Crédito; DEM

por Franco Benites*

O Democratas, que também já foi PFL, fez uma viagem no tempo no Recife e voltou às origens de quando surgiu na política nacional como Arena Renovadora Nacional, partido de sustentação dos integrantes e simpatizantes da ditadura militar no Brasil. Ao se oficializar como candidato a prefeito na última quarta-feira (16) ligando sua imagem a do presidente Jair Bolsonaro, Mendonça Filho reposicionou o DEM na rota da ditadura – Bolsonaro é um dos maiores entusiastas do que regime que governou o Brasil de 1964 a 1985.

Além de afastar o DEM pernambucano da direita moderada, como fez João Dória com o PSDB paulista em 2018 ao investir na imagem “BolsoDoria”, Mendonça revisita a origem política de sua família. Seu pai, o ex-deputado federal José Mendonça, morto em 2011, começou na vida pública na Arena durante o regime militar.

As referências de Mendonça a Bolsonaro são antigas, mas ficaram mais claras nos últimos meses e se tornaram explícitas na convenção do DEM. O jingle da campanha do demista será “Mendonça é Bolsonaro e Bolsonaro é Mendonça”. Além disso, ele usará o slogan “Recife Acima de Tudo”, em uma clara alusão à campanha eleitoral de Bolsonaro. Já há algum tempo, Mendonça vem recheando suas redes sociais com imagens de encontros com ministro bolsonaristas e dando ênfase à boa relação que tem com os integrantes do governo federal.

Em 2018, ele apoiou Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno da eleição presidencial, mas não se furtou a declarar voto a Bolsonaro contra Fernando Haddad (PT) no segundo turno. Em suas redes sociais, ele publicou um vídeo ao lado da esposa. Os dois posam sorridentes, ele com uma camisa polo verde e ela com uma camisa amarela com a imagem do então candidato da extrema-direita. “Acabei de votar pelo bem do povo brasileiro”, disse na ocasião.

Mendonça procura estreitar os laços com Bolsonaro em um momento de aumento da popularidade do presidente devido ao pagamento do auxílio emergencial. No Recife, R$ 999.920.420,00 de auxílio foram pagos a moradores de abril a julho, com variação nos valores mês a mês. Em abril, foram pagos R$ 280.241.400,00. Em maio, foram disponibilizados R$ 330.652.800,00. Os valors de junho e julho foram menores: R$ 203.314.800,00 e R$ 185.711.400,00, respectivamente. Os dados estão no Portal da Transparência do governo federal.

Para a cientista política Priscila Lapa, da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, outros candidatos tem uma vinculação mais orgânica com Bolsonaro do que Mendonça. Entre eles, estão Alberto Feitosa (PSC), que disputará a eleição como Coronel Feitosa, e Marco Aurélio Medeiros (PRTB), do partido do vice-presidente Hamilton Mourão. “Mendonça não é tão identificado como alguém da direita radical. Pelo contrário, é identificado como alguém que sabe compor alianças, que sabe atuar no Centrão. A ligação dele com Bolsonaro pode soar apelativa”, analisa.

O céu e o inferno

Caso a aposta em Bolsonaro resulte em vitória eleitoral, Mendonça recolocará o DEM no centro do poder em Pernambuco. A últma vez em que o partido teve destaque, na época em que ainda era PFL, foi quando o próprio Mendonça governou o estado. Antes disso, a legenda havia administrado o Recife com Roberto Magalhães (1997-2000). Ele também equilibraria sua biografia eleitoral, deixando embaixo do tapete algumas das derrotas que teve – talvez a mais emblemática delas seja a de 2012, quando disputou a prefeitura pela segunda vez. Naquele ano, Mendonça teve 19.903 votos (2,25%), um índice bem abaixo de Geraldo Julio (PSB, eleito com 453.380 votos), Daniel Coelho (hoje no Cidadania, era do PSDB e teve 245.120) e Humberto Costa (PT, com 154.460 votos). Sua morte política foi decretada, mas em política tudo muda o tempo todo e, anos depois, ocupou o posto de ministro da Educação do governo Michel Temer (PMDB).

Se conseguir se eleger prefeito, Mendonça ganhará um prêmio por sua resiliência com o DEM em Pernambuco. Na época do PFL, a legenda abrigava alguns dos principais quadros da política estadual, mas o crescimento do PT no cenário nacional se refletiu no estado e o partido mirrou. Mendonça viu aliados saltarem do barco por uma questão de sobrevivência política, mas manteve-se no navio demista. Uma vez eleito este ano, pode até pavimentar o caminho de volta ao governo estadual. Se ele quiser concorrer em 2022, deixará a prefeitura na mão de outra integrante do DEM já que a deputada estadual Priscila Krause será sua candidata a vice. Claro, será preciso combinar esse projeto político com os aliados, sobretudo o PSDB e o PTB.

Uma nova derrota eleitoral poderá marcar, se não definitivamente, ao menos por um bom período, a biografia de Mendonça. Ele ficará marcado como um político que aderiu a um dos piores presidentes da história do Brasil. Se a derrota for para outro membro da direita, terá em suas costas a imagem de candidata pouco competitivo. Se perder a eleição em um provável segundo turno para João Campos (PSB), entrará para os anais eleitorais como um político derrotado pelo filho e pelo pai – a reeleição escapou das mãos de Mendonça em um duelo contra Eduardo Campos, em 2006.

A derrota também pode macular a trajetória política de Priscila Krause. Ela é vista com simpatia por pessoas que estão longe de integrar a direita, mas que reconhecem na deputada uma oposição combativa e inteligente às gestões do PSB no Recife e no estado. No entanto, basta uma busca pelo nome de Priscila nas redes sociais para ver que muitos dos que aprovam sua atuação parlamentar se decepcionaram com o ingresso dela em um palanque aliado de um governo autoritário.

Priscila aproximava o DEM da modernização que tanto o partido buscou ao deixar abandonar as vestes do PFL. Agora, nesse retorno rumo à imagem da Arena, a legenda pode sacrificar o seu quadro eleitoral e político mais promissor.

Ex-aliado do PSB

Além de tentar superar João Campos e Marília Arraes (PT), Mendonça vai precisar se defender dos ataques dos candidatos do seu campo político. Aliados de Feitosa e Medeiros, e também de Daniel Coelho e Patrícia Domingos (Podemos), têm lembrado que Mendonça apoiou pessoalmente o ingresso do DEM na gestão Geraldo Julio. O partido integrou a secretaria de Desenvolvimento Econômico com Roseana Amorim, empossada em março de 2015. Antes, em 2014, Mendonça apoiou a eleição de Paulo Câmara (PSB). Fotos de Mendonça em meio aos socialistas já começaram a ser difundidas em grupos de Whatsapp.

A participação de Mendonça na gestão do PSB, aliás, causou embaraços na última disputa para prefeito do Recife. Cabeça de chapa do DEM em 2016, Priscila Krause demorou a ter uma participação mais enfática de Mendonça em seu projeto eleitoral.

Mendonça e Priscila estão juntos e 2016 agora são águas passadas. O que parece não ter ficado para trás é a vocação do DEM/PFL/Arena de para aliar a quem tem pouco apreço pela democracia.

*Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal)