No Recife, Lula joga em casa contra bets, Vorcaro e Bolsonaro

Fotografia aérea de uma manifestação pública em Recife, com grande concentração de pessoas ocupando uma avenida à beira d’água. A multidão carrega bandeiras, faixas e cartazes de apoio ao presidente Lula, enquanto um veículo branco avança pelo centro do ato. Ao lado da via, aparecem o rio, embarcações e uma marina; ao fundo, destacam-se edifícios e outras construções urbanas sob céu parcialmente nublado.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Com colaboração de Jorge Cavalcanti

A nove dias das eleições e diante de uma multidão no Marco Zero do Recife, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e candidato ao governo “Lula 4” fez da caminhada, ao lado de aliados, um palanque contra bets, o banqueiro Daniel Vorcaro e seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Essas têm sido suas principais bandeiras na reta final da campanha. Lula foi enfático, ao atacar a oposição, dizendo que o Brasil está diante de uma disputa entre “verdade e mentira” e “democracia e apartheid”.

O presidente também antecipou que anunciará, ainda nesta sexta-feira, 25 de setembro, em São Paulo, o fim das casas de jogos de azar online. O anúncio deve ser feito por por meio de Medida Provisória. Lula ressaltou ainda, em seu discurso, em cima de um trio elétrico, a importância do voto feminino e do combate à violência contra a mulher.

Ao lado do ex-prefeito do Recife e candidato a governador João Campos (PSB) e dos candidatos ao Senado Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT), que tenta a reeleição, ele discursou por pouco menos de 30 minutos. O evento reuniu a estrutura da Frente Popular num dos principais cartões-postais da capital.

Boa parte do discurso do candidato foi construída em cima da ideia de que os eleitores terão que escolher, nas urnas, entre aquilo que ele apresenta como “verdade” e aquilo que atribui aos adversários como “mentira”. “É essa verdade que vamos ter que colocar no debate com os mentirosos, porque eles só sabem mentir. Agora temos dez dias para fazer com que a verdade vença a mentira”, afirmou.

O presidente também apresentou a eleição como uma disputa entre “democracia e apartheid” e recuperou duras críticas à condução do ex-presidente Jair Bolsonaro durante o período da pandemia de covid-19. Lula chegou a afirmar que votar na família Bolsonaro seria votar também “em Vorcaro” e na “quadrilha da Previdência Social”.

O ato aconteceu na semana em que notícias revelaram a escalada do escândalo envolvendo a ligação entre o dono do Banco Master e Flávio. Novas mensagens recuperadas pela Polícia Federal, no celular de Vorcaro, apontam menções a seis encontros, além de sucessivas conversas e cobranças por recursos para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. A PF também identificou que o senador tentou falar com Vorcaro nos quatro dias anteriores à prisão do banqueiro e, em uma mensagem, se declarou: “estou e estarei contigo sempre”.

A caminhada de Lula no Recife também acontece poucos dias após a abertura da Assembleia Geral da ONU, em que ele transformou o discurso diplomático em uma defesa da soberania brasileira, dando um recado semelhante ao desta sexta (25) ao dizer que as eleições de 4 de outubro colocarão o país diante de uma escolha entre “democracia e negacionismo”.

Fotografia panorâmica do Marco Zero, no Recife, mostrando uma grande manifestação pública com milhares de pessoas concentradas na praça e nas áreas próximas ao cais, predominando as cores vermelha e amarela em bandeiras, faixas e cartazes de apoio ao presidente Lula; em primeiro plano, a multidão ocupa praticamente todo o espaço visível, com muitas bandeiras erguidas acima das cabeças, enquanto, ao fundo, aparecem o rio, diversas embarcações decoradas com bandeiras, o quebra-mar e o mar ao horizonte; à direita, vê-se parte da estrutura urbana da área portuária e algumas palmeiras, sob céu parcialmente nublado, compondo uma cena de grande mobilização popular.

Multidão lotou o Marco Zero por terra e mar

Crédito: Ricardo Stuckert

Bets e voto feminino

O relógio marcava 10h30 quando Lula saiu do Novotel, no Cais de Santa Rita, já em carro aberto, até a praça do Marco Zero, num percurso de pouco mais de um quilômetro feito em aproximadamente 50 minutos. Uma multidão já o acompanhava até o trio elétrico em que o presidente discursou.

A pauta do fim das bets apareceu ainda durante a caminhada, quando Lula exibiu uma cartolina branca com a frase “fim das bets”. E, em sua fala, foi apresentada como uma das prioridades, num tom bastante direto. “Tem muita gente doente por causa do jogo, tem muita gente endividada. Eu quero dizer a vocês: eu vou acabar com as bets”, afirmou.

“Eu não acho correto o povo brasileiro estar devendo, se matando e ficando doente com uma doença chamada ludopatia por causa de jogo”, completou. Em seguida, orientou quem sente vontade de apostar dizendo “Se tiver vontade de jogar, compre um litro de leite”.

Lula também rebateu a reação de clubes de futebol, que têm receitas provenientes de patrocínio e publicidade dessas plataformas. “Os times de futebol não têm direito de querer sobreviver às custas das dívidas dos pobres”, disse. E disparou: “Eles querem mamar nas bets”.

Outro eixo importante do discurso do presidente foi o eleitorado feminino. Lula pediu que as mulheres votem em mulheres e lembrou que elas são maioria entre os eleitores. A estratégia, disse ele, pode resultar em uma presença maior de mulheres no Congresso Nacional. Ele aproveitou para conectar o tema ao combate à violência contra a mulher, sobretudo no ambiente doméstico, e estimulou os homens a dividirem as tarefas do lar com as companheiras.

