Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Aos 74 anos, o agricultor aposentado José Pereira de Lira, conhecido como Zé Pedrim, morador da Serra dos Cavalos, zona rural de Caruaru, guarda poucas e valiosas lembranças da época em que brincou Reisado. No terreiro da sua casa, com o seu violão e um palito de fósforo (que ele usa como palheta), Zé Pedrim dedilha e canta as poucas canções que guarda na memória. Nos intervalos conta histórias do passado de festas e folia que viveu enquanto integrou o grupo de reisado do falecido mestre Manuel Artur Rodrigues de Lima, que era seu sogro, pai da sua esposa Ilda da Conceição, de 65 anos. 

Com manifestações por todo o país, o Reisado é uma festa popular que chegou ao Brasil durante o período chamado de colonial. Dependendo da região em que a festa é realizada, o seu nome pode variar. Em alguns lugares, por exemplo, o Reisado pode ser chamado de Folia de Reis ou Festa de Santos Reis. Geralmente, os brincantes saem pelas ruas em procissão, passando de casa em casa, durante o período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, quando se comemora o Dia de Reis. No entanto, em alguns municípios, a folia também acontece durante o carnaval. 

Em Caruaru, infelizmente, não há registros e nem dados oficiais que forneçam informações precisas e detalhadas sobre a cultura do Reisado na cidade. Até aqui, a história oral dá conta de três grupos que marcaram a cultura popular do município. Os grupos dos mestres Manuel Artur Rodrigues de Lima e Alberto Rodrigues, da Serra dos Cavalos, e o grupo do mestre Cícero, do Alto do Moura. 

Seu Zé Pedrim não guardou as datas, mas lembra que o seu grupo era formado por 24 pessoas, com mestre, contramestre, rei, rainha, noiva, Mateus e Catirina (personagens também presentes no Boi-Bumbá) e cavalo-marinho. No Reisado não há, necessariamente, um padrão para a quantidade ou características dos personagens integrantes dos grupos. Além dos músicos que acompanham a brincadeira com violões, violas, sanfonas, zabumbas e pandeiros, as figuras que frequentemente se repetem entre os brincantes são o rei, o mestre e o contramestre.

 No grupo do mestre Manoel Artur, seu Zé tocava violão. Ele conta que, com os amigos, brincava por toda a cidade. “Onde chamassem, a gente ia brincar. Em Caruaru, Maniçoba, Murici, Alto do Moura. Era bonito demais, todo mundo enfeitado com as fitas, os espelhos. Os galantes [dançarinos do grupo] correndo atrás das damas”.

Zé Pedrim e Gabriel Bezerra. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

 O meu encontro com seu Zé Pedrim e as suas memórias do Reisado se deu por meio do músico caruaruense Gabriel Bezerra, de 27 anos. Ele lamenta a falta de registros e de informações sobre o Reisado no município e teme que  a festa se perca completamente. Por essa razão, Gabriel tem pesquisado e procurado saber sobre grupos de Reisado ativos em cidades pernambucanas do Agreste e Sertão, e até de outros estados do Nordeste, com o propósito de resgatar a história e a prática da festa em Caruaru. 

Resgatar o conhecimento sobre as músicas, as vestes e sobre como era feita a brincadeira são pontos importantes da pesquisa de Gabriel. “Eu me preocupo com o risco da perda dessa memória. Tenho buscado informações diretamente com os mestres que vou conhecendo, acessando. Procuro aprender as músicas e saber mais sobre a brincadeira para entender e saber como voltar a brincar. Busco aprender primeiro ouvindo quem veio antes”, conta.

O músico descreve o seu interesse pela cultura popular como um chamado ancestral e conta que sua identificação com o Reisado foi imediata. “Minha atração pela força que representa a memória dos saberes populares chegou de maneira muito orgânica e até inconsciente. Eu lembro que a primeira vez que ouvi e vi uma roda de coco foi determinante para isso. Imagino que tudo me chamou para estar mais atento às mensagens e presenças que estão em todas as manifestações culturais de nosso povo: rodas de coco, novenas de pife, sambada de maracatu, festa de bumba meu boi. E dentro disso, o reisado foi uma identificação muito forte, imediata. Senti um nível de ligação muito profundo. Comecei a aprender as músicas e a me conectar com isso de uma forma muito intensa”. 

Gabriel está elaborando um projeto para buscar recursos financeiros e viabilizar a ampliação e o desenvolvimento da sua pesquisa. A ideia é inscrever a proposta em editais de incentivo à cultura, como o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), que todos os anos lança editais de seleção pública que disponibilizam recursos para a realização de projetos em diversas áreas culturais.

Palito de fósforo usado como palheta, uma marca de Zé Pedrim. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

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