa, a juíza Adriana Cintra Coêlho concedeu a liminar. A multa pelo descumprimento da ordem judicial era de R$ 200 mil.</p>



<p>A produtora ainda tentou reverter a decisão, sem sucesso.</p>



<p>No despacho, a juíza considerou que a autorização da prefeitura era até às 2h deste domingo, mas todas as peças de propaganda da festa divulgava que o evento iria até às 6h30min. “Além disso, os documentos juntados demonstram que a discussão acerca dos impactos sonoros decorrentes da realização de eventos no Parque Dona Lindu não constitui fato isolado ou episódico, tanto é que já fora discutido em audiência pública promovida pelo Ministério Público”, diz trecho da liminar.</p>



<p>A AUMMA só cancelou oficialmente a festa à meia-noite do sábado. Em comunicado, a produtora afirmou que havia conseguido todas as licenças junto à prefeitura do Recife e ao Corpo de Bombeiros. A produtora afirmou que vai reembolsar quem comprou ingresso. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/parque-dona-lindu-recebe-rave-na-madrugada-de-sabado-mesmo-apos-denuncia-de-poluicao-sonora-2/" class="titulo">Parque Dona Lindu recebe rave na madrugada de sábado mesmo após denúncia de poluição sonora</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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		<item>
		<title>Parque Dona Lindu recebe rave na madrugada de sábado mesmo após denúncia de poluição sonora</title>
		<link>https://marcozero.org/parque-dona-lindu-recebe-rave-na-madrugada-de-sabado-mesmo-apos-denuncia-de-poluicao-sonora-2/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 20:19:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[boa viagem]]></category>
		<category><![CDATA[concessão orivada]]></category>
		<category><![CDATA[dona lindu]]></category>
		<category><![CDATA[parques]]></category>
		<category><![CDATA[poluição sonora]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Galeria Janete Costa, espaço cultural dentro do Parque Dona Lindu, vai sediar uma festa de música eletrônica neste sábado — das 21h30 às 6h30 da manhã. O evento ocorre no mesmo parque que, em outubro do ano passado, levou o Ministério Público de Pernambuco a convocar uma audiência para discutir queixas de moradores sobre [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Galeria Janete Costa, espaço cultural dentro do Parque Dona Lindu, vai sediar uma festa de música eletrônica neste sábado — das 21h30 às 6h30 da manhã. O evento ocorre no mesmo parque que, em outubro do ano passado, levou o Ministério Público de Pernambuco a convocar uma audiência para discutir queixas de moradores sobre poluição sonora.</p>



<p>Na divulgação da festa, chamada de AUMMA, é dito que a rave deve ocupar não apenas a galeria de arte desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer como também a área externa do Dona Lindu.</p>



<p>Os ingressos custam R$180 e mesa/<em>lounge</em> sai por R$ 450, por pessoa. “Pista climatizada, <em>lounges </em>decorados, bar conceitual, área externa”, diz a divulgação da festa nas redes sociais, se definindo como “um evento exclusivo e limitado” e alertando que “os lotes sobem automaticamente de acordo com a demanda”. Edições passadas da festa ocorreram no Cais Rooftop e no Forte do Brum, no Recife Antigo.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/" class="titulo">Concessão privada de parques é &#8220;elitizar o espaço público&#8221;, alerta urbanista Nabil Bonduki</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A festa AUMMA destaca a beleza da galeria Janete Costa como “uma das obras mais bonitas de Recife, projetada por Oscar Niemeyer e batizada em homenagem a uma das maiores designers brasileiras”. Desde março do ano passado, o Parque Dona Lindu está sob gestão privada da empresa Viva Parques, que também administra os parques de Santana, Jaqueira e Apipucos.</p>



<p>A denúncia de um morador levou o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) a convocar a audiência no ano passado para discutir a poluição sonora decorrente da realização de eventos no parque. Na época, moradores reclamavam principalmente do barulho de eventos esportivos que começavam muito cedo, até mesmo de madrugada.</p>



<p>Em ofício, a prefeitura do Recife pediu arquivamento do procedimento, já que o parque havia passado para a Viva Parques, em uma concessão de 30 anos. O MPPE, contudo, manteve a audiência para saber como era feita a fiscalização, uma atribuição da prefeitura. Ainda em outubro, a regional sul da Secretaria de Controle Urbano chegou a fazer duas fiscalizações em eventos no Dona Lindu e afirmou que não “constatou irregularidades de ordem urbanística no local”.</p>



<p>Na audiência do MPPE, realizada presencialmente no dia 22 de outubro, o representante da Secretaria Executiva de Licenciamento Urbano do Recife afirmou que a prefeitura só autorizava eventos que começavam a partir das 6h, mesmo em caso de pedidos para começarem antes das 6h, como usualmente acontece no caso de corridas de rua.</p>



<p>A Marco Zero solicitou uma nota à prefeitura perguntando se o evento do próximo sábado recebeu autorização da secretaria e se a realização da festa está de acordo com o contrato de concessão. Fizemos as mesmas perguntas para a Viva Parques, com o questionamento adicional sobre se a galeria tem algum tipo de proteção acústica. </p>



<p>Apesar de a festa afirmar que vai até às 6h30, a prefeitura afirmou que o evento tem autorização sonora somente entre 19h do sábado (30) até 2h do domingo (31). E que “conforme previsto no contrato de concessão, disponível para consulta pública no site da Recife Parcerias, a Galeria Janete Costa poderá ser utilizada para exposições e realização de eventos”.</p>





<p>Já a Viva Parques não respondeu se a galeria possui algum tipo de tratamento para isolamento acústico. Ainda que seja a gestora do espaço pelos próximos 29 anos, a empresa disse que o evento não é de sua responsabilidade, que cabe aos organizadores da festa obter as licenças necessárias e que as autorizações junto aos órgãos competentes já foram providenciadas. A Marco Zero também tentou contato com a empresa que produz a festa, a AUMMA Produções, mas não obteve retorno.</p>



<p>Moradores do entorno do Dona Lindu contam que as reclamações sobre poluição sonora diminuíram após a audiência do MPPE, mas questionam a mudança de uso do parque, <a href="https://marcozero.org/prefeitura-nega-informacoes-sobre-concessao-de-parques-e-autoriza-derrubada-de-41-arvores-no-dona-lindu/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">como a autorização para o corte de 41 árvores</a> e a intensificação do comércio. Além desta festa eletrônica, o espaço do Dona Lindu vai receber durante a Copa várias festas da produtora Carvalheira, com ingressos que chegam a quase R$ 700. </p>



<p>“Recife já tem espaços de lazer e de entretenimento para a realização de grandes eventos e festas. O que a cidade carece mesmo são de espaços culturais. E a galeria Janete Costa é um espaço que eles deixam um pouco a míngua para depois justificar um outro uso. Na verdade, há tanta coisa para ser exposta, em termos da produção de artes visuais no Recife, e a galeria é um espaço interessante para isso, principalmente porque o Dona Lindu era caracterizado por um uso de várias classes sociais”, diz a socióloga Maria Eduarda Rocha, que mora perto do parque.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Confira as notas na íntegra</span>

	    <p>A <strong>Prefeitura do Recife</strong> informa que acompanha e fiscaliza as atividades realizadas pela Viva Parques, concessionária responsável pela gestão do Parque Dona Lindu. Conforme previsto no contrato de concessão, disponível para consulta pública no site da Recife Parcerias, a Galeria Janete Costa poderá ser utilizada para exposições e realização de eventos. A gestão municipal esclarece ainda que o evento foi autorizado conforme a legislação vigente e foram apresentadas as autorizações exigidas pelos órgãos competentes. O evento possui autorização sonora entre 19h do dia 30 (sábado) até 2h do dia 31 de maio (domingo).</p>
<hr />
<p>A <strong>Viva Parques</strong> esclarece que o evento citado não é realizado pela concessionária. A Galeria Janete Costa é um espaço multiuso voltado à realização de atividades culturais, institucionais e artísticas, conforme previsto no contrato de concessão firmado com a Prefeitura do Recife.</p>
<p>Cabe aos organizadores do evento a responsabilidade pela obtenção das licenças e autorizações exigidas pelos órgãos competentes. À concessionária compete acompanhar o cumprimento das exigências legais e operacionais aplicáveis à utilização dos equipamentos sob concessão.</p>
<p>No caso do evento citado, já foram providenciadas documentações e autorizações junto aos órgãos públicos competentes.</p>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Prefeitura nega informações sobre concessão de parques e autoriza derrubada de 41 árvores no Dona Lindu</title>
		<link>https://marcozero.org/prefeitura-nega-informacoes-sobre-concessao-de-parques-e-autoriza-derrubada-de-41-arvores-no-dona-lindu/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2026 15:11:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Apipucos]]></category>
		<category><![CDATA[concessão privada]]></category>
		<category><![CDATA[dona lindu]]></category>
		<category><![CDATA[Fiscalização]]></category>
		<category><![CDATA[jaqueira]]></category>
		<category><![CDATA[João Campos]]></category>
		<category><![CDATA[parques do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[parques urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[Santana]]></category>
		<category><![CDATA[viva parques]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Prefeitura do Recife tem se recusado a divulgar dados financeiros, relatórios de reclamações e informações sobre a fiscalização da concessão de quatro parques urbanos da cidade — Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu. Desde março, a Marco Zero tenta conseguir esses dados por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), já que a [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Prefeitura do Recife tem se recusado a divulgar dados financeiros, relatórios de reclamações e informações sobre a fiscalização da concessão de quatro parques urbanos da cidade — Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu. Desde março, a Marco Zero tenta conseguir esses dados por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), já que a concessionária que venceu a licitação, a Viva Parques, é uma sociedade de propósito específico, uma empresa criada apenas para gerir os quatro parques e existe apenas por conta da concessão. Por essa razão, está sujeita a prestar contas à Prefeitura e, consequentemente, à sociedade.</p>



<p>Dois pedidos de acesso à informação, protocolados em março deste ano, solicitaram documentos do primeiro ano de operação dos parques sob concessão privada. O primeiro (protocolo nº 2026002450132009991) requisitou relatórios de desempenho, relatórios gerenciais mensais com fluxo de visitantes e valores arrecadados por fonte de receita, relatórios trimestrais de reclamações de usuários, demonstrações financeiras trimestrais e o balanço patrimonial do primeiro ano. Todas essas informações deveriam ter sido obrigatoriamente enviadas para a Prefeitura do Recife pela Viva Parques. </p>



<p>O segundo pedido (protocolo nº 2026002470132009996) pediu o valor total arrecadado discriminado por fonte e por parque, e o número de postos de trabalho diretos discriminado por área e por parque — dados que também estão, ou deveriam estar, com a Prefeitura.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/parques-do-recife-sob-concessao-bem-publico-ou-plataforma-de-negocios/" class="titulo">Parques do Recife sob concessão: bem público ou plataforma de negócios?</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento (Sedul) negou o acesso à maior parte dessas informações. No primeiro pedido, a secretaria afirmou que os indicadores formais de desempenho só começam a ser apurados no 25º mês de contrato — o que significa que não haverá aferição oficial de metas até abril de 2027. Na resposta, forneceu apenas um dado agregado de visitantes: 468 mil entradas nos quatro parques entre março e dezembro de 2025, sem detalhamento por parque ou período. Recusou acesso a todos os dados financeiros e aos relatórios de reclamações. No segundo pedido, negou os dados de receita e forneceu apenas a tabela de empregos, desta vez desagregada: 37 funcionários no Dona Lindu, 45 na Jaqueira, 28 no Santana e nove no Apipucos — totalizando 119 postos diretos nos quatro parques concedidos.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Prefeitura se recusa a divulgar reclamações</h2>



<p>Para justificar as negativas, a Sedul invocou em ambos os pedidos o artigo 22 da Lei de Acesso à Informação, que preserva o sigilo de informações estratégicas de pessoas jurídicas de direito privado. Também alegou que os relatórios de reclamações constituem &#8220;documentos de gestão interna&#8221; cuja divulgação &#8220;poderia comprometer a eficácia da fiscalização administrativa&#8221;. </p>



<p>O contrato assinado entre a Prefeitura do Recife e a Viva Parques também prevê a contratação de um Verificador Independente para exercer controle técnico sobre a concessão. A Sedul confirmou que a contratação foi concluída e que o processo está em fase de aprovação do plano de trabalho, mas não informou a identidade da empresa, o CNPJ, o valor contratado nem a data de assinatura.</p>



<p>A Marco Zero fez recursos em relação às negativas da Sedul. Um dos argumentos que usamos é o de que o artigo 30 da Lei de Concessões impõe ao concessionário de serviço público obrigações de prestação de contas ao poder concedente e ao público. O segundo é o artigo 8º da própria LAI, que define como sujeitas à divulgação as informações &#8220;produzidas ou custodiadas&#8221; por órgãos públicos — critério que se aplica independentemente de quem gerou originalmente os documentos. O terceiro argumento é a ausência de enquadramento legal válido para os relatórios de reclamações: o artigo 23 da LAI traz um rol taxativo de hipóteses de sigilo, e as listas de reclamações de usuários de parques públicos não se encaixam em nenhuma delas.</p>



<p>O argumento central da Prefeitura — de que a Viva Parques é uma pessoa jurídica de direito privado e suas receitas integram &#8220;estratégia comercial protegida&#8221; — pressupõe a existência de concorrência de mercado. A concessionária, porém, detém o monopólio contratual sobre quatro parques públicos municipais por três décadas, sem concorrência.</p>



<p>A Sedul respondeu aos recursos em 29 de abril de 2026, mantendo integralmente as negativas. Os documentos foram assinados digitalmente pela secretária-executiva de Parcerias Estratégicas, Isabela Madruga de Moraes Matos. &#8220;Quanto aos valores arrecadados, a divulgação de dados reais de arrecadação por fonte e por parque exporia informações estratégicas de mercado. Tais dados poderiam ser utilizados por terceiros em detrimento da viabilidade econômica da concessão e, reflexamente, dos interesses da própria Administração, que depende da solidez financeira da Concessionária para a execução dos investimentos obrigatórios pactuados&#8221;, diz a resposta à Marco Zero.</p>



<p>No primeiro recurso, a Sedul reafirmou que os relatórios gerenciais existem e são analisados pela Prefeitura. Ou seja, a secretaria invoca os relatórios como prova de que fiscaliza a concessão, mas se recusa a fornecê-los sob alegação de sigilo comercial da empresa..</p>



<p>Com a manutenção das negativas, foram encaminhados dois requerimentos separados à Controladoria-Geral do Município do Recife (CGM), órgão de controle interno responsável pela supervisão do cumprimento da LAI no âmbito municipal. Entre os pedidos, a MZ solicita que a CGM requisite informações completas sobre o Verificador Independente — identidade, CNPJ, valor contratual, data de assinatura e cronograma de início — e que revise o entendimento da Sedul sobre o art. 22 da LAI em contratos de concessão de serviço público.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><!-- wp:heading --></p>
<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quanto a prefeitura vai receber da concessionária?</strong></h2>
<p><!-- /wp:heading --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Além do pagamento na hora do leilão dos parques – feito lá em 2024 – e dos investimentos obrigatórios que a concessionária Viva Parques deve fazer nos quatro parques ao longo dos 30 anos de contrato, há também um pagamento variável e mensal para a Prefeitura do Recife. É a outorga variável, que é um percentual que vem da receita bruta dos parques e vai começar a ser pago no 25º mês contado da data de eficácia da concessão. É por isso que o faturamento da Viva Parques não é algo que interessa apenas à empresa, mas também à prefeitura e aos recifenses.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Existe, no entanto, uma discrepância nos documentos da concessão sobre qual é esse percentual que a Marco Zero não conseguiu esclarecer. Na proposta econômica apresentada pela Viva Parques, em junho de 2024, a concessionária se comprometia a compartilhar com a Prefeitura 2,5% da receita operacional bruta, percentual que poderia chegar a 7,5% conforme o desempenho da empresa. Porém, no contrato assinado quatro meses depois, em outubro de 2024, o percentual base caiu para 1% da receita operacional bruta, com teto de 4,5%.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Como o contrato é o documento mais recente e juridicamente tem prevalência, a diferença representa uma redução significativa na parcela da receita que caberia aos cofres públicos ao longo dos 30 anos da concessão. A Marco Zero procurou a assessoria de comunicação da Prefeitura do Recife para saber qual dos dois percentuais está efetivamente em vigor e, caso seja o menor, por que houve esse decréscimo em desfavor do poder público. A Prefeitura do Recife não respondeu.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">&#8220;O objetivo da concessionária é o lucro. O nosso é que o parque não vire feira&#8221;</h3>



