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	<title>Arquivo de Opinião - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 18 May 2026 16:01:15 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivo de Opinião - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Parques do Recife sob concessão: bem público ou plataforma de negócios?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 16:01:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[concessão]]></category>
		<category><![CDATA[dona lindu]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Vera Freire* Recife assiste hoje a um movimento de transferência da gestão de parte de seus parques urbanos para o setor privado. A concessão dos parques da Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu, por um prazo de 30 anos, é apresentada pela gestão municipal sob o discurso da modernização, da eficiência administrativa e da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Vera Freire*</strong></p>



<p>Recife assiste hoje a um movimento de transferência da gestão de parte de seus parques urbanos para o setor privado. A concessão dos parques da Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu, por um prazo de 30 anos, é apresentada pela gestão municipal sob o discurso da modernização, da eficiência administrativa e da redução dos custos públicos. Contudo, por trás da promessa de inovação, emerge uma questão central: até que ponto esse modelo protege o interesse coletivo e em que momento passa a transformar espaços públicos em ativos de exploração econômica?<br><br>Como aponta David Harvey, a lógica neoliberal opera por meio da “acumulação por espoliação”, convertendo bens coletivos em ativos econômicos. Nesse contexto, a concessão de áreas públicas pode representar não apenas uma mudança administrativa, mas um processo gradual de mercantilização do espaço urbano, no qual o direito à cidade cede lugar à lógica do mercado. Cabe lembrar que Harvey esteve no Recife na ocasião do debate sobre o projeto Novo Recife, em sua versão original.<br><br>A transformação da cidade em mercadoria não é um fenômeno isolado. A literatura sobre planejamento urbano há décadas aponta como a racionalidade neoliberal converte o valor de uso da cidade em valor de troca. O próprio <em>masterplan</em> da concessionária Viva Parques do Recife evidencia essa lógica ao prever unidades geradoras de caixa, exploração de publicidade, locação de espaços e estratégias de captação comercial ao longo do contrato. Ainda que o acesso permaneça formalmente gratuito, consolida-se um modelo em que a experiência plena do espaço público passa a depender, cada vez mais, da capacidade de consumir. O parque deixa de operar exclusivamente como bem coletivo e passa a funcionar também segundo a lógica do mercado, restringindo o usufruto pleno para alguns.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto sob a marquise que destinada a um bar mirante, diante do piso de eventos do Parque Dona Lindu.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Vera Freire/Cortesia</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Esse processo produz consequências sociais importantes. Em experiências semelhantes observadas em outras cidades brasileiras, o acesso não é necessariamente restringido por barreiras físicas, mas por mecanismos sutis de elitização do uso. Na pesquisa realizada para subsidiar o <em>masterplan</em> dos quatro parques, observa-se um alto índice de aceitação do modelo de concessão (95%). Ainda assim, os próprios levantamentos registram ressalvas da população em relação à cobrança de taxas e ao encarecimento do uso de determinados equipamentos. Mesmo sem uma definição clara sobre quais estruturas seriam pagas, as respostas indicavam que eventuais cobranças deveriam ocorrer apenas em equipamentos específicos e com valores acessíveis. Apesar disso, o <em>masterplan</em> não apresenta, de forma específica, quais serviços serão tarifados nem estabelece parâmetros ou referências claras para esses valores.<br><br>Na análise das sugestões e respostas da consulta pública, realizada em 2024, chama atenção o volume significativo de contribuições relacionadas ao Parque da Macaxeira, retirado desse bloco de concessão. O caso desperta interesse especialmente pela dimensão do parque, pelo patrimônio edificado em estado precário de conservação e pela evidente necessidade de requalificação e ativação de seus equipamentos e espaços.<br><br>Em contraste, os parques incluídos na concessão já apresentam uso consolidado, alta frequência e avaliação positiva por parte da população, conforme apontam as próprias pesquisas do masterplan. Além disso, estão inseridos em áreas da cidade com elevada valorização imobiliária e significativa arrecadação de IPTU. Surge, então, uma questão importante: há necessidade de conceder parques que já possuem uso ativo e reconhecimento público (a exemplo do Jaqueira e Santana), enquanto outros espaços urbanos demandam investimentos urgentes de ativação, manutenção e qualificação?</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que está previsto para os parques concedidos</span>

		<p>A Marco Zero conseguiu, via lei de acesso à informação, os <em>masterplans</em> dos quatro parques concedidos à iniciativa privada pela Prefeitura do Recife. Masterplan é um documento que define como uma área deve ser desenvolvida — o que será construído, como será operado e quais usos serão permitidos.</p>
<p><a href="https://drive.google.com/file/d/16xw7qSuqxWQVjOFht98J9QW72daTYflz/view" target="_blank" rel="noopener">Confira aqui os planos para os parques do Recife.</a></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">A comercialização do solo público</h2>



<p>A ocupação intensiva por eventos privados, a valorização excessiva de áreas comerciais e a centralidade do consumo alteram gradualmente o perfil de quem usufrui desses espaços e a forma como eles passam a funcionar no cotidiano urbano. O projeto previsto para o Parque Dona Lindu prevê quatro áreas de gastronomia: área para espetinhos, dois restaurantes que encontram-se em construção com áreas livres adjacentes para mesas e um bar sobre a marquise projetada pelo escritório do notório arquiteto Oscar Niemeyer, que futuramente ganhará o status de mirante e a melhor contemplação dos shows. Pelas dimensões apresentadas ocupam cerca de 2.000m². É extremamente necessário que as áreas passíveis de comercialização estejam claras para conhecimento e fiscalização por parte da sociedade.<br><br>Recentemente, em São Paulo, críticas feitas pelo vereador e urbanista Nabil Bonduki chamaram atenção justamente para esse deslocamento entre a promessa de qualificação do espaço público e sua crescente exploração econômica. No caso do Vale do Anhangabaú, denúncias e fiscalizações relacionadas ao modelo de concessão levaram a Prefeitura de São Paulo a iniciar o processo de rompimento contratual com a empresa responsável. O problema, portanto, não é apenas jurídico ou administrativo; é essencialmente político. Trata-se de discutir quem gere os espaços públicos e para quem eles passam a funcionar.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/" class="titulo">Concessão privada de parques é &#8220;elitizar o espaço público&#8221;, alerta urbanista Nabil Bonduki</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/entrevista/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Entrevista</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quem fiscaliza?</strong></h2>



<p>No Recife, o debate ganha contornos ainda mais delicados diante da ausência de mecanismos robustos de controle social. Embora a concessão seja um instrumento previsto legalmente, o modelo adotado pela prefeitura concentra a fiscalização no chamado Verificador Independente, uma “empresa ou consórcio de empresas para auxiliar o poder concedente no acompanhamento e fiscalização da execução deste contrato”, conforme descreve a PCR ao responder uma sugestão da audiência sobre “a formação de um comitê fiscalizador paritário, com usuários/moradores do entorno do parque, profissionais atuantes no espaço público e concessionária”.<br><br>A questão central é que o controle técnico ou grupo consultivo não substitui a gestão democrática. Envolver os usuários junto aos pesquisadores do espaço público da academia, entidades sem fins lucrativos da área do urbanismo e ambiental, além de representante da concessionária e da prefeitura é essencial para a permanente participação democrática.<br><br>É urgente a devida formação do Verificador Independente, o qual o edital da concessão prevê até cinco anos para sua instauração. Sem acompanhamento social imediato e contínuo, decisões sobre usos, eventos, ocupações e investimentos tendem a responder prioritariamente à lógica da rentabilidade, reduzindo a capacidade coletiva de interferir nos rumos desses espaços e em conflito com o princípio da gestão democrática prevista pelo Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001).</p>



<h3 class="wp-block-heading">Disputa sobre o significado do espaço público</h3>



<p>O debate sobre as concessões, portanto, não se restringe à eficiência administrativa. Ele envolve diretamente a concepção de cidade que está sendo produzida. Parques urbanos não são apenas equipamentos de lazer e espaços públicos não são feitos para dar lucro: são infraestruturas sociais, ambientais e democráticas. Funcionam como lugares de encontro, convivência, permanência e construção da vida coletiva, especialmente em cidades marcadas por profundas desigualdades socioespaciais como a cidade do Recife.<br><br>Esse cenário confronta diretamente princípios historicamente defendidos pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), como a gestão democrática da cidade, a justiça socioambiental e a defesa do espaço público como direito coletivo. O alerta feito por arquitetos, urbanistas e entidades da sociedade civil é simples: a cidade não pode ser administrada exclusivamente como uma empresa, onde a eficiência econômica se sobrepõe ao direito à convivência, ao lazer cotidiano e à diversidade de usos sociais.<br><br>Além disso, chama atenção a ausência, no masterplan, de diretrizes mais consistentes voltadas à qualificação ambiental dos parques. Em um contexto de emergência climática, esses espaços não podem ser tratados apenas como áreas de recreação ou ativos econômicos. Parques urbanos são infraestruturas verdes fundamentais para a resiliência das cidades.<br><br>A discussão sobre os parques, no fundo, revela uma disputa mais ampla sobre o significado do espaço público contemporâneo. A concessão não pode se transformar em um cheque em branco para a captura privada de valor sobre bens coletivos. O que está em jogo é a preservação do caráter público da cidade e a garantia de que espaços como a Jaqueira, Santana, Apipucos e Dona Lindu continuem pertencendo, de fato, à população recifense.<br><br>A pergunta que permanece é decisiva: os parques, assim como outros possíveis espaços públicos, continuarão sendo territórios de direitos, convivência igualitária e vida pública ou serão progressivamente convertidos em plataformas de negócios urbanos?</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Vera Freire</strong> é presidente em Pernambuco do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/PE). Arquiteta e urbanista, é mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE e docente da Unicap.</p>
    </div>
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		<title>Começou o greenwashing eleitoral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 May 2026 17:29:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[greenwashing]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Milton Tenório* O meio ambiente não pode ser um acessório de marketing. Em anos eleitorais, a &#8220;maquiagem verde&#8221;, ou greenwashing como se diz em inglês, entra em cena: discursos vazios que buscam votos sem oferecer compromisso real com quem protege o campo, a floresta e a biodiversidade. Quando a ecologia vira apenas propaganda, o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Milton Tenório*</strong></p>



