Foto de rua em Olinda, com pano preto pendurada numa janela de madeira pintada de vermelho bordô. Em segundo plano se vê um casal passeando na calçada, com a rua de paralelepípedos e o casario histórico ao fundo.
Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Na última terça-feira, os moradores da rua José Belarmino da Silva, conhecida como “Rua da Palha”,  uma das menores do Sítio Histórico de Olinda, acordaram com uma dor de cabeça na calçada e outro na caixa d ́água. Seis casas amanheceram com os hidrômetros roubados, algumas delas com água jorrando pela rua. 

A rua, famosa pela festa de São João organizada pelos próprios moradores, parece aquelas de uma cidade do interior. Os vizinhos passam se cumprimentando, há crianças brincando de pega-pega no final da tarde, a venda de “Seu Viana” utiliza o antigo método de anotar os fiados em um fichário. O silêncio entre os vizinhos é respeitado como um código natural de convivência. 

Mas a violência, que vem se espalhando pelo Sítio Histórico e gerando indignação dos moradores, chegou.

“Eu não aguento isso. Eu aqui quieto, no meu canto… Além de roubarem meu relógio, quebraram tudo. Como é que um homem de 72 anos  aguenta uma coisa dessas? Moro aqui desde os 12 anos, e nunca vi isso. Estou sem água. Vou me deitar para esfriar a cabeça”, desabafou o aposentado Carlos Alberto Barbosa, o Carlinhos, que mora na casa de número 22. O filho assumiu a responsabilidade de ligar para a Compesa e resolver a burocracia para receber um hidrômetro novo.

Mônica Ratis, professora da rede pública estadual, mora na rua da Palha há dez anos. Acordou com a má notícia do roubo do seu hidrômetro. Foi à Delegacia do Varadouro no início da tarde, para registrar ocorrência.

“Perdi um dia de trabalho por causa disso. Está bem difícil. Quando saio para passear com minha cadela, nem celular levo”, diz. 

Na frente de sua janela, está uma faixa preta, cor adotada pelos moradores para protestar.. Ela diz que vai estar na frente da Igreja do Bonfim, vestida de preto, e convoca a vizinhança:

“Temos que nos mobilizar”.

Ladrões arrancam hidrômetros e qualquer objeto de metal que possa ser vendido. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Na mesma madrugada, os moradores da Travessa de São Francisco passaram pelo mesmo problema. Isabel Cristina de Lima, de 65 anos,  moradora da casa 258, acordou com a água jorrando na calçada. 

“Acho que roubaram de madrugada. Meu filho ligou para a Compesa, disseram que só resolveriam com três dias. Isso é um absurdo, essa água toda jorrando”. 

Para evitar o desperdício, ela teve que arranjar alguém para estancar o vazamento. Só conseguiu ao meio dia, com as próprias mãos. Arranjou um pedaço de pau e fez um improviso. “Foi um sacrifício. Só tenho a água da caixa e estou preocupada”. A vizinha, Maria José, também foi roubada.

Nos grupos de Whatsapp do Sítio Histórico, a violência é o tema predominante, com fotos e imagens sendo compartilhadas diariamente, acompanhados de relatos e alertas. O roubo dos hidrômetros é apenas a parte mais visível do fenômeno já que a água fica escorrendo pelas ruas e ladeiras.

Em nota, a Compesa reconheceu o aumento de roubo de hidrômetros nas calçadas da Região Metropolitana do Recife: “A Compesa esclarece que, de fato, tem verificado o aumento de furtos de hidrômetros no estado, em particular, na Região Metropolitana do Recife, iniciativas que tem causado prejuízos ao abastecimento e transtornos aos clientes. De janeiro a setembro deste ano, foram contabilizados 444 furtos no interior e 4. 776 na RMR, totalizando 5.220 equipamentos subtraídos. Esse volume representa um prejuízo de R$ 1, 2 milhão. As três cidades com maior incidência de furtos são : Recife, Olinda e Paulista”.

