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Dia do Frevo: o ritmo que surgiu na folia do povo negro do Recife e faz Pernambuco ferver

Jeniffer Oliveira / 09/02/2026
A foto mostra um corredor de exposição em um museu dedicado ao Frevo. Nas paredes, há painéis com textos e fotos históricas sobre clubes e agremiações carnavalescas. O espaço é decorado com padrões geométricos em preto e branco, criando contraste visual. O chão tem um desenho em zigue-zague que acompanha o estilo vibrante da mostra. Alguns visitantes caminham pelo corredor, observando os conteúdos expostos.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Embriaga, entra na cabeça, toma o corpo e acaba no pé e é um dos maiores orgulhos dos pernambucanos. Comemorado no dia 9 de fevereiro, o frevo, mais que um ritmo ou uma dança, é uma expressão cultural que remete à luta política e social desde o século XIX. A data foi escolhida por causa do primeiro registro na imprensa, assinado pelo jornalista Oswaldo Oliveira no Jornal Pequeno, em 1907, encontrado nos anos 1990 pelo historiador e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Evandro Rabelo.

O historiador e coordenador de Memória do Paço do Frevo, Luiz Vinícius Maciel, explicou como ocorreu essa descoberta e a importância da relação entre o frevo e a imprensa para o reconhecimento dessa identidade cultural.

“Em 9 de fevereiro de 1907, o Clube Empalhadores do Feitosa, lá entre os bairros do Hipódromo e Encruzilhada, anunciava seu repertório ‘vamos apresentar a marcha tal, a marcha tal, e uma delas se chamava o Frevo’. Então, provavelmente, não era o frevo – como expressão cultural -, era uma marcha chamada O Frevo. Esse foi, durante muito tempo, o registro mais antigo que a gente tinha sobre o frevo, de algum documento histórico”, conta o historiador.

Após essa descoberta, o frevo passou a ter um dia só pra ele instituído em Pernambuco. O que não se imaginava naquele momento é que, em 2015, outro pesquisador, Luiz Santos, funcionário do Paço do Frevo, encontraria mais um registro enquanto realizava sua pesquisa em jornais digitalizados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A notícia havia sido publicada no Diário de Pernambuco e era ainda mais antiga.

“Ele buscou por ‘frevo’ e encontrou uma data anterior. Era a troça Tome Farofa, em 11 de janeiro de 1906, anunciando seu repertório também e lá tinha a mesma marcha: O Frevo. Então essa canção da época, essa marcha, O Frevo que o Empalhadores do Feitosa apresentou em 1907, o Tome Farofa também saiu com ela no ano anterior”, conta.

Apesar disso, a data continua com essa primeira descoberta. Ela marca um tempo, mas é uma manifestação que já estava envolvendo os recifenses. Maciel analisa que “se chegou no jornal, é porque já está na rua há muito tempo. As pessoas já falavam sobre isso há muito tempo, provavelmente. O trânsito entre a boca das pessoas na rua, a oralidade, e isso até virar notícia de jornal tem um percurso”.

A foto mostra Luiz Vinicius Maciel, um homem de cabelos cacheados pretos, óculos redondo e barba, sentado e sorrindo em um espaço cultural colorido. Ele veste camiseta preta e calça cinza, transmitindo um ar descontraído. Ao fundo, há um mural vibrante em azul escuro com figuras vermelhas que remete a foliões de carnaval. Outras pessoas circulam pelo ambiente, que tem chão decorado com desenhos e textos, criando uma atmosfera artística e animada.

Luiz Maciel acredita que o frevo existia nas ruas antes de chegar aos jornais

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Da boca do povo aos jornais

O frevo surge entre o final do século XIX e o início do século XX, em um momento em que o Brasil e o Recife viviam um contexto de industrialização e reforma do porto, com a chegada de muito mais navios cargueiros. Maciel relembra que foi nesse momento também foi o de pós-abolição, em que parte da população negra começou a migrar, inclusive, para grandes centros comerciais, como o Recife, vindo de locais de produção agrícola, dos canaviais ao redor da cidade.

