Cartas em preto e brancos com desenhos dos rostos de dois homens brancos com a frase "Vivos os levaram, vivos os queremos" em letras brancas se sobrepondo aos rostos. O caratz está sendo carregado por uma mulher jovem de bluisa preta com alças finas, cujo rosto não aparece imagrm. Ao fundo, do lado direito da foto, um homem de camisa laranja, usando cocar indígena observa.
Crédito: Alberto César Araújo/Amazônia Real

“Bruno espera que a morte dele seja usada para colocar a questão indígena e da Amazônia no centro das atenções do mundo, ele está nos dizendo para trabalhar intensamente nesse sentido”. Os verbos estão sempre no tempo presente quando o indigenista Leonardo Lênin dos Santos fala do seu amigo Bruno Pereira, assassinado no Amazonas junto com o jornalista britânico Dominick Phillips. “Quando vi a foto dele projetada na Torre de Londres, entendi que aquilo era um recado do Bruno para nós que ainda estamos aqui: ‘pautei nossa luta, agora vocês têm que trabalhar, porra!’”.

Enquanto a liderança indígena Eriberto Marubo, diretor do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados (OPI), e a antropóloga Beatriz de Almeida Matos, esposa de Bruno e vice-diretora do OPI estão no Recife para organizar o funeral do indigenista ao lado dos seus parentes pernambucanos, Leonardo, que também é indigenista com experiência de campo e também como coordenador da áreas de Povos Isolados da Funai, permanece em Brasília.

Sua responsabilidade é a articulação política, mantendo contatos com parlamentares, procuradores federais e jornalistas. A tarefa que lhe toma mais tempo é alimentar de informações as comissões criadas pelo Senado a Câmara dos Deputados para acompanhar as investigações. Como a maioria dos parlamentares e as respectivas assessorias desconhecem os conflitos e as ameaças aos indígenas, o trabalho é constante.

Leonardo explica que, no momento, o mais importante para os indigenistas e as lideranças indígenas, é a tomada de medidas urgentes, de curtíssimo prazo, para assegurar a vida de quem está no Vale do Javari.

“O primeiro ponto é garantir a imediata segurança dos vigilantes indígenas da Unijava [sigla da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari]”, adverte Leonardo. Os outros itens que, na visão do OPI, requer ações imediatas são a retomada do inquérito do assassinato do agente da Funai Maxciel Pereira dos Santos, morto em setembro de 2019, além do mapeamento dos inquéritos que existem na Polícia Federal e nas polícias estaduais estabelecendo elos do tráfico de drogas com atividades como o garimpo, extração ilegal de madeira e pesca ilegal.

A lista do que os indigenistas chamam de “ações imediatas” já está nas mãos dos deputados federais e dos senadores Humberto Costa (PT-PE) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Rotina de crimes na região

A equipe da OPI também entregou aos parlamentares e ao Ministério Público Federal um levantamento de denúncias que apontam os vínculos entre os assassinos, o narcotráfico e as autoridades da região.

Em 8 de março, por exemplo, os indígenas da Unijava apreenderam no território da reserva um bote de alumínio com um potente motor Yamaha de 150HP carregado de 25 tracajás, duas tartarugas, 400 quilos de carne de pirarucu salgado e 300 quilos de carne salgada de porco queixada. As carnes de caça e a pesca teria como destino o abastecimento dos traficantes.

O bote e o motor foram entregues à Polícia Militar, que registrou oficialmente a apreensão do equipamento e o guardou em instalações da prefeitura de Atalaia do Norte. No dia seguinte, tudo havia sumido. 

As denúncias, apresentadas desde setembro de 2021 até março de 2022, citavam textualmente os nomes ou apelidos dos suspeitos, incluindo o do assassino confesso Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado. Dias antes de ser preso e já com as buscas pelos desaparecidos em andamento, o prefeito de Atalaia do Norte, Dênis Paiva (União Brasil), foi visto na casa de Pelado para uma suposta visita.

Abaixo, alguns dos trechos das denúncias feitas pela Unijava que foram entregues às comissões da Câmara e do Senado que acompanham as investigações:

  • “A turma seria composta por seis pescadores armados com espingardas calibre 16 em canoas pequenas, com caixas de isopor e gelo. Quem comanda a equipe é o pescador conhecido pelo vulgo de “Pelado”, (…) Segundo informações o mesmo também é responsável por alguns dos atentados com arma de fogo realizados contra a Base da Funai nos anos de 2019 e 2020.”
  • “Temos a informar que um dos detidos, Carlo, é filho de famoso pescador invasor da TI Vale do Javari, conhecido por ‘Beré’, o qual foi flagrado três dias antes desta União dos Povos Indígenas do Vale do Javari apreensão tentando burlar a base de fiscalização da Funai e a EVU para avisar infratores que estavam no interior da terra indígena prontos para se evadir com grande carga de produtos ilegais da fauna”.
  • “Os indivíduos presos na noite do dia 24/03/22 em Atalaia confessaram para as testemunhas presentes (policiais da FNSP, da PM e Civil, servidores da Funai e indígenas e indigenistas) que todo o material apreendido era do ‘Jane’ e que o mesmo estava descendo para Atalaia numa embarcação e madeira e que ele teria pago duzentos reais a cada um dos jovens que foram presos para transportarem o ilícito para Atalaia em seu bote com motor 150Hp. É do
    conhecimento de todos que esse bote e motor (avaliados em aproximadamente R$ 60 mil reais) é do ‘Jane’.”
  • “… o bote e motor estariam com o maior comprador e financiador atual das invasões da da TI Vale do Javari, conhecido por “Colômbia”, o qual recepta esses produtos ilegais em sua balsa de compra de pescado em Islândia, no Peru, vizinha à Benjamin Constant-AM. O ‘Colômbia’ tem um bote do mesmo modelo ao do Jane, porém com motor de 115Hp Yamaha que transporta os ilícitos de Islândia para Santa Rosa, no Peru, e Letícia, na Colômbia, na tríplice fronteira com Tabatinga-AM.”

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