<p>O meio ambiente não pode ser um acessório de marketing. Em anos eleitorais, a &#8220;maquiagem verde&#8221;, ou <em>greenwashing</em> como se diz em inglês, entra em cena: discursos vazios que buscam votos sem oferecer compromisso real com quem protege o campo, a floresta e a biodiversidade. Quando a ecologia vira apenas propaganda, o desfecho nós já conhecemos: ataques aos biomas, desmatamento desenfreado e o aterro criminoso de nascentes e manguezais — muitas vezes com a conivência do poder público.</p>



<p>É preciso separar o &#8220;parolar&#8221; da ação concreta.</p>



<p>A falta de histórico de participação em conselhos ambientais, de votações favoráveis ao meio ambiente e a ausência de propostas com embasamento técnico revelam o oportunismo. Políticas públicas eficientes não nascem em gabinetes isolados: elas surgem do diálogo com movimentos sociais, ONGs e cientistas que conhecem a fundo a Mata Atlântica e outros biomas.</p>



<p>Outro sinal de alerta é verificar se a autoridade que quer seu voto ignora ou ataca os movimentos sociais, as organizações locais e os cientistas. Quem está no chão da floresta ,nos movimentos socioambientais , sabe onde o desmatamento aperta, o que ele provoca e quais são as pressões econômicas locais.</p>



<p>Sem o apoio de quem já atua na área, as promessas eleitorais raramente se transformam em projetos de lei exequíveis. Para não cair no canto da sereia desses &#8220;oportunistas de plantão&#8221;, vale observar alguns critérios:</p>



<p>O que esse político fez nos últimos quatro anos? Ele votou a favor de pautas que flexibilizam o licenciamento ambiental ou que protegem as áreas de preservação?</p>



<p>Promessas vagas valem pouco. Planos reais citam metas, orçamentos ,projetos socioambientais e parcerias com órgãos de fiscalização.</p>



<p>Esse pré-candidato ou candidato é visto em diálogos com lideranças ambientais apenas agora ou sempre esteve presente nas audiências públicas e denúncias?</p>



<p>De um lado, a emergência climática, os ambientalistas, a ciência e a sobrevivência de várias espécies da fauna e flora; do outro, a retórica e o debate intelectual que, se não sair do campo das ideias (ou da &#8220;parolagem &#8220;), acaba permitindo que a tragédia aconteça.</p>



<p>O &#8220;desenvolvimento&#8221; que ignora a ciência e destrói o futuro dos nossos filhos e netos é uma fraude. A emergência climática já bateu à porta. Não aceite que empurrem um planeta degradado para as próximas gerações.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>*Ativista ambiental , fundador do Movimento Gato-Maracajá e morador de Aldeia.</p>
    </div>
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		<title>Quando resolver não interessa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 18:18:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas em Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[deslizamento de barreira]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[inundações]]></category>
		<category><![CDATA[João Campos]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
		<category><![CDATA[Victor Marques]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Igor Travassos* Um colete laranja da Defesa Civil, às vezes dentro de um helicóptero ou em um local de calamidade, fala para a câmera dizendo que conversou com fulano ou ciclano e que está à disposição para ajudar no que for necessário. É sempre assim, o roteiro é o mesmo. A ação, no entanto, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Igor Travassos*</strong></p>



<p>Um colete laranja da Defesa Civil, às vezes dentro de um helicóptero ou em um local de calamidade, fala para a câmera dizendo que conversou com fulano ou ciclano e que está à disposição para ajudar no que for necessário. É sempre assim, o roteiro é o mesmo. A ação, no entanto, nunca é efetiva, contínua ou definitiva.</p>



<p>Políticos usam tragédias como palco, mas essa é só a ponta do iceberg de uma indústria que produz o desastre e lucra com ele. O lucro, nesse caso, é financeiro e político. Mas tem mais uma camada nisso tudo. Porque não se trata apenas de explorar o desastre, trata-se também de encená-lo.</p>



<p>A imagem no helicóptero, o sobrevoo, o olhar grave, a fala protocolar: tudo isso não é só comunicação, é espetáculo. Não no sentido de algo grandioso, mas no sentido de algo mediado pela imagem, pensado para ser visto, consumido e compartilhado. A tragédia deixa de ser apenas uma crise concreta e passa a ser também um produto simbólico. E, quanto mais visível, mais útil politicamente.</p>



<p>Por que o mesmo problema se repete tantas e tantas vezes e nunca é resolvido? Já fizemos essas perguntas inúmeras vezes e quase sempre caímos na resposta mais imediata: a culpa é dos políticos, que só estão interessados em si mesmos. Isso já é praticamente consenso. Se a gente se aprofunda, começa a perceber que essa inação não é falha, é método. Existe um <em>modus operandi</em>, um ciclo que se retroalimenta e que tem um resultado bastante claro, que é a manutenção do poder.</p>



<p>Pensemos o seguinte: uma tragédia acontece e é necessário dar uma resposta rápida. O dinheiro aparece. Precisa aparecer. Porque é preciso mostrar ação, presença, comando da situação. Só que esse dinheiro não pode ficar parado, ele precisa virar movimento, precisa virar imagem.</p>



<p>Resolver de forma definitiva leva tempo, planejamento, requer obras estruturantes. Mas o desastre exige urgência. E a urgência justifica atalhos. É como uma compra de última hora, em que você não pesquisa, não compara, não negocia. Você resolve. E aceita o prejuízo depois. Na política pública, a dispensa de licitação em situações de calamidade segue essa mesma lógica, mas com uma diferença fundamental: estamos falando de recursos públicos.</p>



<p>E, mais do que isso, estamos falando de tragédias que já não são mais imprevisíveis. Elas se repetem, com data, lugar e vítimas mais ou menos conhecidas, pessoas negras, periféricas, em sua maioria.</p>



<p>A exceção virou regra. Política de morte.</p>



<p>E, quando não há licitação, não há parâmetro claro de preço, de escolha, de critério. Quem decide onde comprar é quem está no poder. E isso abre margem para um tipo de escolha que não é exatamente técnica. Imagina comprar sempre na loja que te dá o maior <em>cashback</em>. O prejuízo, nesse caso, deixa de ser prejuízo.</p>



<p>Mas o retorno não é só financeiro, e talvez nem seja o mais importante. Ele também é simbólico: é o vídeo entregando cesta básica com dinheiro público, é a foto no meio da lama, é o discurso de prontidão, é a performance da presença.</p>



<p>Na lógica da sociedade do espetáculo, não basta agir, é preciso parecer agir. E, muitas vezes, parecer é mais eficiente do que resolver. Porque resolver encerra o problema, e encerrar o problema reduz a necessidade de novas aparições, novos discursos, novas demonstrações de poder.</p>



<p>Já o desastre contínuo garante palco permanente. E é assim que a desgraça se transforma em ativo político. São muitas as formas de transformar sofrimento em capital, seja ele eleitoral, financeiro ou de imagem. E, no fim, o que se consolida não é a solução do problema, mas a sua gestão contínua.</p>



<p>Porque, para alguns, o desastre não é uma falha do sistema.</p>



<p>É o funcionamento pleno dele.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Comunicador e ativista socioambiental, integrante da Articulação Negra de Pernambuco e da Coalizão Negra por Direitos, atua junto a organizações com direito à cidade e enfrentamento ao racismo ambiental.</p>
    </div>



<p><br></p>
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		<item>
		<title>O diabo veste farda</title>
		<link>https://marcozero.org/o-diabo-veste-farda/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Apr 2026 18:48:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[APA Aldeia-Beberibe]]></category>
		<category><![CDATA[Escola de Sargentos]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Milton Tenório* É conhecido o histórico de sucessivos golpes, como o que levou à queda da monarquia (1889) em que o Exército brasileiro foi protagonista. O Exército foi o pilar da &#8220;Revolução &#8221; de 1930 (Getúlio Vargas ). No Governo Juscelino Kubitschek nos anos 1950 foram duas tentativas de golpe, ambas frustradas. Uma delas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Milton Tenório*</strong></p>



<p>É conhecido o histórico de sucessivos golpes, como o que levou à queda da monarquia (1889) em que o Exército brasileiro foi protagonista.</p>



<p>O Exército foi o pilar da &#8220;Revolução &#8221; de 1930 (Getúlio Vargas ). No Governo Juscelino Kubitschek nos anos 1950 foram duas tentativas de golpe, ambas frustradas. Uma delas para impedir a posse de JK.</p>



<p>Em 1964, a deposição de João Goulart estabeleceu uma ditadura de 21 anos com repressão, perseguições, torturas e mortes.</p>



<p>A &#8220;permissão&#8221; silenciosa de acampamentos nas portas dos quartéis e a tentativa de golpe em 2023 trouxe novamente a discussão sobre a politização das tropas e a impunidade, levando à mobilização da sociedade civil e os poderes constituídos, um deles o STF, a prender medalhões das Forças Armadas e julgá-los exemplarmente.</p>



<p>O Caso da Escola de Sargentos do Exército na APA Aldeia Beberibe é, atualmente, um dos maiores pontos de conflito entre o Exército e a sociedade civil (especialmente ambientalistas e acadêmicos).</p>



<p>A área em questão é um dos últimos remanescentes contínuos de Mata Atlântica no Nordeste. O desmatamento para viabilizar a construção desse Complexo Militar, ameaça o Aquífero Beberibe, responsável pelo abastecimento de água da Região Metropolitana do Recife. Espécies endêmicas dependem daquele microclima.</p>



<p>A construção vai romper, destruir corredores ecológicos fundamentais.</p>



<p>O Exército Brasileiro por vezes age como um &#8220;Estado dentro do Estado&#8221;,priorizando projetos próprios em detrimento da preservação ambiental e da estabilidade democrática.</p>



<p>O Brasil precisa lutar para definir o lugar das Forças Armadas em uma democracia plena, onde elas devem ser subordinadas ao poder civil e às leis de proteção ao patrimônio natural do povo brasileiro.</p>



<p>Quando o Estado (ou o Exército, como no caso da Escola de Sargentos) propõe uma obra em área de Mata Atlântica sob o argumento de “segurança estratégica” ou “interesse público”, ele entra em rota de colisão direta com o espírito do artigo 225 da Constituição Brasileira de 1988.</p>



<p>O “interesse social” de uma escola militar é colocado na balança contra o “interesse difuso” (de todos os cidadãos) à preservação de um bioma do qual resta menos de 12% da sua cobertura original. Pela Constituição, a preservação da biodiversidade e das nascentes não é apenas um desejo ecológico, é um comando, é lei.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Ministério Público Federal</strong></h2>



<p>Por fim, trago uma atualização em relação ao processo n° 126.000.000690/2022-59 ação movida pelo Fórum Socioambiental de Aldeia. O procurador Fabio Holanda, do Ministério Público Federal da 5° Região, ainda não acatou a Ação Civil Pública diante de indícios suficientes de dano ambiental que deve ser julgado na Justiça Federal. Qualquer leigo entende que é um magistrado quem terá o poder de conceder, por exemplo, uma liminar para suspender as obras até que o mérito seja julgado, ou decidir se as compensações oferecidas são legalmente aceitáveis ou não.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Profissional autônomo, ativista ambiental e fundador do Movimento Gato-Maracajá</p>
    </div>
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		<title>Carnaval de Olinda em crise, risco para festa e para o patrimônio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 14:34:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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<p><strong>por Bruno Firmino*</strong></p>



<p>Quando vai chegando o fim do carnaval, ouvimos com mais frequência os versos que Lídio Macacão compôs em 1957 para a troça Donzelinhos dos Milagres: “Adeus, carnaval de Olinda/Cidade tradicional”. Além da particularidade de ser um frevo regresso, aquele que as agremiações tocam quando finalizam seus desfiles, o termo “cidade tradicional” também traz um peso poético, apontando para o cruzamento entre o patrimônio material — arrumamento, igrejas e sobrados, e patrimônio imaterial — e manifestações culturais.</p>



<p>É desse cruzamento que são geradas belas imagens do multicolorido de céu azulado, casarios, telhados, quintais, pessoas, adereços e toda a sorte de elementos que o olho consegue captar ou imaginar. Descendo e subindo as ladeiras fantasiados de euforia e embebidos pelo desejo de festejar, forma-se um mar de gente onde o poeta descansa o olhar, uma paisagem em movimento que alimenta os sonhos em forma de folia.</p>



<p>Porém, todo esse mundo de animação não consegue esconder os sofrimentos a que estão submetidos os patrimônios edificados e as manifestações culturais, que, ultimamente correm risco e ainda não sucumbiram pela teimosia e paixão de quem faz.</p>



<p>Os riscos são negligenciados por uma gestão pública que tem como projeto asfixiar nossa principal vitrine pro mundo, que nos define enquanto povo, que é o carnaval. Afinal de contas, não fazer e não cuidar é uma escolha, portanto é um projeto.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.28.26-300x225.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.28.26-1024x768.jpeg" alt="A foto mostra uma rua estreita de paralelepípedos à noite, iluminada por postes de luz. À direita, há uma grande quantidade de lixo acumulado na calçada, com caixas, plásticos e outros objetos descartados junto a um muro coberto de plantas. Do lado esquerdo, aparece uma parede pintada de verde. Mais ao fundo, um grupo de pessoas se reúne perto de barracas ou quiosques sob guarda-sóis, criando um contraste entre o ambiente festivo ao longe e a cena de descuido urbano em primeiro plano." class="" loading="lazy" width="688">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Lixo acumulado nas ruas foi uma constante no carnaval de Olinda. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Bruno Firmino</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quem brinca no carnaval olindense há tempos vem acompanhando a degradação devido à ausência de planejamento urbano e gestão urbana. Essas duas escalas do urbanismo são fundamentais para uma boa convivência entre patrimônio edificado, patrimônio imaterial, interesses comerciais, alto fluxo de pessoas e uma festa dinâmica. <a href="https://marcozero.org/previas-de-olinda-planejamento-urbano-para-a-salvaguarda-da-folia-e-do-patrimonio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Conforme já abordei em texto para esta Marco Zero</a>, a ausência também é sentida no período de prévias.</p>



<p>Na virada entre os anos 90 e 2000 a folia olindense também sofria com uma série de dinâmicas que colocavam em risco suas práticas. Para coibir essas ações foi criada a Lei do Carnaval (Lei Municipal nº 5.306, de 28 de dezembro de 2001) que buscou assegurar a manutenção das manifestações culturais proibindo o uso de som mecânico, seja de agremiações ou em imóveis, casas camarotes e polos não oficiais. A lei assegurava cachês e o protagonismo para as manifestações culturais nos palcos e a criação de uma comissão permanente do carnaval.</p>



<p>Anos depois, mais especificamente a partir da gestão do Professor Lupércio, todo esse esforço foi colocado por água abaixo e sendo minado pela omissão. Hoje, o cenário nas ladeiras é pior do que aquele encontrado na virada do século. Há uma degradação e arruinamento da parte edificada, enquanto que as manifestações culturais sofrem diversos ataques que dificultam a sua atividade em plenitude.</p>



<p>Não é difícil circular e ver casas, estabelecimentos comerciais e comerciantes informais com caixas de som interferindo no percurso das agremiações, seja por abafar as orquestras, seja por gerar pontos de aglomeração como polos informais.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-farra-dos-caches-do-carnaval-de-olinda-na-gestao-de-mirella/" class="titulo">A farra dos cachês do Carnaval de Olinda na gestão de Mirella</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/cultura/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Cultura</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>O som mecânico também aparece como problema nos grupos percussivos que fazem uso de paredões de som que funcionam com verdadeiros minitrios elétricos: interrompem o som e o percurso de agremiações tradicionais que fazem uso de orquestras e gerando um nível de vibração fora de contexto que põe em risco o casario. Tudo isso utilizando como passarela principal a prefeitura e com a anuência da atual gestora Mirella Almeida que posa com a roupa de um desses grupos.</p>



<p>A mesma negligência de controle urbano acontece com os imóveis que se disfarçam de <em>day use</em>, mas funcionam como casas camarotes, gerando segregação social, interferindo na rua com o som mecânico dos seus shows, tudo isso capturando o capital simbólico do verdadeiro carnaval e se beneficiando da infraestrutura pública montada para o período.</p>



<p>Convive-se no carnaval de Olinda com o avanço predatório das propagandas que agora ocupam espaços públicos, fachadas dos imóveis, dificultando a leitura do patrimônio por quem está na folia, e pela distribuição desmedida de brindes que no final do dia fortalece o acúmulo de lixo. Há uma batalha pela atenção de quem está nas ruas que transforma o folião em um ativo de alcance, custe o que custar.</p>



<p>A Velha Olinda, que também é reconhecida pela sua produção nas artes plásticas, teve seu legado deixado para trás com uma decoração carnavalesca genérica e que não traz diálogo com a paisagem e o acontecimento da folia, transformando o espaço em mero outdoor. A vista de quem caminha nas ruas era atravessada apenas por publicidade de bets, bebidas ou alimentos ultraprocessados, restando a decoração para um conjunto esteticamente pobre de fitas coloridas, que no final das contas atrapalha as evoluções dos estandartes e bonecos gigantes, ou pelos banners alocados na fachada da prefeitura sem nenhum cuidado compositivo e material. Além da ausência de decoração, somou-se à falta de sinalização adequada de equipamentos, serviços, banheiros e pontos de interesse que facilitariam a locomoção no meio das ladeiras.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/com-prefeitura-omissa-moradores-de-olinda-sofrem-com-desequilibrio-entre-festas-e-preservacao/" class="titulo">Com prefeitura omissa, moradores de Olinda sofrem com desequilíbrio entre festas e preservação</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Um ponto sensível e que vem chamando bastante atenção nos últimos anos é a insuficiência de banheiros que, para testar o amor do folião que vai brincar nas ruas, ficam durante todo o período do carnaval sem receber limpeza e sem uma sinalização adequada que ajude a encontrá-los. O resultado é uma série de banheiros impróprios para uso e que logo nos primeiros dias são abandonados e utilizados como amparo para que as necessidades fisiológicas sejam feitas nas ruas, promovendo um ambiente insalubre e gerando poças que botam a saúde de visitantes e moradores em risco.</p>



<p>Os dias de festa representam uma oportunidade de renda e trabalho para uma parcela da população. É na intensidade de circulação de pessoas e consumo de produtos que faz com que o carnaval seja convertido em um montante financeiro. No espírito que junta necessidade e vontade, centenas de vendedores informais ocupam as ruas, antes dos dias de folia já estão dormindo nas calçadas ao relento e sem lugar adequado para higienização, muitas vezes famílias inteiras, para garantir o local físico de trabalho ou a segurança das mercadorias.</p>



<p>Parte desses trabalhadores pagam uma taxa à Prefeitura para receber autorização de comercialização e treinamentos, que não se refletem na realidade. São chamados pelos gestores municipais de “empreendedores”: uma tentativa neoliberal de escamotear a verdadeira face de população vulnerabilizada que é esquecida à própria sorte e que serve apenas como soleira para a empresa de bebida patrocinadora fazer lucro, afinal de contas, são os únicos que saem realmente ganhando.</p>



