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Marília Arraes e Raquel Lyra disputam governo de Pernambuco em segundo turno sem o PSB

Maria Carolina Santos / 02/10/2022

Pernambuco vai ter a primeira governadora da sua história. A votação deste domingo terminou com a definição de um segundo turno histórico com duas mulheres na disputa. Marília Arraes, do partido Solidariedade, ficou na frente com 23,97%, bem próxima de Raquel Lyra, do PSDB, com 20,58% das urnas. A vitória de Marília foi bem mais apertada do que apontavam as pesquisas da última semana, que indicavam que ela ficaria com algo em torno de 30%.

Foi uma disputa acirrada pelo segundo turno do início ao fim da campanha. Ao final, do terceiro ao quinto lugar foram apenas 5.273 votos de diferença: Anderson Ferreira (PL), o candidato de Bolsonaro, ficou com 18,15%. Danilo Cabral terminou a disputa com 18,06%, deixando o PSB de fora da disputa após 16 anos no governo de Pernambuco. Miguel Coelho ficou na quinta posição, com 18,04%, apenas pouco mais de 1 mil votos atrás de Danilo.

As trajetórias de Marília Arraes e Raquel Lyra encontram raízes em comum na política da década de 1960. Os cearenses João Lyra Filho e Miguel Arraes fizeram carreira política em Pernambuco na oposição à ditadura militar. O avô e o pai de Raquel Lyra foram prefeitos de Caruaru, cargo que ela deixou para concorrer ao governo. Ambas começaram na política no PSB e deixaram o partido em 2016. Raquel foi mais à direita e se filiou ao PSDB. Marília foi para o PT, em um momento em que o PSB se afastava da esquerda. Neste ano, se filiou ao Solidariedade para concorrer ao governo.

Os pontos em comum são muitos. Marília foi secretária estadual da Juventude no início do primeiro mandato de seu primo Eduardo Campos, de 2007 a 2008. Depois, Raquel Lyra assumiu a mesma pasta no início do segundo mandato de Campos, de 2011 a 2013.

A passagem de Raquel Lyra para o segundo turno tem uma comemoração amarga. Nas primeiras horas do dia da eleição, o marido dela, o empresário Fernando Lucena, sofreu um infarto e não resistiu, falecendo aos 44 anos. Os dois estavam juntos há 29 anos, desde a adolescência. A assessoria de Raquel chegou a dizer que a candidata não iria votar, mas ela foi às urnas pouco antes do fechamento, antes de seguir para o funeral do marido.

Apesar da representatividade de duas mulheres disputando um segundo turno em Pernambuco, não se trata por ora de uma vitória do movimento feminista. “Pode vir a ser uma vitória do movimento se uma delas, ou as duas, se comprometer com as pautas que o movimento coloca nas ruas cotidianamente nas suas lutas. No momento, o que podemos dizer é que nenhuma delas apresentou bandeiras feministas nas suas campanhas eleitorais. Para que isso se concretize, é necessário muito mais do que foi feito até agora”, afirma a socióloga e feminista Carmen Silva, do Forum de Mulheres de Pernambuco.

Estratégias para o segundo turno

Em coletiva de imprensa, Marília afirmou que não há possibilidade de aliança com Anderson Ferreira (PL). Ela justificou o apoio que recebeu do candidato em 2020, quando disputou e perdeu a prefeitura do Recife para João Campos (PSB). “Queria deixar claro que o segundo turno durou apenas 12 dias e, naquele contexto, Anderson Ferreira me apoiou. Ele não era do partido de Bolsonaro naquela época. Mas, por um ano, ele correu o estado com Raquel Lyra, fundaram um movimento, o Levanta Pernambuco, e tinham pretensão de montar chapa juntos. Anderson escolheu o lado dele, o de Bolsonaro. E onde Bolsonaro estiver, eu não estou”, afirmou.