“Precisamos tomar uma atitude”.

Há pouco mais de um mês, dois grandes grupos de moradores que acompanham pelo whatsapp a infra-estrutura da cidade e a segurança (com linha direta com  a Ciatur –  (Companhia Independente de Apoio ao Turista – destacamento da PM com sede em Olinda que atua no Sítio Histórico, Aeroporto e Bairro do Recife), perceberam que estava havendo uma “explosão” nos roubos e na violência.

Tampas de bueiro, grades, lixeiras, caixas de Correios, escadas, cadeiras, qualquer coisa que renda algum dinheiro, é roubado. Até os números das casas, que contenham ferro, estão sendo arrancados. Fios de cobre da rede elétrica também estão na lista dos roubos, rapidamente vendidos nos ferro-velhos da cidade. Relatos de arrombamentos de residências, invasões de quintais, se multiplicam. Roubo de celulares e bolsas de turistas, são cada vez mais comuns. 

“Começamos a conversar, e surgiu a necessidade de tomar uma atitude”, diz o médico Carlos Marinho, de 72 anos, que mora no Sítio Histórico há 43 anos.  Do grupo inicial , 30 pessoas se mobilizaram para fazer algo, e surgiu a ideia de um “movimento” em favor do Sítio Histórico.

Fizeram uma “Carta Aberta”, intitulada “Olinda (SHO), com mais segurança”. onde relatam os diversos casos de roubos na área, além dos problemas que surgem nos finais de semana, quando acontecem as “prévias” do Carnaval. Descrevem um cenário de “abandono e insegurança”, e pedem “imediatas providências”, com melhor iluminação, instalação de câmeras, policiamento e controle do trânsito.

A carta cita também “guerra entre gangues rivais, arrastões”, além dos “flanelinhas”, que travam o trânsito e bloqueiam o acesso dos moradores às suas residências, pois permitem estacionamento até na frente das garagens. Regra geral, os flanelinhas de Olinda cobram R$ 10,00 antecipados, usam coletes e são bastante ostensivos na cobrança.

A carta foi entregue para o Governo do Estado, Assembleia Legislativa, Prefeitura de Olinda, Sodeca, Câmara de vereadores de Olinda e diversos outros órgãos, como Unesco e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Uma passeata, com todos de preto, em sinal de luto, vai sair amanhã, às 14h30, da Igreja do Bonfim, construída em 1721, de onde foram roubadas duas imagens de santos, dos séculos XVII e XVIII, jamais recuperados. Um bumbo acompanhará todo o trajeto. O próximo passo será uma conversa com o prefeito da cidade, professor Lupércio, para ver quais são suas ações para a segurança da cidade.

Outra iniciativa foi a de “enlutar” Olinda  com panos pretos, nas sacadas e janelas. Na base da “cotinha”, compraram tecidos, fizeram 200 unidades, que foram distribuídas por todo o Sítio. Receberam mais pedidos. “Já distribuímos mais de 600”, diz Carlos. 

Fachadas de casas porta-e-janela, pintadas de cores variadas (vermelho bordô, amarelo, rosa etc), com pedaços de pano preto pendurados nas janelas.
Ao menos 200 casas de Olinda estão com as fachadas “enlutadas”. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

A repercussão foi imediata nos meios de comunicação, que começaram a divulgar o movimento, com reportagens em TVs e notas nos jornais. 

A PM divulgou uma nota oficial, dizendo que “forças de segurança informam que estão presentes e atuantes no Sítio Histórico de Olinda”, e que “suspeitos de furtos e depredação foram presos”, sem informar a quantidade, nem os crimes cometidos. Afirma também que os crimes foram cometidos por “moradores de rua”. 

Até o momento, estas ações resultaram em três inquéritos, produzidos pela Polícia Civil.

O retorno da Ciatur, para o movimento, foi chamar seis pessoas para discutir com o Coronel Pereira. A primeira pergunta chamou a atenção. 