<p>Além da situação degradante que são jogados, não há qualquer tipo de ordenamento ou de estudo prévio de localização para os ambulantes, promovendo riscos para quem está trabalhando ou brincando. A falta de ordenamento também cria atritos com moradores, que para resguardar seus espaços e cientes do desamparo da Prefeitura no controle urbano, cercam suas calçadas como pequenos camarotes que espremem mais as já estreitas ruas e põem em risco quem está passando pelo tipo de estrutura utilizada.</p>



<p>Os catadores, trabalhadores que também são fundamentais, mais uma vez enfrentaram situações degradantes sem a distribuição de equipamentos de proteção individual, espaço para descanso ou pernoite e pontos de apoio para hidratação, banheiro ou chuveiro. Como de costume, foram invisibilizados enquanto indivíduos, mas o trabalho fruto dos seus esforços foi utilizado pela prefeita nas redes sociais para enaltecer a enorme quantia recolhida de latas de alumínio.</p>



<p>Na entrevista coletiva do balanço de carnaval, a gestão atual trouxe números de redução de circulação de veículos graças ao adesivo chipado, similar àqueles utilizados em acesso livre de pedágios, que reconhecem de imediato os veículos.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:40% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-74742 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-576x1024.jpeg 576w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-169x300.jpeg 169w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-768x1365.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-864x1536.jpeg 864w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31-150x267.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.35.31.jpeg 900w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Só que a realidade foi outra, em todos os dias e horários foi comum ver carros e motos cortando as ruas, com ou sem adesivo, interrompendo o fluxo das agremiações e colocando as pessoas em risco. Vários desses carros e motos estavam transportando produtos para abastecer o comércio de bebidas, trazendo um risco adicional pelo somatório de excesso de peso e ladeiras escorregadias.</p>



<p></p>
</div></div>



<p>Também foram vistos vários veículos estacionados nos corredores e folia. Importante observar que não eram de moradores que costumeiramente retiram os seus dias antes da festa e levam para fora do Sítio Histórico, estes veículos estavam sendo utilizados por comerciantes e visitantes que sem o menor pudor circulavam e estacionavam de maneira livre. Alguns estavam adesivados, demonstrando que a burocracia e a tecnologia computacional também precisam vencer a tecnologia social de quem quer burlar. Também virou uma cena comum, principalmente à noite, motos de aplicativos circulando livremente pela área que deveria ser restrita.</p>



<p>A ausência da zeladoria também ficou latente: buracos, bueiros sem tampas ou entupidos, fossas transbordando, postes provocando choques, fiações caídas, ruas escuras; foram cenas cotidianas para quem vivenciou as ladeiras de olindenses. A crise da coleta de lixo que já vinha se arrastando encontrou seu ponto alto nos dias de festa, formando montanhas de lixo que se acumulavam de um dia para outro. O cenário se agravou com a junção da lama de urina que escorria pelo calçamento e bueiros entupidos, transformando o desfile carnavalesco em corrida de obstáculos para testar o apego à nossa cultura de quem saiu de casa.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O carnaval como chave para conservação do Patrimônio</h2>



<p>Apesar do cenário desolador do carnaval olindense, há caminhos que podem reverter a situação. Para que isso ocorra é necessário investimento contínuo em corpo técnico capacitado, educação patrimonial e escuta permanente. A Lei do Carnaval, por exemplo, institui a necessidade de instalação de uma Comissão Permanente do Carnaval que serviria como um grupo que permitiria o diálogo constante entre população, fazedores de cultura e gestores públicos.</p>



<p>A partir de boas práticas urbanas implementadas em outras cidades e a vivência acumulada entre folião e carnavalesco, é possível apontar alguns caminhos preliminares que podem trazer novos cenários para a folia olindense.</p>



<p>A primeira delas pede um planejamento que crie um plano de ocupação, levando em contas as necessidades de algumas atividades e os espaços que carregam potenciais de resolução.</p>



<p>Um bom começo seria levar parte das atividades para a borda do Sítio Histórico, instalando palcos na parte próxima à beira mar, a exemplo da Praça do Fortim, Praça do Jacaré e Praia dos Milagres. O primeiro foi um polo nos início dos anos 2000, enquanto o segundo era um tradicional palanque nos anos 70 e 80. Com essa medida, diminuiria presença ostensiva de público nas ladeiras, dinamizaria outras áreas e permitiria que os espaços atuais utilizados para palcos fossem voltados para alamedas de serviço, com comercialização de comidas e bebidas.</p>



<p>Por exemplo, seria possível transformar a Praça do Carmo em um espaço para essa finalidade. Além de outros espaços menores, com a Laura Nigro, Largo de São Bento e Praça João Alfredo. Todos esses espaços também poderiam servir como pontos de hidratação. Esse ano havia dois pontos de hidratação e que estavam sempre com extensas filas, demonstrando a necessidade da solução.</p>



<p>Levar os palcos para as bordas do Sítio Histórico também contribuiria para retomar o circuito carnavalesco da avenida Sigismundo Gonçalves, induzindo a passagem das agremiações com um palco-passarela, e com isso interromper a passagem de veículos na avenida, que mesmo no carnaval possuía um tráfego intenso. Enquanto que o controle de veículos dentro do perímetro do Sítio Histórico poderia ser induzido com horários de carga e descarga definidos e um maior controle para obtenção da licença de livre acesso.</p>



<p>A medida de transformar alguns espaços em alameda de serviços poderia ser complementada com a alocação de trabalhadores informais nas ruas transversais, liberando espaços nas ruas que servem com passarelas naturais do carnaval. Esses trabalhadores poderiam ter sua presença reduzida em número e escolhida por sorteio, para que recebessem um aporte de infraestrutura para que migrassem dos isopores para espaços maiores que trariam mais rentabilidade, além de priorizar a mão-de-obra do entorno a partir de um cadastro prévio, mantendo a circulação de renda concentrada mais na população local. Assim como é preciso dotar esses trabalhadores com treinamentos de boas práticas e instalar fábricas de insumos como gelo, garantindo a segurança sanitária de quem consome.</p>



<p>Outra medida diz respeito ao uso do som mecânico. É preciso atualizar a Lei do Carnaval incorporando a portabilidade que a tecnologia trouxe e as novas práticas, como os grupos percussivos que desfilam nas ladeiras. Limitando o uso de som mecânico, puxado ou não por veículo motorizado. Vetar som em quintais ou limitá-los a um padrão de decibéis que não atrapalhe as manifestações nas ruas ou que acumule pessoas como pólos alternativos e dificulte a passagem das agremiações. Soluções que são muito simples e pedem mais a presença de agentes de controle urbano na rua do que grandes medidas.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/WhatsApp-Image-2026-02-26-at-11.27.45-300x200.jpeg">
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            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Em pleno carnaval, veículos disputavam espaço com agremiações e foliões
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Xirumba Amorim/Cortesia</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Parte da questão do som mecânico com os grupos percussivos também é passível de resolução, levando-os para desfilar na Avenida Sigismundo Gonçalves ou criando um novo circuito na beira-mar, incrementando o movimento nos estabelecimentos dessa área e mantendo as manifestações tradicionais que funcionam de maneira acústica salvaguardadas.</p>



<p>Dentro desse plano de ocupação os banheiros seriam instalados em partes das áreas atuais, nas bordas das alamedas de serviço e em quintais alugados. Além da limpeza periódica para garantir um uso adequado, viabilizar o aluguel de quintais e evitar riscos sanitários — medidas óbvias e básicas — há a possibilidade de banheiros em cabines onde os dejetos são bombeados para a rede de saneamento básico, tornando-se uma solução mais adequada ecologicamente do que os banheiros químicos e fazendo uso da infraestrutura já presente no local para que os resíduos sejam tratados da maneira correta. Essa solução já é utilizada em diversos festivais de músicas em capitais brasileiras. A área externa dos banheiros também poderia ser utilizada para exploração publicitária, ajudando a mitigar os custos da iniciativa.</p>



<p>É preciso desenvolver um plano de zeladoria urbana que integre Compesa, Neoenergia e a secretaria de infraestrutura para vistorias e manutenção complementar por equipes de plantão para que urgência fossem sanadas, evitando riscos de choques, entupimento sanitário e de pontos de acúmulo de lama e pequenos alagamentos. Dentro dessas iniciativas, estaria um protocolo de limpeza urbana com lavagem das ruas e calçadas nas madrugadas com escovação e coleta seletiva com os demais materiais descartáveis, garantindo uma destinação adequada e ainda com a possibilidade de gerar renda para cooperativas de catadores.</p>



<p>Escolas poderiam servir como área de acolhimento temporário para catadores de materiais recicláveis ou para realização de atividades recreativas e de creche com os filhos desses trabalhadores, garantindo um ambiente seguro para essa população tão especial. Outros equipamentos como o Mercado Eufrásio Barbosa e o Clube Atlântico serviriam também como alameda de serviços, centro de venda de adereços e fantasias, centro de atendimentos para secretarias públicas ou praças de alimentação. Mantendo um uso ativo nos dias de folias e servindo de suporte para a população.</p>



<p>E para servir de ponte entre essas diversas iniciativas, a decoração traria o diálogo entre o estético e o funcional, combinando arte com um sistema informacional que indicaria os espaços e onde estariam alocados serviços (banheiros, pontos de carros de aplicativo, centro de atendimento ao folião, alameda de serviços, etc), facilitando a navegação no meio da folia. É importante retomar o caráter artístico de Olinda, incorporando a produção de seus artistas na decoração com elementos que trazem um brilho de beleza, sem que comprometa a evolução de um estandarte ou a dança de um boneco gigante.</p>