<p>Desde que a Prefeitura do Recife anunciou a concessão dos quatro parques à iniciativa privada, em 2024, o professor Anselmo Bezerra, do Grupo de Pesquisa Ecologia e Análises Socioambientais do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), vem fazendo alertas sobre o modelo. Mais de um ano após o início da gestão da Viva Parques, ele avalia que os riscos que identificou não foram totalmente eliminados.</p>



<p>Um deles é a falta de transparência da prefeitura sobre os meandros da concessão. E isso está posto desde o início. Para Anselmo Bezerra, a questão central é o que Prefeitura fez com o dinheiro que economizou com a concessão dos parques. Mas não há nem clareza sobre quanto a prefeitura gastava antes da concessão com cada um desses parques. O então prefeito João Campos (PSB) divulgava que a prefeitura iria economizar cerca de R$ 12 milhões anualmente com a concessão, mas a prefeitura nunca forneceu qual era o gasto anual com cada um dos parques. No Portal da Transparência, os dados sobre os parques são agregados de forma genérica. “A importância de haver clareza nos gastos [antes da concessão] com os parques ajudaria a criar uma linha de base para entender se os valores inseridos no modelo econômico da proposta de concessão eram condizentes com os gastos da época da Prefeitura”, diz Bezerra.</p>



<p>“O principal problema de agregar esses dados é que a cidade nunca teve um sistema de parques urbanos homogêneo, no qual a gestão fosse realizada por um único órgão ou setor do poder público. Os vários parques existentes são geridos por diferentes setores da prefeitura, o que dificulta compreender procedimentos comuns e levantar dados uniformizados sobre esses gastos”, explica. “A grande questão aqui é se a economia gerada com esse investimento ou gasto está sendo alocada em outras políticas públicas com finalidade semelhante [conservação ambiental, lazer, cultura, qualidade de vida etc]”, completa.</p>



<p>A concessão tem obrigação de investir R$ 413 milhões ao longo de 30 anos, o equivalente a R$ 13,7 milhões por ano — valor próximo ao que a Prefeitura dizia gastar antes com a manutenção dos parques. “Se eu deixo de gastar um milhão na manutenção dos parques e aumento ou qualifico áreas de lazer em bairros mais periféricos da cidade, incluindo ações de arborização urbana e conservação de ambientes vegetados, parece-me que haveria um direcionamento interessante. Entretanto, se não há como rastrear isso, ficamos reféns de acreditar que a concessão será benéfica por si só para aqueles espaços concedidos, e ponto”, acredita Anselmo.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Parque-de-apipucos-1.jpg" alt="Parque de Apipucos, em Recife, aparece nesta foto aérea como um refúgio verde em meio à cidade: o lago central reluz como um espelho que reflete céu e árvores, enquanto suas margens são cercadas por caminhos sombreados, praças e estruturas acolhedoras que convidam ao descanso; ao lado, uma avenida movimentada lembra o ritmo urbano, e mais adiante os edifícios brancos modernos se erguem em contraste com a natureza, compondo uma paisagem onde se misturam o frescor das copas, o cheiro de grama molhada e a brisa suave do lago com o cenário vibrante da vida recifense." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Apipucos é um dos quatro parques entregues à gestão privada pela PCR
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Outro ponto de alerta sobre a concessão é a falta de participação popular. A pesquisa para um artigo do grupo que Anselmo integra, publicado em 2025 na Revista Brasileira de Direito Urbanístico, mostrou que 89% dos entrevistados nem sabiam sobre a concessão — e que metade dos que a conheciam eram a favor. &#8220;Massificar a comunicação para ampliar o debate e envolver a população em geral é algo crucial que deveria ser perseguido por qualquer gestão. Isso passa por como uma gestão entende e estimula a participação social, mas também por como a sociedade se interessa e busca participar dos rumos da cidade&#8221;, afirma. &#8220;Os ativos dos parques urbanos são um bem comum de toda a sociedade; não pertencem a um governo ou a uma empresa, e cabe à sociedade se apropriar e discutir os rumos desses ativos, sob pena de atuar como mera figurante no processo, o que é muito ruim.&#8221;</p>



<p>Ainda na fase de consulta pública da concessão, o grupo de pesquisa do IFPE propôs a criação de um conselho consultivo para discutir o dia a dia dos parques. A proposta foi rejeitada pela Prefeitura do Recife, que alegou que o Verificador Independente e o Indicador de Experiência do Usuário seriam suficientes. &#8220;A partir do momento em que se sentam à mesa um empresário, um ambulante, um pesquisador, um gestor público, um ou mais frequentadores dos parques, as questões do dia a dia aparecem, o conflito emerge, os argumentos são postos, e o debate passa a existir&#8221;, diz o professor do IFPE. &#8220;Nada substitui um controle social realizado de forma participativa entre os diferentes atores que compõem uma sociedade tão desigual como a nossa. Sem controle social, ficamos à mercê das cláusulas e dispositivos contratuais que, às vezes, só existem por questões legais, mas têm pouco impacto na melhoria da gestão desses espaços”.</p>



<p>Quem vai medir, na prática, se a concessionária está cumprindo o contrato — incluindo o cuidado com a vegetação — é o Verificador Independente. É ele quem vai conduzir inspeções de campo, analisar os documentos entregues pela concessionária e aplicar pelo menos uma pesquisa mensal de satisfação diretamente aos usuários dos parques. &#8220;A auditoria externa realizada por uma instituição independente é um instrumento interessante, mas tudo depende de como se realizará essa verificação, dos critérios adotados e do rigor metodológico”, diz Anselmo.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Meio ambiente responde só por 12% da nota de desempenho</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">O Sistema de Mensuração de Desempenho — o mecanismo que determina quanto a concessionária paga de outorga variável à Prefeitura — avalia o trabalho da empresa por meio de três grandes indicadores: conformidade com obrigações contratuais, com peso de 10% na nota final; disponibilidade de infraestrutura e serviços, com peso de 60%; e experiência do usuário, com peso de 30%. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Dentro do indicador de disponibilidade, há cinco sub-indicadores com peso igual — infraestrutura física, limpeza, meio ambiente, segurança patrimonial e prevenção de incêndios — cada um representando 20% desse indicador. Como o indicador de disponibilidade pesa 60% da nota final, cada sub-indicador equivale a 12% da avaliação total. Assim, o cuidado com áreas verdes, gramados e arborização pesa apenas 12% na nota que define o desempenho da concessionária — o mesmo peso que a limpeza, a segurança e a prevenção de incêndios. A infraestrutura física e a limpeza juntas respondem por 24% — o dobro do que responde o meio ambiente.</span></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Vegetação dos parques está sob risco?</strong></h3>



<p>A pesquisa realizada pelo Grupo de pesquisa Ecologia e Análises Socioambientais mostrou que o sombreamento e a área verde estão entre os principais motivos para a visita aos parques concedidos – chegando a 95,9% no Parque da Jaqueira. Mas o professor alerta que, no modelo de concessão, o verde cumpre um papel diferente do que cumpre para o poder público. &#8220;A cobertura vegetal é apenas uma variável de atratividade de pessoas e consumidores desses espaços, pois não é uma preocupação real do ator privado executar o papel do poder público&#8221;, explica. &#8220;O objetivo principal é dinamizar o uso do parque para garantir maior retorno financeiro. Existe o risco de modificação da cobertura vegetal em detrimento da instalação de infraestruturas que possam trazer retorno financeiro de curto prazo.&#8221;</p>



<p>Na pesquisa do grupo do IFPE, 47% dos entrevistados pelos pesquisadores acreditam que a concessão não trará melhorias na cobertura vegetal. Ainda na fase de consulta pública, o grupo do IFPE sugeriu inserir no contrato a responsabilidade da concessionária por &#8216;risco de dano ambiental que venha a descaracterizar a função principal do parque enquanto espaço verde urbano e/ou reduzir a capacidade de provisão de serviços ecossistêmicos&#8217;.</p>



<p>A sugestão foi acatada e está registrada na subcláusula 9.2.7, alínea g, do Anexo I do contrato. Na prática, isso significa que a Viva Parques responde legalmente se suprimir vegetação ou degradar o ambiente dos parques — mas a cláusula não define métricas preventivas nem obriga a medir cobertura vegetal ou temperatura ao longo da concessão. É um instrumento de responsabilização pelo dano, não de vigilância antes que ele ocorra.</p>



<p>Esse é um ponto que merece ainda mais atenção quando a própria Secretária de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento autorizou, recentemente, a derrubada de 41 árvores no parque Dona Lindu para a construção de quiosques. Em nota enviada para a Marco Zero, a prefeitura informou que como medida compensatória serão plantadas 82 árvores no próprio parque. Mudas que irão demorar anos para crescer, enquanto as áreas de comércio nos parques sob gestão privada seguem aumentando.</p>
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		<title>Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 May 2026 14:42:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[“coisa de rico”]]></category>
		<category><![CDATA[boa viagem]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[Distinção social Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[elites recifenses]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[tese de doutorado]]></category>
		<category><![CDATA[Zona Norte Recife]]></category>
		<category><![CDATA[Zona Sul Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini Cooper, por exemplo. Já o rico da Zona Sul mora num apartamento com nome em inglês e vista para o mar de Boa Viagem, troca de SUV com regularidade, frequenta restaurantes badalados, decora a casa com arquiteto famoso e valoriza áreas comuns instagramáveis no condomínio. </p>



<p>São dois estilos de vida e duas formas de disputa simbólica entre as elites recifenses.<br><br>É isso que mostra a tese de doutorado <em>Classes e classificações na cidade: disputas simbólicas entre frações de elite do Recife</em>, do sociólogo Bernardo Fortes de Moura Arruda, defendida em junho de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Durante a pesquisa para a tese, ele realizou 80 entrevistas — 49 com moradores da Zona Norte e 31 da Zona Sul — e selecionou 50 para análise. Todos as pessoas entrevistadas integram o 10% mais rico do Recife, e algumas o 1%. Entre os entrevistados, há um grande empresário dos setores de energia, cimento e logística, integrante de família tradicional pernambucana de origem açucareira; e uma empresária e filantropa reconhecida pela Forbes, ex-bailarina e fundadora de projeto social de arte e educação.<br><br>O que Bernardo Fortes encontrou na pesquisa mostra que para a elite recifense a fronteira entre a Zona Norte e a Zona Sul não é apenas geográfica. &#8220;O ponto não é dizer que a Zona Norte é mais culta ou que a Zona Sul é apenas ostentação&#8221;, ressalta o sociólogo. &#8220;O que a tese mostra é que esses rótulos são usados na disputa entre as próprias elites. Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem: orla, prédios caros, consumo e visibilidade social. A Zona Norte, por sua vez, precisa narrar seu prestígio por outros caminhos: tradição, memória, arborização, casario, discrição e vida cultural”. Confira a entrevista abaixo.</p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>A tese mostra que essa disputa entre ZN e ZS é assimétrica: a Zona Norte ataca, a Zona Sul defende. Por que o indivíduo da Zona Norte tem mais interesse em manter essa fronteira?</strong></p>



<p><strong>Bernardo Fortes &#8211; </strong>A assimetria existe porque Zona Norte e Zona Sul não disputam prestígio pelo mesmo critério. Boa Viagem consolidou-se como símbolo visível de êxito econômico: orla, imóveis de luxo, hotéis, restaurantes e consumo de alto padrão. Parte do seu prestígio já está inscrita na paisagem. Morar perto ou diante da praia funciona, nesse imaginário, como emblema de ascensão social.</p>



<p>A Zona Norte também concentra riqueza, mas costuma narrar sua distinção por outros sinais: tradição familiar, antiguidade da ocupação, memória dos antigos arrabaldes do Capibaribe, casarões, sítios e uma sofisticação mais discreta, associada à herança aristocrática e açucareira do Recife. Esses atributos, porém, não aparecem na tese como virtudes naturais da Zona Norte, mas como recursos simbólicos usados por suas elites para disputar prestígio com a Zona Sul.</p>



<p>Por isso, o morador da Zona Norte tende a investir mais nessa fronteira simbólica. A Zona Sul aparece, em muitos depoimentos, como lugar do dinheiro visível, do consumo e da ostentação; a Zona Norte, como espaço da tradição, da discrição, do refinamento cultural e do “bom gosto”. Não é uma descrição objetiva dos dois espaços, mas uma forma de classificação social. A Zona Sul precisa explicar menos seu prestígio porque ele é mais imediatamente reconhecível. A Zona Norte, ao contrário, reafirma sua legitimidade histórica, cultural e moral para se diferenciar do brilho econômico associado à orla.</p>



<p><strong>Gilberto Freyre descreve a urbanização do Recife como um processo traumático, como o estilhaçamento de uma ordem que mantinha os antagonismos sociais em equilíbrio &#8220;à sombra do engenho&#8221;. Esse trauma segue operando nas fronteiras simbólicas entre as zonas do Recife de hoje?</strong></p>



<p>Em Gilberto Freyre, o sobrado urbano aparece como um desdobramento da crise da antiga ordem da casa-grande e senzala. Ao contrário do engenho, que funcionava como espaço relativamente fechado e controlado, a cidade surge como ambiente marcado pela circulação intensa, pela mistura social e pela perda daquele domínio patriarcal mais direto sobre a vida cotidiana. Por isso, o sobrado frequentemente aparece em Freyre quase como uma arquitetura defensiva, hostil à rua e à imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p>Ecos desse processo ajudam a compreender também a formação histórica das áreas de prestígio do Recife contemporâneo. A Zona Norte tradicional começa a se consolidar ainda no século XIX, quando os antigos arrabaldes ligados ao Capibaribe passam a atrair setores das elites interessados em formas de vida mais rarefeitas e protegidas da intensidade social do centro portuário e comercial da cidade, marcado pela circulação de trabalhadores, comércio popular, escravizados, ex-escravizados e pela própria dinâmica anônima da urbanização. Já Boa Viagem e a Zona Sul surgem mais tarde sob outra lógica. A valorização da orla se associa à modernização da cidade, ao automóvel, à verticalização e a um imaginário cosmopolita ligado à vida marítima e ao consumo. Ainda assim, permanece a busca por formas urbanas relativamente seletivas de convivência.</p>



