Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A medida que a reportagem sobre a máquina bolsonarista de distorção da realidade saía do meu caderno de anotações, dos arquivos de áudio do celular e das mensagens de Whatsapp trocadas com alguns dos entrevistados para ganhar corpo na forma do texto publicado terça-feira, 12 de janeiro, percebi que parte do conteúdo era rica o bastante para justificar mais uma publicação. Parte do material colhido era instigante o suficiente para ser espremido em dois ou três parágrafos sob um subtítulo.

Durante a apuração, perguntei aos especialistas em checagens de fatos Natália Leal, Sérgio Ludtke e Tai Nalon, e aos pesquisadores Ivo Henrique Dantas e Rogério Tineu, qual seria o papel e os limites do jornalismo no enfrentamento a desinformação como arma política.

As respostas foram mais complexas do que a minha pergunta, abrindo a discussão para ângulos que não interessam apenas aos jornalistas, afinal o produto do trabalho de sites, rádios, jornais e tevês interessa a todos que consomem notícias e têm a vida impactada por elas.

Jornalismo, parte do problema

Ludtke, editor do Projeto Comprova, por exemplo, iniciou a argumentação por essa linha: “O jornalismo tem uma parcela de responsabilidade na circulação de conteúdos problemáticos que não pode ser desconsiderada. Isso fica muito evidente quando veículos reproduzem conteúdos ou declarações que são claramente enganosas sem fazer o devido filtro. Somos parte do problema e parte da solução, é preciso lutar por mais transparência de governos, plataformas e veículos jornalísticos ou que se fazem passar por veículos jornalísticos.”

Ao falar de sites que se fazem passar por veículos jornalísticos, Ludtke se refere àqueles produtores e disseminadores de conteúdos falsos que oferecem suas farsas em páginas que, para transmitir uma aura de credibilidade, precisam recorrer ao visual das páginas dos jornais verdadeiros. Não deixa de ser irônico e perverso se “disfarçar” de portal da imprensa  para, de carona na confiança que parte significativa do público ainda tem na mídia, distribuir mentiras e atacá-la repetindo frases feitas como “isso a mídia esquerdista não mostra”.

Na conversa que tivemos por telefone, o cientista social Rogério Tineu, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirmou que, além de possuir uma margem de manobra muito estreita para lidar com a desinformação, “a imprensa têm uma parcela grande de culpa nisso”. Um dos exemplos de como a mídia alimentou a distorção da realidade foi o fato de que “nenhuma emissora de tevê ou grande jornal se movimentou, há 10 ou 12 anos, para desmentir o boato de que a JBS era do filho de Lula, deixaram essa fantasia correr solta”.

Na compreensão de Tineu, as grandes corporações da mídia se valeram das mentiras para construir a narrativa que justificou suas opções editoriais. “No vazamento do grampo ilegal de Lula e Dilma, em nenhum momento o Jornal Nacional informou ao público que aquele áudio foi captado ilegalmente. A mídia suportou a anormalidade jurídica em função da querência de tirar do poder um grupo político”.

O ponto de vista de Natália Leal, diretora de Conteúdo da Agência Lupa, a primeira especializada em checagem de fatos do país, é semelhante ao de Ludtke e Tineu. Ela disse que a desinformação não é consequência da crise do jornalismo ou da imprensa tradicional. “A informação é uma construção social, daí a desinformação ser um problema social e não do jornalismo ou dos jornalistas”.

Quando fala do tema como problema social, Natália vai um pouco mais fundo ao abordar um aspecto que, a menos para mim, não aparecia com tanta clareza: “O maior problema do Brasil não é a corrupção, é a desigualdade, que se reflete na educação também. Dai, o brasileiro ser tão capturado pela desinformação”.

Resposta que vale ouro

A resposta para a questão do papel do jornalismo no combate à desinformação vale ouro. Foi assim que o outro pesquisador que procurei, Ivo Henrique Dantas, do Observatório de Mídia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sintetizou a importância deste debate. Dantas reconhece também a dificuldade do jornalismo e suas técnicas minimizarem os efeitos dos conteúdos falsos.

Ele lembrou o resultado de um estudo divulgado em março de 2018 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Essa pesquisa revelou que, no Twitter, informações falsas se espalham em velocidade 70% superior às notícias verdadeiras.  “As técnicas e o rigor jornalístico não dão conta de superar essa velocidade”. Durante a entrevista, lembramos do boato de que “a vacina chinesa” teria contaminado voluntários durante os testes na Austrália. O conteúdo mentiroso foi investigado pelo Comprova – se bater a curiosidade, o link segue abaixo.

“Basta uma frase para assustar as pessoas, mas para você dizer que nenhuma vacina chinesa foi testada na Austrália, que os cientistas da universidade usaram o RNA do vírus HIV para transportar o imunizante, que vacina ativou o sistema imunológico dos voluntários, que os testes deram positivo para Aids mas as pessoas não ficaram doentes, é tão complicado, que demora muito mais para convencer”, explicou Ivo Dantas. “Mesmo assim, o jornalismo  precisa recuperar sua visão crítica para enfrentar a desinformação. Você não pode abrir um portal e ler uma informação falsa, mesmo que entre aspas, proferida por um político sem a menor observação crítica por parte do portal.  A mera reprodução da frase serve apenas para passar adiante a desinformação ou a mentira”, apontou o pesquisador.

A troca de mensagens com Tai Nalon, diretora executiva do site Aos Fatos, possibilitou desdobrar o raciocínio de Dantas: “Escolhas editoriais são muito importantes para combater desinformação a partir do jornalismo profissional. O jornalismo declaratório, sem contexto e contraditório, não ajuda a criar um ambiente informativo de qualidade. Nós vemos com frequência em peças de desinformação prints de canais de TV a cabo e manchetes de jornais tirados de contexto para servir à narrativa mais conveniente. De certa forma, quando uma publicação pratica esse tipo bem superficial de reportagem, fornece material para desinformadores e empresta sua autoridade para que a mensagem errada seja compartilhada com o público”.

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