“A cidade que está com a população nova, se encontrando e produzindo culturalmente, vai ter um trânsito cultural de expressões vindo de fora, mas também de expressões culturais aqui de Pernambuco. E é nesse contexto que o frevo começa a aparecer, sobretudo nos bairros centrais do Recife. Isso é muito importante destacar. São José é, vamos dizer assim, o coração pulsante e originário do frevo, por ser um bairro muito comercial e também muito residencial, com uma concentração de população trabalhadora”, pontua.

E foi assim que o Frevo se popularizou entre os trabalhadores e caiu na boca do povo e da imprensa local. Na época, o Recife tinha vários jornais, como o Jornal Pequeno, a Província, Correio da Manhã, Diário da Noite, Diário do Pernambuco, o mais antigo deles. Responsáveis por informar a população e, sobretudo, difundir o carnaval.

Maciel lembra de uma figura importante para essa difusão, o jornalista Oswaldo Almeida. Um homem negro, formado na faculdade de Direito que, pela sua trajetória de vida e os locais que começou a acessar, usava o pseudônimo de Pierrot para fazer as vezes de interlocutor entre esse carnaval popular, que acontecia em bairros distantes ou em localidades mais empobrecidas, com a grande imprensa.

“E ele foi uma figura super importante pra dizer onde vai ter o ensaio, qual é o repertório. Muitas vezes as agremiações se organizavam para mandar a lista dos componentes e a data do ensaio, mandando pra ele na redação. A publicação nos jornais era um momento também de autorreconhecimento, de autoestima para essas populações”, destaca.

Além dos jornais tradicionais daquele tempo, muitas agremiações tinham seus próprios jornaizinhos. “O Vassourinhas editava ‘A vassoura’. Os espanadores editavam ‘O espanador’. Os caiadores editavam ‘O caiador’. Eram pequenos jornais efêmeros de quatro folhas distribuídos às vezes na rua, falavam do repertório do ano, faziam piada, crítica social, falavam mal do abastecimento de água, falavam mal da limpeza pública urbana”, diz o historiador.

Esse espaço da imprensa se torna, então, também um espaço para a população incidir politica e socialmente. O coordenador de Memória do Paço do Frevo também destaca que isso ocorria, muitas vezes, através dos diretores e presidentes das agremiações que eram, em sua maioria, homens negros formados no Liceu de Artes e Ofícios, ou exerciam outras profissões como operários de gráfica, de tipografia, onde aprendiam a ler e escrever. 

E assim, o Frevo que é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura(UNESCO), segue até hoje na boca do povo e no coração dos foliões.

História preservada

Quem tem interesse em conhecer a história do Frevo de perto, pode ir até o Paço do Frevo, espaço mantido pela Prefeitura do Recife, na Praça do Arsenal, no Recife Antigo, que salvaguarda e perpetua o legado do ritmo com exposições permanentes e temporárias, escolas de dança e música, além de um centro de documentação, um estúdio de gravação e uma rádio online. As atividades do Paço acontecem o ano todo e os ingressos custam R$ 10, inteira, e R$ 5, meia entrada, nas terças-feiras a entrada é gratuita.

Foto de um palco durante uma apresentação musical ao vivo. Ao centro, uma passista de frevo em pleno salto no ar, com fantasia verde brilhante e grande adorno de cabeça, pernas abertas e braços erguidos. Ao fundo, uma banda com vários músicos tocando instrumentos de sopro diante de estantes de partitura. À direita, um cantor idoso usa boné azul e segura o microfone enquanto se inclina para o público. Luzes fortes iluminam a cena e um painel colorido com a inscrição “Pátio de São Pedro” aparece ao fundo.

A história do frevo é a história do povo negro e trabalhador do Recife

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

AUTOR
Foto Jeniffer Oliveira
Jeniffer Oliveira

Jornalista formada pelo Centro Universitário Aeso Barros Melo (UNIAESO), mestranda pelo Programa de Pós-graduação e Inovação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)/Campus Agreste. Contato: jeniffer@marcozero.org.