<p>Mas a própria trajetória de Boa Viagem produz uma contradição importante. À medida que a praia se populariza e se transforma no maior espaço público da cidade, atravessado por circulação metropolitana intensa, parte das elites passa a desenvolver uma relação mais ambivalente com aquele espaço. Boa Viagem continua extremamente valorizada como paisagem e símbolo imobiliário de prestígio, mas há uma tendência de deslocamento da sociabilidade das frações mais altas para praias mais seletivas do litoral sul e outros espaços percebidos como mais controlados. Nesse sentido, o trauma descrito por Freyre talvez não sobreviva como permanência direta da casa-grande, mas como continuidade de uma busca recorrente das elites recifenses por espaços protegidos da massificação, da circulação excessiva e da imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p><strong>Você escreve que o mercado imobiliário de alto padrão no Recife atua como um &#8216;operador simbólico&#8217; — não apenas refletindo, mas produzindo as fronteiras entre as elites. Os incorporadores fazem isso conscientemente ou simplesmente captam o que já está no ar?</strong></p>



<p>O mercado imobiliário não cria essas fronteiras sociais sozinho, porque elas já existem historicamente no Recife, mas ele também não atua de forma neutra. Os incorporadores captam desejos, hierarquias e imagens de prestígio já presentes entre as elites e os transformam em mercadoria. O imóvel de alto padrão raramente é vendido apenas como metragem ou localização. O mercado vende pertencimento social junto com o apartamento e o bairro.<br><br>Essa dinâmica aparece na própria forma como determinadas áreas da cidade são apresentadas. Em Boa Viagem, o discurso costuma enfatizar modernidade, consumo, vista para o mar e vida cosmopolita. O edifício na orla funciona quase como um troféu urbano. Já nos bairros valorizados da Zona Norte, o apelo tende a passar pela tradição, pela autenticidade histórica, pela discrição e por referências ao imaginário aristocrático ligado ao açúcar e aos antigos arrabaldes do Capibaribe, algo que muitas vezes aparece até nos nomes dos edifícios.<br><br>Não se trata necessariamente de uma ação totalmente consciente ou planejada para produzir identidades urbanas. O processo é mais difuso. O mercado lê aspirações sociais já existentes e, ao transformá-las continuamente em linguagem de venda, acaba ajudando a reforçar e organizar essas fronteiras simbólicas da cidade.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/foto_horizontal_dupla-300x180.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites
</p>
	                
                                            <span>Foto espelhada de Bernardo Fortes/Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você mostra que os ricos da Zona Norte têm apreço pela caminhabilidade e pela arborização, mas isso em bairros que de certa forma têm uma circulação controlada. Já as elites da Zona Sul preferem o condomínio fechado, o shopping. Ambos se unem pelo medo do centro, que seria um espaço público mais propício ao encontro com outras classes sociais? Você acha que a decadência do centro do Recife está ligada também a um abandono do centro pelas elites?<br></strong><br>Sim, acho que existe uma relação importante entre esses processos. Embora a Zona Norte valorize caminhabilidade, casario, arborização e certa ideia de convivência urbana mais aberta, isso geralmente acontece em áreas relativamente protegidas, com circulação social mais previsível e padrões de convivência mais homogêneos. Nesse sentido, a própria valorização da rua e da circulação a pé parece depender também de uma percepção de segurança e familiaridade social do espaço.<br><br>Isso ajuda a entender uma contradição importante apreendida pela tese. A Zona Norte costuma se apresentar como espaço mais aberto à convivência urbana e à mistura social do que a Zona Sul. Mas, na prática, muitas dessas áreas continuam funcionando dentro de limites relativamente seletivos: espaços públicos bastante frequentados, como a Praça de Casa Forte ou eventos tradicionais do Poço da Panela, são abertos, mas frequentados majoritariamente por pessoas que compartilham códigos sociais parecidos, o que também ajuda a produzir uma sensação maior de familiaridade e conforto na convivência cotidiana.<br><br>Boa Viagem, por outro lado, possui intensa circulação urbana, comércio de rua e uma praia amplamente frequentada. O ponto não é ausência de mistura social, mas formas seletivas de uso desses espaços, como a ocupação mais restrita de certos trechos da praia e o deslocamento do lazer para praias mais exclusivas do litoral sul.<br><br>Nesse sentido, o centro tradicional do Recife acaba representando justamente o oposto dessa lógica: um espaço marcado pela circulação intensa, pelo comércio popular e por encontros urbanos menos controláveis entre grupos sociais distintos. Esse afastamento progressivo das elites em relação ao centro é um dos fatores que ajudam a explicar sua tendência de decadência. Quando escolas tradicionais, cinemas de rua, equipamentos de consumo, galerias, shoppings, investimentos privados e parte da atenção pública se deslocam para a Zona Norte e para a Zona Sul, o centro perde funções sociais, prestígio e capacidade de atrair recursos. Aos poucos, deixa de ser percebido como espaço de moradia, lazer e consumo das elites e passa a ser associado sobretudo ao comércio popular, à circulação intensa e à imprevisibilidade urbana.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam.</p>
</div>


<p><strong>A simpatia pela esquerda que aparece em alguns entrevistados da ZN é uma posição política efetiva ou mais um marcador de refinamento cultural que distingue a Zona Norte da Zona Sul?</strong></p>



<p>Pode ser as duas coisas. Em alguns entrevistados da Zona Norte, existe um entusiasmo vivido com pautas progressistas, como direito à cidade, preservação do patrimônio histórico, valorização da diversidade e preocupação com minorias. Mas essas pautas também aparecem ligadas a uma estética e a uma forma específica de viver a cidade. Defender ruas arborizadas, casarões antigos, caminhabilidade, vida cultural, convivência urbana e certa mistura social faz parte de um modo de experimentar a Zona Norte e de diferenciá-la simbolicamente da Zona Sul.<br><br>Nesse sentido, a valorização da diversidade também funciona como marcador de refinamento moral e distinção entre frações da elite. Isso não significa que seja apenas pose. Pode haver esforço real de convivência e valorização da diversidade. O ponto é que essa convivência frequentemente permanece seletiva, sem necessariamente romper as hierarquias sociais existentes.</p>



<p><strong>Moradores do Poço da Panela resistiram tanto à construção de um Atacado dos Presentes quanto à de uma UPA no bairro. Ambos estabelecimentos eram voltados a públicos populares. Os argumentos usados foram urbanísticos e ambientais: o impacto no trânsito, a preservação do rio, o microclima. Esses episódios podem revelar que o &#8220;estilo de vida&#8221; que as classes altas da Zona Norte dizem defender é, na prática, também uma forma de gestão do território para manter afastados os serviços e os públicos que não pertencem ao seu círculo simbólico?</strong></p>



<p>Esses episódios sugerem que o estilo de vida defendido no Poço da Panela envolve não apenas preocupações urbanísticas e ambientais legítimas, mas também uma tentativa de preservar a imagem social do bairro, suas hierarquias internas e suas regras implícitas de convivência. A defesa do patrimônio, da arborização, do microclima e da tranquilidade se liga a uma forma específica de viver a Zona Norte: um espaço valorizado justamente por parecer mais calmo, histórico, pouco adensado e socialmente previsível. Quando chegam equipamentos voltados a públicos populares, o incômodo não se reduz ao trânsito ou ao impacto ambiental. Também aparece o receio de que o bairro perca parte do perfil social e da atmosfera simbólica que sustentam seu prestígio.</p>



<p>Como sugere o sociólogo Pierre Bourdieu, a intolerância estética pode funcionar como uma das barreiras mais fortes entre classes. Nesse sentido, preocupações aparentemente neutras com paisagem, circulação ou preservação urbana acabam funcionando também como mecanismos de filtragem social: delimitam quem circula, quem consome e quais formas de presença parecem “adequadas” ao bairro, sem que isso precise ser formulado diretamente em termos de classe.</p>



<p><strong>A tese mostra que Boa Viagem nasceu como espaço de elite porque só era acessível de carro e o automóvel funcionava como filtro social que definia quem podia chegar lá. O condomínio fechado e o shopping herdaram essa lógica?</strong><br><br>A lógica é parecida: transformar acesso em distinção. No início, o automóvel filtrava quem podia chegar a Boa Viagem e convertia distância em privilégio. Depois, condomínio fechado e shopping atualizaram esse filtro por outros meios: portaria, segurança, estacionamento, consumo e controle da circulação. Isso aparece até na relação ambígua com o transporte público: muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam. O interessante é que essa recusa quase não precisa ser justificada: certos meios de transporte já aparecem previamente fora do horizonte cotidiano de uso das elites locais.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, <em>habitus</em> é o conjunto de disposições incorporadas — agir, pensar, perceber o mundo — que uma pessoa adquire ao longo da vida pela socialização, e que orienta seu comportamento de forma quase automática, sem necessidade de reflexão consciente.</p>
<p>&nbsp;</p>
        </div>
    </div>



<p><br><strong>O caso do entrevistado &#8220;Guilherme&#8221; mostra que a família dele abria mão de conforto material para mantê-lo nas escolas <em>certas</em> do bairro das Graças: a escola não transmite apenas conhecimento, mas repertório, rede e <em>habitus</em>. Isso vale para as duas zonas? Tanto a elite da Zona Norte quanto a da Zona Sul investem na escola como rito de inserção ou há uma diferença na forma como cada uma valoriza e usa a escola como instrumento de reprodução simbólica?<br></strong><br>A escola aparece na tese menos como simples transmissão de conteúdo e mais como espaço de formação de redes, repertórios, modos de falar e reconhecer pertencimentos sociais. No discurso dos entrevistados, Instituto Capibaribe e Apoio tendem a aparecer como o ideal de uma formação mais crítica, cultural e intelectualizada, muito associada ao imaginário da Zona Norte. Damas e São Luís, embora tradicionais e elitizados, surgem de forma mais nuançada, ligados a prestígio histórico e formação clássica. Já o Santa Maria aparece com mais frequência como símbolo mais direto de fechamento social e reprodução de classe.<br><br>Mas essa divisão não é mecânica. Mesmo entre moradores da Zona Sul aparecem pais e egressos que reconhecem esse elitismo e evitam o Santa Maria justamente por considerá-lo fechado demais. Ou seja, a escola funciona como rito de inserção nas elites, mas também como espaço onde as famílias escolhem que tipo de elite querem formar e a qual fração simbólica desejam pertencer.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Cunhado pelo sociólogo americano Richard Peterson nos anos 1990, o conceito de <strong>onivorismo cultural</strong> descreve o fenômeno pelo qual as elites contemporâneas passaram a consumir cultura de forma eclética — misturando erudito e popular —, em substituição ao antigo esnobismo que rejeitava tudo que fosse considerado de baixo status.</p>
        </div>
    </div>



<p><strong>A elite da Zona Norte frequenta o forró de Seu Vital, valoriza o artesanato popular e se orgulha de ver os morros pela janela. Esse &#8220;onivorismo cultural&#8221; aproxima realmente as classes altas da ZN das classes populares? Há alguma diferença real na relação das elites recifenses da ZN e da ZS com as classes populares ou é apenas a narrativa que cada uma constrói?</strong></p>



<p>O que aparece na tese não é exatamente uma dissolução das fronteiras de classe pelo “onivorismo cultural”, mas uma forma específica de relação com o popular que também funciona como distinção. Parte das elites da Zona Norte valoriza o forró, o artesanato, os mercados e até a proximidade visual com os morros como sinais de autenticidade cultural e enraizamento urbano.<br><br>Mais do que uma diferença objetiva e absoluta em relação à Zona Sul, isso aparece como parte de uma disputa simbólica interna às próprias elites recifenses. Como o prestígio econômico e imobiliário de Boa Viagem é mais imediatamente reconhecível, frações da Zona Norte tendem a investir com mais intensidade em critérios morais, culturais e estéticos de legitimação, contrapondo tradição, autenticidade e “bom gosto” ao dinheiro percebido como excessivamente visível ou ostentatório.<br><br>Mas essa aproximação com o popular permanece seletiva e hierarquizada. O Bar de Seu Vital revela bem essa ambiguidade: para moradores populares, é comércio cotidiano; para setores das classes médias e altas, aparece como espaço “autêntico” de sociabilidade.<br><br>Eventos como o Segura o Talo [bloco de carnaval da Zona Norte e arrasta milhares de pessoas, principalmente das classes populares] ajudam a mostrar o limite dessa abertura. Quando o popular deixa de aparecer como folclore, tradição ou autenticidade controlável e passa a ocupar intensamente áreas valorizadas da Zona Norte, surgem desconfortos e mecanismos de rejeição. Ou seja, essa boa vontade cultural funciona como trunfo simbólico na disputa entre frações da elite, mas não significa, necessariamente, maior igualdade concreta nas relações de classe.</p>



<p><strong>Os entrevistados “Jaciara” e “José” culpam a si mesmos pelo isolamento social no bairro das Graças e não parecem enxergar as barreiras simbólicas que os excluem. O que sugere que essas barreiras se tornam visíveis para quem já está perto o suficiente, mas para quem está mais distante, elas simplesmente não aparecem. A disputa que a tese descreve é uma briga interna entre frações da elite, ou próximas dela, ou isso se irradia para além das classes altas do Recife?</strong></p>



<p>Esses códigos funcionam como instrumentos de diferenciação e, ao mesmo tempo, como barreiras de entrada. Inicialmente, ajudam as diferentes frações da elite a marcar distinções entre si, definindo formas legítimas de morar, circular, consumir e se comportar. Mas, ao criar etiquetas sociais e códigos de pertencimento cada vez mais específicos, acabam também dificultando a integração de quem ascende socialmente sem ter sido socializado nesses universos.<br><br>Isso vale tanto para a Zona Norte quanto para a Zona Sul. Ambas possuem códigos próprios de pertencimento ligados a formas de vida burguesas, embora valorizem aspectos diferentes. Na Zona Sul, aparecem com mais força códigos ligados à apresentação social, ao consumo de alto padrão, à circulação em espaços privados e à etiqueta urbana das elites. Já em setores da Zona Norte, aparece no discurso uma valorização maior da cultura, da diversidade, da vida de rua, do patrimônio e de repertórios vistos como mais alternativos ou intelectualmente sofisticados. Isso não significa que a Zona Sul não tenha cultura, nem que a Zona Norte realize plenamente essa abertura. Trata-se de imagens construídas na própria disputa entre as zonas.<br><br>Por isso, não basta comprar um apartamento em Casa Forte ou na avenida Boa Viagem. A escolha do endereço não garante integração social. Entrevistei, por exemplo, novos ricos da Zona Sul que moram na avenida Boa Viagem, mas cuja vida social quase não acontece ali: os amigos permanecem em outros bairros, os vínculos seguem ligados aos lugares de origem e a circulação cotidiana continua organizada por redes anteriores à ascensão.<br><br>Isso produz um efeito importante na própria reprodução de classe. Como os pais permanecem parcialmente isolados, também têm mais dificuldade de inserir os filhos nas redes de amizade, sociabilidade e reconhecimento típicas desses grupos. O resultado é que a família consegue chegar ao espaço valorizado, mas nem sempre transforma essa chegada em pertencimento pleno e duradouro. É por isso que estudar os ricos ajuda a compreender as classes sociais como um todo. As barreiras criadas no topo não afetam apenas quem já pertence à elite; elas também moldam os caminhos, os limites e as frustrações de quem tenta ascender.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV.jpg" alt="Esta foto mostra uma vista aérea de uma área urbana litorânea, com vários prédios altos e modernos alinhados paralelamente à costa. As construções são predominantemente brancas e cinzas, com variações sutis de cor e design. À esquerda, há uma faixa verde com árvores que acompanha a avenida principal, enquanto ao fundo se estende o mar calmo sob um céu parcialmente nublado." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pesquisador explica que Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você escreve na tese que perguntas diretas sobre patrimônio e renda geravam desconforto ou eram simplesmente omitidas. Você então passou a medir o capital econômico também por perguntas indiretas, como a comparação entre restaurantes de preferência (Nez Bistro X Ilha da Kosta, por exemplo). O que essa mudança na metodologia da pesquisa revelou?</strong></p>



