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“Antônio!”, gritei enquanto o novo filiado do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) entrava em uma Hilux modelo antigo, placa de Paulista, estacionada em frente à Folha de Pernambuco. Sua entourage, composta por cinco homens, o chama: “É a menina da Folha”, dizem. Neto de Miguel Arraes e atual presidente da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Antônio Campos calmamente sai do carro e vai em direção à calçada, onde me apresento como repórter da Marco Zero Conteúdo.

Uma hora antes, ele havia participado da cerimônia de filiação ao PRTB. A sede do partido é uma modesta sala no quarto andar do Edifício Canavial, no Recife Antigo. Quando cheguei no local, deselegantemente atrasada, Antônio Campos havia acabado de descer os quatro andares de escada. Na sala, a única mulher presente era a esposa de um animado bolsonarista de Garanhuns, que buscava apoio para a manifestação do dia 15 de março, contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF).

O deputado estadual Marco Aurélio, líder da oposição na Assembleia Legislativa de Pernambuco, também ainda estava na sala, decorada com cartazes dele próprio e uma faixa “Levy Fidélix – Presidente Urgente”. “Vamos ter uma presença boa e fazer um movimento forte para defender o presidente”, disse, sobre a nova prioridade do partido, a manifestação do dia 15.

Evitou cravar Antônio Campos como candidato a Prefeitura de Olinda, apesar de todas as evidências. “Aqui tem gente de Goiânia, Olinda, Belo Jardim, Garanhuns. É o momento do prazo final e teremos muitas filiações ainda. Candidatura é em um outro momento”, desviou Marco Aurélio, ele próprio possível candidato à prefeitura do Recife.

Na calçada, Antônio Campos disse que escolheu o partido fundado e presidido por Lévy Fidélix – conhecido pelo louco projeto do aerotrem e declarações homofóbicas – porque é um partido que apoia Bolsonaro. Hamilton Mourão, o vice-presidente, é do PRTB.

“Tem uma chapa pronta em Olinda de vereadores podendo ter algumas modificações com a minha entrada. É um partido que temos a garantia de fidelidade. É um partido que tem uma história”, diz.

Para Olinda, ainda também não se coloca como pré-candidato, mas como um líder. “Irei liderar um movimento para montar uma chapa competitiva em Olinda. Poderei ser candidato ou não ser, essa decisão sai até abril”, afirmou, justamente quando começa o prazo para definir as candidaturas. Na filiação, Antônio Campos também lançou o slogan da futura chapa: Muda Olinda.

Não vi parentes de Antônio Campos na filiação. Uma espécie de ovelha desgarrada da família Arraes, de centro esquerda, o único irmão do falecido Eduardo Campos foi criticado publicamente pelo sobrinho João Campos (PSB), deputado federal mais votado de Pernambuco nas últimas eleições.

O sobrinho disse sobre o tio, em dezembro passado, durante acalorada discussão na Câmara dos Deputados com o ministro da Educação Abraham Weintraub, que “eu nem relação tenho com ele, ministro. É um sujeito pior que você”. Weintraub havia alfinetado o deputado, questionando porque João o criticava tanto, se ele havia colocado o tio do parlamentar para presidir a Fundaj.

Desde junho de 2019 na presidência da instituição, graças a uma indicação do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB), Antônio Campos não ficou alheio a denúncias. Em setembro, a Marco Zero revelou planos de transformar cinema, museu e escola da Fundaj em OS (organização social). Antes, em julho, denunciou que a filha da namorada de Campos assumiu um cargo de gestão no órgão.

Fervoroso bolsonarista

Sobre a manifestação pró-Bolsonaro, Antônio Campos se mostrou inicialmente equilibrado, dizendo que respeita as “manifestações espontâneas”, mas não acredita que é o momento adequado. “Tenho uma visão crítica e respeitosa sobre a manifestação”, disse.

Quando pergunto qual seria a crítica, o neto de Arraes se mostra, então, um bolsonarista fervoroso. “Esse acirramento nas redes sociais alimenta um falso discurso. O grande problema da democracia brasileira que era a corrupção (nesse momento, ele eleva a voz e fala a palavra com o “p” mudo), que corroía a democracia brasileira, corroía a imprensa, corroía a sindicato, partidos, corroía estados, municípios, essa Bolsonaro e Moro caíram em cima. O grande inimigo da democracia brasileira era a corrupção”, diz, sempre com verbos no passado.

Ainda com uma fala inflamada, como se estivesse com plateia, repete que Bolsonaro está combatendo o crime. “Bolsonaro diminuiu a corrupção a olhos vistos! Está aí a Petrobras dando R$ 40 bilhões de lucro!”, exclamou. É verdade: a Petrobras teve mesmo lucro recorde em 2019. Mas isso se deu apenas porque houve desinvestimento na companhia, com a privatização da BR Distribuidora e a venda da Transportadora Associada de Gás (TAG).

Para Campos, Bolsonaro e Mourão “paradoxalmente, salvaram a democracia brasileira de um antro de ladrões que vinham roubando sistematicamente a nação brasileira”.

A crítica, então, que ele faz à passeata é de que está sendo vista como contra a democracia, o que, ele diz, não é – mesmo com pedidos de fechamento de Congresso e do STF. “Bolsonaro é um homem que trabalhou fortemente pela democracia brasileira e vem respeitando as instituições brasileiras”, disse, ainda com ânimo acelerado. Então, de súbito, se afastou do meio-fio e se dirigiu até o carro que o esperava.