Crédito: Bruno Kelly/Amazônia Real

por Gilmara Santos, da Agência Nossa

A adesão do Brasil na COP26 à Declaração de Florestas, documento que prevê combate ao desmatamento, levantou dúvidas sobre como o maior exportador de carne do mundo será capaz de cumprir o compromisso. O documento reúne pelo menos 124 países signatários, entre os que abrigam as florestas de um lado e, de outro, as nações ricas que prometem financiar a proteção com cerca de US$ 19 bilhões, considerando recursos públicos e privados.

O agronegócio tem sido o principal vetor do desmatamento no Brasil, alimentado pela agropecuária. O porta-voz da campanha para a Amazônia do Greenpeace Brasil, Rômulo Batista, estima, com base em dados recentes do Map Biomas, que entre 80% e 89% da área desmatada da floresta esteja atualmente ocupada por pasto.

Com objetivo de minimizar o impacto dessas ações, os principais frigoríficos firmaram recentemente compromissos públicos para eliminar o desmatamento ilegal da Amazônia. No entanto, os anúncios feitos pelas empresas não empolgaram entidades de defesa do meio ambiente nem analistas de ESG (boas práticas socioambientais e de governança). Eles afirmam que esses compromissos estão atrasados e até mesmo repetidos.

O representante do Greenpeace destaca que as metas das empresas prevendo o desmatamento ilegal zero entre 2025 e 2040 são muito pouco diante do cenário que estamos vivendo. “Se hoje pode desmatar, a Amazônia pode perder mais 20% de área até lá. Isso é bastante preocupante e esconde a falta de conhecimento, porque eles não sabem quem fornece”.

A Marfrig, maior produtora mundial de hambúrgueres, lançou um plano para eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecedores até 2030. A empresa promete adaptar ainda no próximo ano controle da cadeia e mitigação de riscos. 

A JBS assumiu o  compromisso de se tornar Net Zero até 2040, ou seja, de zerar o balanço líquido de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) diretas e indiretas. A meta da empresa é alcançar uma cadeia de fornecedores de gado livre de desmatamento ilegal na Amazônia até 2025, incluindo os indiretos. 

A Minerva Foods, por sua vez, se compromete com o desmatamento ilegal zero em toda a cadeia de abastecimento da América do Sul até 2030 e a reduzir a intensidade de suas emissões em 30% até 2030 (em comparação ao ano 2020).

O representante do Greenpeace destaca que desde 2019 há um movimento de diversas organizações denunciando as atividades do setor agropecuário. “Desde 2020 vemos uma tentativa de narrativa diferente dos principais frigoríficos, com todos apresentando alguma iniciativa verde, mas essas promessas estão com, pelo menos, 10 anos de atraso”, dispara Batista.

Em 2009, o Ministério Público Federal (MPF) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) processaram frigoríficos que compravam de fazendas embargadas por desmatamento ilegal no Pará. O MPF também ameaçou processar supermercados e indústrias de couro que continuassem a comprar desses frigoríficos. 

Foi então que vários frigoríficos, incluindo os maiores na época, assinaram Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MPF. Também aderiram aos ‘Critérios Mínimos para operações com gado e produtos bovinos em escala industrial no bioma Amazônia’, um compromisso firmado junto ao Greenpeace. Comprometeram-se a desenvolver sistemas de monitoramento para excluir de suas listas de fornecedores as fazendas que continuavam desmatando, que usavam mão de obra  escrava ou que tivessem invadindo áreas protegidas.

“Eles deveriam ter cumprido o que prometeram e fazer a rastreabilidade dos animais”, critica Batista.

Em 2009, MPF e Ibama processaram frigoríficos que compravam carne de desmatadores. Crédito: Bruno Kelly/Amazônia Real

Alguns avanços

Seis anos depois do TAC, o percentual de fazendas com desmatamento que abasteciam gado aos frigoríficos da JBS da região, por exemplo, recuou de 36% para 4%, segundo o Imazon. E, dez anos depois, metade dos frigoríficos atuantes na Amazônia assumiram compromissos em monitorar seus fornecedores. 