<p>Quando passei a observar o capital econômico por meio de sinais indiretos, percebi que a posição social aparecia com mais clareza nos estilos de vida do que nas declarações formais de renda. Poucos entrevistados se recusavam totalmente a falar sobre patrimônio ou ganhos, sobretudo porque essas perguntas ficavam para o fim, depois de duas ou três horas de conversa. Ainda assim, o desconforto era nítido. Em alguns casos, esse tipo de pergunta funcionava quase como um sinal de alerta: mesmo feita ao final da entrevista, podia dificultar a indicação de novos interlocutores ou fechar portas para contatos futuros.<br><br>Por isso, comecei a observar outros elementos: o prédio onde a pessoa morava, a escola em que estudou, viagens, carro, casa de praia e padrões de consumo. Muitas vezes, em vez de perguntar diretamente o valor do imóvel, eu procurava depois anúncios de apartamentos no mesmo prédio para estimar o padrão econômico daquele universo.<br><br>A comparação entre Nez Bistrô e Ilha da Kosta ajudou a mostrar isso. A diferença não estava apenas no preço, mas no tipo de gosto mobilizado. Alguns valorizavam fartura, quantidade e sensação de “valer o preço”; outros valorizavam ambiente, curadoria, apresentação, discrição e experiência gastronômica. Esse contraste revelava que a ascensão econômica não apaga automaticamente padrões de socialização anteriores: o modo como cada entrevistado avaliava um restaurante também indicava sua relação com o consumo, com a distinção e com os códigos de pertencimento daquele universo social. No fim, a pesquisa mostrou que o dinheiro, entre essas frações da elite, raramente aparece sozinho. Ele surge incorporado em gostos, estilos de vida, formas de circulação pela cidade e maneiras socialmente legítimas de consumir e demonstrar pertencimento.<br><br><strong>Com base no que você escreve do que o sociólogo Erving Goffman chama de &#8220;gestão da impressão&#8221;, você mesmo passou por um processo de adaptação da sua performance ao longo do campo: trocando o terno pela informalidade, ajustando o vocabulário, modulando gestos e tom de voz para se apresentar como alguém de dentro. Mas a tese também mostra que seus entrevistados fazem exatamente isso o tempo todo: gerenciam a impressão que causam, escolhem o que mostrar e o que esconder, ainda mais diante de um sociólogo quando eles sabiam que estavam sendo estudados. Como você lidou com essa dupla encenação, a sua e a deles?</strong></p>



<p>A pesquisa me fez perceber que a entrevista nunca era um espaço totalmente espontâneo. Eu também estava sendo observado e classificado o tempo inteiro. No início do campo, eu adotava um formalismo que imaginava transmitir seriedade, mas que muitas vezes produzia o efeito contrário: criava distância e pouca identificação.<br><br>Com o tempo, percebi que precisava construir uma imagem de maior proximidade para inspirar confiança. Passei então a modular conscientemente minha própria apresentação: um visual mais casual, mas alinhado aos códigos de discrição valorizados naquele universo, evitando parecer excessivamente formal ou “over”, como alguns entrevistados diziam. Também ajustava linguagem, referências e formas de interação. Falava de viagens internacionais, do bairro onde moro, das escolas em que estudei e de pessoas de frações da elite que eu conhecia. Comentava restaurantes, experiências urbanas e referências culturais que funcionavam como sinais reconhecíveis de familiaridade social.<br><br>Mesmo assim, meu <em>habitus</em> de estudante de humanas frequentemente gerava desconfiança. Muitos entrevistados associavam pesquisadores e intelectuais a uma postura hostil em relação às elites ou ao risco de serem retratados de forma caricatural. Isso fazia com que controlassem bastante a entrevista. Uma entrevistada que está entre o 1% mais rico chegou, por exemplo, a pedir o questionário antes da conversa para saber exatamente o que seria perguntado.<br><br>Então existia uma dupla gestão da impressão. Eu tentava construir uma imagem suficientemente próxima para reduzir desconfianças e conseguir acesso mais profundo ao campo; eles, por sua vez, também administravam cuidadosamente a imagem que produziam diante de um sociólogo. Em vez de tratar isso apenas como um obstáculo metodológico, a pesquisa passou a incorporar essa própria encenação como dado sociológico. Afinal, a maneira como esses grupos controlam sua exposição também revela inseguranças, estratégias de distinção e mecanismos de fechamento social.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como as elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.</p>
</div>


<p><strong>Você declara explicitamente, e mais de uma vez, que a pesquisa foi conduzida com seriedade e respeito em contraposição a produções que tratam as classes abastadas pelo viés do estereótipo e da ridicularização. E você cita como exemplo desse estereótipo o documentário <em>Um Lugar ao Sol</em>, de Gabriel Mascaro. Em um país tão desigual como o Brasil, não dá vontade de alfinetar essas classes abastadas?</strong></p>



<p>A desigualdade brasileira obviamente produz indignação e tensões reais. Mas transformar a pesquisa em caricatura moral empobrece a análise sociológica. Meu objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como essas elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.<br><br>O ponto central da pesquisa era justamente identificar mecanismos de fechamento social que muitas vezes passam despercebidos. A tese mostra que dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites. Existem códigos de sociabilidade, repertórios culturais, formas de consumo e redes de reconhecimento que também funcionam como barreiras de entrada.<br>Isso desloca a discussão da simples oposição entre “ricos e pobres” para algo mais complexo: como grupos socialmente privilegiados constroem fronteiras simbólicas e reproduzem pertencimento entre gerações. Assim, entender esses mecanismos me parecia sociologicamente mais importante do que simplesmente produzir uma sátira moral das classes altas.</p>



<p><strong>E por que você acha que a sociologia feita no Brasil ainda não estuda as classes altas com mais recorrência?</strong><br><br>Existe, primeiro, uma dificuldade metodológica real. Elites controlam fortemente sua privacidade e possuem maior capacidade de selecionar quem entra ou não em seus circuitos sociais. Conseguir acesso prolongado a esse universo exige tempo, adaptação e construção de confiança. Mas também existe uma tradição forte da sociologia brasileira voltada para pobreza, exclusão e classes populares, o que é compreensível num país profundamente desigual. O problema é que isso às vezes produz um desequilíbrio: estuda-se muito quem sofre os efeitos da desigualdade e menos quem participa de sua reprodução cotidiana.<br><br>Além disso, pesquisar elites exige um equilíbrio difícil. Existe o risco tanto da fascinação quanto da hostilidade moral. Em muitos casos, a caricatura acaba substituindo a análise. Só que, quando a elite aparece apenas como personagem grotesco, perde-se justamente a compreensão dos mecanismos sutis e cotidianos através dos quais as desigualdades continuam sendo reproduzidas.<br><br><strong>Michel Alcoforado virou fenômeno editorial com <em>Coisa de Rico</em>, um livro que expõe, por vezes com humor, ridicularizando e em tom sarcástico, códigos e rituais das elites brasileiras. Mas há vários pontos que ressoam com o que você encontrou na tensão entre as elites da Zona Norte e da Zona Sul. Como você lê esse livro à luz da sua tese?</strong></p>



<p>Michel Alcoforado tem um mérito importante como divulgador. Ele conseguiu levar discussões sobre consumo, comportamento e distinção social para além da bolha acadêmica, mostrando a existência de códigos das classes altas que muitas vezes passam despercebidos e que são fundamentais para definir quem pertence e quem não pertence a determinados universos sociais.</p>



<p>Ao mesmo tempo, parte da academia vê limites nisso, porque a lógica da divulgação e do humor às vezes simplifica conceitos sociológicos mais complexos. Acho que o problema não é existir esse tipo de trabalho, mas parar nele. Quando a análise fica apenas na sátira dos hábitos dos ricos, corre-se o risco de transformar processos sociais profundos em mera curiosidade comportamental.</p>



<p>Minha tese tenta ir além disso. O interesse não era apenas mostrar “coisas de rico”, mas entender como gostos, estilos de vida, formas de consumo e modos de ocupar a cidade funcionam como mecanismos de pertencimento, distinção e fechamento social entre as elites recifenses. Esses códigos não apenas expressam diferenças de classe: eles também moldam a cidade e fazem dela um marcador social, capaz de classificar pessoas, bairros e formas de vida.</p>



<p>E também acho importante dizer que as elites deixaram de ser um tabu absoluto na sociologia brasileira. Existe muita coisa sendo produzida hoje. Eu recomendaria, por exemplo, trabalhos de Miqueli Michetti, Marcella Novais, Michel Nicolau, Renato Ortiz e Valdênio Freitas Meneses. Claro que ainda existe uma dificuldade metodológica real de acesso a esses grupos, mas há diferentes estratégias possíveis de pesquisa. Nem todo estudo sobre elites precisa depender necessariamente de interação direta ou entrevistas profundas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Leia a tese completa</span>

	    <p>Se você chegou até o fim dessa entrevista, é porque se interessou pelo assunto: vale a pena ler a tese completa, que é muito bem escrita e interessante. <a href="https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37944" target="_blank" rel="noopener">Está disponível aqui, no repositório da UFPB</a>.</p>
    </div>
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		<title>Parques do Recife sob concessão: bem público ou plataforma de negócios?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 16:01:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[concessão]]></category>
		<category><![CDATA[dona lindu]]></category>
		<category><![CDATA[jaqueira]]></category>
		<category><![CDATA[parques urbanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Vera Freire* Recife assiste hoje a um movimento de transferência da gestão de parte de seus parques urbanos para o setor privado. A concessão dos parques da Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu, por um prazo de 30 anos, é apresentada pela gestão municipal sob o discurso da modernização, da eficiência administrativa e da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Vera Freire*</strong></p>



<p>Recife assiste hoje a um movimento de transferência da gestão de parte de seus parques urbanos para o setor privado. A concessão dos parques da Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu, por um prazo de 30 anos, é apresentada pela gestão municipal sob o discurso da modernização, da eficiência administrativa e da redução dos custos públicos. Contudo, por trás da promessa de inovação, emerge uma questão central: até que ponto esse modelo protege o interesse coletivo e em que momento passa a transformar espaços públicos em ativos de exploração econômica?<br><br>Como aponta David Harvey, a lógica neoliberal opera por meio da “acumulação por espoliação”, convertendo bens coletivos em ativos econômicos. Nesse contexto, a concessão de áreas públicas pode representar não apenas uma mudança administrativa, mas um processo gradual de mercantilização do espaço urbano, no qual o direito à cidade cede lugar à lógica do mercado. Cabe lembrar que Harvey esteve no Recife na ocasião do debate sobre o projeto Novo Recife, em sua versão original.<br><br>A transformação da cidade em mercadoria não é um fenômeno isolado. A literatura sobre planejamento urbano há décadas aponta como a racionalidade neoliberal converte o valor de uso da cidade em valor de troca. O próprio <em>masterplan</em> da concessionária Viva Parques do Recife evidencia essa lógica ao prever unidades geradoras de caixa, exploração de publicidade, locação de espaços e estratégias de captação comercial ao longo do contrato. Ainda que o acesso permaneça formalmente gratuito, consolida-se um modelo em que a experiência plena do espaço público passa a depender, cada vez mais, da capacidade de consumir. O parque deixa de operar exclusivamente como bem coletivo e passa a funcionar também segundo a lógica do mercado, restringindo o usufruto pleno para alguns.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto sob a marquise que destinada a um bar mirante, diante do piso de eventos do Parque Dona Lindu.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Vera Freire/Cortesia</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Esse processo produz consequências sociais importantes. Em experiências semelhantes observadas em outras cidades brasileiras, o acesso não é necessariamente restringido por barreiras físicas, mas por mecanismos sutis de elitização do uso. Na pesquisa realizada para subsidiar o <em>masterplan</em> dos quatro parques, observa-se um alto índice de aceitação do modelo de concessão (95%). Ainda assim, os próprios levantamentos registram ressalvas da população em relação à cobrança de taxas e ao encarecimento do uso de determinados equipamentos. Mesmo sem uma definição clara sobre quais estruturas seriam pagas, as respostas indicavam que eventuais cobranças deveriam ocorrer apenas em equipamentos específicos e com valores acessíveis. Apesar disso, o <em>masterplan</em> não apresenta, de forma específica, quais serviços serão tarifados nem estabelece parâmetros ou referências claras para esses valores.<br><br>Na análise das sugestões e respostas da consulta pública, realizada em 2024, chama atenção o volume significativo de contribuições relacionadas ao Parque da Macaxeira, retirado desse bloco de concessão. O caso desperta interesse especialmente pela dimensão do parque, pelo patrimônio edificado em estado precário de conservação e pela evidente necessidade de requalificação e ativação de seus equipamentos e espaços.<br><br>Em contraste, os parques incluídos na concessão já apresentam uso consolidado, alta frequência e avaliação positiva por parte da população, conforme apontam as próprias pesquisas do masterplan. Além disso, estão inseridos em áreas da cidade com elevada valorização imobiliária e significativa arrecadação de IPTU. Surge, então, uma questão importante: há necessidade de conceder parques que já possuem uso ativo e reconhecimento público (a exemplo do Jaqueira e Santana), enquanto outros espaços urbanos demandam investimentos urgentes de ativação, manutenção e qualificação?</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que está previsto para os parques concedidos</span>

		<p>A Marco Zero conseguiu, via lei de acesso à informação, os <em>masterplans</em> dos quatro parques concedidos à iniciativa privada pela Prefeitura do Recife. Masterplan é um documento que define como uma área deve ser desenvolvida — o que será construído, como será operado e quais usos serão permitidos.</p>
<p><a href="https://drive.google.com/file/d/16xw7qSuqxWQVjOFht98J9QW72daTYflz/view" target="_blank" rel="noopener">Confira aqui os planos para os parques do Recife.</a></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">A comercialização do solo público</h2>



<p>A ocupação intensiva por eventos privados, a valorização excessiva de áreas comerciais e a centralidade do consumo alteram gradualmente o perfil de quem usufrui desses espaços e a forma como eles passam a funcionar no cotidiano urbano. O projeto previsto para o Parque Dona Lindu prevê quatro áreas de gastronomia: área para espetinhos, dois restaurantes que encontram-se em construção com áreas livres adjacentes para mesas e um bar sobre a marquise projetada pelo escritório do notório arquiteto Oscar Niemeyer, que futuramente ganhará o status de mirante e a melhor contemplação dos shows. Pelas dimensões apresentadas ocupam cerca de 2.000m². É extremamente necessário que as áreas passíveis de comercialização estejam claras para conhecimento e fiscalização por parte da sociedade.<br><br>Recentemente, em São Paulo, críticas feitas pelo vereador e urbanista Nabil Bonduki chamaram atenção justamente para esse deslocamento entre a promessa de qualificação do espaço público e sua crescente exploração econômica. No caso do Vale do Anhangabaú, denúncias e fiscalizações relacionadas ao modelo de concessão levaram a Prefeitura de São Paulo a iniciar o processo de rompimento contratual com a empresa responsável. O problema, portanto, não é apenas jurídico ou administrativo; é essencialmente político. Trata-se de discutir quem gere os espaços públicos e para quem eles passam a funcionar.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/" class="titulo">Concessão privada de parques é &#8220;elitizar o espaço público&#8221;, alerta urbanista Nabil Bonduki</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quem fiscaliza?</strong></h2>



