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Faltam leitos de UTI no interior de Pernambuco para responder à expansão do coronavírus

Raíssa Ebrahim / 10/04/2020

O novo coronavírus evidenciou ainda mais o problema histórico dos vazios assistenciais no interior do Brasil. Em Pernambuco, das 12 regionais de saúde, três sequer têm leito de UTI no SUS: Afogados da Ingazeira, Goiana e Ouricuri. Outras oito estão abaixo do mínimo desejável. Somente a regional do Recife ultrapassa os requisitos estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

A pouca infraestrutura em cidades vulneráveis que já sofrem com a escassez de recursos para o financiamento da saúde expõe a população aos perigos da “interiorização” da Covid-19. São locais que tendem a uma rápida sobrecarga do sistema com a evolução da epidemia e municípios em que o cenário de emprego e renda dificulta o isolamento.

A estimativa mundial é que 20% dos casos graves da infecção irão demandar acesso à rede hospitalar e 5% dos infectados precisarão acessar leitos de UTI.

As informações que abrem esta matéria são da nota técnica do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) sobre as necessidades de leitos de UTI, respiradores e ocupação hospitalar no SUS em todas as regionais de saúde do país em preparo ao novo coronavírus.

O instituto se baseou na comparação com os requisitos mínimos listados em portarias do Ministério da Saúde. Para o número de leitos de UTI, adotou-se como o mínimo desejável a quantidade de 10 leitos por 100 mil usuários.

Em Pernambuco, na maioria das regionais basta que uma pequena parcela da população seja infectada para causar uma lotação dos leitos de UTI, com destaque para Limoeiro (2%), Arcoverde (3%), Palmares (5%) e Garanhuns (5%). Isso sem contar com as três regionais que não têm leitos de UTI no SUS e, portanto, nem entraram nesse cálculo.

Cada regional, que conta com uma gerência, abarca a sede e municípios ao redor, somando os 185 municípios do estado.

Os cálculos do Ieps utilizaram números do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e, portanto, estão sujeitos a erros de reporte. A nota técnica não levou em consideração os anúncios recentes feitos pelo Governo de Pernambuco. Conheça-os mais abaixo e saiba que investimentos o estado vem fazendo para ampliar e descentralizar a infraestrutura.

“As regiões de saúde melhor equipadas são aquelas que abarcam as capitais, enquanto as regiões de menor preparo e mais vulneráveis encontram-se majoritariamente no interior. Dessa forma, uma ‘interiorização’ da pandemia requer uma ação ao nível regional ou macrorregional e um preparo do ponto de vista operacional ainda maior. Esperamos que o planejamento e a gestão da resposta à Covid-19 seja coordenado entre entes federativos o máximo possível, para que essas regiões mais vulneráveis sejam levadas em conta”, diz Beatriz Rache, do Ieps e uma das seis pessoas que assinam a nota técnica. Ela é economista com mestrado pela Columbia University, em Nova York.

“Quando olhamos o mapa, ficamos chocados”, lamenta Adriana Falângola, professora da área acadêmica de medicina social no Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFPE. “E olhe que o estudo foi bem conservador. Eu imagino que o que eles apresentam é, do ponto de vista da realidade, ainda mais grave”, observa sobre os parâmetros mínimos utilizados.

Adriana, que também é líder do Grupo de Pesquisa de Economia Política da Saúde (CNPQ), comenta que, em Pernambuco, cada Gerência Regional de Saúde (Geres) conta com um hospital no mínimo de médio porte. São nessas unidades que, teoricamente, estão os leitos públicos de UTI.

Ou deveriam estar, já que eles não existem em alguns lugares para atender, por exemplo, localidades como Araripina, Bodocó, Exu, Granito, Ipubi, Moreilândia, Ouricuri, Parnamirim, Santa Cruz, Santa Filomena e Trindade.

Esses 11 municípios do Sertão fazem parte da regional de Ouricuri, uma das três sem leitos de UTI no SUS, e são alguns dos mais distantes da capital. Em Ipubi, já houve um caso confirmado da Covid-19. O paciente de 47 anos teve cura clínica e já está em casa, segundo a prefeitura.

