Doze mulheres chegam ao Senado. Por quais portas?

Marco Zero Conteúdo / 05/10/2026

Ton Molina/Agência Senado

Por Ana Carolina Marsicano*e Maria Eduarda Antonino*

O plenário do Senado brasileiro tem 81 cadeiras. Durante quase toda a história da República, nem se reuníssemos todas as mulheres que já haviam passado por elas conseguiríamos ocupá-lo inteiro. Isso mudou agora. Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em mais de dois séculos de história da Casa. Com as 12 eleitas neste domingo, o número chegou a 90. Pela primeira vez, se todas as senadoras da história brasileira pudessem ocupar o plenário ao mesmo tempo, faltariam cadeiras para elas. A imagem ajuda a medir o tamanho da ausência.

Desde a criação do Senado, em 1826, mais de mil homens passaram pela Casa. Uma mulher só ocuparia uma de suas cadeiras 153 anos depois. Em 1979, Eunice Michiles, da Arena, tornou-se a primeira senadora do Brasil. Não havia sido eleita titular: era suplente de João Bosco de Lima e assumiu após a morte dele. Uma de suas primeiras propostas buscava retirar do Código Civil o dispositivo que permitia ao marido pedir a anulação do casamento caso descobrisse que a mulher não era virgem.

Dois anos depois, outra morte abriu caminho para a segunda mulher no Senado. Laélia de Alcântara, suplente de Adalberto Sena pelo Acre, tomou posse em 1981 e tornou-se também a primeira mulher negra a exercer o mandato. A instituição estava tão pouco preparada para recebê-la que, no juramento de posse, precisou declarar-se “senador”, no masculino. Durante seu curto mandato, defendeu o ingresso de mulheres na Aeronáutica e mudanças no Código Civil para dividir entre marido e mulher a direção da família. Por mais de uma década, a suplência seria uma das principais portas de entrada das mulheres no Senado. A barreira das urnas só foi rompida em 1990, quando Júnia Marise, por Minas Gerais, e Marluce Pinto, por Roraima, se tornaram as primeiras mulheres eleitas diretamente para a Casa.

A imagem mostra uma galeria de fotos das mulheres que já foram senadoras no Brasil

Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em mais de dois séculos de história do Senado.

Edilson Rodrigues/Agência Senado

A mudança ganhou outra dimensão em 1994. Benedita da Silva, Emília Fernandes, Marina Silva e Marluce Pinto conquistaram diretamente uma cadeira. Somadas a Júnia Marise, fizeram o Senado começar 1995 com cinco mulheres. Havia algo novo naquela geração. Marina Silva, seringueira do Acre e alfabetizada aos 16 anos, chegou aos 36 como a senadora mais jovem da República. Benedita da Silva, nascida na favela da Praia do Pinto e filha de uma lavadeira, tornou-se a primeira mulher negra eleita diretamente para o Senado. Mulheres começavam não apenas a conquistar suas próprias cadeiras, mas a chegar por caminhos que raramente conduziam até ali.

A arquitetura, no entanto, continuava contando outra história. O Congresso foi inaugurado em 1960, mas o banheiro feminino dentro do plenário do Senado só surgiu mais de meio século depois. Até então, as senadoras precisavam deixar o espaço das votações para usar outro sanitário. E até 1997 sequer podiam usar calças compridas no plenário. Em 2026, outro marco foi alcançado. Doze mulheres foram eleitas de uma só vez, o maior número desde a redemocratização. A partir de 2027, a bancada feminina deverá chegar a 18 senadoras. É um recorde histórico — e, ao mesmo tempo, apenas 22,2% das 81 cadeiras.

Mas há outra mudança importante. Durante décadas, a presença feminina pôde ser narrada como abertura progressiva de uma instituição construída por homens. Hoje, saber que mais mulheres chegaram já não basta para dizer em que direção política a Casa está se movendo. Entre as eleitas estão algumas das principais lideranças da direita brasileira. No Distrito Federal, pela primeira vez, as três cadeiras serão ocupadas simultaneamente por mulheres: Damares Alves, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, formando um núcleo expressivo da direita religiosa e bolsonarista. Depois de quase dois séculos perguntando quando as mulheres chegariam ao Senado, talvez seja hora de mudar a pergunta: elas chegaram. Mas que política chega com elas?

As novas senadoras não chegam à Casa pelo mesmo caminho. Algumas acumulam décadas de mandatos e militância partidária; outras estrearam nas urnas após ocuparem posições de primeira-dama; há quem tenha transformado sobrenomes conhecidos em carreiras próprias e quem tenha crescido junto com a reorganização da direita na última década.

