A final da Copa na comunidade do Poço da Panela

Samarone Lima / 21/07/2026

Meia hora antes do jogo, Boy me ligou. “Vem pra cá, assistir a Argentina perder”. Fui lá. Fica a dois minutos da minha casa.

Quando cheguei, nem de longe lembrava o jogo infame da seleção brasileira, contra o escrete a Noruega. Tinha umas trinta pessoas, de todos os tamanhos e idades, num terreiro ventilado, uma TV de responsa, cerveja e cachaça rolando pra todo lado, Bode mandando bem no controle de tudo que pudesse ser assado e mastigado, um monte de crianças se divertindo, e aquela esperança de um bom futebol. Foi uma frustração total, consolado apenas com o som na maior altura, com Priscila Sena cantando O choro é livre.

No derradeiro jogo da Copa, o cenário era de umas dez pessoas, todas torcendo ardorosamente pela Espanha. Destaque para o Mago, cachorro, de raça incerta, apaixonado por Boy, e vice-versa, que tem 11 anos.

“Estou com saudade é do Arruda”, me segredou Boy, se recuperando da bicada que tomou na hora do almoço. Passamos a falar de Naná, o nosso amado gorducho.

O jogo não rendia uma crônica, e Nina lembrou: “ano que vem, quero é ver as meninas jogando”,se referindo à Copa do Mundo das mulheres, no Brasil, em 2027.

O melhor momento do jogo foi o show do intervalo, com a aparição da cantora Shakira. “Ela descobriu a gaia num pote de geléia”, comentou alguém. Bode percebeu que eu estava com fome e passou a me trazer pedaços de assado, despertando olhares gulosos do Mago.

Com o Brasil fora da Copa, restou a famosa “greia” do recifense: “Esse Cucureia, se jogasse aqui, seria apelidado de Cabeleira do Zezé”.

Ninha, de vez em quando soltava a sua felicidade: “Adivinha quem não vai trabalhar amanhã?” Ela mesma levantava o dedo. “Ela tá assim porque está de férias do trabalho”, comentou Boy.”

“Esse Lamine tá é mal”´.

Na prorrogação, o Mago preferiu largar Boy e foi curtir uma “siesta”espanhola.

“Oxe, só na metade do segundo tempo, o locutor falou no nome de Messi”.

“Quem tá mal é o Náutico. Se bobear, vai cair de divisão”, diz Boy, com um sorriso de felicidade.

A maresia foi sacudida com o gol da Espanha, na prorrogação. Parecia que estávamos em Madri. Gritaria, fogos, nos arredores. A raiva que estava engasgada, pelos insultos recorrentes de “macaquitos”, por parte dos argentinos, em jogos contras o Brasil. A criançada embicou na piscina, para comemorar. “São 12 mil litros”, disse Boy, orgulhoso.

O título da espanha foi embalado por pelo brega esfuziante de Priscila Senna.

Voltando pra casa, lembrei que morava no Poço, na conquista do Penta. Foi uma farra gigantesca, no Pátio da Igreja, ao lado de Naná. Lembrei dos vários amigos argentinos, que tenho em Buenos Aires, e de como estariam tristes. Mas os hermanos resolveram imitar o Brasil, no último jogo. Não jogaram nada.

AUTOR
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Samarone Lima

Samarone Lima, jornalista e escritor, publicou livros-reportagens e de poesia, entre eles "O aquário desenterrado" (2013), Prêmio Alphonsus de Guimarães da Fundação Biblioteca Nacional e da Bienal do Livro de Brasília, em 2014. Em 2023, seu primeiro livro, "Zé", foi adaptado para o cinema.