Crédito: Rafael Nogueira/Divulgação A Cor Púrpura, O Musical

Por Jackson Augusto*

Antes de mais nada queria dizer que esse artigo contém spoilers, mas nada de mais. Afinal, estamos falando de uma história que marcou gerações, “A Cor Púrpura”, seja em livro, filme ou musical atravessa a realidade do povo negro, sobretudo, nas Américas. Com um enredo que fala de religião, abusos sexuais, raça, problemas familiares e retorno à África, a pergunta que eu faço é: Tem como não se identificar?  O musical conta a história da comunidade negra, não aquela idealizada por alguns, sem nenhuma falha ou contradições, mas resgata a nossa humanidade em toda a sua radicalidade, de um povo que foi escravizado e que teve o direito de amar tomado de assalto. O auto ódio dos homens negros e sua adesão a uma cultura de violência e sexismo protagonizam toda a história, nesse enredo todos são vítimas, mas as mulheres negras, como na vida real, continuam sendo as violadas, abusadas e exploradas em toda a sua força, inclusive, pelos nossos. A protagonista é uma adolescente negra, que é abusada pelo seu suposto pai. Celie é uma menina de fé, que vai à igreja aos domingos e grita para Deus: “Eu não poderei dar nada mais que essa oração”. A única coisa que restou para ela foi sua fé, não tinha poder sobre si, sobre sua história e seu corpo. Caminhava para uma morte em vida, abandonada, sem amor e cantava a Deus quase como um pedido de socorro, para levá-la dali, ela queria ir para o céu, pois no céu não existiria mais dor, abandono ou abusos, mas a esperança brota da coragem que encarna em nosso povo.

A cor púrpura não é somente uma cor, mas quase que uma visão da “terra prometida”, da possibilidade de futuro, de olhar o horizonte e perceber a importância de quem somos, do cuidado de Deus para as que são excluídas e ele dizendo: “olha o que eu fiz pra você”, pois a grande questão filosófica da história é como Deus permite tantos abusos para quem ora todos os dias por uma vida melhor, esse Deus só pode ser “um homem como outro qualquer”, mas e se olharmos ao redor? Perceberemos Deus do nosso lado, nos pássaros, no amor que resiste entre os nossos, perceberemos Deus na cor púrpura dos campos, e quando percebermos isso teremos esperança e coragem para romper laços de violência. Essa é a maior mensagem do espetáculo, como o povo negro vai buscando insaciavelmente caminhos de liberdade. 

Mas não é possível falar de liberdade, sem voltar ao passado, a temporalidade na história negra não é linear, preciso olhar para trás, para a nossa ancestralidade, para a África e tudo o que ela nos deu e representa, com os pés voltados para o futuro. Por isso, cantar “somos um povo iluminado” que temos “uma cor só”, é um canto de quem descobriu que a história que nos contaram era uma grande mentira. A cor púrpura fala de uma fé negra protestante de origem afro-americana, e isso faz total diferença na história, enquanto uma fé branca euro-americana tem um histórico colonial, uma espiritualidade negra, sobretudo em tempos de opressão sistêmica, volta para a África para aprender e contribuir de maneira comunitária. As orações que temos durante todo o musical, são de pessoas negras, são de mulheres oprimidas. Inclusive surge a seguinte questão: “Se Deus ouvisse uma mulher pobre e preta, esse mundo seria muito diferente”. E eu digo mais, se o mundo ouvisse as orações das mulheres negras ele seria um lugar melhor, pois na urgência do nosso povo existe uma sede e fome gigante por justiça e liberdade. 

Portanto, nessa perseguição constante por liberdade, em um domingo de páscoa vemos o mar vermelho se abrir, e quase como tão certo quanto o nascer do sol no outro dia, o grito guardado ecoa, a liberdade chega não como um destino mas como um caminho a ser percorrido que não tem mais volta, e literalmente, nessa passagem do cativeiro para um lugar onde o amor e as segundas chances são possíveis inclusive para os homens negros, vamos testemunhar a emacipação do nosso povo e a existência das possibilidades, das escolhas e das autonomias. Se antes éramos cativos, agora somos livres, se antes não podíamos decidir, agora temos a caneta da nossa própria história.

A cor púrpura é quase uma visão, uma miragem tão real quanto a história de tantas e tantos dos nossos, e esse espetáculo está em Recife e tem apresentações de 9 a 12 de março, com seis sessões, no Teatro do Parque. É a primeira vez que o musical está fazendo essa tour no Nordeste, com um elenco totalmente negro e vozes de tirar o fôlego. 

* Jackson Augusto é pernambucano, graduando de jornalismo e teologia, coordenador de projetos no PerifaConnection. Já foi colunista no The Intercept Brasil, atualmente integra a coordenação nacional do Movimento Negro Evangélico, Coalizão Negra Por Direitos e é conselheiro do Fogo Cruzado Brasil.