Gabriel Medina
Crédito: WSL /LAURENT MASUREL/Fotos Públicas

Gabriel Medina é uma espécie de Neymar das águas. O surfista brasileiro é craque no que faz, está sempre no noticiário e nos trending topics das redes sociais. Ganha muito dinheiro, tem um monte de gente para passar a mão na cabeça depois das pisadas de bola e… é bolsonarista. Mesmo sem levar medalha, apesar do favoritismo absoluto, Medina dominou a mídia no início das competições (até hoje tem propaganda na TV com ele). Apesar da badalação, saiu dos jogos menor do que entrou. É um daqueles grandes atletas que são péssimos desportistas.

Por isso, não surpreende a notícia de sua não participação na última etapa da temporada do Mundial de Surfe, no Taiti, por não ter tomado a vacina contra a covid-19. Ou seja, ele foi para Tóquio sem estar vacinado. Medina alegou incompatibilidade com sua agenda, mas, segundo o jornalista Demétrio Vecchioli, do Uol, o atleta teve, pelo menos, quatro oportunidades de se vacinar. Não foi o único, diga-se de passagem. Como ele, cerca de trinta atletas brasileiros foram ao Japão sem tomar ao menos uma dose do imunizante.

A despolitização sempre dominou o ambiente esportivo, onde predomina uma lógica autoritária/paternalista na relação entre dirigentes, técnicos e atletas e uma postura bélica em relação aos adversários (sem esquecer o machismo, o racismo, o capacitismo e a homofobia). A verdade é que o esporte de alto rendimento, que exige sacrifícios absurdos de um lado e oferece prestígio e fama do outro, é uma máquina de produzir pessoas individualistas, pouco empáticas e extremamente competitivas, formadas em um ambiente que coloca a meritocracia acima de tudo. “Você só chegou até aqui por seus méritos” ou “você perdeu porque não se esforçou o suficiente” são as frases escutadas por atletas desde a escolinha. São repetidas o tempo todo pela maior parte de treinadores, mas caberiam muito bem na boca de um deputado do partido Novo.

A boa notícia é que as Olimpíadas de Tóquio também apresentaram um contraponto a tudo isso. Se de um lado tivemos Medina ou os bolsonaristas declarados do vôlei masculino, para citar os minions mais conhecidos, do outro lado brilharam atletas como Isaquias Queiroz (canoagem), Ana Marcela (maratona aquática), Rebeca Andrade (ginástica artística), Douglas (vôlei), Hebert Conceição e Bia Ferreira (boxe) ou Paulinho e Marta (futebol), entre outros, que se posicionaram publicamente com uma fala empática, politizada e conectada com a realidade. Foram elas e eles que fizeram valer as madrugadas acordadas.