<p>Finda a festa, parte desse material poderia ganhar nova vida, transformando lonas dos banners em bolsas e utensílios, garantindo circularidade para o material, renda e trabalho para a mesma população que costura a beleza das fantasias do carnaval. Do mesmo modo que alguns equipamentos poderiam ser reutilizados em outras situações, como já aconteceu com o Pavilhão Louisiana Hamlet em Nairobi (Quênia) que, depois das funções artísticas, se converteu em espaço escolar. Ou o material da expografia da 34º Bienal de Arquitetura de São Paulo que, passada a exposição, foi reutilizado com cobertura de quadra na Ocupação 9 de Julho do Movimento Sem Teto do Centro.</p>



<p>Todo o caminho trilhado nesse texto só foi possível por um cruzamento de vivências entre a prática profissional e a prática foliã, a prática foliã e a prática de fazedor de cultura e a prática de fazedor de cultura e a profissional. Esses caminhos tornam-se encruzilhada na leitura do fenômeno carnavalesco numa cidade histórica, uma paisagem patrimonial e cultural que muito nos ensina.</p>



<p>Mesmo assim, as ideias são passíveis de questionamentos e aprimoramentos, principalmente porque todo o arcabouço de soluções precisam estar embasadas no diálogo constante entre todos os atores envolvidos. Arriscaria dizer que os atributos das soluções dialogariam diretamente com Ítalo Calvino e suas seis propostas de arte para o novo milênio (leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, e multiplicidade). Essas categorias literárias oferecem lentes analíticas potentes para interpretar dinâmicas urbanas, transformando a cidade, uma das mais belas e complexas invenções humanas, em um texto vivo cujas estruturas e fluxos revelam toda a riqueza que só os dias de folias podem transvestir, ignorando toda a aspereza do dia a dia.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Bruno Firmino</strong> é arquiteto e urbanista, mestre e doutorando. É pesquisador e professor universitário, diretor do Instituto de Arquitetos do Brasil e do Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda.</p>
    </div>
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		<item>
		<title>Enquanto governo estadual comemora, Grande Recife bate recordes de violência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Feb 2026 15:41:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Fogo Cruzado]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
		<category><![CDATA[Violência armada]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ana Maria Franca* Raquel Lyra se elegeu com a bandeira da segurança pública como prioridade. Prometer reduzir a violência é fácil. Difícil é sustentar o compromisso com políticas eficientes. Em novembro de 2023, a governadora apresentou o plano estadual “Juntos Pela Segurança” com a ambiciosa meta de reduzir em 30% as mortes violentas intencionais [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Ana Maria Franca*</strong></p>



<p>Raquel Lyra se elegeu com a bandeira da segurança pública como prioridade. Prometer reduzir a violência é fácil. Difícil é sustentar o compromisso com políticas eficientes.</p>



<p>Em novembro de 2023, a governadora apresentou o plano estadual “Juntos Pela Segurança” com a ambiciosa meta de reduzir em 30% as mortes violentas intencionais até 2026. No entanto, a poucos meses do prazo estabelecido pelo próprio governo, o Relatório Anual do Fogo Cruzado indica que as metas de segurança pública seguem distantes da realidade. Enquanto a governadora comemora reduções pontuais, Pernambuco bate recordes históricos de violência armada.</p>



<p>Em 2025, a região metropolitana do Recife registrou recordes em três indicadores críticos: 16 crianças de 0 a 11 anos baleadas, o maior número desde 2019; 132 adolescentes de 12 a 17 anos baleados; e 72 pessoas foram vítimas de bala perdida, um aumento de 49% em relação a 2024 e recorde nos últimos sete anos.</p>



<p>Os dados contrastam com a narrativa governamental. A taxa de Mortes Violentas Intencionais foi de 32,74 por 100 mil habitantes em 2025 — uma redução que a governadora celebra, mas ainda muito distante da meta de 26,5 prometida para 2026.</p>



<p>A estratégia do governo tem sido priorizar o investimento no aumento de efetivo policial e aparato bélico. No entanto, os recordes mostram que insistir na lógica do confronto e da ostensividade não protege quem mais precisa.</p>



<p>Entre abril de 2018 e dezembro de 2025, período em que monitoramos a região, 902 adolescentes foram baleados no Grande Recife, sendo que 42% dessas vítimas ocorreram durante a gestão Lyra. E as circunstâncias dessas mortes revelam um padrão: 96% foram homicídios diretos.</p>



<p>Chama atenção também que quase 80% das mortes violentas intencionais foram cometidas com armas de fogo, mas o plano estadual não apresenta estratégias específicas para reduzir a circulação desses armamentos.</p>



<p>Em ano eleitoral, o governo Lyra tende a apresentar investimentos em efetivo e equipamentos como “avanços”, mas crianças e adolescentes que fazem parte do grupo prioritário do plano continuam desprotegidos, as disputas entre grupos armados explodiram e o recorde de vítimas de balas perdidas mostra o descontrole da violência armada.</p>



<p>Os dados produzidos pela sociedade civil são importantes para a população compreender de fato o que acontece em suas cidades, para além dos dados oficiais. Metas e promessas precisam ser checadas. E as informações produzidas pelo Fogo Cruzado estão à disposição para isso.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Ana Maria Franca</strong> é coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco</p>
    </div>



<p></p>
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		<title>Imprensa, medo e a coragem de dizer em tempos difíceis</title>
		<link>https://marcozero.org/imprensa-medo-e-a-coragem-de-dizer-em-tempos-dificeis/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 15:21:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
		<category><![CDATA[mídia e comunicação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Jane Santos* “O medo não cria princípios. Ele os destrói.” (Edward R. Murrow, em Boa Noite e Boa Sorte) Lançado em 2005 e dirigido por George Clooney, Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck) é ambientado nos anos do macartismo e acompanha a história real do confronto entre o jornalista Edward [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Jane Santos*</strong></p>



<p>“O medo não cria princípios. Ele os destrói.” (Edward R. Murrow, em<em> Boa Noite e Boa Sorte</em>)</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Good Night and Good Luck Trailer" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/1Qg9ZahBu8c?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>Lançado em 2005 e dirigido por George Clooney, <em>Boa Noite e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck)</em> é ambientado nos anos do macartismo e acompanha a história real do confronto entre o jornalista Edward R. Murrow e um tempo histórico em que a suspeita passou a valer mais do que os fatos, o devido processo legal foi relegado a um lugar secundário e não havia espaço para o contraditório. Em jogo não estava apenas a carreira de um profissional e de sua equipe, mas o próprio papel da imprensa quando o medo se organiza como método.</p>



<p>Murrow não foi um jornalista qualquer. Foi um dos nomes fundadores da prática jornalística moderna e uma referência de integridade profissional em um dos períodos mais sombrios da história política dos Estados Unidos. O escritor David Halberstam o definiu como “um dos raros casos de homem do tamanho do mito” &#8211; alguém cuja estatura ética resistiu ao tempo e às pressões do poder. Em uma era em que o jornalismo eletrônico ainda engatinhava, Murrow ajudou a consolidar a ideia de que informar não é amplificar o medo, mas enfrentá-lo com fatos, contexto e responsabilidade pública.</p>



<p>Quando a imprensa abdica desse papel, não é apenas a informação que se fragiliza — é a própria democracia que perde seus mecanismos de defesa. <em>Boa Noite e Boa Sorte</em> mostra que regimes autoritários não se impõem apenas pela força, mas pela erosão gradual dos espaços de contraditório, pelo medo disseminado e pela naturalização do silêncio.</p>



<p>A narrativa do filme é contida, quase austera. Não há heróis de linguagem rebuscada nem vilões caricatos. Há redações, microfones, decisões difíceis — e silêncios. O roteiro expõe como a intimidação pode se infiltrar nas rotinas, como o autocontrole pode deslizar para a autocensura e como o silêncio, muitas vezes apresentado como prudência, já configura renúncia.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0"> &#8220;Informar não é amplificar o medo, mas enfrentá-lo com fatos, contexto e responsabilidade pública&#8221;.</p>
</div>


<p>Esse rigor ético encontra eco na linguagem cinematográfica. O super elenco— com David Strathairn, Patricia Clarkson, Jeff Daniels, Robert Downey Jr. e o próprio George Clooney — sustenta interpretações precisas, sem excessos. O uso do preto e branco reforça a dimensão temporal e moral do relato, aproximando o espectador do clima documental da época e dialogando com a tradição do cinema noir.</p>



<p>A fotografia e a montagem são primorosas, criando uma sensação quase claustrofóbica de repetição, vigilância e tensão permanente. Um gesto especialmente potente é o uso de imagens reais do senador Joseph McCarthy, que “atua” como ele mesmo: o arquivo histórico dispensa caricaturas.</p>



<p>E a vinculação do filme com os tempos atuais? Vivemos hoje um momento marcante para a humanidade, atravessado por desafios impressionantes que frequentemente são encobertos por uma sensação enganosa de normalidade &#8211; como se tudo estivesse sob controle, em um clima artificial de “estabilidade”.</p>



<p>Nesse contexto, a comunicação ocupa um lugar decisivo. A parcialidade disfarçada de equilíbrio, a omissão apresentada como cautela e a desinformação amplificada por interesses editoriais e mecanismos de visibilidade não são desvios técnicos: são escolhas que moldam o espaço público e redefinem o que pode &#8211; ou não &#8211; ser dito.</p>



<p>Não se trata apenas de mentiras explícitas. Muitas vezes, a manipulação opera pelo enquadramento: títulos que destacam meias verdades, a escolha deliberada do pior ângulo de uma situação, a hierarquização seletiva de informações para produzir desgaste, medo ou descrédito. Textos que parecem neutros, mas carregam vieses sutis; coberturas que silenciam contextos essenciais enquanto amplificam suspeitas. Em paralelo, redes sociais fervilham e apostam também fortemente na desinformação. O resultado não é informação. É ruído orientado.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:44% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="600" height="800" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/boa-noite-poster.webp" alt="" class="wp-image-74722 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/boa-noite-poster.webp 600w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/boa-noite-poster-225x300.webp 225w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/boa-noite-poster-150x200.webp 150w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Quem já trabalhou e atuou em instituições sob pressão reconhece esse movimento. O silêncio raramente é neutro. Ele preserva posições, evita conflitos, garante sobrevivências &#8211; mas também autoriza excessos. <em>Boa Noite e Boa Sorte</em> lembra que a comunicação pública não é apenas um direito; é uma responsabilidade histórica. Quando dela se abdica, não se perde apenas relevância — perdem-se sentidos e memórias, como bem destaca Murrow em discurso, quando homenageado.</p>
</div></div>



