Ocupação dos indígenas Warao
Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Em um imóvel abandonado, no bairro de Santo Amaro, centro do Recife, é possível encontrar olhares tristes e inconsoláveis. Vítimas de uma diáspora impulsionada com a crise econômica venezuelana, os indígenas da etnia Warao, agora vivem a crise brasileira sem saber quando o processo constante de instabilidade e insegurança vai passar. “Se não saímos às ruas não comemos e a comida está muito cara”, revelou Antônio, indígena de 57 anos que se mudou para Recife em 2019, junto com um grupo de mais de 300 pessoas e agora habita a ocupação junto com alguns poucos parentes que ainda continuam na capital pernambucana. 

A falta de políticas públicas capazes de garantir moradia, alimentação, educação e saúde para os imigrantes do Recife fez com que a maioria dos warao continuassem em movimento e buscassem outros lugares para viver. Em março de 2021, a matéria publicada pela Marco Zero denunciou as condições precárias em que viviam os indígenas venezuelanos, agora, oito meses depois, o que encontramos é um cenário muito similar e sem expectativas de melhora. 

Superlotação e carência

“A prefeitura esteve aqui e disse que já está com dinheiro para ajudar os venezuelanos e que nós temos que esperar, mas nós já estamos esperando há muito tempo, se eles querem nos ajudar tem que ser logo”. Essas são as palavras de Maria Moreno, filha de seu Antônio e atual liderança na ocupação dos indígenas warao localizada do centro do Recife. A indígena está na casa há dois anos, junto com seus pais, três filhas e o marido. 

Com a voz trêmula, Maria não cansa de repetir o quão desesperadora é a situação em que a sua família se encontra e afirma que “não dá mais para continuar assim”. A angústia da indígena é compreensível quando conhecemos como ela está vivendo há mais de dois anos. 

O imóvel, que já chegou a abrigar cerca de 150 pessoas, agora é ocupado por 56 pessoas, entre crianças, adultos e idosos. Porém, a diminuição do número de ocupantes não ameniza a situação precária em que o local se encontra. Com apenas um banheiro, sem ventiladores ou camas, e apenas um fogão para todos, as pessoas estão acomodadas em cômodos equipados com colchões velhos e redes. Além disso, algumas grades da casa estão deterioradas e, por isso, há relatos de furtos. 

Questionada porque não se muda para o abrigo cedido pela prefeitura, localizado no bairro do Torreão, Maria revela que os conflitos entre as várias famílias, fez com que a convivência entre eles ficasse impossível. LO grupo se dividiu entre a ocupação, o abrigo da prefeitura e casas alugadas no bairro do Pina.

Povo warao morando no Recife
Maria Moreno (segurando a rede) ao lado de sua mãe. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Poucos dias antes de visitarmos a ocupação, um novo grupo de warao chegou para habitar o local, eles moravam em uma casa alugada em Jaboatão dos Guararapes, porém, devido à falta de dinheiro, precisaram sair e buscaram ajuda com Maria e seus parentes. 

“A prefeitura de Jaboatão disse que não tinha recursos para ajudar a gente, por isso viemos para cá [Recife], porque nós precisamos de ajuda, precisamos de uma casa, alimentos, saúde e educação para que nossas crianças possam ir à escola”, declarou o Cacique Celso. O líder alegou que eles conseguiam se manter em uma casa alugada graças ao dinheiro arrecadado nas ruas, como pedintes, mas, com a chegada da pandemia, as doações diminuíram. 

Agora, os indígenas da ocupação aguardam a resposta da entidade social Cáritas Brasileira que, graças à parceria firmada com o Governo do Estado, deve alugar quatro casas para abrigá-los. 

“No momento nós estamos escutando os indígenas para conhecer as necessidades deles e ajudar da melhor forma. Já estamos com tudo organizado para o aluguel das casas, mas ainda aguardamos o recurso do Governo do Estado, que já foi aprovado, mas ainda não foi repassado devido às burocracias”, afirmou Sirley Vieira, coordenador do Projeto Emergencial para Ajuda Humanitária à População Indígena Warao, da Cáritas Arquidiocesana de Olinda e Recife. 

De acordo com Vieira, o recurso fornecido possibilitará o aluguel de quatro casas e o fornecimento de água, luz, alimentos e materiais de limpeza por cinco meses. “Durante esse tempo nós vamos trabalhar para que os indígenas consigam criar um canal de comunicação direta com a Prefeitura do Recife e com o Governo do Estado para que suas necessidades sejam atendidas”, disse o coordenador. 

Enquanto esperam o recurso, os indígenas seguem em uma situação desumana e lutam para manter as esperanças. “Eu, como representante da família warao de Jaboatão, estou lutando, mas é muito difícil não ficar triste com essa situação”, declarou o Cacique Celso.

No abrigo da prefeitura do Recife

A pouco menos de três quilômetros de distância, no bairro do Torreão, mais seis famílias de indígenas warao esperam o apoio prometido pela prefeitura do Recife. Os imigrantes, que antes estavam alojados em duas casas localizadas no bairro dos Coelhos, foram transferidos para um único abrigo.

