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Frei Betto: “Estamos desmobilizados. Com o PT, fortalecemos a mentalidade consumista e não a cidadã”

Laércio Portela / 14/03/2018

Marca FórumO frade dominicano e escritor Frei Betto, 73 anos, acredita que uma possível prisão de Lula deve gerar algumas manifestações isoladas, mas o povo não vai tomar as ruas do Brasil. A falta de iniciativa popular é resultado das prioridades políticas dos governos petistas. “Nós estamos desmobilizados. Por que? Porque nos 13 anos do PT no Poder investimos mais em ofertar bens pessoais do que sociais. Fortalecemos a mentalidade consumista e não a cidadã”.

Betto, que participou nesta quarta de um concorridíssimo debate sobre democracia e educação popular no Fórum Social Mundial, em Salvador, lamenta que os governos do PT tenham seguido um caminho distinto de Evo Morales, na Bolívia. “Sem apoio do Congresso e dos empresários, Evo empoderou os movimentos sociais e seus representantes ocuparam as vagas no Poder Legislativo”. Aqui, segundo avalia, “nós delegamos o poder aos inimigos da democracia”, numa referência às alianças políticas à direita que deram sustentação às gestões petistas na Presidência da República. Quem organizou suas bases para ocupar o Legislativo nas duas últimas décadas foram as igrejas evangélicas, explica.

As críticas de Frei Betto são feitas a partir do campo da esquerda, de quem vê em Lula o maior líder político da atualidade no Brasil e reconhece que “as duas gestões de Lula e a de Dilma foram as melhores da história republicana brasileira”. Mas faltou o trabalho de conscientização política. “Perdemos a oportunidade de fazer a alfabetização política da população. Nossa tarefa número 1 devia ter sido, como continua a ser, organizar a base popular, o movimento popular. Arte, cultura, esporte, movimento LGBT, movimento negro, de mulheres”.

SEM REFORMAS ESTRUTURANTES

Frei Betto critica o fato de que nenhuma reforma estruturante (“nem a tributária, nem a política, nem a agrária”) tenham saído do papel no período dos governos do PT. “A impressão que eu tive é que os movimentos sociais pensaram que o governo era uma grande vaca com grandes tetas”, ilustrou. No Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, formado por representantes do capital e da sociedade civil, os segmentos tinham forças distintas. “No Conselhão, as palavras dos empresários valiam mais do que a dos trabalhadores”.

Betto lamenta que os partidos de esquerda possuam hoje militância paga e diz que só se forma militância espontânea com educação popular. Ele sugere que os movimentos sociais se voltem para essa educação popular e mergulhem nos ensinamentos deixados pelo educador pernambucano Paulo Freire. “Existe metodologia para organizar o povo. Temos muitas referências. Paulo Freire é, sem dúvida, a figura mais emblemática desse processo”.

A NATURALIZAÇÃO DA OPRESSÃO

O trabalho sistemático de desinformação e naturalização das opressões por parte das grandes empresas de comunicação brasileiras é fundamental para manter a população anestesiada.

Frei Betto acredita que a crise da democracia é uma crise crônica porque ela está diretamente associada ao modelo perverso de funcionamento do capitalismo, que naturaliza a opressão. “O desempregado que consegue um emprego terrível, ganhando muito mal, acha isso natural, como também vê com naturalidade a fortuna de Neymar. Há no Brasil a idiotização praticada pela mídia. A novela faz você rir, mas aquilo não tem caráter mobilizador. Tá ali para idiotizar”.

Nas viagens que faz pelo mundo, o frade dominicano é frequentemente perguntado sobre como um líder popular do tipo de Lula chegou ao poder num país conservador como o Brasil. Responde sem titubear: Paulo Freire. Lembra que as forças que levaram Lula à Presidência na eleição de 2002 começaram a se organizar nos anos 1960, primeiro por meio das comunidades eclesiais de base, depois com o fortalecimento dos movimentos populares de mães e contra a carestia, a mobilização dos trabalhadores nos sindicatos, a CUT e a reorganização do movimento estudantil.

FICA UMA PERGUNTA NO AR

Betto, que foi preso político entre os anos de 1969 e 1973, disse que a organização popular nos anos 1960 surpreendeu os intelectuais brasileiros. Da mesma forma que a fundação do Partido dos Trabalhadores nos anos 1980. “Quando saí da cadeia, eu mesmo me questionava: como esse povo se organizou, se nós estávamos presos?”.

Em tempos de golpes parlamentares e de relações nebulosas entre setores dos poderes Judiciário e Executivo brasileiros e do Ministério Público com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o escritor alerta que a organização popular é uma arma contra o imperialismo norte-americano e cita Cuba e Vietnã como dois exemplos concretos. “Os fracassos norte-americanos em Cuba e no Vietnã fizeram eles aprenderem que é muito fácil derrubar um governo, mas não se derruba um povo. A organização popular fez a diferença nesses dois casos”. Fará no Brasil?

 

AUTOR
Foto Laércio Portela
Laércio Portela

Co-autor do livro e da série de TV Vulneráveis e dos documentários Bora Ocupar e Território Suape, foi editor de política do Diário de Pernambuco, assessor de comunicação do Ministério da Saúde e secretário-adjunto de imprensa da Presidência da República