<p>Falo disso não como abstração. Ao longo da minha trajetória profissional — e como cidadã — aprendi que o medo raramente se apresenta de forma explícita. Ele se instala em camadas: na sugestão de cautela excessiva, no convite à espera, no argumento de que “não é o momento”. Reconhecer esse método — e decidir não se omitir — nunca foi simples. Os bons e as boas jornalistas sabem disso. Mas é exatamente aí que ética e responsabilidade precisam deixar de ser conceitos e se tornar prática.</p>



<p>Há um fio claro que liga este filme com o que apresentei anteriormente. Se em <em>O Vento Será Tua Herança</em> discutíamos o direito de pensar, aqui o deslocamento é decisivo: trata-se do dever de dizer.</p>



<p>Pensar em silêncio não basta quando o medo se organiza, quando o ruído substitui o debate e quando novas formas de controle já não precisam de censura explícita — contam com a naturalização do silêncio e com a dispersão programada da atenção, como refletem pensadores contemporâneos que estudam a comunicação, a política e a sociedade da informação, a exemplo de Noam Chomsky e Christian Dunker.</p>



<p>Nessa perspectiva, o filme termina lembrando que a coragem, muitas vezes, não está no gesto heroico, mas na decisão cotidiana de não se furtar ao papel que se ocupa. Em tempos difíceis, esse papel não diminui. Ele se torna ainda mais inadiável.</p>



<p>Não falo como especialista em comunicação, mas como alguém que consome informação cotidianamente e busca, sempre, identificar a desinformação e suas nuances.</p>



<p>Se for assistir o filme, considere partir de dois questionamentos: O que acontece com a democracia quando a imprensa confunde prudência com omissão — e silêncio com responsabilidade? e Que silêncios este filme nos ajuda a reconhecer — e quais conversas ele ainda nos convoca a ter?</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Onde assistir?</strong></li>
</ul>



<p><em>Boa Noite, e Boa Sorte</em> não está atualmente disponível de forma regular nas plataformas de streaming por assinatura no Brasil. O filme pode ser encontrado em edições físicas (DVD e Blu-ray), à venda em livrarias especializadas e lojas on-line. Em alguns países, o título aparece de forma intermitente em catálogos internacionais de plataformas digitais, para aluguel ou compra, com disponibilidade variável conforme a região. Trata-se, hoje, de um filme que circula sobretudo por aquisição direta &#8211; o que também diz algo sobre a necessidade de preservar obras fundamentais para a memória crítica do nosso tempo.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Médica sanitarista e psiquiatra, atuou como gestora pública e integrou o staff do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), onde se aposentou como especialista em políticas públicas do escritório regional para os estados de Alagoas, Paraíba e Pernambuco.</p>
    </div>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Fátima e Índia no coração do Agente Secreto</title>
		<link>https://marcozero.org/fatima-e-india-no-coracao-do-agente-secreto/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jan 2026 16:01:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura militar]]></category>
		<category><![CDATA[O Agente Secreto]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2026]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Lua Lacerda* O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, surge em um momento significativo da produção cultural brasileira, quando o país tem sido compelido, histórica, política e simbolicamente, a encarar um de seus maiores traumas: a ditadura militar de 64. Essas narrativas dialogam com um presente em que golpistas e militares foram investigados, julgados [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>por Lua Lacerda*</p>



<p>O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, surge em um momento significativo da produção cultural brasileira, quando o país tem sido compelido, histórica, política e simbolicamente, a encarar um de seus maiores traumas: a ditadura militar de 64. Essas narrativas dialogam com um presente em que golpistas e militares foram investigados, julgados e condenados por tentativas recentes de ruptura democrática. Esse movimento histórico nos força a olhar “para trás”. A ditadura deixa de ser um capítulo encerrado e passa a ser algo que precisa ser constantemente rememorado, remexido, redito. Trata-se de um passado que não se esgota e que, talvez, nunca deva se esgotar.</p>



<p>Nesse contexto, O Agente Secreto se impõe como um filme fundamental. Não porque simplesmente retome a temática da repressão, mas porque o faz a partir de um lugar singular, tanto do ponto de vista estético quanto narrativo. Kleber Mendonça Filho trabalha com uma linguagem cinematográfica sofisticada, marcada por camadas, silêncios, deslocamentos e tensões internas. O filme não se limita a contar uma história, pois pensa o próprio modo de narrar. Seu movimento temporal, com constantes rupturas, retornos e infiltrações do presente, mimetiza o funcionamento da memória, que não se organiza de forma cronológica, mas por fragmentos, lapsos e insistências. É nesse gesto formal que o filme se afasta do relato histórico convencional e se constitui, ele próprio, como uma investigação sobre memória, arquivo e ausência.</p>



<p>Isso tem consequências diretas no modo como a narrativa se organiza e no lugar de onde ela é contada. Um dos aspectos mais relevantes do filme é, justamente, seu caráter profundamente local. A história se passa em Recife, e o personagem de Wagner Moura, Armando, é um professor universitário cuja experiência com a ditadura é situada e marcada pelas tensões regionais e pela xenofobia dos fascistas do Sul. Isso é fundamental. Durante muito tempo, as narrativas sobre o período ditatorial no Brasil se concentraram em certos centros, como Rio e São Paulo, e em experiências tomadas como universais, majoritariamente masculinas e brancas, apagando especificidades regionais, como as do Nordeste racializado. O Agente Secreto reivindica a importância dessas histórias locais como parte do processo de elaboração do trauma. Sem essas histórias faltosas, o trauma não pode ser completamente elaborado. A identificação do público recifense com o filme não é apenas afetiva. Ela também é política. Trata-se de uma forma de reparação simbólica, de reconstrução da memória a partir de um território específico.</p>



<p>Essa lógica se desdobra também no contraste entre diferentes gerações e diferentes modos de lidar com o passado, representado de forma precisa pelas duas jovens personagens pesquisadoras da atualidade. De um lado, a distração, a preguiça de olhar os jornais, de escutar os áudios, de se deter sobre aquilo que gera incômodo. Do outro, a figura da jovem curiosa, “danada”, insistente, elogiada pelo personagem Fernando por sua vontade de cavar arquivos, ouvir registros e buscar rastros. Esse contraste espelha uma tensão contemporânea muito real entre o esquecimento confortável e o trabalho ativo da memória. Essas pessoas que escavam o passado existem, nós somos elas e o próprio diretor também se coloca nesse lugar.</p>



<p>No entanto, um dos núcleos mais importantes do filme tem passado despercebido: a forma como são construídas duas personagens fundamentais, Fátima, interpretada por Alice Carvalho, e a mãe de Armando, conhecida apenas pelo apelido de “Índia”. Embora ocupem lugares muito distintos na narrativa, essas duas mulheres organizam, em camadas diferentes, o debate mais profundo que o filme propõe sobre memória e violência no Brasil. É a partir delas que O Agente Secreto desloca seu eixo da repressão política para algo anterior, estrutural. Uma história mais antiga e mais recalcada no inconsciente do país.</p>



<p><br>Fátima, esposa de Armando e mãe de Fernando, ocupa no filme um lugar tão decisivo quanto paradoxal. Mulher negra e politicamente consciente, ela aparece pouco, quase nunca como presença contínua no enredo, mas retorna de forma insistente como lembrança. Fátima está nas fotografias, na imagem que Armando carrega consigo, na memória do filho. Sua existência no filme se constrói menos pela ação direta do que pela permanência da ausência. Há apenas uma cena em que ela aparece corporalmente, em retrospectiva, no jantar com Armando e Girote. Nela, Fátima se impõe, fala com firmeza, xinga os fascistas. Essa breve aparição é suficiente para afirmar sua força e, ao mesmo tempo, evidenciar algo fundamental: Fátima é uma presença que o filme escolhe manter à margem do presente narrativo.</p>



<p>Parte da recepção tende a reduzi-lo a “mais um filme sobre a ditadura”. Sim, mas também trata-se de um filme que constrói uma longa investigação em torno da história da mãe de Armando, uma busca que atravessa toda a narrativa, inclusive em escolhas aparentemente laterais, como o local de trabalho do personagem. Ao final, o que se revela é silenciosamente violento: essa mulher era chamada de “Índia” porque era, de fato, indígena; foi violentada ainda muito jovem, aos 14 anos, quando vivia em condição de exploração doméstica, como escrava de uma família. Não há documentos, não há registros, não há arquivos. Tudo o que sabemos dela é a forma como era chamada (não o seu nome, mas o nome que lhe foi dado pelos outros).</p>



<p>Entre Fátima e a “Índia” se desenha uma gradação da violência brasileira: da mulher negra cuja presença persiste como ausência, ainda deixando vestígios na memória e nas imagens, à mulher indígena cuja história foi quase inteiramente apagada. Por isso elas estão no coração do filme: porque, embora seja possível narrar a ditadura, investigar seus crimes e reconstituir seus mecanismos de violência, há uma violência fundante, mais antiga e talvez mais decisiva, que permanece inalcançável. A violência colonial, o genocídio indígena e a exploração sexual e racial que estruturam a formação do Brasil não deixaram arquivos organizados, não cabem nos jornais, não aparecem nas gravações. Elas existem como ausência, como lacuna, como trauma sem nome e, ao mesmo tempo, como uma chave possível para compreender a violência que se desdobra posteriormente nesse território.</p>