“O pessoal veio para esse abrigo no auge da pandemia, sem ninguém estar vacinado. A prefeitura fechou as duas casas em fevereiro e trouxe todo mundo pra cá, juntou duas casas e, na época, ninguém estava vacinado”, relatou Raíra Pereira, agente do Serviço Pastoral dos Migrantes do Nordeste (SPM NE). 

Raíra contou ainda que a vacinação dos warao demorou para acontecer porque muitos deles estavam resistentes em receber a imunização. “A gente sentiu que a resistência vem mais por trauma da vacinação compulsória que acontece na fronteira. Eles não sabiam quais vacinas estavam sendo aplicadas, não sabiam para quê elas serviam, simplesmente chegavam e aplicavam. Por isso, muita gente ficou com medo de tomar a vacina do coronavírus, mas nós promovemos diálogo e, aos poucos, eles aceitaram”, disse.  

Povo warao morando no Recife
Yhonni Malta com sua esposa Marisol e sua filha Maria / Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Pai de Maria, de apenas dois anos e marido de Marisol, grávida de sete meses, Yhonni Mata acompanhou todo o processo de mudança de abrigos dos imigrantes venezuelanos e se despediu de muitos familiares que foram em busca de uma vida melhor em outras cidades do Brasil. 

“Eu vi muita gente indo embora da casa que ficava no bairro dos Coelhos, porque era muita gente em uma casa muito pequena. A gente falava com a prefeitura e a prefeitura não queria ajudar, por isso as pessoas começaram a ir para outra cidade. Um grande grupo foi para Belo Horizonte e já estão em um abrigo lá, com espaço grande e com comida garantida”, disse Mata. 

Vivendo no abrigo cedido pela prefeitura, em uma casa menos lotada – mas ainda assim pequena para acomodar tantas famílias -, Yhonny tem como preocupação principal a alimentação. “Eles nos deram o abrigo, mas sem nada, somente a casa, disseram que iam dar mais comida, carne, ovo, frango, mortadela, mas até agora isso não chegou”, disse o indígena de 23 anos. 

Semanalmente, a Prefeitura do Recife fornece uma cesta básica aos imigrantes venezuelanos. Tanto os indígenas que moram na ocupação quanto os que estão no abrigo recebem arroz, feijão, macarrão, açúcar e mais alguns outros itens alimentícios, além de garrafões de água mineral. Porém, as famílias reclamam que falta leite para as crianças e proteínas em geral, pois carne, ovo, frango, tudo precisa ser comprado por fora porque não é fornecido. 

Sem experiência no mercado de trabalho e com diversas dificuldades para se adaptar ao idioma do novo país, os imigrantes acabam sem opções e arrecadam donativos nas ruas. Todavia, desde a chegada da pandemia, as doações estão cada vez mais difíceis e, por isso, eles não conseguem dinheiro para arcar com despesas extras para compra de roupa e alimentos. 

Este ano, o vereador Ivan Moraes (Psol) criou um Projeto de Lei que previa a instituição das bases para a elaboração da “Política Municipal de Promoção dos Direitos dos Migrantes e Refugiados”. O PL foi sancionado na Lei 18.798/21, mas o prefeito João Campos vetou o artigo 6º, que previa justamente ações do poder público municipal para oferecer um atendimento de qualidade aos imigrantes. 

A Marco Zero procurou a Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Juventude e Políticas sobre Drogas do Recife e perguntou se existe algum projeto para melhorar a situação de moradia dos warao. Questionamos também quais são as políticas públicas adotadas pela prefeitura para apoiar os imigrantes e se há um acompanhamento da situação dessas famílias. 

Até o fechamento desta reportagem nenhuma resposta foi enviada, caso o retorno aconteça, a matéria será atualizada. 

A importância do apoio da sociedade civil

Com as dificuldades de conseguir dinheiro nas ruas e sem um auxílio financeiro do governo, as indígenas venezuelanas recorreram à tradição e à arte de seu povo para conseguir uma renda para suas famílias. 

Sabendo da aptidão das mulheres warao para confeccionar acessórios com miçanga e Chinchorro – rede confeccionada com uma técnica das indígenas venezuelanas – , voluntários do SPM NE em parceria com as irmãs carmelitas forneceram um atelier onde as imigrantes se reúnem para produzir peças para venda. A matéria-prima utilizada na confecção é comprada através de doações da sociedade civil. 

Povo warao morando no Recife
Agripina Beria confeccionando um Chinchorro / Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

As peças são comercializadas através da página do instagram Taller Warao, nome dado ao atelier onde acontecem as confecções. O local, localizado na Zona Norte do Recife, foi cedido pela igreja católica, e funciona também como um centro de reuniões dos indígenas Warao, onde toda quarta-feira são realizadas aulas de português para os imigrantes. 

Graças a articulação das entidades civis, os Warao conseguiram um estande para expor e vender suas peças na Fenearte 2021, que acontecerá entre os dias 10 a 19 de dezembro, no Centro de Convenções, em Olinda. Todo o dinheiro arrecadado será destinado aos indígenas venezuelanos. Aqueles que se interessarem em oferecer qualquer doação aos indígenas Warao ou comprar os seus produtos, devem entrar em contato através do instagram.

 Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.