Gestante, Marília afirmou que não deve tirar licença maternidade, caso seja eleita. “Estar gestante não me impediu de fazer uma agenda tão ou mais puxada que outros candidatos. Tive que correr o estado em uma agenda intensa e, em hora nenhuma, minha gravidez foi motivo para não ir aos lugares. Falam que vou estar de licença se for assumir…não existe isso. É um mandato de quatro anos e não vou abrir mão de meio ano porque vou tirar licença-maternidade. Tenho uma filha de oito meses e isso não me impediu de ser candidata nem de ser mãe”, afirmou.

Na coletiva ela também defendeu um diálogo com Teresa Leitão (PT), senadora eleita na chapa de Danilo Cabral (PSB). “Ela tem um alinhamento progressista como eu e vou fazer o possível para me aliar com ela e com os outros dois senadores – Humberto Costa e Jarbas Vasconcelos – para garantir a governabilidade junto com o presidente Lula”, disse.

Questionada sobre o não comparecimento aos debates do primeiro turno, Marília Arraes afirmou que foi por estratégia política e que não foi para não ser alvo de outros quatro candidatos e dois “laranjas”. “Apresentei minhas propostas em mais 150 entrevistas com tempo para apresentá-las. Não fui para ringues: debate com um minuto, um minuto e meio é só para bater boca. Mas agora, de um para um, vou participar dos debates”, afirmou.

Por conta do falecimento inesperado do marido, Raquel Lyra, claro, não se pronunciou sobre a ida ao segundo turno, mas a vice dela, Priscila Krause, fez uma fala em Caruaru. Afirmou que no sábado as duas fizeram carreatas em seis municípios e que foram dormir com a certeza do segundo turno. Definiu o momento trágico da candidata como “absolutamente fora de qualquer imaginário de que essa seria a tônica do dia” e de que “foi um dia dificílimo”.

“No último ano Raquel percorreu o estado inteiro numa construção política que nos trouxe até onde estamos hoje. Nesses 45 dias de campanha a caminhada se intensificou”, afirmou. “Chegamos a um segundo turno histórico com uma chapa encabeçada por duas mulheres, isso é inédito na história do Brasil”, disse Krause. Ela falou ainda que nos próximos dias Raquel Lyra deverá se pronunciar pessoalmente sobre os posicionamentos e diretrizes da campanha para o segundo turno.

A despedida do PSB

Foram 16 anos, quatro mandatos, com o PSB ininterruptamente no governo de Pernambuco. Com uma definição considerada tardia da candidatura de Danilo Cabral (PSB) para ser o candidato da Frente Popular, foi difícil reverter a má avaliação do governo Paulo Câmara e o natural desgaste de tanto tempo no poder. Danilo terminou a campanha em quarto lugar.

Mesmo tendo o apoio oficial do presidente Lula, não conseguiu reverter os votos do presidente para ele. Em Pernambuco, Lula teve 65,27% dos votos contra 29,92% de Bolsonaro.

Para o cientista político Antônio Torres, em uma avaliação rápida, o resultado das urnas mostra que a estratégia da campanha de Danilo não conseguiu se desvincular da má avaliação do PSB. “Para a prefeitura do Recife, João Campos (PSB) conseguiu reverter a imagem da gestão de Geraldo Julio, que também era má avaliada. Mas Danilo não conseguiu. Entre outros fatores, teve também os ataques das últimas semanas que foram muito direcionados a explorar as gestões do PSB. A campanha dele também teve dificuldade de caminhar ao lado de Lula e ainda há a configuração inédita desta eleição, com cinco candidaturas competitivas”, explicou.

Pelas redes sociais, Danilo Cabral agradeceu e afirmou que “nós, da Frente Popular, saímos dessa campanha de cabeça erguida” e “as nossas lutas vão continuar presentes em minha vida pública, como sempre estiveram por onde passei”. Apoiador de Bolsonaro, Anderson Ferreira (PL) agradeceu e disse que tinha feito uma “campanha linda”. Miguel Coelho fez uma coletiva de imprensa e também agradeceu. “A gente sai maior desta eleição”, afirmou, declarando também apoio a Raquel Lyra.

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AUTOR
Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Ávida leitora de romances, gosta de escrever sobre tecnologia, política e cultura. Contato: carolsantos@gmail.com