Funcionários da Prefeitura de Caruaru distribuem máscaras nas ruas da cidade. Crédito: Divulgação

Por Habib Zahra*

Cartazes divulgando probabilidades de contágio pela COVID-19 com e sem máscaras estão circulando há semanas pelas redes sociais em vários idiomas, inclusive essa chamada, criada pela própria prefeitura de São Paulo. As ilustrações e textos podem até mudar em algumas versões da imagem, mas os dados apresentados são quase sempre os mesmos: 70% de chance de ser infectado sem máscara, 5% quando apenas o portador do vírus está com máscara e apenas 1,5% quando ambos, o portador e a pessoa ao lado, estão com máscaras.

Essa informação é simplesmente falsa.  

Apesar de recomendar o uso de máscaras durante a pandemia para tentar limitar a propagação do vírus, agências de saúde e pesquisadores do mundo inteiro apontam que, até agora, não existem dados permitindo quantificar a diminuição do risco de contágio. Ou, seja, as porcentagens que constam no cartaz acima não são baseadas em nenhuma pesquisa científica. São, no melhor caso, meras especulações, que até matematicamente não me parecem fazer sentido. Mas isso é o de menos.

A intenção do cartaz é até boa: conscientizar o público sobre a importância de usar máscaras. No entanto, além de irresponsavelmente divulgar porcentagens sem qualquer fundamento científico, a peça, ao colocar uma possibilidade de contágio tão baixa quanto 1,5% (muito menor, por exemplo, do que o risco de pegar HIV usando camisinha), está contribuindo para criar uma sensação de segurança totalmente ilusória quando se usa máscara. Como não cansa de alertar a OMS desde o início da pandemia, é justamente essa falsa proteção que é perigosa, porque faz negligenciar outras medidas de prevenção contra o vírus como, por exemplo, o distanciamento social de pelo menos dois metros, que é imprescindível.

As pesquisas realizadas até agora (como a da USP ou da Universidade de Chicago, mais recentemente) avaliam apenas a eficiência de filtragem de diferentes materiais e máscaras em contextos laboratoriais, não a eficácia do uso de máscaras para reduzir a transmissão do vírus na vida real. São coisas relacionadas, porém bem distintas, pois a última depende de vários outros fatores, como, por exemplo, as condições ambientais; a distância entre as pessoas; o tempo de exposição; a forma como a máscara é colocada no rosto; se está sempre completamente selada ou se têm brechas entre a pele e o tecido; se o portador está tomando os devidos cuidados ao colocar, usar e retirá-la; quantas horas a máscara foi usada; se foi exposta a umidade ou suor; como e quantas vezes foi higienizada, etc.

Além disso tudo, também tem a questão da contaminação pelos olhos, que as máscaras comuns não cobrem. A porta da frente pode estar trancada com a fechadura mais segura, mas se as duas janelinhas ao lado estão abertas, o que adianta? Adianta sim. As poucas evidências atualmente disponíveis indicam que, mesmo com os olhos descobertos, o uso de máscara pode ajudar a diminuir a propagação do vírus, especialmente quando usada por portadores da doença. Só que, até agora, ninguém sabe dizer o quanto.

O que não adianta é instituições espalharem e assim oficializarem dados de fontes desconhecidas sem qualquer comprovação científica, em vez de orientarem a população sobre a forma correta de usar e confeccionar máscaras e deixar claro que a máscara é, nesta altura da batalha, apenas uma ferramenta para tentar atenuar o risco de contágio. Como vive repetindo a OMS, a máscara não substitui o distanciamento social, nem as outras medidas de prevenção. Sem essa conscientização e educação comportamental, o uso de máscaras, obrigatório ou facultativo, vai ser totalmente contraprodutivo. E já está sendo.

Aqui em Olinda, por exemplo, o que mais vi nas últimas semanas são pessoas com máscaras que claramente não têm noção de como usá-las. As tiram, colocam e ajeitam constantemente para conversar, comer e atender ligações, sem higienizar as mãos ou o celular. Utilizada dessa forma, a máscara perde qualquer utilidade e, se não virar fonte de contaminação, acaba se tornando um mero símbolo, o símbolo do cidadão prevenido e socialmente responsável. Mas nem por isso deixam de acreditar no seu grande poder. Se aproximam, encostam um no outro e até se abraçam para tirar fotos das cestas básicas que entregaram, na maior tranquilidade. “Já que todo mundo está de máscara, qual é o problema? Não tem quase nenhum risco! Está escrito no site da prefeitura de São Paulo! Olhe aí: 1,5%!” Além de um símbolo, a máscara, por causa da proliferação de informações falsas, acaba também se tornando um amuleto, deixando as pessoas se sentindo incontamináveis. E justamente aí é que está o perigo.

*Habib Zahra é escritor e biólogo molecular e celular