Células infectadas com partículas do vírus SARS-CoV-2. Imagem capturada no NIAID Integrated Research Facility (IRF)

Cientistas do mundo todo passaram meses fazendo o sequenciamento genético do coronavírus sem encontrar qualquer alteração significativa. Até que, no final de 2020, duas mutações preocupantes foram relatadas: uma no Reino Unido e outra na África do Sul. Há poucos dias, no comecinho de 2021, o Japão afirmou que identificou uma nova linhagem em quatro viajantes que haviam estado no Amazonas. Logo depois, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) se pronunciou: são representantes de uma linhagem emergente no Brasil.

Apesar das três mutações serem completamente distintas, elas aconteceram no mesmo local do vírus, na chamada proteína spike. São aqueles “espinhos” que o vírus apresenta e que servem como uma chave para que ele consiga entrar nas células humanas. “Isso chama a atenção. É um vírus que acumulou muitas mutações em pouco tempo”, explica Felipe Naveca, pesquisador e vice-diretor de Pesquisa e Inovação do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia).

Desde março, as unidades da Fiocruz fazem o sequenciamento genético dos vírus que circulam no Brasil. Essa é a primeira vez que uma variante gera preocupação. Isso porque estudos preliminares já indicaram uma maior capacidade de transmissibilidade na variante do Reino Unido. Em um vírus que já tem uma capacidade excelente de disseminação como o Sars-Cov-2, sofrer uma mutação que pode deixá-lo até 70% mais contagioso é realmente algo notável em termos de evolução. E assustador para a saúde pública.

A evolução em vírus, porém, é algo esperado. “O Sars-Cov-2 até evolui mais lentamente que outros vírus de RNA porque tem uma propriedade que faz ele ter um maior controle disso que os outros vírus não possuem. Essa variante brasileira descoberta no Japão chama muita atenção, assim como a variante inglesa e a africana, porque acumularam muitas mutações em pouco tempo, acima do que a gente estava vendo até o momento”, diz Naveca.

Outro ponto que desperta preocupação é a circulação dessa mutação justamente quando o estado do Amazonas enfrenta um novo pico e aumentam os relatos de pessoas sendo reinfectadas. Naveca acredita que a nova variante pode ter alguma participação nesse novo pico. “Mas não considero que seja a única responsável. Primeiro, porque a gente não tem certeza de que essa variante está circulando no Amazonas em grande quantidade. Precisamos aumentar o número de amostras analisadas para ter certeza disso e ter uma evidência mais forte. Sempre considero que essa situação (o descontrole da pandemia) é multifatorial: a gente tem o início da temporada de vírus respiratórios no Amazonas, que historicamente começa em meados de novembro em diante, no que a gente chama de inverno amazônico. Além dessa situação sazonal e da variante, temos também a diminuição do distanciamento social”, comenta.

A possibilidade de reinfecção ser mais comum pela nova mutação é uma das muitas perguntas que só mais estudos poderão responder. Mas a probabilidade de que a imunidade do coronavírus – que estudos apontam que dure pelo menos cinco meses – não funcione para o vírus mutante é alta. “Mas só vamos saber com os estudos contínuos. A Fiocruz tem várias unidades, uma rede de pesquisa em genomas e estamos fazendo reuniões emergenciais para entender como o efeito da nova variante nessa nova onda”, comenta o pesquisador da Fiocruz Pernambuco, Gabriel Wallau, que coordena o estudo de sequenciamento das amostras colhidas em Pernambuco.

Pelo menos um caso de reinfecção com o vírus mutante já foi oficialmente confirmado. Foi de uma mulher de 30 anos que colheu amostras para o exame no dia 30 de dezembro. De acordo com o Governo do Amazonas, ela já se recuperou da doença.

Para tentar conter a disseminação da nova variante e o caos no sistema de saúde, o governo estadual proibiu transporte rodoviário e fluvial para Manaus. Alarmado com a descoberta da mutação brasileira, o Reino Unido proibiu hoje voos de toda a América do Sul, alguns países da América Central e de Portugal, onde há alto fluxo de brasileiros.

A nova variante ainda não foi encontrada em Pernambuco, mas não se pode dizer que não está circulando por aqui. Isso porque as análises das amostras de coronavírus de pacientes dos meses de dezembro e janeiro ainda não foram feitas. O trabalho deve começar no início da próxima semana e deve durar por volta 15 dias. É um trabalho complexo. “Apesar da falta de financiamento para as pesquisas no Brasil, temos conseguido fazer o acompanhamento genético do coronavírus em um tempo semelhante ao de países como a Austrália. Esse tempo de duas, três semanas é o tempo normal de análise”, explica Wallau.

Os pesquisadores defendem medidas de controle na circulação de pessoas para conter a pandemia. Quanto mais os vírus se espalham, mais chances têm de sofrer mutações. Até agora, não há evidências de que as novas mutações possam passar pelas vacinas já desenvolvidas. Mas nada impede que sucessivas mutações levem a isso. “Esse é o grande problema de um vírus pandêmico, tem muito mais oportunidade de infectar pessoas e de sofrer mutações. É preciso também que a vacinação comece logo para frear a transmissão”, alerta Wallau.

Mais transmissível e mais mortal?

A segunda onda em Manaus está sendo mais brutal do que foi a primeira. Em recordes superados em quatro dias sucessivos, na quarta-feira, 13 de janeiro, a capital amazonense registrou 198 sepultamentos. Foi o maior número registrado durante a pandemia. O caos está instalado: falta oxigênio nos hospitais, faltam profissionais de saúde e até as UTIs aéreas particulares estão com fila. Pessoas estão morrendo em casa, sem acesso a qualquer atendimento.

A mutação para um vírus mais transmissível pode sim vir a ser mais mortal. Não pelo fato de que quem pega o vírus tenha uma infecção mais grave. “Ainda não temos nenhum dado que indique sobre a gravidade. Agora, uma variante que se transmite mais rápido pode atingir um maior número de pessoas suscetíveis a desenvolverem quadros mais graves, como idosos e pessoas com comorbidades. O vírus vai conseguir infectar mais pessoas e assim pode causar mais mortes”, explica Gabriel Wallau.

O que é, então, um vírus mais transmissível? Essa característica não significa que ele é mais resistente à lavagem das mãos ou ao álcool em gel, nem que ele consiga ter maior eficiência para ultrapassar a proteção das máscaras. Significa que, quando uma pessoa tem contato com uma certa carga viral, é mais fácil que mais vírus consigam entrar no corpo dela, causando a infecção. Outra pergunta que ainda precisa ser respondida é se essas novas variantes produzem uma carga viral mais alta nos infectados e se isso teria relação com uma doença mais grave.

Tanto para o vírus original quanto para as novas variantes, as recomendações de prevenção continuam sendo as mesmas: uso correto de máscaras, higienização das mãos, distanciamento físico, ventilação de ambientes. “Fazemos um apelo à população para nos ajudar em um momento tão difícil. A gente precisa frear a evolução desse vírus. E a gente só faz isso diminuindo a transmissão. Diminuir a transmissão é diminuir o contato pessoa-pessoa que é o que transmite o vírus, seja o original ou seja o mutante”, pede Naveca.

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