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Por fora, é só um muro alto no bairro do Espinheiro, zona norte do Recife. Mas quando o portão eletrônico se abre, o edifício Ofir se revela: apenas três andares com pequenos jardins na frente e seis apartamentos de cerca de 150 metros quadrados. Atrás, um quintal imenso com uma área livre de terra, mais de uma dúzia de árvores e uma piscina e parquinho pequenos. É daqueles prédios que figurariam com louvor no perfil @soquemvaiape. Na noite desta segunda-feira (26), o imenso quintal ficou cheio de cadeiras de plástico para uma exibição do filme O Agente Secreto, que concorre a quatro estatuetas do Oscar, o maior prêmio da indústria do cinema.
A exibição foi uma confraternização entre os trabalhadores do filme, mas também uma espécie de ato na campanha em favor de manter o edifício Ofir tal como está. O edifício é cenário d’O Agente Secreto. É para lá que o personagem de Wagner Moura se muda ao chegar ao Recife, é na frente do prédio que ele aparece com a já icônica camisa da Pitombeira e o edifício é apresentado pelo seu próprio nome pela personagem Sebastiana, da carismática Tânia Maria.
Helena Martins e o cineasta Kleber Menondça Filho. Foto: Arnaldo Sete/MZ
Proprietária de dois apartamentos no edifício, a promotora Helena Martins é amiga de longa data do diretor Kleber Mendonça Filho. Aquarius, filme de 2016, também teve como locação um apartamento dela, no edifício Oceania, no Pina. A produtora dos filmes de KMF, Emilie Lesclaux, foi quem primeiro conheceu o local, durante uma festa. “Na mesma hora eu mandei uma foto para Kleber, que estava viajando, e falei ‘você precisa vir aqui, acho que a gente achou uma locação para o filme’. Conhecendo-o, sabia que ia amar esse lugar”. O marido dela foi lá depois, em um almoço com Helena, e logo o edifício virou cenário do filme.
A campanha em favor do Ofir existe porque ele está parcialmente ameaçado por um processo judicial. Uma reportagem da Folha de S. Paulo de novembro do ano passado mostrou que a posse da área externa do prédio é reivindicada há 22 anos por herdeiros dos antigos proprietários contra os atuais moradores que utilizam o espaço há décadas. Os herdeiros afirmam que, quando o prédio foi construído na década de 1960, o espaço externo foi cedido aos moradores por meio de um contrato de comodato por prazo indeterminado. Segundo eles, a finalidade era apenas para que a área fosse utilizada como garagem, mas a titularidade nunca teria deixado de ser dos proprietários originais.
O caso já transitou em julgado em favor dos três herdeiros – todos idosos e dois que já morreram durante o curso da ação –, mas a reportagem da Folha de S. Paulo informa que os moradores tentam uma última “cartada” jurídica por meio de uma ação rescisória para anular a decisão.
No evento no Ofir, Kleber Mendonça Filho fez um paralelo da situação com o edifício do filme Aquarius – que na ficção é alvo de intensa pressão imobiliária. “A cidade pode ir se transformando, mas você tem que entender o que é parte da história da cidade, o que deve ser salvo. Toda orla de Boa Viagem tem a mesma cara, é uma parede. E ela também tapa o sol: a partir do meio-dia a praia já começa a ficar com sombra. Isso não foi planejado, isso é fruto de uma bagunça. Morei muitos anos em Boa Viagem e lá é uma bagunça. Não há nenhuma ordem, é ‘traga seu prédio e construa aqui’. Isso não é bom para a cidade”, disse KMF aos jornalistas. “As cidades precisam ser cuidadas, porque senão o dinheiro vai destruir tudo. Eu não sou contra novos empreendimentos, mas eles precisam acontecer em lugares que fazem sentido”, afirmou.
Na noite de exibição, Helena Martins não quis falar sobre a disputa judicial da área externa do Ofir. “A minha família chegou para morar aqui no início da década de 1970. Eram só meus tios, minha mãe e minha tia que moravam nesse prédio. E assim foi durante décadas. Esse prédio virou um espaço de convivência, não apenas familiar e afetiva das pessoas que eram da minha família, mas dos amigos e parentes, que são inúmeros, que por aqui passaram”, disse. “O prédio contou um pouco da história do filme. E isso tornou ainda mais emocionante, não só para quem morou aqui, mas para quem sabe da importância desse tipo de habitação resistir à depredação e ao sumiço, como vem acontecendo com tantos outros exemplares a partir da especulação imobiliária”, afirmou Helena para a MZ.
Edifício Ofir tem apenas seis apartamentos. Foto: Arnaldo Sete/MZ
O Ofir não é um Imóvel de Especial Preservação (IEP), status de construções que, de alguma forma, fazem parte da identidade da cidade ou possuem características arquitetônicas que merecem ser preservadas. Recife tem apenas 277 edificações nesta lista, atualizada recentemente, no fim do ano passado. São, na maioria, edificações que se inserem na paisagem da cidade e carregam alguma memória histórica, afetiva ou arquitetônica – como a sede do clube América, o casario da rua Visconde de Goiana e o edifício Vila Mariana, assinado pelo arquiteto Wandenkolk Tinoco.
O edifício Oceania, cenário de Aquarius, entrou na última atualização da lista. Helena Martins diz que ainda está sendo estudado se vai ser feito um pedido para o Ofir se transformar em IEP.
Fora das telas de cinema, o Ofir é uma visão para pouquíssimos. Com seu muro alto, não há diálogo algum da construção com a cidade que o cerca. “Um amigo meu passou aqui e disse ‘nossa, meu pai mora nessa rua e eu não sabia que esse prédio existia’. É como se fosse um segredo bem guardado”, disse KMF.
Mas a intenção é que essa exclusividade acabe. Antes da exibição, Helena Martins apresentou imagens de projeção de como ficará o prédio após uma reforma que deve devolver à edificação o seu muro original – bem mais baixo e com cobogós, permitindo que o prédio seja vislumbrado por quem passa a pé. Algo semelhante a como o prédio era originalmente, com muro baixinho voltado para a rua, dando oportunidade a todos de olharem o edifício que foi parar no Oscar.
Paisagem que o personagem de Wagner Moura olha pela janela do prédio do cinema São Luiz será concedida para a iniciativa privada. Imagem: O Agente Secreto/Cinemascópio
A pressão imobiliária e as mudanças nos modos de morar da classe média recifense perpassam boa parte da filmografia de KMF. O centro do Recife também. Além de O Agente Secreto, outro filme recente dele, o documentário Retratos Fantasmas (2023), também tem o Centro como cenário frequente. É um local que está prestes a passar por grandes mudanças: deve ser a primeira concessão para a iniciativa privada de um bairro no Recife. Batizada pela prefeitura do Recife de Distrito Guararapes, a concessão envolve toda a área daquela vista que Wagner Moura tem ao se debruçar na janela do Cinema São Luiz.
“Eu não conheço o projeto do Distrito Guararapes profundamente, porque esse ano eu estou muito voltado para o filme. Mas eu fico um pouco cabreiro com uma empresa privada cuidar de um espaço público, porque o espaço público é público”, disse, falando também da concessão privada de parques do Recife. “O Parque das Graças, por exemplo, é um espaço público que é muito bem sucedido. Acho que colocar uma praça, um parque (nas mãos de) uma empresa privada, me parece que há, pelo menos em termos de conceito, um choque de interesses. Eu fico sempre desconfiado. E a pior coisa que pode acontecer é colocar uma catraca num parque, por exemplo, ou numa praça”.
Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Contato: carolsantos@marcozero.org