<p>No Recife, o debate ganha contornos ainda mais delicados diante da ausência de mecanismos robustos de controle social. Embora a concessão seja um instrumento previsto legalmente, o modelo adotado pela prefeitura concentra a fiscalização no chamado Verificador Independente, uma “empresa ou consórcio de empresas para auxiliar o poder concedente no acompanhamento e fiscalização da execução deste contrato”, conforme descreve a PCR ao responder uma sugestão da audiência sobre “a formação de um comitê fiscalizador paritário, com usuários/moradores do entorno do parque, profissionais atuantes no espaço público e concessionária”.<br><br>A questão central é que o controle técnico ou grupo consultivo não substitui a gestão democrática. Envolver os usuários junto aos pesquisadores do espaço público da academia, entidades sem fins lucrativos da área do urbanismo e ambiental, além de representante da concessionária e da prefeitura é essencial para a permanente participação democrática.<br><br>É urgente a devida formação do Verificador Independente, o qual o edital da concessão prevê até cinco anos para sua instauração. Sem acompanhamento social imediato e contínuo, decisões sobre usos, eventos, ocupações e investimentos tendem a responder prioritariamente à lógica da rentabilidade, reduzindo a capacidade coletiva de interferir nos rumos desses espaços e em conflito com o princípio da gestão democrática prevista pelo Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001).</p>



<h3 class="wp-block-heading">Disputa sobre o significado do espaço público</h3>



<p>O debate sobre as concessões, portanto, não se restringe à eficiência administrativa. Ele envolve diretamente a concepção de cidade que está sendo produzida. Parques urbanos não são apenas equipamentos de lazer e espaços públicos não são feitos para dar lucro: são infraestruturas sociais, ambientais e democráticas. Funcionam como lugares de encontro, convivência, permanência e construção da vida coletiva, especialmente em cidades marcadas por profundas desigualdades socioespaciais como a cidade do Recife.<br><br>Esse cenário confronta diretamente princípios historicamente defendidos pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), como a gestão democrática da cidade, a justiça socioambiental e a defesa do espaço público como direito coletivo. O alerta feito por arquitetos, urbanistas e entidades da sociedade civil é simples: a cidade não pode ser administrada exclusivamente como uma empresa, onde a eficiência econômica se sobrepõe ao direito à convivência, ao lazer cotidiano e à diversidade de usos sociais.<br><br>Além disso, chama atenção a ausência, no masterplan, de diretrizes mais consistentes voltadas à qualificação ambiental dos parques. Em um contexto de emergência climática, esses espaços não podem ser tratados apenas como áreas de recreação ou ativos econômicos. Parques urbanos são infraestruturas verdes fundamentais para a resiliência das cidades.<br><br>A discussão sobre os parques, no fundo, revela uma disputa mais ampla sobre o significado do espaço público contemporâneo. A concessão não pode se transformar em um cheque em branco para a captura privada de valor sobre bens coletivos. O que está em jogo é a preservação do caráter público da cidade e a garantia de que espaços como a Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu continuem pertencendo, de fato, à população recifense.<br><br>A pergunta que permanece é decisiva: os parques, assim como outros possíveis espaços públicos, continuarão sendo territórios de direitos, convivência igualitária e vida pública ou serão progressivamente convertidos em plataformas de negócios urbanos?</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Vera Freire</strong> é presidente em Pernambuco do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/PE). Arquiteta e urbanista, é mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE e docente da Unicap.</p>
    </div>
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		<title>O que muda na vida das pessoas da periferia quando uma linha de ônibus deixa de existir</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2026 19:12:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[arthur lungren ii]]></category>
		<category><![CDATA[grande recife]]></category>
		<category><![CDATA[grande recife consorcio de transportes]]></category>
		<category><![CDATA[linhas de ônibus]]></category>
		<category><![CDATA[mirueira]]></category>
		<category><![CDATA[Paulista]]></category>
		<category><![CDATA[terminal integrado da macaxeira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem tem carro e mora nos bairros centrais das capitais não costuma se preocupar quando lê algo sobre mudanças em uma linha de ônibus qualquer que circula na periferia. A distância, mais social que geográfica, não permite que pessoas de classe média imaginem o quanto uma decisão dessas &#8211; sem consulta aos prinicipais interessados &#8211; [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem tem carro e mora nos bairros centrais das capitais não costuma se preocupar quando lê algo sobre mudanças em uma linha de ônibus qualquer que circula na periferia. A distância, mais social que geográfica, não permite que pessoas de classe média imaginem o quanto uma decisão dessas &#8211; sem consulta aos prinicipais interessados &#8211; atinge e muda a rotina de vida de milhares de homens e mulheres que precisam do transporte coletivo todos os dias. Recentemente, a retirada das linhas Arthur Lundgren II/TI Macaxeira e Mirueira/TI Macaxeira gerou uma série de reclamações, principalmente de moradores dos bairros de Paratibe e Arthur Lundgren I que precisam ir até as zonas norte e oeste do Recife.</p>



<p>Primeiro, vamos falar das alterações para o leitor se situar.</p>



<p>De acordo com o consórcio Grande Recife, a linha 1902 (Mirueira/TI Macaxeira) possuía dois ônibus e transportava, diariamente, 950 passageiros. Essa linha passou a se chamar TI Abreu e Lima/Mirueira, obrigando as pessoas que precisam ir até o terminal integrado da Macaxeira, na zona norte da capital, a usar a linha 1906 (TI Pelópidas/ TI Macaxeira via Mirueira), que a assessoria do consórcio de transporte diz ter um tempo de deslocamento de 20 a 25 minutos. Se quiserem ir até o terminal integrado, de Abreu e Lima, a viagem duraria entre 40 e 50 minutos.</p>



<p>O segundo caso foi a alteração da linha 1948 (Arthur Lundgren II/TI Macaxeira), que deu lugar à TI Abreu e Lima/Arthur Lundgren II, que contava com quatro veículos e atendia todos os dias 2.337 passageiros dos bairros Arthur Lundgren II, Arthur Lundgren I, Paratibe, Aurora e Jardim Paulista Baixo. Assim, quem não mora em Arthur II ficou sem uma segunda opção para ir trabalhar. A nova linha circula apenas no bairro, deixando as comunidades vizinhas atendidas apenas por linhas que levam ao terminal Pelópidas da Silveira, na rodovia PE-15.</p>



<p>A aridez dos parágrafos acima pode dar a falsa impressão de que esta reportagem diz respeito a detalhes técnicos do sistema de transporte rodoviário da metrópole. A partir de agora, será possível entender como essas decisões mexe até com o sono de quem vive nesses bairros.</p>



<p>Cada morador sente o impacto de uma maneira diferente. Lorena Torres, assistente administrativa, de 27 anos, mora em Paratibe e há seis anos trabalha numa empresa na zona norte do Recife. Antes, para chegar no trabalho às 8h, saía de casa por volta das 6h40min, 6h50min, no máximo. Com as mudanças das linhas, passou a acordar mais cedo, pois tem de sair às 6h em ponto, qualquer minuto perdido gera um efeito dominó de atrasos.</p>



<p>Quando a linha Arthur II/TI Macaxeira estava em atividade, Lorena pegava dois ônibus e passava por apenas um terminal de integração para pegar outro ônibus. Agora para chegar no mesmo destino pega três ônibus e tem de entrar nas filas nas plataformas de embarque de duas integrações. Na última semana de abril, a Marco Zero a acompanhou na ida ao trabalho, uma viagem que levou quase duas horas (uma hora e cinquenta e cinco minutos pra ser mais exata) de Paratibe ao bairro do Poço da Panela.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                                        <p class="m-0">Lorena agora pega três ônibus e passa por três integrações para ir ao trabalho
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>“Eu tô acordando de 4h30, antes eu acordava às 5h. Antes eu tomava café um pouco mais tranquila porque sabia a hora que o ônibus ia passar, hoje eu evito, coloco na bolsa pra quando chegar no trabalho comer alguma coisa. Essa é a questão: não ter um tempo de qualidade antes de trabalhar, agora é acordar, tomar banho e sair”, explica Lorena.</p>



<p>Considerando que a maioria dos usuários de ônibus de Paulista só vai a outras cidades passando por terminais de integração, já no primeiro ônibus fomos em pé. Entre o tempo de espera até a chegada no TI Pelópidas foram 30 minutos. Com a fila grande precisamos aguardar três ônibus para conseguir ir sentados, o que só aconteceu aproximadamente 13 minutos depois de chegarmos ao terminal.</p>



<p>O ônibus seguiu lotado. Com o fluxo intenso de carros na BR-101, a chegada ao TI Macaxeira só aconteceu às 7h50min, ou seja, uma hora e vinte minutos depois de sairmos de Paratibe. Esse era o tempo que Lorena levava para chegar ao seu destino. Essa mudança não afetou apenas o tempo do trajeto, mas toda a dinâmica do dia da jovem. “Acaba sendo bem mais cansativo e pegando mais tempo. Um tempo que a gente não tem, tanto para vim trabalhar quanto para voltar para casa e descansar mesmo”, conta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/mapa-bus-819x1024.jpeg" alt="A imagem apresenta dois mapas comparativos que mostram a mudança de trajeto das linhas de ônibus que chegam ao Terminal Integrado (T.I.) Macaxeira, na Região Metropolitana do Recife. No mapa superior, em azul, está o percurso anterior da linha T.I. Macaxeira/Arthur Lundgren II, que seguia de Arthur Lundgren II até o terminal, passando por bairros como Jardim Paulista, Pau Amarelo, Passarinho e Nova Descoberta. Já no mapa inferior, em vermelho, aparece o trajeto atual das linhas T.I. Pelópidas/Paratibe e T.I. Pelópidas/T.I. Macaxeira, que agora conectam Paratibe ao T.I. Macaxeira por um caminho mais direto, atravessando áreas semelhantes, mas com uma integração diferente entre terminais. Essa comparação evidencia o redesenho das rotas de transporte público, destacando a substituição da antiga linha por novas conexões que otimizam o acesso ao terminal." class="" loading="lazy" width="613">
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	                                        <p class="m-0">O que mudou na rota de Lorena até o terminal da Macaxeira
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Marco Zero Conteúdo</span>
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Eu não tenho mais a opção de chegar cedo”</strong></h2>



<p>As alterações não afetam apenas os trabalhadores. Estudantes que precisam chegar aos campi da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) também sentiram a mudança. É o caso de Afonso Farias, 21 anos, estudante de Geografia na UFPE. Morador de Arthur Lundgren 1, para chegar na universidade de maneira que dê tempo para jantar antes do início da aula, ele agora tem de sair pelo menos uma hora antes do horário que fazia antes das mudanças nas rotas. </p>



<p>Afonso explica como foram essas mudanças: “atrás da minha casa tem uma parada de ônibus e o Arthur II/TI Macaxeira passava lá. Era uma mão na roda, porque quando eu perdi o Macaxeira, aí eu pegava o Arthur I. Agora, obrigatoriamente, eu tenho de pegar o Arthur I para ir para Pelópidas e quando eu perco esse, que é a minha única opção de ônibus, eu tenho que ir andando até a parada do Novo Atacarejo (próximo à avenida Marechal. Floriano Peixoto), que é bem longinha, aí já fico cansado, já para pegar mais dois ônibus”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/55241933476_2bd1083507_c.jpg" alt="Jovem de cabelo curto e camiseta preta gesticula em conversa, rodeado por pessoas em área pública com árvores." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Afonso sai da aula da UFPE às 21h30 e só chega em casa perto de meia-noite
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>O que mais pesa é o retorno para casa. Antes, ao largar às 21h30min, o jovem ainda conseguia chegar em casa por volta das 22h40min, mas hoje chega depois de 23h30min. “Parece que 22h10min da noite é horário de pico. No primeiro dia que eu peguei o TI Pelópidas/TI Macaxeira, depois dessa paralisação do Arthur II/TI Macaxeira, a fila do TI Pelópidas estava batendo em duas filas depois”, conta.</p>



<p>“Para ir no ‘busão’ em que eu fui, eu tive que esperar outro, e ainda assim fui em pé, porque no primeiro que saiu tinha tanta gente que nem em pé eu conseguiria ir. Se eu quisesse ir sentado, acho que ia ter que esperar mais um ou outro&#8221;, conta. Ele explica que, se acontecesse de perder o Arthur II/Macaxeira de 22h15min, o próximo só chegava às 23h05min, então chegava em casa às 23h30min por causa desses eventuais contratempos. &#8220;E esse é o horário que eu estou chegando todo dia agora. Eu não tenho mais a opção de chegar cedo. Todo dia eu estou chegando quase meia-noite em casa”, lamenta.</p>



<p>Jean Luca, de 24 anos, é estudante de Serviço Social e estuda à tarde, o que o obriga a pegar o ônibus em pleno horário de pico. O jovem calculou em três horas o tempo que está gastando para chegar em casa. Por isso, tem preferido aguardar horas para pegar uma carona, do que esperar horas dentro do ônibus. “Se já era demorado, com a existência dessa linha, imagina agora. Vou ter que pegar mais um transporte. Quando a gente é estudante e trabalhador, o nosso período de trabalho é prolongado por conta do trajeto, por conta das condições e agora vai se estender mais ainda por conta de uma linha que vai prejudicar toda a comunidade”, analisa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Jean Luca prefere esperar por uma carona do que passar três horas em ônibus e terminais
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p>Oficialmente, quem mora em Arthur Lundgren II e precisa usar ônibus leva de de 35 a 45 minutos para se deslocar nas linhas 1948 &#8211; TI Abreu e lima/TI Arthur Lundgren II e 901 &#8211; TI Abreu e lima/TI Macaxeira. Ao menos, esse é o cálculo do consórcio Grande Recife, que não respondeu quando perguntamos se seus técnicos fizeram a análise do trajeto dos moradores de Paratibe e Arthur I que também pegavam o antigo Arthur II/TI Macaxeira. O consórcio informou apenas que “praticamente, o tempo de deslocamento permaneceu o mesmo, porém o Grande Recife está trabalhando em alternativas para melhorar o serviço”.</p>



<p>Essa mudança também não está sendo bem recebida, pois os moradores disseram que não foram ouvidos no processo de mudança e, só ficaram sabendo dias antes. Quanto a isto o Grande Recife respondeu que “foram realizadas várias reuniões com as lideranças comunitárias de ambos os bairros e também com a Prefeitura de Paulista apresentando ambas as propostas. O projeto faz parte de uma série de mudanças que o CTM está realizando nos Terminais da Macaxeira e Abreu e Lima com objetivo de dimensionar os serviços de transporte público na região”.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Mudanças sem ouvir ninguém</span>

		<p>A produção desta reportagem contou com a colaboração do Escambo Coletivo, que atua há 16 anos, a partir da necessidade de cultura e lazer para jovens de Paratibe, defendendo direito à cidade e valorizando o território dos moradores, com ações que vão da ocupação cultural à denúncia das faltas estruturais.</p>
<p>Os integrantes do coletivo relatam que a situação das linhas de ônibus em Paulista é marcada por desorganização e falta de diálogo com a população. Eles contam que muitos terminais foram desativados e que linhas desapareceram sem aviso, deixando moradores esperando em paradas onde ainda constam placas indicando rotas que não existem mais. Isso gera confusão e frustração, já que os usuários permanecem aguardando ônibus que nunca passam.</p>
<p>O coletivo critica a ausência de consulta pública antes das mudanças feitas pela Grande Recife, afirmando que a comunidade não foi ouvida sobre suas necessidades. Para eles, o transporte é um direito essencial ligado ao direito à cidade, mas a gestão trata o tema de forma unilateral, sem planejamento participativo. Uma outra mudança que ocorreu na região foi a retirada alteração da linha 1949 (Caetés/Paulista Centro) que passou a ser 1949 – TI Abreu e Lima (Circular Paulista), também com mudança de intinerário.</p>
<p>&#8220;A gente estava observando que nas paradas de ônibus ainda tem as duas linhas. E o pessoal continua esperando a linha passar, porque quando vai na parada, está lá escrito. E o pessoal simplesmente tem esperado o ônibus, porque tá lá, né? Vai passar. Então, você passa tipo um dia esperando sem saber”, conta Wilka Márcia, integrante do coletivo.</p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Terminais são importantes, mas não fundamentais</h3>