O estudo reitera que as empresas que assinaram os acordos monitoram seus fornecedores diretos – as fazendas de onde compram o gado. Mas ainda não controlam seus fornecedores indiretos.

A especialista em ESG pelo HSM e Harvard, Fatima Bana, também considera que as metas para a agenda 2030 anunciadas pelos frigoríficos brasileiros estão atrasadas. “Embora possa ser considerado um grande passo, essas empresas lançaram seus programas bem depois de quando deveriam ter iniciado. Elas prometem fazer diferença até 2025”.

Mas a embaixadora do consumo consciente pondera: “Mesmo sabendo que provavelmente as metas não serão cumpridas em totalidade, devemos considerar o ato como positivo”.

A pressão dos consumidores e investidores pode ter sido o gatilho para essa nova iniciativa do setor. Foi noticiado na imprensa que a JBS, por exemplo, perdeu no ano passado investimentos de um dos maiores fundos do mundo após denúncias de supostamente comprar gado proveniente de áreas ligadas ao desmatamento da Amazônia. Depois da notícia, a empresa assumiu o compromisso de zerar suas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2040 e investir US$ 1 bilhão, nos dez anos seguintes, em soluções para alcance da meta.

“Mudar o comportamento do produtor de gado no Brasil é bastante desafiador. Além do produtor, tem produção espalhada, gado solto, mas as empresas anunciaram ótimas iniciativas. Tomara que sejam implantadas e executadas no futuro para que até em cinco anos a gente tenha algo positivo. Que bom que estão se movimentando”, afirma Marcos Rodrigues, da BR Rating, agência que avalia, de forma independente, o sistema de governança corporativa adotados pelas empresas.

Apesar do peso no desmatamento da Amazônia, os frigoríficos colecionam prêmios de sustentabilidade e integram índices ESG, sigla em inglês para conjunto de boas práticas nas esferas ambiental, social e de governança, que servem de bússola para investidores.

Prêmios e índices ESG

A FAIRR (Farm Animal Investment Risk and Return) é uma rede de investidores fundada por Jeremy Collercontra que trata dos impactos que envolvem a criação de animais em larga escala e sobre o meio ambiente, conhecida como factory farming. O objetivo da FAIRR é fornecer informações para que investidores façam alocações considerando os riscos socioambientais das companhias para fomentar as melhores práticas.

A Marfrig e a JBS foram classificadas como “risco médio” no ranking Coller FAIRR Protein Producer Index. A Minerva, por sua vez, foi classificada como de “alto risco”. A Marfrig obteve a pontuação máxima de 59 em 100 pontos possíveis, JBS marcou 49 pontos e Minerva, 20 pontos. A Marfrig subiu do 11º para o quarto lugar; a JBS saiu da 17ª para a 9ª posição; e a Minerva caiu da 22ª para a 33ª posição.

Para elaborar o índice, a FAIRR leva em consideração dados públicos referentes a dez fatores de risco: desmatamento e perda de biodiversidade; emissão de gases do efeito estufa; escassez e uso da água; uso de antibióticos; geração de resíduos e poluição; condições de trabalho; segurança alimentar; bem-estar animal; produção de proteínas sustentáveis; e governança. A rede de investidores conta com o apoio de gestores globais que administram ao todo mais de US$ 25 trilhões.

Antes tarde do que nunca

“Infelizmente não conseguimos alterar os erros do passado, se os prêmios fazem as empresas conseguirem investimento para mudarem seus processos agora e trabalharem para mudar a cultura agora, pensando o futuro, já é um passo”, afirma Fatima.

Os frigoríficos também estão presentes nos índices ESG, que igualmente servem de referência para investimentos e capitalização. Marfrig, JBS e Minerva compõem a carteira do Índice Carbono Eficiente B3 (lCO2 B3), que leva em consideração o compromisso de empresas com a gestão eficaz de suas emissões de gases de efeito estufa.

Já o Índice de Sustentabilidade Empresarial abrange Marfrig e Minerva, assim como o S&P/B3 Brasil ESG, ambos avaliadores de boas práticas sociais, ambientais e de governança. 