Fora da Região Metropolitana do Recife, há casos confirmados do novo coronavírus em Vitória de Santo Antão, Bom Jardim, Carpina, João Alfredo, Lagoa do Carro, Limoeiro, Paudalho, Passira, Catende, Palmares, Belo Jardim, Caruaru, Cachoeirinha, Frei Miguelinho, Garanhuns, Capoeiras, Arcoverde, Salgueiro, Petrolina, Ipubi, Aliança, Goiana, Macaparana e Timbaúba.

“Espero que essa tristeza que estamos vivendo sirva de fato para conseguirmos operacionalizar a chamada ‘regionalização da saúde’, para garantir o atendimento mesmo que considerando parâmetros muito tímidos. Mas que esse mínimo garanta ao menos o básico”, pontua Adriana.

“É preciso enfatizar que os vazios assistenciais existem desde sempre e não são uma particularidade do estado de Pernambuco. Há uma concentração da oferta nas capitais e em torno dela por vários motivos, desde o local de formação até o maior acesso à educação e lazer para as famílias. A internet e a telesaúde melhoraram bastante o cenário, mas não modificaram a estrutura”, critica.

Uma vez que a rede não comporta atender a todos ao mesmo tempo, o isolamento segue sendo a principal estratégia para evitar que mais gente seja contaminada e o sistema de saúde entre em colapso já nas próximas semanas.

A sobrecarga no Recife

A situação menos dramática em termos de infraestrutura de saúde é a do Recife. Mas, ressalta Adriana, é importante observar que a regional da capital (I) não atende apenas os pacientes da cidade. Quem não encontra atendimento nas suas respectivas localidades tende a recorrer ao Recife.

O secretário de saúde de Pernambuco, André Longo, já declarou que, até o início do próximo mês, o cenário é de “aceleração descontrolada” da transmissão da Covid-19, o que deve levar à sobrecarga do sistema entre a última semana de abril e a primeira semana de maio. “Serão dois meses duríssimos”, afirmou Longo.

Nesta semana, o estado atingiu a marca de 80% dos leitos totais de UTI direcionados para pacientes com o novo coronavírus.

De acordo com o boletim desta quinta-feira (10), o estado soma 555 casos confirmados e 56 mortes. O total de pacientes recuperados é de 49. O número de casos positivos está aumentando também por conta do crescimento das testagens, apesar de o número de kits ainda ser pequeno diante da necessidade. O cenário é de subnotificação, assim como em todo o Brasil.

O estado não vem mais divulgando os casos suspeitos. “A Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) informa que, desde o estabelecimento da transmissão comunitária em Pernambuco, em 18 de março, tem seguido o modelo de divulgação dos dados do Ministério da Saúde, divulgando diariamente os casos confirmados, recuperados e óbitos”, disse a pasta em nota à Marco Zero Conteúdo.

A estratégia estadual é diferente da adotada, por exemplo, pelo Ceará, que segue informando os casos suspeitos e as localidades.

A SES-PE detalha que, assim como já é realizado para a influenza nos pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag), a notificação é feita apenas nos casos graves, de pacientes que apresentam falta de ar, dificuldade para respirar, dor no peito e febre que se prolongue por mais de 72 horas, mesmo com o uso de antitérmicos.

A corrida por mais leitos

(crédito: Governo de Pernambuco)

O governador Paulo Câmara (PSB) já anunciou a criação de mil novos leitos dedicados à Covid-19 em todo Pernambuco, sendo 400 de UTI e 600 de enfermaria. Porém, nem todos foram entregues ainda porque, naturalmente, isso requer tempo, o que pode ser um problema diante do quadro de aceleração descontrolada da contaminação.

Para lidar com a assistência voltada aos pacientes do novo coronavírus no interior, o governo anunciou, neste início do mês, dez leitos intermediários na Unidade Pernambucana de Atenção Especializada (UPAE) de Petrolina, no Sertão, e prometeu que, até o fim de abril, será aberto na unidade um total de 100 leitos, sendo 20 de UTI.