<p>O professor de engenharia civil e doutor em Engenharia de Transportes pela UFPE, Leonardo Meira, explica que o sistema de transporte público da Região Metropolitana é pensado para que se atenda a maior quantidade de pessoas possível dentro de uma rede completa. Segundo ele, pelo mundo afora, quando se trata dessa rede de transportes, eventualmente, determinada comunidade que tinha uma linha, pode dar lugar a outro itinerário que os técnicos julgam ser melhor pensando em rede. Como consequência, parte da população pode precisar readaptar suas rotas.</p>



<p>Ao pensar na efetividade dos terminais integrados que fazem parte dessa rede, o professor avalia que foram essenciais nos anos 1980 e 1990, por exemplo, mas que hoje com a tecnologia da integração temporal são importantes, mas não são fundamentais. “Hoje eu não diria que eles são absolutamente fundamentais, mas eu diria que eles ainda são muito importantes, porque ainda são usados no mundo inteiro para esse tipo de estação, ou esse tipo de terminal, seja de ônibus, seja de trem, seja do que for, ao redor do mundo ainda é muito utilizado”, conta.</p>



<p>Para Meira, a importância dos terminais está de no fato de se ter “um local determinado onde as pessoas possam esperar pelo ônibus, onde você sabe que vai ter ônibus saindo para vários locais diferentes, mas perdeu a importância no sentido do pagamento da tarifa, que antigamente dentro do terminal você não precisava pagar outra tarifa. E hoje com a tecnologia, com a integração temporal, você consegue fazer isso sem obrigar que a pessoa vá até o terminal”, explica.</p>



<p>O grande problema, na visão do professor, não são exatamente os terminais de integração, mas o tempo de espera. “Às vezes lhe obrigam a ir ao terminal integrado e lá você espera 20, 25, 30 minutos ou mais para aquele ônibus chegar. Então, o problema não é exatamente a existência do terminal integrado. O problema é a velocidade que os coletivos andam”, analisa.</p>



<p>Ele também explica que essa demora acontece por consequências de um trânsito que não dá condições para que esse trajeto flua. “Não tem faixa exclusiva na maioria das cidades, os ônibus ficam presos nos congestionamentos, ficam presos em protesto, ficam presos em alagamento, aumentando o tempo de viagem, ou seja, independente do motivo, a gente tem que se preocupar em aumentar a velocidade do transporte público”, conta. E isso só acontecerá com faixas exclusivas para que o ônibus não dispute espaço com outros veículos.</p>



<p>“Tem toda uma questão política de tirar espaço do automóvel, onde a classe média que anda de automóvel na sua SUV de 300 mil reais, não quer dividir espaço com o ônibus. Só que a SUV de 300 mil reais leva um passageiro e o ônibus leva dezenas de passageiros. É uma discussão política muito mais de dar velocidade às pessoas que mais necessitam que são aquelas que usam o transporte público”, explica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/bus-1.jpg" alt="A imagem mostra o Terminal de Arthur Lundgren I, uma pequena estrutura de transporte público com cobertura de concreto ondulado e pilares brancos pintados de azul na base. As paredes também são azuis na parte inferior e brancas na superior, com algumas marcas de grafite. Há uma pessoa sentada no banco sob o abrigo, e árvores ao redor oferecem sombra. O chão é de paralelepípedos, e parte de um carro aparece à direita." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/0-que-muda-na-vida-das-pessoas-da-periferia-quando-uma-linha-de-onibus-deixa-de-existir/">O que muda na vida das pessoas da periferia quando uma linha de ônibus deixa de existir</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Uma jornalista em defesa das árvores do Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2026 13:38:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[arborização urbana]]></category>
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<p>O post <a href="https://marcozero.org/uma-jornalista-em-defesa-das-arvores-do-recife/">Uma jornalista em defesa das árvores do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando a jornalista Letícia Lins se mudou para uma casa antiga no bairro de Apipucos, tudo que ela via da janela da cozinha era de um verde profundo: árvores frondosas da Mata Atlântica no terreno do Seminário São João Paulo, à beira do rio Capibaribe. Hoje, 40 anos depois, muitas árvores se foram e não foram substituídas. A vista emoldurada pela janela é metade verde, metade céu. A vista da frente também mudou: não havia nenhuma planta na frente da residência. Hoje, há palmeiras e um Pau Brasil, tudo plantado por ela mesma. Apaixonada por árvores desde a tenra infância, há pelo menos dez anos Letícia Lins começou a dar status de notícia à erradicação de árvores no Recife – ou em qualquer outra cidade que avisem a ela. Nesta semana, o blog <a href="https://oxerecife.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Oxe Recife</a> chegou ao número de 1,5 mil arboricídios registrados somente no Recife.</p>



<p>“Meu critério não é científico, eu não sou bióloga, eu não sou botânica, eu não tenho financiamento para fazer esse trabalho. O que é que acontece? Eu caminho muito pela cidade, principalmente pela zona norte, e eu vou anotando as árvores que eu vou vendo derrubadas ou só o toco. É um trabalho de cidadã mesmo: as árvores não falam, alguém tem que falar por elas&#8221;, conta Letícia. O trabalho começou de forma não sistemática em 2017. “Eu fui botando uma árvore que tinha sido cortada, depois outra e mais outra. Aí decidi fazer uma série, &#8216;Parem de derrubar árvores&#8217;. Mas a série não terminava. Não termina. Estou com 526 postagens até agora”, contou a jornalista.</p>



<p>Uma postagem pode ter uma ou mais árvores cortadas. Por exemplo, um post de 2023 dava conta de 40 árvores erradicadas dentro de uma Unidade de Conservação da Natureza, no bairro da Imbiribeira. Com o passar do tempo, Letícia começou a receber ligações e mensagens de pessoas denunciando o corte de árvores em diversos lugares, inclusive fora de Pernambuco. Na mais recente postagem, foi uma denúncia que recebeu de corte na Estrada das Ubaias. Quando chegou lá, já havia outra árvore cortada. &#8220;Essa semana me avisaram de uma árvore na rua Marques de Amorim. Não foi assassinada. Ela caiu. Mas se cai, tem que botar outra no lugar”, avisa.</p>



<p>Já faz algum tempo que Letícia Lins busca informações sobre se Recife está plantando mais árvores do que cortando. &#8220;Em 2013, a prefeitura divulgou que 2.500 foram suprimidas. O mesmo número no ano seguinte. Mas em 2015 pararam de dizer a quantidade. Nesse período, eu já estive na Câmara Municipal, em uma audiência pública, eu já estive num seminário de botânica e arborização urbana e sempre pergunto quantas árvores são derrubadas no município por ano. Ninguém sabe, ninguém responde. Virou uma caixa preta&#8221;, conta Letícia.</p>



<p>Com base no último número oficial (2.500 supressões por ano, em 2013), Letícia estima que o Recife perdeu mais de 32.500 árvores entre 2013 e 2025. Mas, sem dados oficiais da prefeitura, não se sabe o número real. Um dia após nossa entrevista, a prefeitura do Recife respondeu para Letícia que em 2025 foram 1.562 árvores erradicadas, mas não deu os dados dos anos anteriores.</p>



<p>A prefeitura do Recife também não informa quantas árvores foram plantadas nestes últimos dez anos. “E o mais importante, não dizem mais o índice de sobrevivência”, diz Letícia. Esse índice indica quantas plantas sobreviveram após serem plantadas como mudas. “Já teve um tempo que 60% das mudas plantadas morriam. Na avenida Recife, de 100 mudas que eu contei, 40 viraram graveto. E isso é computado como árvore. Não é árvore. Não é muda. É um graveto”, reclama.</p>



<p>O silêncio sobre os cortes contrasta com os números que a prefeitura divulga. O município afirma ter 259.565 árvores, 660 áreas verdes e índice de 60,1 metros quadrados de área verde por habitante — cinco vezes acima do mínimo de 12 metros quadrados recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Letícia não acredita nesses dados. “É muito desigual a distribuição desse verde. Por exemplo, Boa Viagem já é uma ilha de calor&#8221;, diz.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Nem nos parques as árvores estão seguras</h2>



<p>Para uma cidade que figura entre as 16 mais vulneráveis do planeta às mudanças climáticas, nem nos parques urbanos as árvores estão a salvo do arboricídio. No Jardim do Poço, Letícia contou 40 tocos deixados pela prefeitura para fazer a obra. No Parque das Graças, <a href="https://marcozero.org/sucesso-de-publico-parque-das-gracas-tem-menos-mangue-do-que-no-projeto-original/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">uma reportagem da Marco Zero em 2023 mostrou que foram retiradas 99 árvores</a>, mais de 310 mil metros cúbicos de mangue e também vegetação rasteira. “O Recife é uma cidade que está em emergência climática, mas não tem uma política de arborização urbana&#8221;, queixa-se Letícia.</p>



<p>A jornalista lembra que, para a construção do parque Dona Lindu, na orla da praia de Boa Viagem, foi retirado o último coqueiral à beira-mar do bairro. Agora, ela fala que 41 árvores devem ser cortadas no Dona Lindu – hoje sob concessão privada da empresa Viva Parques – para dar espaço para atividades comerciais no local. A empresa, diz Letícia, se comprometeu a plantar o dobro do que será suprimido, mas não especificou onde. &#8220;O Recife é o único lugar que eu conheço que tira a árvore para plantar quiosque. Num parque&#8221;, alerta ela.</p>



<p>Na luta pelas árvores, uma crítica que Letícia Lins faz é sobre a mudança de responsabilidades pela liberação do corte das árvores. “Quem licencia o corte de árvores no Recife não é mais a Secretaria de Meio Ambiente e sim a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento. Há um conflito de interesses: quem quer cortar uma árvore de grande porte para construir um prédio vai para a secretaria que cuida das construções e não a do meio ambiente, que deveria ter técnicos para avaliar essas licenças”, diz.</p>



<p>Outro ponto que Letícia Lins costuma abordar no blog dela são as podas feitas no Recife pela Neoenergia, que deixa pela cidade um rastro de árvores desequilibradas, vulneráveis a tombamentos e adoecidas. &#8220;A Neoenergia não está preocupada com a saúde da árvore. Ela está preocupada com a saúde do fio e pronto. E é um absurdo a prefeitura permitir isso&#8221;, afirma.</p>



<p>Jornalista premiada, com longa e exitosa carreira em sucursais do Recife de jornais como O Globo e Jornal do Brasil, Letícia Lins encontrou no blog Oxe Recife uma forma de fazer o jornalismo mais conectado ao leitor, o jornalismo local. &#8220;A alma do jornal é a cidade. A espinha dorsal de um jornal tradicionalmente é a cidade, porque você tem a proximidade, você tem o interesse da comunidade. Se baixar um plano econômico, vai mexer no bolso das pessoas? Vai. As pessoas vão ter interesse? Vão. Mas a pessoa quer saber quanto é a passagem do ônibus amanhã. A pessoa quer saber como é que está a situação da cidade em que ela vive. E, se você for observar, os jornais do sul, pelo menos na minha época, dedicavam um grande espaço à cidade. Eu olhava a editoria de Grande Rio dos jornais cariocas e dizia que só queria fazer isso. Agora eu faço”, contou Letícia, que comemora neste ano uma década do blog Oxe Recife. E de uma voz atuante na luta pelas árvores.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/podas-mal-feitas-realizadas-pela-neonergia-podem-provocar-mais-quedas-de-arvores-no-recife/" class="titulo">Podas mal feitas realizadas pela Neonergia podem provocar mais quedas de árvores no Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/uma-jornalista-em-defesa-das-arvores-do-recife/">Uma jornalista em defesa das árvores do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O que são parques alagáveis, como funcionam e por que o da Tamarineira não é um deles</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Apr 2026 17:34:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas]]></category>
		<category><![CDATA[parque alagável]]></category>
		<category><![CDATA[parque da tamarineira]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As chuvas já começaram a dar as caras no inverno do litoral e da Região Metropolitana do Recife. E, com as mudanças climáticas, seguem fortes e difíceis de prever. Nos últimos anos, o Recife tem adotado algumas estratégias do conceito de &#8220;cidade esponja&#8221;, desenvolvido pelo arquiteto chinês Kongjian Yu – falecido no ano passado em [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>As chuvas já começaram a dar as caras no inverno do litoral e da Região Metropolitana do Recife. E, com as mudanças climáticas, seguem fortes e difíceis de prever. Nos últimos anos, o Recife tem adotado algumas estratégias do conceito de &#8220;cidade esponja&#8221;, desenvolvido pelo arquiteto chinês Kongjian Yu – falecido no ano passado em um acidente de avião no Pantanal. Uma das estratégias defendidas por Yu eram os parques alagáveis, que ficam em locais sujeitos a inundações ou alagamentos e que retardam a distribuição da água de volta para o rio ou para ruas vizinhas.</p>



<p>O Recife ocupa a 16ª posição mundial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) no ranking das cidades mais vulneráveis à mudança do clima. Ou seja, a população recifense precisa de toda ajuda possível para conviver com suas águas. Os parques alagáveis não são a solução para os alagamentos, mas fazem parte de um pensamento no urbanismo que tenta lidar com soluções desenvolvidas localmente e minimizar os impactos para os moradores.</p>



<p>Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o arquiteto e urbanista Fabiano Diniz, explica que os parques alagáveis dialogam diretamente com uma crítica que Kongjian Yu fazia às soluções de drenagem convencionais. &#8220;Vemos os rios, as águas, sobretudo a chuva, a inundação, o alagamento, como coisas negativas, que vêm para nos maltratar. Tem pessoas que ficam com raiva da chuva, com raiva do rio, mas, na verdade, a gente ocupou o espaço do rio&#8221;, reflete Diniz, que também integra o grupo de pesquisa Recife Cidade Parque.</p>



<p>Para Yu, encanar e canalizar rios era uma solução pensada para países de clima temperado, com regimes de chuva moderados – e não para cidades tropicais como Recife, submetidas a precipitações torrenciais e concentradas. A ideia da &#8220;cidade esponja&#8221; era justamente o oposto: trabalhar com as condições naturais que existiam antes da urbanização, criando espaços que retenham, filtrem e devolvam a água lentamente ao solo e aos rios.</p>



<p>&#8220;A sacada do Kongjian Yu é pegar isso e dizer que as cidades têm que se estruturar a partir disso. Organizar as cidades a partir dessa capacidade de vários lugares cumprirem esse papel de reter as águas. Não somente de reter as águas, mas trazer o homem para perto da natureza, entrar em contato com a água, sem o medo de quem ouve a chuva cair e não consegue dormir à noite&#8221;, diz Diniz.</p>



<p>O Recife tem hoje dois parques alagáveis inaugurados: o primeiro, com aproximadamente 3,9 mil m², foi entregue em novembro de 2024 às margens do rio Tejipió, entre os bairros de Areias e Ipsep, com investimento de R$ 2,5 milhões da Autarquia de Urbanização do Recife (URB). O segundo, o Parque Alagável Campo do Barro, foi inaugurado em janeiro de 2026 no bairro do Barro, com mais de 23 mil m² e R$ 3,4 milhões do programa ProMorar, com capacidade para armazenar temporariamente cerca de 1.510 m³ de água. Um terceiro, o Parque Alagável Umuarama, também no Barro, já teve sua licitação publicada, com investimento previsto de R$ 3,8 milhões.</p>