<p>O gesto mais radical de O Agente Secreto está justamente naquilo que ele não consegue resolver. O filme olha para o passado na tentativa de compreendê-lo, mas reconhece seus próprios limites. Talvez seja justamente aí que ele se torne brilhante: ao admitir que as respostas mais importantes estão naquilo que não pode ser plenamente contado. Trata-se, portanto, de um filme sobre memória, mas também sobre o fracasso da memória. Um filme que investiga, que escava, que é danado e que, ao final, nos confronta com a constatação de que há uma violência fundante da história brasileira que não está nos registros. É nessa ausência, nessa ferida aberta, que o filme encontra sua força mais profunda.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Jornalista e escritora, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É autora dos livros Ultramar (Editora da União, 2023) e Redemunho (Editora UFPB, 2019).</p>
    </div>
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		<title>Prévias de Olinda: planejamento urbano para a salvaguarda da folia e do patrimônio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 16 Jan 2026 20:17:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[Olinda]]></category>
		<category><![CDATA[prévias]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Bruno Firmino* “Olinda,Das perspectivas estranhas,Dos imprevistos horizontes,Das ladeiras, dos conventos e do mar.”(Joaquim Cardozo) Há 100 anos o poeta-engenheiro e engenheiro-poeta maquinava suas emoções no poema que dedicou a Olinda, cidade-patrimônio e marco de tantas histórias. Nem a alma do poeta poderia dar conta do quanto os horizontes seriam imprevisíveis no século que nos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Bruno Firmino*</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Olinda,<br>Das perspectivas estranhas,<br>Dos imprevistos horizontes,<br>Das ladeiras, dos conventos e do mar.”<br>(Joaquim Cardozo)</p>
</blockquote>



<p>Há 100 anos o poeta-engenheiro e engenheiro-poeta maquinava suas emoções no poema que dedicou a Olinda, cidade-patrimônio e marco de tantas histórias. Nem a alma do poeta poderia dar conta do quanto os horizontes seriam imprevisíveis no século que nos separa do seu poema que desliza pela geografia olindense.</p>



<p>Além da imagem de uma paisagem postal secular, quando se pensa em Olinda logo se lembra de seu carnaval. Uma celebração que na época do poema de Joaquim Cardozo ainda era miúda e com o passar dos anos foi remodelando e trazendo novas tradições para o carnaval de Pernambuco e do Brasil. Nesse mar de animação estão agremiações de frevo, maracatu, afoxés, bateria de samba, boi, ursos, bloco do eu sozinho e tudo o que couber na folia.</p>



<p>Essa constelação de agremiações é mantida pelos moradores. Certa vez vi a historiadora olindense Aneide Santana falando que o carnaval olindense é um movimento de dentro pra fora: de dentro das casas e quintais pra rua. São nesses estreitos espaços que é pensada a folia em forma de sonho. Essa população forma toda a cadeia do carnaval olindense e consegue manter a brincadeira viva, que se reinventa e vai passando por gerações.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/com-prefeitura-omissa-moradores-de-olinda-sofrem-com-desequilibrio-entre-festas-e-preservacao/" class="titulo">Com prefeitura omissa, moradores de Olinda sofrem com desequilíbrio entre festas e preservação</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Toda essa concentração de saberes não acontece da noite pro dia, necessita de uma feitura anterior com os ensaios de passistas e músicos ou a fabricação da parte de figurinos e adereços para as festas. São momentos de transmissão de saberes, onde os mais experientes vão instruindo os mais novos, possibilitando a circularidade das práticas. Os ensaios também servem para cativar e atrair novos praticantes, uma vez que acontecem de maneira aberta e franca para quem quiser ver.</p>



<p>De dez anos para cá, as prévias carnavalescas aumentaram em público e em calendário, ocupando as ruas com bem mais pessoas e fazendo dos finais de semana uma constante de festa sem dar tanta trégua para o descanso de uns e silêncio para outros. Essa mudança mexeu radicalmente nas dinâmicas urbanas do Sítio Histórico.</p>



<p>Com o aumento das prévias aumentaram também os problemas: ausência de banheiros públicos, coleta de lixo e limpeza das ruas ineficientes, comércio ambulante desordenado, emissão de ruídos exagerada por bares e espaços de ensaio — todos aspectos que denunciam uma falta de planejamento e gestão municipal. Somam-se episódios de violência urbana que são superdimensionados pelas redes sociais e por uma mídia sensacionalista que tenta traduzir as prévias em barbárie.</p>



<p>Mas o banho de euforia que lava as ladeiras poderia ser utilizado em prol de Olinda. É necessário pensar o futuro dos espaços e gerenciar o presente, garantindo que o planejado seja cumprido ou revisado. Mas essas duas escalas do urbanismo precisam de um corpo técnico capacitado e que atue de maneira contínua, mas o que encontramos hoje em Olinda é sucateamento devido às aposentadorias ou falecimentos de servidores e ausência de concursos públicos.</p>



<p>Evidente que para que essas ações possam acontecer é necessário interesse político, convergindo os desejos dos principais atores envolvidos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Como usar as prévias para um carnaval melhor</strong></h2>



<p>Quem frequenta as prévias com assiduidade já conhece o circuito percorrido pelas agremiações. Essa previsibilidade dos percursos dos desfiles ajuda a pensar em ações para que as festas nas ruas sejam boas para quem faz, trabalha, brinca ou quem vê pelas janelas de casa. Ainda ajuda o fato de que as agremiações, através de um formulário, informam à prefeitura de Olinda o horário e local de saída e trajeto.</p>



<p>Essas informações, em tese, deveriam servir para pensar as ações, mas o único braço do poder público que marca presença nas ruas é a polícia, que muitas vezes excede o seu papel tentando coagir agremiações a terminar os desfiles por conta de horário ou perpetram o racismo abordando ou batendo em jovens pela cor da pele.</p>



<p>Ciente desse cenário, a primeira ação de planejamento seria manejar o trânsito, criando bloqueios e rotas de desvios durante as concentrações e desfiles. Antes disso, ainda seria mais importante um plano de mobilidade para o Sítio Histórico, uma vez que vemos veículos em portes e situações que colocam em risco o patrimônio edificado e as pessoas — mas esse também é assunto para um outro texto.</p>



<p>Ainda olhando para a mobilidade: é muito comum encontrar os pontos de ônibus lotados, carros de aplicativos com preços exorbitantes e às vezes ausência de táxi pela alta demanda. O ponto da Praça do Carmo no sentido Olinda/Recife é um exemplo. A situação aponta para uma pesquisa do tipo origem-destino com esse público sazonal, permitindo a construção de ações públicas como linhas expressas para determinadas localidades ou ações culturais descentralizadas, dinamizando cultural e economicamente outras áreas, evitando deslocamentos e diminuindo a pressão de público em uma área histórica. A descentralização das prévias também permitiria levar agremiações do Sítio Histórico para outras áreas de Olinda.</p>



<p>Outra frente de planejamento diz respeito ao comércio de bebidas, informal e formal. O comércio informal é uma oportunidade para que populações vulnerabilizadas do entorno levem uma renda extra para casa. É uma presença obrigatória nas ladeiras, então nada mais justo do que entender como parte da dinâmica das festas de rua. Por ser um tipo de comércio que depende do movimento, sempre está relacionado com as rotas das agremiações e alguns pontos de maior concentração de público, a exemplo dos Quatro Cantos e Rua do Amparo.</p>



<p>É muito comum encontrar ambulantes em lugares inadequados que trazem risco para eles e para quem está passando, seja pelos espaços estreitos das ruas, seja pelo posicionamento de barracas com churrasqueiras e chapas a gás. Nada mais coerente do que posicionar esses ambulantes, levando para as esquinas das ruas transversais ou posicionando à frente ou no final das agremiações para quem quiser seguir trabalhando acompanhando o desfile. </p>



<p>Da mesma forma, manter em local seguro e mais afastado do ruge-ruge quem trabalha com churrasqueiras e chapas. Claro que esse tipo de solução passa por instruções e cadastramento dos trabalhadores, como de orientação constante e fiscalização por parte do poder público, mas a regra nas ladeiras é uma total ausência de agentes de controle urbano.</p>



<p>A mesma lógica de planejamento serve para a locação de banheiros, fazendo um cruzamento entre os trajetos, pontos de aglomeração e espaços disponíveis para instalação dos banheiros químicos que teriam o posicionamento indicado por uma sinalização temporária que poderia ser instalada em postes nos finais de semana de mais movimento das prévias.</p>



<p>A paisagem sonora das prévias de Olinda também é composta pelos sons que vêm dos bares e dos ensaios das baterias. Os primeiros fazem uso do som para prender a atenção e a presença de público dentro ou na sua fachada; os segundos usam o som para garantir que parte da instrumentação chegue ao público. Nos dois casos há excessos que precisam ser coibidos, permitindo que a vizinhança desfrute de menos desconforto e não haja interferências nas manifestações de rua, como uma orquestra de frevo que conta apenas com os pulmões dos músicos.<br><br>Para os bares, a resolução é mais prática e direta, passando por conscientização e aplicação das legislações vigentes sobre emissão de ruídos. No caso das baterias de samba há uma manifestação que acontece fora de contexto, pois os quintais e espaços públicos são utilizados como palco para uma emissão absurda de decibéis, tornando insalubre a vida da vizinhança. A prática de ensaios de baterias que funcionam como festas fechadas é incompatível com uma área com predominância de residências, uma vez que esses ensaios acontecem nos quintais que não possuem nenhum tipo de amenização de sonorização e ainda numa região formada por sobrados que dividem os limites dos lotes, levando todo o som para dentro das casas sem grandes dificuldades.</p>