O diretor sênior da S&P Dow Jones Índices na América Latina, Paulo Sampaio, afirma que desastres ambientais podem retirar empresas do S&P/B3 Brasil ESG, como foi o caso da Vale após o desastre de Brumadinho. Mas a ação de desmatar não exclui e também não tem uma medida específica no índice.    

“O desmatamento em si, a princípio, não é uma questão que retire uma empresa do índice. É uma questão que pode eventualmente dar uma nota baixa para a empresa (…) O desmatamento é olhado pela questão do impacto ambiental na atividade. Então se é uma atividade que o desmatamento é uma questão importante, a nota dessa empresa vai ser baixa” 

“Se olharmos para as dívidas e não existirem ações presentes e para o futuro, não vamos conseguir evoluir. A dívida existe e compromete as empresas e suas marcas – mas é positivo a intenção com as ações efetivas para mudança”, pondera a especialista.

Preservar reduz despesa

Marcos Rodrigues considera que os produtores de carne têm responsabilidade imensa sobre o desmatamento. “É necessário ter um controle da origem do animal, se tem alimentação saudável ou não, se na fazenda os pastos não foram oriundos de desmatamento. Se não fizer ampla defesa, mecanismo de controle onde está sendo adquirido, por exemplo, não vai ser possível reduzir o desmatamento nem os gases de efeito estufa”, avalia.

Uma produção mais sustentável, além de contribuir com o meio ambiente, também tem papel fundamental para tornar a produção menos onerosa. Para se ter uma ideia, atualmente, a média no Brasil é de menos de uma cabeça de gado por hectare, sendo que considerando uma pecuária de ponta, a média é de três ou quatro cabeças por hectare, sem fazer muito uso de implemento agrícola ou tecnologia muito revolucionária, conforme o representante do Greenpeace.

Para Batista, o consumidor também tem papel importante neste processo. “Ao diminuir consumo, já tira um pouco da demanda sobre esses ingredientes”, diz. “Neste momento, era para estarmos falando em real redução da pecuária, melhoria de pastagem para diminuir redução de metano e não sobre desmatamento, que já devia ser um assunto resolvido”, finaliza Batista. 

Mais ações das empresas

  • JBS

Em resposta à Agência Nossa, o JBS afirma que no período de 2017 a 2020, houve uma redução de 19% na intensidade das emissões de GEE da companhia. De 2016 a 2020, essa redução foi de 9,2% nas operações da América do Sul. 

“Abrangendo sua cadeia de valor, a empresa já monitora seus fornecedores diretos de bovinos em todos os biomas brasileiros em que atua. Frente ao desafio de garantir o mesmo controle sobre os fornecedores de seus fornecedores, a JBS criou a Plataforma Pecuária Transparente, ferramenta que utiliza tecnologia blockchain para o monitoramento socioambiental. Dessa forma, esses criadores terão de seguir a política socioambiental da JBS se quiserem fazer parte de sua cadeia de valor

  • Minerva

Em nota, a Minerva informa que se propõe a alcançar emissões líquidas zero, com esforços concentrados em atingir essa meta até 2035, “15 anos antes do previsto no Acordo de Paris”. 

“Na Minerva reconhecemos que a sustentabilidade do nosso negócio depende da manutenção dos ecossistemas que sustentam a produção agrícola. Nosso foco está na ação agora para prevenir os piores efeitos das mudanças climáticas, ao mesmo tempo que apoiamos os agricultores na implementação de práticas que sequestram e estocam carbono, protegem a biodiversidade e aumentam resiliência”, disse o CEO Fernando Queiroz.

  • Marfrig

Para atingir total rastreabilidade da cadeia de fornecimento na Amazônia até 2025, a Marfrig afirma que tem um programa que prevê  articulação com os demais membros da cadeia de produção – produtores, governo, empresas do setor, sociedade civil, clientes, investidores e bancos.

“Acreditamos que apoiar o desenvolvimento de um programa de longo prazo para a cadeia da pecuária no Brasil é garantir a competitividade da produção de bovinos na cria, com base em sistemas inclusivos robustos, que sejam capazes de melhorar a vida do produtor com pacotes tecnológicos adequados, incluindo genética avançada e crédito justo’, diz Daniela Mariuzzo, diretora executiva da IDH e do Programa de Paisagens Sustentáveis da América Latina.