A ampliação da representação feminina, portanto, não produziu uma bancada homogênea. Entre as trajetórias mais longas está a de Luizianne Lins (Rede-CE), que passou pela Câmara de Fortaleza, Assembleia Legislativa, Prefeitura da capital e Câmara dos Deputados. Sua atuação se vincula a proteção social, direitos das mulheres, educação, cultura e desenvolvimento regional. Marília Campos (PT-MG) também chega depois de décadas de construção política, iniciada no movimento estudantil e sindical e seguida por mandatos legislativos e quatro passagens pela Prefeitura de Contagem. Já Teresa Surita (MDB-RR) construiu seu principal capital político em sucessivos mandatos como prefeita de Boa Vista. Nos três casos, o Senado representa uma nova escala de carreiras já consolidadas.

Outras eleitas construíram projeção primeiro em funções não eletivas e redes familiares de poder. Gracinha Caiado (União-GO) disputou sua primeira eleição aos 67 anos, depois de passar pela União Democrática Ruralista, trabalhar nos escritórios políticos do marido, Ronaldo Caiado, e ganhar visibilidade como primeira-dama de Goiás e coordenadora das políticas sociais do governo. Sua vitória transformou em votos um capital acumulado entre agronegócio, gestão social e família política. Em Alagoas, Marina JHC (PSDB) também chega ao Senado na primeira disputa, após atuar como primeira-dama de Maceió. Sua campanha levou para a escala estadual programas ligados à primeira infância, autismo, saúde e empreendedorismo feminino.

Fonte: Agência Senado

No Amapá, Rayssa Furlan (Podemos), médica, ex-primeira-dama e ex-secretária municipal, conquistou seu primeiro mandato com uma agenda de saúde, inclusão e autonomia econômica das mulheres, ao mesmo tempo em que defende a exploração de petróleo na Margem Equatorial. A família também pesa na trajetória de Marília Arraes (PDT-PE), mas de outra maneira. Bisneta de Miguel Arraes, herdou um sobrenome central na política pernambucana, porém construiu carreira própria como vereadora, deputada federal e candidata à Prefeitura do Recife e ao governo de Pernambuco. Sua trajetória combina herança política e autonomia eleitoral.

No Rio Grande do Norte, Samanda de Lula (PT) representa outra rota. Sua experiência eletiva é recente, mas a formação partidária vem dos anos 1990. Trabalhou por anos com Fátima Bezerra, ocupou cargos no governo estadual e presidiu o PT no estado. Eleita vereadora de Natal em 2024, chegou ao Senado dois anos depois, numa candidatura cuja associação ao lulismo aparece já no nome de urna.

Os patrimônios declarados também mostram a heterogeneidade do grupo. Entre os valores levantados, há uma distância que vai de R$ 476,7 mil, declarados por Samanda de Lula, a R$ 8,48 milhões, de Teresa Surita. Gracinha Caiado declarou cerca de R$ 3,94 milhões; Marília Arraes, R$ 2,6 milhões; Marília Campos, aproximadamente R$ 1,8 milhão; e Carol de Toni, R$ 1,41 milhão. O patrimônio, sozinho, não explica a força eleitoral dessas candidaturas, mas evidencia a diversidade de recursos combinados a redes familiares, estruturas partidárias e mandatos anteriores.

A força das mulheres da direita

Se a eleição ampliou a presença feminina, ela também deslocou essa representação para a direita. Entre as 12 eleitas, a maioria pertence a partidos situados à direita ou à centro-direita. O PL concentra três — Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni —, enquanto Republicanos, União Brasil, PSDB e Podemos elegeram uma representante cada. Juntas, essas siglas somam sete das 12 novas senadoras. À esquerda e centro-esquerda aparecem PT, Rede e PDT; o MDB ocupa posição mais ao centro.

O crescimento da bancada feminina, portanto, não correspondeu a uma inflexão progressista no Senado. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, expressam duas formas dessa ascensão. Michelle chega às urnas após ter sido primeira-dama do Brasil e presidente do PL Mulher. Sua candidatura articula capital familiar, liderança partidária e religião, combinando linguagem evangélica, defesa da vida desde a concepção, família, apoio a Israel e pautas de inclusão.