<p>Toda essa movimentação das baterias poderia servir como indutor de ocupação de outras áreas da Cidade Alta, como a parte da orla e equipamentos públicos que estão quase sempre ociosos ou subutilizados, levando movimentação e reocupação para áreas que precisam da presença de pessoas e garantindo que as atividades ocorram sem tantas intercorrências com o entorno.</p>



<p>Os desfiles das baterias pelas ladeiras se mostram incompatíveis com aspectos culturais locais, pelo uso de paredões de som que funcionam como minitrios elétricos puxados por carros. Além do impacto que a vibração e a emissão de som trazem para o casario, representam também um risco em trechos íngremes e de pavimentação lisa pelo desgaste natural das ladeiras. Essa combinação pode ocasionar acidentes graves, como a colisão do veículo no casario ou no público ao redor. Pelo conjunto de riscos, essa também é uma movimentação que precisa ocorrer fora das ladeiras do Sítio Histórico. Não se trata aqui de menosprezar as baterias de samba, mas de transferir um tipo de atividade que traz um latente conflito com áreas residenciais e com a conservação do patrimônio histórico.</p>



<p>A soma dessas ações se encontra com um trabalho de zeladoria do espaço público, garantindo uma vistoria da pavimentação e dos postes e iluminação adequada, especialmente nos corredores da folia, evitando colocar vidas em riscos. Claro que esse conjunto de ações precisa vir de um corpo técnico capacitado que se soma a um projeto político que entenda o patrimônio imaterial e material como relevante para sociedade, buscando alternativas que sejam viáveis dentro de um contexto financeiro e social de uma cidade que não possui grandes fontes de renda. </p>



<p>O que traz a necessidade de buscar fontes de financiamento no setor público e privado, com captações diversas e articulações nas esferas estadual e federal. Cenário improvável diante do que acontece em Olinda, ainda mais vindo de um grupo político que na gestão passada perdeu R$ 49 milhões em recursos federais que seriam voltados para restauração de 12 monumentos históricos.</p>



<p>Entendendo as prévias como ensaios e preparativos para o carnaval, algumas práticas poderiam ser empregadas como laboratório e aplicadas no carnaval de maneira mais aprimorada. Mas o que estamos vendo hoje são ações danosas e omissões ganhando continuidade e amplitude no carnaval, deixando um gosto de nostalgia dos carnavais passados.</p>



<p>O conjunto de ideias que aqui foram apresentadas são muito mais uma exposição de possibilidades do que um caminho único para a resolução de conflitos gerados pelas prévias. Talvez sirva muito mais como uma provocação para situações que são dinâmicas e costumam mudar com o sabor do tempo.</p>



<p>Vale seguir pelas palavras de Joaquim Cardozo que alertou que “um dia os aviões surgiram e libertaram a distância/Os aviões desceram e levaram os caminhos”. No nosso caso é torcer que o som dos frevos que sobrevoam nossas cabeças, tão rápidos quanto aviões, também tragam sopros de construção de novos caminhos e ideias através do diálogo constante que só a paixão de quem vive as ladeiras da Cidade Alta podem garantir.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Bruno Firmino é arquiteto e urbanista, mestre e doutorando. É pesquisador e professor universitário. Diretor do Instituto de Arquitetos do Brasil — Departamento Pernambuco. Diretor do Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda.</p>
    </div>



<p></p>
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		<title>O preço de pensar: o vento que ainda nos alcança</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 21:26:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[evolucionismo]]></category>
		<category><![CDATA[fundamentalismo religioso]]></category>
		<category><![CDATA[justiça]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Jane Santos* Sempre que revejo O Vento Será Tua Herança, tenho a sensação de que o filme continua me olhando de volta. Talvez porque eu tenha passado grande parte da minha vida profissional lidando com disputas que não cabiam nos manuais: a tensão permanente entre conhecimento e medo, entre política e ética, entre evidência [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Jane Santos*</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-left">“A imprensa deve confortar os aflitos e afligir os confortáveis.”<br>— <em>Hornbeck (jornalista), em</em> <em>O Vento Será Tua Herança</em></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe loading="lazy" title="&quot;O vento será tua herança&quot;, com Spencer Tracy e ‎Frederich March‎, trailer com legendas em português" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/RnMbyxRn9qQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>
</blockquote>



<p>Sempre que revejo <em>O Vento Será Tua Herança</em>, tenho a sensação de que o filme continua me olhando de volta. Talvez porque eu tenha passado grande parte da minha vida profissional lidando com disputas que não cabiam nos manuais: a tensão permanente entre conhecimento e medo, entre política e ética, entre evidência e convicções absolutas. Em muitos gabinetes e territórios que conheci, sustentar ideias baseadas em fatos e reflexão crítica nunca foi apenas um exercício técnico — foi, muitas vezes, um ato de resistência.</p>



<p>Lançado em 1960 e inspirado em um julgamento real ocorrido nos Estados Unidos nos anos 1920 (Julgamento de Scopes, Tennessee), o filme transforma um tribunal em arena pública, com roteiro preciso e atuação magistral dos atores. A história é simples e poderosa. Em uma pequena cidade conservadora, um professor é levado a julgamento por ensinar a Teoria da Evolução das espécies a seus alunos, contrariando uma lei local baseada em interpretações religiosas. O que poderia ser apenas um processo jurídico se converte rapidamente em algo maior.</p>



<p>Não se julga apenas um homem, mas a própria possibilidade de que ciência, dúvida e pensamento crítico tenham lugar em sociedade. Ao concentrar quase toda a ação no tribunal, o diretor faz uma escolha decisiva: expor o conflito diante da comunidade e da imprensa, revelando como sociedades amedrontadas recorrem ao fundamentalismo para preservar certezas e silenciar o novo.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Em O Vento Será Tua Herança, o julgamento não é jurídico — é moral.</p>
</div>


<p>Não se trata apenas de fé, mas de poder. Quando convicções absolutas passam a orientar leis e decisões públicas, a razão se torna suspeita. O pensamento crítico, então, deixa de ser virtude e passa a ser visto como ameaça à ordem. Esse deslocamento é o coração do filme — e talvez seja também uma das chaves para entender muitos conflitos contemporâneos.</p>



<p>Uma das frases mais duras da narrativa é quando o advogado de defesa afirma que “o progresso nunca é uma barganha; sempre se paga um preço.” E o preço costuma ser cobrado justamente de quem ousa questionar. Em salas de aula, tribunais, instituições e políticas públicas, sustentar ideias baseadas em evidências e justiça social frequentemente significa enfrentar moralismos, interesses e silêncios organizados.</p>



<p></p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:33% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="704" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/capa-DVD-Heranca-1-704x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-74104 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/capa-DVD-Heranca-1-704x1024.jpeg 704w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/capa-DVD-Heranca-1-206x300.jpeg 206w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/capa-DVD-Heranca-1-768x1117.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/capa-DVD-Heranca-1-1056x1536.jpeg 1056w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/capa-DVD-Heranca-1-150x218.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/01/capa-DVD-Heranca-1.jpeg 1062w" sizes="auto, (max-width: 704px) 100vw, 704px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5UsoBRiRuEQ">Henry Drummond, o advogado da defesa, vivido por Spencer Tracy</a>, vocaliza o centro ético da história ao afirmar: “Estou tentando estabelecer o direito de cada pessoa pensar.” Não se trata de vencer um adversário, mas de preservar um princípio civilizatório. Pensar, ali, deixa de ser um gesto individual e passa a ser um ato político, — como nos ensinou Paulo Freire.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Em outro momento, o filme lembra que “uma ideia é um monumento maior do que uma catedral.” Talvez porque ideias livres desloquem estruturas rígidas e revelem fragilidades que muitos preferem ocultar. Em tempos de anti-intelectualismo e de tentativas recorrentes de transformar crenças pessoais em política pública, <em>O Vento Será Tua Herança</em> deixa de ser apenas um clássico e se impõe como espelho do presente.</p>



<p>Ao revê-lo hoje, penso no Brasil que conheço tão bem. Um país onde a dúvida frequentemente precisa se justificar, onde a crítica é confundida com afronta e onde o medo — esse velho aliado do autoritarismo — segue sendo mobilizado. O julgamento encenado no filme ecoa sempre que o pensamento crítico é tratado como ameaça à ordem.</p>



<p>Uma das lições mais desconcertantes do filme é acompanhar a disputa jurídica e moral de dois amigos de longa data que pensam diferente e concluir que discordar não exige destruir o outro — algo que parece cada vez mais raro em nossos dias.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Onde começa o fundamentalismo? E qual é o preço de sustentar o direito de pensar?</p>
</div>


<p>Mas há ainda uma camada que insiste em permanecer: a da responsabilidade ética. Aquela que não depende de cargo, instituição ou visibilidade. Aquela que se manifesta quando alguém decide sustentar uma ideia mesmo sabendo o custo que ela cobra.</p>



<p>Se há um vento que herdamos, que seja o da coragem.<br>O do pensamento vivo.<br>O da resistência corajosa, diante de certezas fabricadas e dos fundamentalismos que tentam reduzir o mundo ao seu tamanho, como tantas vezes alertou José Saramago.</p>



<p>Em tempos de ruídos e respostas fáceis, se reforça que pensar continua sendo um ato político. E, às vezes, o mais urgente.</p>



<p>Bom filme! E, depois, que conversas este filme ainda nos convoca a ter?</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Onde assistir</strong>: <em>O Vento Será Tua Herança</em> pode ser encontrado em plataformas de aluguel e compra digital (como Apple TV, Google Play, YouTube e Amazon) e em edições físicas (DVD/Blu-ray).</li>
</ul>



<p></p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong><span style="font-size: medium;"><span style="font-family: Calibri, serif;">Médica sanitarista e psiquiatra, atuou como gestora pública e integrou o staff do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), onde se aposentou como especialista em políticas públicas do escritório regional para os estados de Alagoas, Paraíba e Pernambuco.</span></span></p>
    </div>



<p></p>
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