Os leitos de cuidados intermediários são voltados para pacientes com quadros considerados moderados, que não precisam do suporte de respirador.

Além da unidade de Petrolina, outras UPAEs estão sendo transformadas em unidades para o tratamento da doença. Em Goiana, na Mata Norte, a unidade construída pelo grupo Fiat Chrysler Automóveis (FCA) que seria inaugurada neste primeiro semestre teve o processo de trabalho para equipar o local antecipado. Serão 100 leitos, mas a previsão de abertura também é só no final de abril.

Paulo Câmara também está atuando para viabilizar um hospital de campanha em Serra Talhada. A previsão é que a estrutura esteja em funcionamento em meados de abril na área do estacionamento do Hospital Prof. Agamenon Magalhães (Hospam), que também é gerido pelo estado. Serão 100 leitos clínicos, divididos em 10 enfermarias, sendo uma delas pediátrica. O anúncio não citou leitos de UTI.

Diante o quadro, o procurador-geral de Justiça do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Francisco Dirceu Barros, recomendou aos prefeitos do estado que promovam a estruturação da rede municipal de saúde e a adoção de providências urgentes para leitos de retaguarda. A recomendação é que sejam elaborados e postos em prática Planos de Contingência Municipais, em consonância com os planos nacional e estadual.

“A taxa de ocupação dos leitos de UTI no SUS já é da ordem de 95% para atenção aos pacientes críticos, o que torna imprescindível a ampliação emergencial de leitos novos de UTI para atender essa extraordinária demanda. Além disso, muitas pessoas deverão ser atendidas em unidades municipais de saúde, em razão da menor gravidade dos casos, o que necessitará de estruturas assistenciais menos complexas, mas não menos eficientes, diante da conjuntura pandêmica vivenciada”, destacou no anúncio. Acesse aqui o anúncio completo.

A realidade do Nordeste

Em nível federal, o Ieps encontrou 15,6 leitos de UTI por 100 mil habitantes, sendo a média no SUS de 7,1. Mas a realidade brasileira é altamente desigual, com uma forte concentração da infraestrutura nas capitais e regiões metropolitanas.

Então essa média precisa ser vista também através de outro dado: em 72% das regiões, o número de leitos de UTI pelo SUS é inferior ao considerado adequado em um ano típico, isto é, sem a influência da Covid-19. Um padrão similar foi observado pelo instituto com relação a ventiladores e respiradores.

No Nordeste, 30,5% da população unicamente dependente do SUS vive em regiões de saúde sem leitos de UTI. Além disso, 21,8% da população dependente do SUS no Nordeste reside em regiões especialmente vulneráveis, isto é, regiões que apresentam uma combinação de infraestrutura de leitos de UTI aquém do mínimo e uma mortalidade por condições similares à Covid-19 acima da mediana.

Todas essas regiões especialmente vulneráveis no Nordeste encontram-se justamente fora das regiões que abarcam as capitais. Lembram o parâmetro com o qual demos início a esta matéria, de leitos de UTI? Somente 12% das regiões de saúde no Nordeste atendem o requisito mínimo de 10 leitos de UTI por 100 mil usuários.

Se levarmos em consideração as populações que dependem unicamente do SUS, esse percentual salta para 30,6%.

Fazendo um exercício de olhar somente para as regionais que não incluem as capitais, esse dado fica ainda mais assustador: somente 8,7% das regiões nordestinas atendem aos padrões mínimos desejáveis de UTI.

AUTOR
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Raíssa Ebrahim

Jornalista pela UFPE, foi trainee no Estadão, trabalhou seis anos no Jornal do Commercio, foi editora e chefe de redação do PorAqui (startup de jornalismo hiperlocal do Porto Digital). É fellowship da Thomson Reuters Foundation sobre Transição Justa (2023), foi bolsista do Instituto ClimaInfo (2022) e venceu o Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo (2020). Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com