Por Veetmano Prem*

O fotojornalismo se realiza na rua. Quando começou a quarentena eu tinha feito um trabalho e tinha grana para dois meses. Conseguiria ficar em casa. Mas eu sabia que era ilusão achar que se passariam apenas dois meses e voltaríamos à normalidade.

Olhei pela janela, pensei… e aí o fotojornalismo vibra no sangue. Não, eu não consigo ficar aqui. Avaliei todos os riscos e as possibilidades de estar na rua. Consultei alguns amigos e eles disseram: “não vai”. Mas eu fui.

Fui pra rua pra fazer esse registro. Dia sim, dia não. Não é nem registro plástico, arte. É a realidade crua. Que eu já vinha fazendo em minha profissão há muito tempo, desde os 17 anos. E é muito triste porque, às vezes, eu chego de uma pauta e fico muito mal emocionalmente.

Não é uma questão de fazer aquele texto emocional, de fazer aquela foto que vai criar comoção… O fotojornalismo que eu tô fazendo agora, que eu não produzi, que eu não montei, que eu não pautei, é essa realidade.

E essa realidade me afeta por trás da câmera.

A gente no fotojornalismo fica imaginando uma guerra, uma guerra bélica, estar num país que está em guerra. Mas é bem diferente.

É surreal você estar em um ambiente desse aqui. Que não tem ninguém brigando. Que não tem ninguém oprimindo ninguém, mas tem uma opressão invisível, tem uma injustiça invisível. Registrar isso é foda.

Como você pode registrar uma opressão invisível?

E essa opressão invisível tem efeito colateral. As pessoas estão na rua. As pessoas também já morreram de fome. Estou sabendo disso em algumas comunidades.

Pra estar na rua, eu não consigo ainda me manter financeiramente. Seria uma troca: eu me arrisco e vou pra rua para pagar as minhas contas. Ir pra rua não garante o meu sustento, a minha estrutura nessa quarentena. Não é uma troca, é essa coisa do fotojornalismo que vai vibrando e joga você lá.

A minha primeira pauta foi no Armazém do MST, na distribuição da marmita solidária para moradores de rua. Uma fila enorme. No início ainda não tinha muitas regras para se protegerem uns dos outros. Foi duro.Você ver 30, 50, 100 moradores de rua e o MST lá, na batalha, distribuindo comida. Fiz a pauta e mandei pra agência.

Eu tenho um procedimento para sair de casa e quando volto pra casa. E aí é muito difícil porque você tem um cuidado, mas esse cuidado não é 100%.

É tudo bem diferente de outras coisas que eu cobri, na história da minha profissão. Eu passei uma temporada cobrindo ocupação, reintegração de posse do MST. Os sem-teto. Os ambulantes. Minha área sempre foi cobrir campanha e movimento social. Mas sempre com independência.

Nessa pandemia, nada, nada tem a ver com o que eu fiz profissionalmente até o começo do isolamento. É outra realidade, outro formato, outro tipo de olhar.

Não é aquela adrenalina de cobrir um protesto, de cobrir uma reintegração de posse que a polícia está armada e pode atirar em você ou que pode apontar a arma para você. É completamente diferente.

É um inimigo invisível, com todas as possibilidades de informação e desinformação, e aí você volta pra casa estressado, com raiva, triste, deprimido. Você vai editar o material e é muito triste…

Afetou o olhar, mas ao mesmo tempo deu outra forma de olhar, que é entender como é que você está dentro de um troço desse, do vírus… Numa cidade deserta, mas cheia de moradores de rua.

Esses moradores antes da pandemia eram invisíveis e, na pandemia, continuam invisíveis. Eles têm, é verdade, o apoio de algumas entidades que levam comida. Mas levar só comida não resolve… Quer dizer, resolve sim porque a pessoa não morre de fome. Mas tem outros fatores que envolvem a proteção. Essas pessoas estão largadas na rua e aumentou muito o número.

Às vezes eu vou dentro de uma comunidade fotografar a entrega de cesta básica. Os movimentos sindicais, os movimentos sociais que estavam nas ruas protestando contra a opressão, hoje eles estão nas ruas tentando evitar que a maioria desassistida morra de fome.

Fui no Parque das Flores. Assisti aquele verdão que existe lá sendo desmatado. O Parque das Flores sempre teve aquela coisa bonita, verde, árvores, Mata Atlântica… e ver tudo sendo devastado para criar covas pra sepultamento coletivo, em massa, é triste.

Eu já me revoltei com muitas pautas, muitas injustiças do Estado oprimindo a população. Já me revoltei com colegas de profissão apoiando a opressão, mas agora não tem muito isso. O que tem é você ter contato direto com uma pessoa e ela não tá pedindo dinheiro. Ela tá pedindo comida. E ela não tá pedindo mais nada do que isso. E ai eu fico muito fodido com essa história.

Eu tentei fazer um material com o pessoal de Boa Viagem, que é um bairro onde o índice de contaminação é grande. Fiz fotos da galera desrespeitando o isolamento, da galera fazendo caminhada, da galera xingando, da galera falando que tinha que acabar com essa porra dessa quarentena, e enquanto eles estavam fazendo a caminhada com os tênis Nike deles, eles passavam do lado de uma pessoa que estava lá, morador de rua, que estava muito mal.

Antes a gente criticava o governo estadual, municipal. É bem diferente de outros momentos em que a gente estava no protesto e o mote era abaixo o prefeito, abaixo o governo, abaixo a opressão, abaixo o governador. Esse poder público se moveu, claro que no formato deles, mas não tem como botar a pessoa em casa, obrigar as pessoas a ficarem em casa sem comida.

Eu conversei com uma pessoa que disse se tivesse comida em casa ficava em casa. Disse que tinha que se virar para arrumar 10 reais pra comprar um cuscuz, uma fuba e comprar um ovo pra ter comida. Me disse que sabia que o vírus mata, mas não tinha como ficar em casa. E aí é foda quando você escuta isso. Várias vezes, de várias pessoas. Isso é devastador.

E aí você vê nas redes sociais: fica em casa, fica em casa, fica em casa…. Até o pessoal repete esse discurso, que é um discurso elitizado, de que a culpa é do povo, que o povo está na rua… mas a maioria das pessoas que eu consegui ter contato e que eu fotografei, elas estão procurando 10 reais pra comer. Eu moro só e sei o que é isso: você compra uma fuba, 5 reais de charque, três ovos e você consegue fazer uma fuba e passar dois dias comendo…. Se você mora só.

Se você mora com mais algumas pessoas, você compra duas fubas e o resto de ovos que dá para enrolar. É isso que eu tenho visto na rua todo tempo, todo dia.

* Fotógrafo desde os 17 anos, Veetmano Prem tem pouco mais de 30 anos de profissão. Começou a trabalhar em Camaragibe e em 1996 mudou-se para o Recife. Em todo esse tempo participou das principais coberturas locais, entre eleições, protestos e, especialmente, ações dos movimentos sociais, estudantis e sindicais. Distribuiu seu trabalho para jornais de Pernambuco, Folha de S.Paulo, ONGs, ONU e agências de notícias de outros países. Nascido João Carlos Mazella, em 2002 passou a se chamar Veetmano Prem, nome de Meditação Satyaprem. Em 2008, montou a Agência JCMazella.