<p>Tecnicamente, os parques alagáveis funcionam como o que os urbanistas chamam de bacias de retenção. Diferentemente das lagoas com lâmina d&#8217;água permanente – as chamadas bacias de detenção –, os parques alagáveis ficam secos na maior parte do ano e acumulam água apenas nos períodos de chuva intensa. A água retida é depois absorvida gradualmente, infiltrando no lençol freático ou sendo encaminhada por tubulações para os rios ou reservatórios.</p>



<p>A água retida também tem potencial de reuso. “Os reservatórios subterrâneos podem servir para irrigação do próprio parque em períodos de estiagem”, afirma o professor da UFPE. O Recife já possui reservatórios enterrados sob vias públicas – uma ideia que, segundo Diniz, não é nova. Ele cita que nos anos 1990 foram instaladas comportas e pequenos reservatórios ao longo do canal da avenida Agamenon Magalhães e que há reservatórios para água também na rua Cardeal Arcoverde, nas Graças.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">A opinião de quem mora perto dos parques</span>

		<p>A pedido da Marco Zero, a co-fundadora do Fórum Popular do Rio Tejipió (Forte) Géssica Dias preparou um texto sobre a opinião das pessoas que vivem perto dos dois parques alagáveis inaugurados pela prefeitura do Recife. O Forte é um coletivo que reúne mais de 10 lideranças de comunidades da bacia do Tejipió e que já realizou atividades com mais de 200 pessoas da região.</p>
<p><strong>Sobre o Parque Alagável do Ipsep:</strong> Por se tratar do primeiro parque alagável sinalizado para a bacia do rio Tejipió, gerou grande expectativa entre os moradores da localidade. No entanto, a falta de informação e de participação da comunidade durante o processo foi um ponto bastante problematizado pelo fórum e pelos próprios moradores à época.</p>
<p>Em grande medida, não se sabia como as obras seriam conduzidas nem quais seriam os resultados concretos esperados, sendo que as poucas informações disponíveis eram acessadas principalmente por meio de notícias na internet. Segundo relatos de moradores, o local onde o parque foi implantado é uma área que praticamente não alaga, enquanto as ruas do entorno continuam sofrendo com recorrentes inundações. Há também percepções de que não houve uma redução significativa dos alagamentos, mas sim uma diferença no tempo de escoamento das águas, que passou a ocorrer de forma mais rápida.</p>
<p><strong>Sobre o Parque Campo do Barro:</strong> Moradores relatam que, embora o equipamento exerça a função de represar a água em dias de chuva, seus efeitos têm beneficiado principalmente as áreas mais próximas, especialmente a comunidade do Umuarama, no Barro. Outros moradores avaliam que ainda é cedo para um parecer mais consistente, mas há percepções de que, diante das últimas chuvas, o parque não tem capacidade para suportar grandes volumes de acúmulo.</p>
<p>No que diz respeito ao processo de mobilização, moradores apontam fragilidades que comprometeram a participação nas oficinas de discussão. Muitas pessoas foram informadas em cima da hora &#8211; quando foram &#8211; o que dificultou a presença e limitou o debate sobre o projeto. Para parte da população, os equipamentos do parque só se tornaram conhecidos no momento da inauguração.</p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Solo, plantas e equipamentos específicos</h2>



<p>Para que um parque alagável funcione bem, o planejamento começa pelo solo. É preciso estudar a permeabilidade do terreno, a topografia, o regime de chuvas e a dinâmica hídrica do entorno. A arquiteta e urbanista Raquel Menezes, do Inovação e Pesquisa para as Cidades (Inciti), afirma que as plantas desses parques precisam ser de espécies adaptadas a ciclos alternados de encharcamento e seca.</p>



<p>&#8220;Normalmente em parques que são projetados para ser inundáveis, bacia de detenção, você tem que ter um tratamento de solo adequado para ampliar a permeabilidade da água no solo e o tipo de vegetação que você usa também tem que ser adequada para isso. Tem vegetação que dificulta mais a infiltração da água no solo e tem outras que potencializam isso. Também tem vegetação que não aguenta ficar muito tempo em solo molhado&#8221;, explica Raquel. &#8220;Tem que ser um parque projetado para ser alagável. Não é algo como &#8216;aqui tem uma área livre, vai ser uma área alagável agora&#8217;. Não é assim que funciona&#8221;, diz.</p>



<p>Também não é todo tipo de solo onde é adequado construir um parque alagável. &#8220;Se você tem um solo que seja argiloso, a argila dificulta muito a infiltração da água. Ela faz tipo um bloco. Tem tipo de solo que não é adequado para a infiltração. Tem solo mais arenoso, que aí é mais fácil da água infiltrar. Então, isso também precisa ser pensado&#8221;, explica a urbanista. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/alaga-1.jpg" alt="A foto mostra uma quadra esportiva cercada, provavelmente de futebol ou futsal, parcialmente coberta por uma grande poça d’água que reflete o céu, o alambrado e as construções ao redor. Ao fundo, aparecem dois brinquedos de cimento para crianças escalarem. À direita, há uma parede amarela com um mural colorido de um jogador de futebol estilizado, estrelas e linhas curvas em vermelho e azul. O reflexo da cena na água cria um efeito visual simétrico e marcante." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Parque alagável entre Areias e Ipsep foi o primeiro da cidade
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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                    </figure>

	


<p>Os equipamentos de lazer devem ser instalados em espaços mais elevados, com passarelas que permitam o uso do parque mesmo quando parte da área está alagada. E a participação da comunidade, dizem os especialistas, é fundamental: os moradores precisam entender o que é o parque, para que serve e como se apropriar dele. &#8220;Precisamos acompanhar com muito cuidado, não a partir dos olhos do acadêmico, dos técnicos, mas a partir dos moradores que vivenciam o espaço – que o usam para lazer e que vivenciam, durante a cheia, se houve realmente redução dos danos, dos impactos&#8221;, afirma Diniz.</p>



<p>Diniz destaca a importância de que esses parques sejam construídos justamente nas áreas mais vulneráveis da cidade. &#8220;Aquela região ali, em Tejipió, em Areias, é uma área, do ponto de vista social e ambiental, muito vulnerável, com condições muito difíceis, com terrenos baixos. É uma população que está muito suscetível a esse processo de inundação, onde se concentra a população pobre&#8221;, diz. &#8220;O parque alagável, além de qualificar o espaço, funciona para o lazer a maior parte do tempo. E estamos discutindo isso dentro de um contexto que, hoje, é de privatização dos parques. Em que medida essa privatização pode ou não pode restringir o acesso a uma população de mais baixa renda, que precisa, do mesmo jeito que os demais moradores, ter acesso a esse tipo de lazer? Então, é muito importante que esses parques cumpram também a função durante o tempo seco&#8221;, afirma o pesquisador.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Tamarineira: alagado, não alagável</strong></h2>



<p>Quando as chuvas de abril alagaram parte do Parque da Tamarineira, choveram denúncias sobre a falta de drenagem nas redes sociais. Não ironicamente, a vereadora Cida Pedrosa (PCdoB) publicou um vídeo do parque embaixo d’água em que a legenda dizia que “o Parque da Tamarineira funciona como área alagável contra enchentes&#8221;. Para Fabiano Diniz, a questão precisa ser dita com clareza: o parque alagou, mas não foi projetado para ser alagável. &#8220;Ele é um parque que alaga – isso a chuva provou. Mas não vou dizer que ele tem um grande potencial para isso. Aquilo ali não parece ter sido pensado&#8221;, afirma.</p>



<p>A arquiteta e urbanista Raquel Menezes concorda. Para ela, o que aconteceu tem ligação com o córrego do Jacaré, curso d&#8217;água que passava pela área e foi canalizado – ou seja, enfiado em uma tubulação subterrânea. &#8220;O córrego provavelmente já era a drenagem daquela área do terreno. A água devia estar acumulando naquela parte e continuou acumulando por causa disso. Não é nada estranho. Mas a gente precisa entender que a natureza e o solo têm uma dinâmica própria, e não é um problema assumir isso&#8221;, diz.</p>



<p>A crítica ressoa diretamente com o que Kongjian Yu defendia: canalizar córregos é uma solução de infraestrutura “cinza”, mais adequada a países de clima temperado, que vai contra a dinâmica natural da água em cidades tropicais. &#8220;Se a gente vai contra a dinâmica dos elementos da natureza, a gente se enterra. Se fosse o riacho voltando à tona, se houvesse um tratamento mais natural, com vegetação adequada para a área molhada, o parque teria um potencial muito maior”, afirma Fabiano Diniz.</p>



<p>Nenhum dos dois urbanistas chegou a ver o projeto do Parque da Tamarineira. Raquel Menezes chegou a procurar o documento, mas não achou. &#8220;Essa informação deveria estar facilmente acessível, qualquer pessoa deveria conseguir consultar&#8221;, afirma.</p>



<p>Procurada pela reportagem, a Prefeitura do Recife, em nota, afirmou que o Parque da Tamarineira &#8220;é considerado um equipamento naturalizado e auxilia na drenagem do trecho inicial da bacia do Canal do Jacaré&#8221;. Segundo a nota, &#8220;o parque incorporou áreas de detenção natural, capazes de armazenar temporariamente os volumes de água durante eventos de chuva mais intensos&#8221;, e as passarelas elevadas na chamada área da Matinha &#8220;foram executadas para garantir acessibilidade aos principais equipamentos e reduzir as superfícies pavimentadas&#8221;.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                                        <p class="m-0">Drenagem do novo parque deveria garantir que pontos baixos naturais não seriam inundados
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A explicação contrasta com o que havia sido divulgado pela própria prefeitura na comunicação da inauguração da segunda etapa do parque, em 26 de março de 2026. No texto oficial, a ênfase recaía sobre a drenagem convencional: a prefeitura informava que &#8220;foram construídos dois reservatórios com dispositivos de coleta para o encaminhamento adequado das águas pluviais, garantindo a destinação correta da água superficial e evitando sobrecarga na infraestrutura do entorno.&#8221; O <a href="https://www2.recife.pe.gov.br/noticias/26/03/2026/com-estetica-leve-e-conexao-com-natureza-e-inaugurada-segunda-etapa-do-parque-da" target="_blank" rel="noreferrer noopener">então prefeito João Campos (PSB) chegou a declarar que</a> &#8220;fizemos uma obra de drenagem e um grande reservatório de água para assegurar um espaço confortável, mesmo em dias de chuvas.&#8221; Na época da inauguração, não havia  menção à possibilidade de alagamento.</p>



<p>Antes mesmo da inauguração, quando a prefeitura lançou a licitação para a segunda etapa, o projeto já previa, além do reservatório principal sob o passeio central, três bacias de infiltração no interior da Matinha, &#8220;<a href="https://www2.recife.pe.gov.br/noticias/14/11/2025/prefeitura-do-recife-inicia-construcao-de-nova-etapa-do-parque-da-tamarineira" target="_blank" rel="noreferrer noopener">estrategicamente localizadas nos pontos de maior risco de alagamento, para promover a absorção da água pluvial no próprio solo</a>&#8220;, com o objetivo de &#8220;garantir que os pontos baixos naturais do parque, que são mais suscetíveis ao acúmulo de água, não sejam inundados.&#8221; Ou seja, a própria prefeitura reconhecia que aquela era uma área propensa ao acúmulo de água – mas não comunicou isso com clareza ao público.</p>



<p>&#8220;O parque acabou de ser inaugurado. É muito natural que em uma obra você tenha um momento de ajustes. Toda obra é isso: quando você começa a usar, quando vêm os primeiros usos, os primeiros eventos, você começa a perceber o que não funciona e vai ajustando. Não é problema nenhum no parque alagar nas primeiras chuvas”, diz Raquel Menezes. &#8220;O grande problema que houve nessa questão é tentar defender tudo como se fosse maravilhoso e perfeito. A gente costuma dizer sempre que arquitetura e que urbanismo não são matemática. A gente lida com muitas dinâmicas diferentes e não tem como ter uma previsão definitiva do que vai acontecer”, acrescenta.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Nota completa da Prefeitura do Recife</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro parque alagável do Recife, com aproximadamente 3,9 mil m², foi entregue em novembro de 2024, com investimento de R$ 2,5 milhões executados pela Autarquia de Urbanização do Recife (URB), e está situado entre os bairros de Areias e Ipsep, às margens do Rio Tejipió. O segundo da cidade, o Parque Alagável Campo do Barro, foi entregue no começo deste ano, no bairro de mesmo nome, e abrange mais de 23 mil m², com R$ 3,4 milhões investidos pelo ProMorar Recife. O espaço tem capacidade de armazenar temporariamente cerca de 1.510 m³ de água, o equivalente a mais de 1,5 mil caixas d&#8217;água de 1 mil litros. Na última semana, a gestão publicou, no Diário Oficial, a licitação para a construção do Parque Alagável Umuarama, também no Barro. Com investimento de R$ 3,8 milhões por meio do programa ProMorar, o novo equipamento será o terceiro do tipo na cidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em relação ao Parque da Tamarineira, ele é considerado um equipamento naturalizado e auxilia na drenagem do trecho inicial da bacia do Canal do Jacaré, que integra a macrobacia do Vasco da Gama (Canal do Arruda), área estratégica para o controle de alagamentos na cidade do Recife. Nesse contexto, áreas verdes urbanas desempenham um papel essencial, funcionando como espaços naturais de retenção e amortecimento das águas. Assim, o Parque Tamarineira incorporou áreas de detenção natural, capazes de armazenar temporariamente os volumes de água durante eventos de chuva mais intensos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa estratégia permite reduzir a sobrecarga no sistema de drenagem urbana e diminuir o risco de alagamentos nas vias do entorno. As passarelas elevadas, dentro da área popularmente chamada de “Matinha”, foram executadas para garantir acessibilidade aos principais equipamentos da Matinha e reduzir as superfícies pavimentadas. Esta solução aumenta a permeabilidade do solo e, em consequência, facilita a absorção das águas da chuva.</span></p>
	</div>



<p></p>
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		<title>“Precisamos remover os riscos, não as pessoas”, defende urbanista Raquel Ludermir</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2026 19:18:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[áreas de risco]]></category>
		<category><![CDATA[emergência climática]]></category>
		<category><![CDATA[Habitat Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[moradia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As chuvas intensas que atingiram o Recife e a Região Metropolitana, nas últimas semanas, escancararam, mais uma vez, o que especialistas e moradores da periferia já denunciam há anos: a ausência de políticas públicas estruturais para enfrentar os efeitos dos eventos climáticos extremos nas cidades. Em poucos dias, episódios que poderiam ter sido evitados deixaram [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As chuvas intensas que atingiram o Recife e a Região Metropolitana, nas últimas semanas, escancararam, mais uma vez, o que especialistas e moradores da periferia já denunciam há anos: a ausência de políticas públicas estruturais para enfrentar os efeitos dos eventos climáticos extremos nas cidades. Em poucos dias, episódios que poderiam ter sido evitados deixaram marcas profundas, como as duas mortes na comunidade do Pilar, no Recife, após o colapso de um edifício com problemas estruturais já conhecidos, e o deslizamento de uma barreira em Águas Compridas, em Olinda.</p>