O presidente só esqueceu um detalhe: a principal adversária de João Campos, que estava ao seu lado, é uma mulher, a governadora Raquel Lyra (PSD). O lapso passou a render memes instantâneos nas redes sociais.

“Precisamos educar os homens para que os homens compreendam que as mulheres que querem morar conosco não são nossas empregadas nem propriedades”, disse. E zombou da postura masculina simulando um homem pedindo serviços à esposa dentro de casa: “Amor, onde está minha toalha? Amor, onde está minha cueca? Amor, a janta está pronta?”. “Você não quer fazer comida? Pelo menos lave a louça”, recomendou. Pediu também que pessoas conversem sobre o assunto em fábricas, escolas e igrejas.

Em uma espécie de pergunta e resposta com a multidão, Lula perguntava “quem criou” e o público respondia “foi Lula”, ao elencar Samu, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Fome Zero, Bolsa Família, Prouni, Fies, Brasil Sorridente, políticas de cotas, além de investimentos em Pernambuco, como BR-101, Transnordestina, Refinaria Abreu e Lima e indústria farmacêutica em Goiana. Ele lembrou da criação de universidades e institutos federais e destacou a geração de empregos e a política de valorização do salário mínimo.

Ao final, Lula aproveitou para explicar ao público a ordem de votação na urna eletrônica e citou os números de João, Marília e Humberto. E pediu mobilização até o primeiro turno e disse que não haverá trégua na reta final.

Apesar de João Campos ter permanecido ao lado de Lula durante todo o evento, o discurso do presidente foi majoritariamente nacional. Para terminar, ele disse “Quem gosta de educação vota em Lula e João”. Depois, repetiu a fórmula para a saúde, falando “Quem gosta de saúde vota em Lula e em João”.

Lula reúne jovens e idosos

“Desde pequena, na minha família, sou incentivada a estar pela minha comunidade, pelo coletivo. Então Lula foi sempre um exemplo, assim como a esquerda e eu me considero uma pessoa de esquerda. Gosto muito das propostas de Lula, ele olha muito para a população, para o pessoal periférico e abraça as minorias. Isso é muito importante para os jovens”, avaliou Mirelle Duarte, 23 anos, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas no Instituto Federal de Pernambuco (IFPE), em entrevista à Marco Zero.

Quem também acompanhou o presidente no Recife foi Maria de Lourdes Santos, 85 anos, socióloga aposentada, para quem Lula tem “compromisso com o Brasil, o povo e a soberania”. “Ele é democrático, gosta do povo, defende a igualdade, não um autoritário fascista, defende os direitos de mulheres, crianças, o Bolso Família e o salário mínimo. Votarei até quando eu puder”, declarou.

Fotografia de um ato de campanha em via pública, mostrando Lula (de chapéu e camisa vermelha), João Campos (de camisa branca), Marília Arraes e Humberto Costa sobre um veículo ou plataforma cercada por uma grande multidão. As pessoas em destaque estão posicionadas atrás de uma barra vermelha; duas vestem camisas vermelhas, uma veste camisa branca e outra veste roupa vermelha. Algumas acenam para o público enquanto apoiadores ao redor seguram bandeiras e materiais de campanha nas cores vermelha e amarela e registram o momento com celulares. Ao fundo, a multidão ocupa todo o espaço visível, formando uma grande concentração política ao ar livre sob forte luz do dia

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
Cena de um ato político ao ar livre, com uma grande multidão reunida em frente a um palanque ou estrutura de campanha. Diversas pessoas ocupam quase toda a imagem, muitas usando bonés e chapéus e levantando os braços, celulares e bandeiras vermelhas, amarelas e brancas. Ao fundo, há grandes painéis de campanha nas cores vermelha e branca, com os textos “TIME DO POVO” e “TIME DE LULA”, além de um cartaz com fotos de duas pessoas e a inscrição “TIME DE LULA”. A iluminação indica um dia ensolarado

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
Vista ampla de uma grande manifestação política realizada em uma praça urbana durante o dia, com centenas de pessoas ocupando o espaço em frente a um trio elétrico decorado com faixas e cartazes de campanha nas cores vermelha, branca e amarela. A multidão segura bandeiras, estandartes, celulares e guarda-chuvas para se proteger do sol, enquanto várias pessoas acompanham o evento de uma estrutura elevada e de janelas de edifícios históricos ao fundo. Destacam-se dois prédios de arquitetura clássica em tons amarelo-claro e branco, com torres, cúpulas e grandes janelas, que emolduram a cena. Entre os materiais de campanha, são visíveis palavras como “Time do Povo”, “Time de Lula” e números de candidatos. O céu azul com nuvens brancas, a concentração de bandeiras e o grande número de participantes reforçam a dimensão coletiva e pública do ato.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
Fotografia de um ato público com grande concentração de pessoas ao ar livre, registrada em plano fechado sobre a multidão. A maior parte dos participantes veste roupas e acessórios vermelhos, enquanto diversos braços erguidos seguram celulares, bandeiras e fazem gestos com as mãos. Em destaque, à direita da imagem, uma pequena sombrinha colorida exibe os números “13” e o nome “Lula” em diferentes painéis. O fundo aparece desfocado, revelando uma massa de pessoas e bandeiras predominantemente vermelhas, amarelas e verdes, o que reforça a dimensão e a densidade do evento. A iluminação forte do sol e as cores vibrantes dos materiais de campanha criam uma cena dinâmica.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
AUTORES
Foto Raíssa Ebrahim
Raíssa Ebrahim

Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com

Foto Jeniffer Oliveira
Jeniffer Oliveira

Jornalista formada pelo Centro Universitário Aeso Barros Melo (UNIAESO). Contato: jeniffer@marcozero.org.