Bia Kicis, por sua vez, chega depois de dois mandatos como deputada federal e de uma carreira como procuradora. Católica, também mobiliza religião, mas sua atuação se organiza sobretudo em torno do conservadorismo moral e das disputas institucionais: oposição ao aborto e às políticas de identidade de gênero, defesa do acesso a armas, voto impresso, anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, críticas ao STF e resistência à regulação das redes sociais.

Em Santa Catarina, Carol de Toni (PL) representa a rápida ascensão de uma liderança formada no ciclo político aberto em 2018. Em dez anos, passou de candidata a vereadora suplente em Chapecó a deputada federal, presidente da Comissão de Constituição e Justiça e senadora. No Acre, Mara Rocha (Republicanos) combina conservadorismo nos costumes e liberalismo econômico, com defesa da família, redução de impostos, acesso a armas, regularização fundiária e fortalecimento do setor rural.

A predominância da direita, porém, não se restringe ao bolsonarismo. Gracinha Caiado chega vinculada ao agronegócio e ao grupo político de Ronaldo Caiado; Marina JHC e Rayssa Furlan transformaram a projeção como primeiras-damas em candidaturas próprias, combinando agendas de cuidado com redes de poder já consolidadas. Há mais mulheres no Senado, mas elas carregam projetos políticos, bases sociais e trajetórias profundamente diferentes. Mais representação feminina não significa, por si só, maior peso de agendas progressistas de gênero.

As ausências também dizem muito

O deslocamento à direita também aparece quando se observa quem ficou de fora. Duas derrotas particularmente simbólicas foram as de Marina Silva (Rede) e Benedita da Silva (PT), referências históricas da esquerda associadas, respectivamente, às agendas ambiental e socioambiental e às lutas por igualdade racial, direitos sociais e ampliação da representação política. O contraste é significativo: enquanto essas duas lideranças não chegaram ao Senado, cresceram as bancadas femininas de partidos de direita e centro-direita. De um lado, ficaram de fora trajetórias ligadas aos direitos sociais, ambientais e raciais; de outro, avançaram lideranças associadas ao conservadorismo moral, à segurança pública e, em alguns casos, à mobilização religiosa.

No Rio de Janeiro, a derrota de Benedita tem peso histórico adicional. Primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado, em 1994, ex-governadora, ministra e parlamentar com mais de quatro décadas de vida pública, ela ficou de fora em um estado onde as duas vagas foram conquistadas por candidatos do PL. Em São Paulo, a ausência de Marina Silva reduz no Senado uma das principais vozes nacionais ligadas à agenda climática e socioambiental.

O avanço numérico da representação feminina ocorreu, portanto, simultaneamente a uma recomposição ideológica da Casa em direção à direita. O contraste entre as ausências de Marina e Benedita e a entrada de Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni sintetiza essa mudança.

Um mapa ainda desigual

O recorde também convive com uma grande ausência territorial. Em 15 das 27 unidades da Federação, nenhuma das duas vagas ao Senado em disputa em 2026 foi conquistada por uma mulher. Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Paraíba, Pará, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Sergipe e Tocantins elegeram apenas homens. Isso não significa que esses estados nunca tenham tido senadoras. Vários já elegeram mulheres de projeção nacional, como Vanessa Grazziotin, Lídice da Mata, Rose de Freitas, Eliziane Gama, Simone Tebet, Gleisi Hoffmann, Daniella Ribeiro, Benedita da Silva, Ana Amélia Lemos, Maria do Carmo Alves e Kátia Abreu.

A exceção histórica é o Piauí, que se tornou o único estado do país que nunca elegeu diretamente uma mulher para o Senado. O recorde feminino, portanto, convive com uma representação territorial ainda desigual: mais da metade dos estados saiu da eleição sem acrescentar nenhuma mulher às suas bancadas.

A eleição de 2026 mostra que a pergunta já não pode ser apenas quantas mulheres foram eleitas. É preciso perguntar também quais mulheres chegam ao poder, por quais partidos, por quais caminhos, sustentadas por quais redes e levando que projetos políticos para o Senado. Em algumas trajetórias, a política municipal funcionou como escola e base eleitoral. Em outras, primeiras-damas transformaram visibilidade em votos. Há ainda o peso das famílias tradicionais, das máquinas partidárias, do sindicalismo e das novas redes conservadoras. O número de mulheres importa. Mas, para entender o Senado que emerge das urnas, é preciso olhar também para a política que essas mulheres representam.

Ana Carolina Marsicano é pós doutoranda na UNICAMP e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política – Laberp, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

Maria Eduarda Antonino é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisadora do Laberp.

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