<p>É nesse contexto que a <strong>Marco Zero</strong> entrevista a arquiteta e urbanista Raquel Ludermir, doutora e mestra em desenvolvimento urbano e gerente de incidência em políticas públicas da Habitat para a Humanidade Brasil, instituição fundada há mais de 30 anos e que, no último fim de semana, promoveu o encontro “Moradia e Justiça Climática nas Cidades”.</p>



<p>Ao longo da conversa, Raquel desmonta a lógica dominante de “adaptação” baseada em remoções e denuncia como essas políticas, em vez de proteger, aprofundam desigualdades e deslocam o problema para outros territórios igualmente vulnerabilizados. Para ela, o que tem sido chamado de solução pelo poder público, ao retirar famílias de áreas consideradas perigosas, muitas vezes ignora alternativas mais eficazes e justas, como a melhoria das condições de moradia e a gestão comunitária dos riscos.</p>



<p>Para a especialista, as chamadas “remoções verdes” muitas vezes são práticas que, sob o discurso ambiental, acabam expulsando populações inteiras sem garantir condições dignas de reassentamento. Raquel também chama a atenção para o papel limitado e, muitas vezes, perverso do auxílio-moradia, já que, com R$ 300, R$ 350, essas famílias não vão conseguir alugar uma moradia adequada, empurrando-as para novas situações de risco, criando assim um ciclo de vulnerabilidade.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ludermir-1024x682.jpeg" alt="Na foto, vemos Raquel Lurdemir falando ao microfone, em um momento que transmite engajamento e firmeza. Ela veste uma camisa preta com dois broches vermelhos, um deles trazendo a frase “nós lutamos por inclusivas democráticas populares” e o outro parcialmente visível com o texto “missão denúncia”. Ao fundo, aparecem duas bandeiras penduradas na parede — uma vermelha e outra amarela — reforçando o ambiente de mobilização social e política. A cena sugere participação ativa em um espaço de discussão ou militância." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Raquel Lurdemir integra a equipe do Habitat para a Humanidade Brasil
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Vlademir Alexandre/Cortesia</span>
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                    </figure>

	


<p>Confira os principais trechos da entrevista:</p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>Temos visto o poder público investir em políticas de remoções de famílias de seus territórios como se fossem políticas de adaptação climática. Como você enxerga essa prática e quais são as consequências desse tipo de estratégia?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> O poder público tem promovido remoções e despejos forçados de áreas de risco socioambiental sob a justificativa de estar promovendo resiliência e adaptação às mudanças climáticas. Esse é um fenômeno que a sociedade civil vem acompanhando inclusive no âmbito da campanha Despejo Zero, que tem um mapeamento de mais de três mil casos de remoções e despejos forçados em todo o Brasil. Essa é justamente a narrativa que vem justificando os processos remocionistas, ou seja, de expulsão e remoção de pessoas e comunidades vulnerabilizadas do seu local de moradia, sobrevivência e redes de apoio. Essa é a narrativa da questão socioambiental, dos riscos e muitas vezes também até da preservação do meio ambiente.</p>



<p>Mas esse pode ser um processo extremamente danoso, que a gente consegue ler a partir de um termo que chamamos de &#8220;remoções verdes ou expulsões verdes&#8221;; em inglês, &#8220;green evictions&#8221;. É quando os processos para supostamente promover a adaptação às mudanças climáticas resultam em remoção forçada de pessoas, e não na permanência dessaspessoas com segurança nos seus territórios e nas comunidades mais vulnerabilizadas. E a gente sabe que hoje já existem diversas soluções e estratégias.</p>



<p>Geralmente esses são processos de despejos administrativos, ou seja, eles não são judicializados como em outros conflitos por terra e moradia. Estão atrelados, algumas vezes, a obras públicas, como, por exemplo, aqui no Recife, o programa ProMorar. E outras vezes são simplesmente atrelados à pura e simples remoção. Então, a gente tem casas condenadas pela Defesa Civil que simplesmente não têm nenhuma perspectiva nem previsão de obra pública em determinadas áreas, daí as pessoas são simplesmente expulsas.</p>



<p>E quais são as consequências disso? A gente precisa entender que, quando estamos num cenário em que não há a menor perspectiva de intervenção em determinada área, estamos lidando com um processo remocionista e de inclusão dessas pessoas num auxílio-moradia. Quando isso acontece, o auxílio-moradia é basicamente uma produção de déficit habitacional. Porque a gente sabe que, com R$ 300, R$ 350, que é hoje o valor do auxílio, isso pode até ajudar famílias que tenham alguma renda, mas, para famílias que antes moravam em imóveis próprios, isso significa ter que passar a pagar um aluguel. Com esse valor, essas famílias não vão conseguir alugar uma moradia adequada.</p>



<p>Então, muitas vezes, estar no auxílio-moradia significa ter que recorrer a outras áreas de risco. Seja risco socioambiental ou outros riscos e outras vulnerabilidades. Então o auxílio-moradia hoje é um grande paliativo para essa negligência do poder público em relação ao direito à moradia. O Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH) fez, há alguns anos, um pedido de informação em que já havia <a href="https://marcozero.org/sem-dialogo-com-a-comunidade-prefeitura-do-recife-confirma-remocao-de-casas-para-ponte-casa-forte-cordeiro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mais de oito mil famílias beneficiárias do auxílio-moradia no Recife</a> e pessoas que estavam nisso há mais de 20 anos.</p>



<p>Então é uma consequência muito nefasta. Além disso, tem uma outra questão: às vezes, as pessoas acham que, por estarem no auxílio-moradia, elas já estão na fila da moradia, mas são coisas completamente diferentes. Infelizmente, são políticas que estão hoje ainda dissociadas. Então você tem, por um lado, o auxílio-moradia, que é uma questão assistencial, e, por outro, você tem o cadastro habitacional em outra secretaria, manejada de uma forma completamente diferente. </p>



<p><strong>E como fica a situação das famílias num contexto em que há uma obra pública?</strong></p>



<p>Já quando temos um cenário em que existe um processo de obra pública, um investimento público em determinada área, esses processos remocionistas têm, pelo menos, duas problemáticas: a primeira delas é a falta de acesso à informação e a falta de participação popular para construir e entender minimamente o que está sendo pensado e planejado nas áreas dessas intervenções; a segunda questão é quais são as soluções, as alternativas de moradia que vão ser oferecidas para essas famílias.</p>



<p>A gente tem algumas vezes compra assistida ou então processos de espera pela construção de um conjunto habitacional e, durante essa espera, temos a inclusão dessas famílias em um programa de auxílio-moradia. E essa espera é muito longa. Em contextos favoráveis, temos aí pelo menos de cinco a sete anos de espera pela conclusão de um conjunto habitacional.</p>



<p>E sabemos que, nesse período, existem, inevitavelmente, mudanças de gestão, mudanças de prioridades e muitas vezes também mudanças nos critérios de alocação dos beneficiários desses programas habitacionais. Então o que a gente vê muitas vezes — e a gente que circula nos territórios e escuta muito — são famílias que foram removidas de uma determinada área da cidade na expectativa de serem realocadas quando o conjunto habitacional ficasse pronto no seu território, de onde elas saíram, e de repente o conjunto fica pronto, outras famílias são direcionadas para aquele território e essas pessoas permanecem sem serem beneficiadas pelo projeto e permanecem no auxílio-moradia.</p>



<p>Além disso, a compra assistida é outra coisa super problemática porque tem uma interferência da própria dinâmica do preço do mercado imobiliário e requer, inevitavelmente, imóveis que precisam ser regularizados e regularizáveis num preço acessível. </p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Então resumindo, de uma forma geral, essas &#8220;remoções verdes&#8221; são uma grande contradição, é como se você tivesse mudando o problema de lugar.</p>
</div>


<p>Marco Zero &#8211; <strong>As reconstruções, após os eventos climáticos, são planejadas com morosidade, muitas vezes sem diálogo com os territórios e entregues com bastante atraso. Por que isso acontece e como prejudica as famílias mais vulneráveis e a dinâmica urbana?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> Em relação à reconstrução, temos outra questão que é extremamente complexa. São atrasos em duas dimensões. Primeiro o atraso histórico, porque estamos tratando de uma questão que é um direito fundamental e que deveria ter um investimento na questão da moradia, da adequação e do fortalecimento dessas moradias. Não só da porta para fora, mas da porta para dentro, para construir a resiliência dessas unidades habitacionais e desses conjuntos habitacionais muito antes do desastre acontecer.</p>



<p>Então, se a gente tivesse construído sistemas de drenagem, de contenção e de gestão de risco a nível comunitário e também o fortalecimento e as melhorias habitacionais de alguns prédios, edifícios e unidades habitacionais, a gente não estaria, por exemplo, assistindo a episódios como o que aconteceu, na semana passada, na comunidade do Pilar, onde o prédio colapsou por questões estruturais. Estamos então diante de um atraso histórico, primeiramente.</p>



<p>O segundo atraso é o atraso da entrega em si. É um processo muito longo, desde a seleção do terreno até a viabilização de projetos específicos, a própria construção e o trabalho social necessário para designar e alocar essas unidades habitacionais. Deixa-se então essa população vulnerabilizada em um limbo, o que alguns teóricos chamam de &#8220;transitoriedade permanente&#8221;. É uma indefinição, uma suspensão da vida muito correlacionada à questão de onde e como essas pessoas moram.</p>



<p>Outro ponto sobre isso é que existe uma certa utopia, digamos assim, de achar que é possível reconstruir melhor. E aí, com base nisso, eu acho que vão sendo propostas algumas coisas que fogem um pouco de um processo que a gente pode chamar de verdadeiramente participativo. Essa reconstrução é feita sem a escuta da comunidade, sem a devida participação popular, sem as devidas leituras técnicas e geotécnicas de determinadas áreas. O que termina acontecendo, além do atraso, é uma, com muitas aspas, &#8220;perda de oportunidade&#8221;, de reconstruir melhor. Isso termina em aprofundamento dessas desigualdades. É importante entender que a reconstrução deveria vir junto de um processo de reparação histórica.</p>



<p>Quando olhamos para os levantamento sobre perdas e danos de eventos extremos, precisamos entender também que não estamos falando só de danos materiais individuais. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/recife-prefere-comprar-briga-com-a-favela-do-que-com-o-mercado-imobiliario-diz-urbanista-andre-araripe/" class="titulo">&#8220;Recife prefere comprar briga com a favela do que com o mercado imobiliário&#8221;, diz urbanista André Araripe</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Marco Zero &#8211; <strong>Diante da emergência climática, como garantir a permanência dessas famílias nos territórios com segurança?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> Quando visitamos os territórios em áreas onde existem organizações de base comunitária fortes, observamos que um dos elementos-chave para a permanência com segurança é justamente a existência dessas organizações fortalecidas para fazer a gestão comunitária do risco.</p>



<p>Não dá para imaginar um cenário onde exista uma gestão pública que vá remover 200 mil pessoas de áreas de risco no Recife hoje. Não estamos diante de um cenário de possibilidade de realocação adequada dessas famílias. Então precisamos, sim, construir e fortalecer soluções que já existem para permanência com segurança dessas famílias e dos grupos vulnerabilizados nos seus territórios, no sentido de reduzir o risco. </p>



<p>Isso se faz com gestão comunitária de risco, com fortalecimento de ações, de planos de contingência, de preparação das comunidades. É isso que chamamos de adaptação às mudanças climáticas, o que inclui desde tecnologias sociais, de planejamento comunitário, de preparação para a resposta a eventos extremos até efetivamente políticas de implantação de infraestrutura, como drenagem, melhoramento de calçamentos e outros serviços básicos, que precisam vir com a devida transparência, participação e gestão democrática desses processos.</p>



<p>Eu acho que a grande questão aqui é como fortalecer essa atuação comunitária, local, que já vem sendo um grande divisor de águas. Quando há um evento extremo, são essas comunidades e esses grupos comunitários que estão na linha de frente da resposta. Então nada mais justo e mais inteligente do que fortalecer esses processos comunitários de planejamento e de gestão de risco.</p>



<p>O que não exime o poder público de fazer a política pública de adaptação às mudanças climáticas, a implantação de infraestrutura básica, principalmente drenagem, água, saneamento, mas também de melhorias das estruturas físicas das moradias e de pensar nos planos de contingência, nos equipamentos e nos serviços e fluxos de contingência para o momento do evento extremo.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Quem repara o dano de uma criança que vê sua casa sendo demolida com um trator?</p>
</div>


<p>Marco Zero &#8211; <strong>E quando as realocações são inevitáveis, como garantir que elas sejam feitas sem violações de direitos humanos?</strong></p>



<p><strong>Raquel Ludermir &#8211;</strong> Essa é a grande questão. Eu acho que existem algumas premissas. A primeira delas é a transparência para que as pessoas consigam minimamente entender o que está sendo pensado e proposto, e que possam também mobilizar assessoria técnica, seja assessoria jurídica, urbanística ou política também.</p>



<p>Uma segunda premissa é a participação popular. Não adianta ter transparência e as pessoas ficarem sabendo o que vai acontecer se não houver espaço para devida e efetiva participação popular. Porque estamos aqui lidando com cenários em que não existe uma solução única para tudo. Temos territórios com uma complexidade extremamente diversa, em diferentes contextos em que conseguimos observar o risco socioambiental.</p>



<p>As próprias comunidades e tecnologias sociais e a própria inteligência social, que vêm sendo construídas ao longo de décadas e séculos nos territórios, são essenciais para um projeto, para alternativas de construção bem-sucedidas e que possam ter aderência. Na realidade, na vida concreta desses territórios e dessas cidades, o terceiro elemento são as construções de fato, as alternativas de moradia que estão sendo pensadas.Ainda sobre essas alternativas, existem vários estudos que levantam processos de indenização que considerem não somente a benfeitoria em si, mas considerem as questões de danos e perdas não materiais.</p>



<p>Quais eram os laços que existiam ali? Quais eram as redes de confiança, as redes de clientela? Às vezes você tem determinados cenários em que a pessoa que está sendo removida tinha ali não só a casa, mas uma vendinha, um vizinho de onde ela podia comprar fiado, as redes de confiança, etc. Isso ela não vai construir numa nova comunidade nem tão cedo.</p>



<p>Então a gente precisa, em processos em que a realocação é inevitável, não considerar somente as benfeitorias, a questão material da casa que está sendo ali demolida. A gente precisa entender que existe toda uma rede, todo um processo social por trás dessas questões, com variáveis emocionais, psicológicas e intergeracionais.</p>



<p>Esse é um tema extremamente complexo, mas que requer justamente essa colaboração entre governos, população, sociedade civil e as organizações, que têm feito esse papel de assessoria, de traduzir um pouco os temas que são mais áridos, mais técnicos para as comunidades e para que elas possam, de fato, participar em pé de igualdade.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/04/raquel-ping.jpg" alt="Na foto, vemos um grupo de pessoas — entre socorristas e moradores — atuando em um terreno íngreme e cheio de lama, resultado de um deslizamento. Os socorristas usam capacetes e uniformes de proteção, alguns em bege e outros em vermelho, e trabalham com cordas e ferramentas para garantir segurança e buscar possíveis vítimas. O cenário mostra a dificuldade da operação: o solo está encharcado, há uma pequena construção parcialmente visível embaixo e casas ao fundo em áreas mais altas. A imagem transmite a intensidade e o esforço coletivo em uma situação de emergência." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0"> &#8220;Em um evento extremo, os grupos comunitários estão na linha de frente da resposta&#8221;
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/precisamos-remover-os-riscos-nao-as-pessoas-defende-urbanista-raquel-lurdemir/">“Precisamos remover os riscos, não as pessoas”, defende urbanista Raquel Ludermir</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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