“Quem escreveu esta carta?”

A  conversa foi mais sobre ações que estão sendo feitas pela PM, uma demonstração de apreço pelo Sítio Histórico, semelhante ao que foi divulgado na Nota Oficial.

“Após esta ação, vamos eleger a próxima pauta, a que for mais votada pelo grupo e ir pra cima. Não vamos deixar o fogo acabar. A esperança é que o grupo avance nos problemas crônicos de Olinda. Esperamos formar novas lideranças. Se mexer com um, mexe com 200, ficamos mais fortes”, completa Carlos, que destaca o caráter apartidário da mobilização. 

Spray de pimenta e indignação

Se já havia um movimento em curso para questionar o policiamento e a segurança no Sírio Histórico de Olinda, no domingo (16), um fato acabou causando revolta e repercussão nas redes sociais.

Três policiais da Rocam, fardados, chegaram sanduicheria The BBurgers, já perto do horário de fechamento, que é às 22h. Passaram uma hora no local, conversando, descontraídos, rindo, consumiram sanduíches, mas no final da conversa, um deles alertou:

“Faz isso não, cara!”

Todos riam. Após pagar a conta, um deles tirou seu spray de pimenta e espalhou no corredor. 

Quando os funcionários fecharam  as portas, logo depois, começaram a passar mal.

“Demoramos a acreditar que tinha sido spray de pimenta. Pensamos que era algum vazamento”, disse uma das funcionárias, que não quis se identificar. Uma parte dos funcionários foi para a calçada, tentar melhorar a respiração. 

“Foi uma coisa totalmente maldosa, sem sentido, até porque eles foram muito bem atendidos e deveriam estar era protegendo a sociedade”, completou.

Só quando foram averiguar as filmagens das câmeras internas, viram que realmente aperta o spray, e sai rindo.

O caso está sendo apurado pela corregedoria da PM.

“A cidade está jogada”

Na entrada do Sítio Histórico, ao lado do tradicional Clube Atlântico, Flávio Vicente, 46 anos, toca o bar e restaurante Recanto do Ingá. Em quatro anos, o local já foi invadido duas vezes. 

A primeira foi em abril de 2022.

“Quebraram a porta, o vidro e entraram. Era de segunda pra terça-feira,  não tinha ninguém”.

Levaram ventiladores, TV, liquidificador, microondas, bujão de gás, talheres, máquina de cartão, bebidas quentes e  caixas de cerveja.

“O maior prejuízo foi a mesa de som, avaliada em R$ 5 mil”, lamenta.

Flávio divulgou o roubo no instagram, os amigos e frequentadores resolveram se mobilizar. Pela internet, fizeram uma campanha e passaram o pix dele. 

“Arrecadaram R$ 8 mil, e cobriu o prejuízo”, diz.

“Pra quem vinha de uma pandemia, era como se fosse R$ 80 mil”, lembrou.

O outro roubo foi na véspera do São João. Novamente, os ladrões fizeram a festa. Ele preferiu nem registrar Boletim de Ocorrências.

“Isso é fácil de resolver. São conhecidos. São dois grupos. Os que arrombam as casas e os que assaltam mesmo, à noite são  sempre os mesmos. Sábado passado, assaltaram um cara aqui na Praça do Carmo, Desceram o cassete nele e levaram tudo”.

Flávio guarda as bolsas que encontra, jogadas, no entorno do bar, para o caso de aparecer o dono ou a dona. Mas é comum encontrar bolsas jogadas até na caixa da descarga do banheiro do próprio bar, logo após algum roubo. 

“Tem um monte de carteiras de habilitação, cartões de crédito, coisas que eles não querem. Só levam o dinheiro”.

Um cliente do bar, que se acompanhava a conversa, deu seu palpite:

“A cidade está jogada”.

Flávio Vicente guarda objetos e documentos roubados que são jogados perto do seu bar. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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