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O preço de pensar: o vento que ainda nos alcança

Marco Zero Conteúdo / 05/01/2026
Na cena emblemática do tribunal em O Vento Será Tua Herança, dois advogados veteranos se encaram intensamente diante de uma sala lotada, simbolizando o confronto entre ciência e religião durante o famoso “Julgamento do Macaco”. Henry Drummond, defensor da liberdade de pensamento, encara Matthew Harrison Brady, representante da fé tradicional, em um momento de tensão dramática, com o público atento e a atmosfera carregada de expectativa, refletindo o embate ideológico que transcende o caso jurídico e ecoa questões universais sobre educação, crença e progresso.

Crédito: Reprodução

por Jane Santos*

“A imprensa deve confortar os aflitos e afligir os confortáveis.”
Hornbeck (jornalista), em O Vento Será Tua Herança

Sempre que revejo O Vento Será Tua Herança, tenho a sensação de que o filme continua me olhando de volta. Talvez porque eu tenha passado grande parte da minha vida profissional lidando com disputas que não cabiam nos manuais: a tensão permanente entre conhecimento e medo, entre política e ética, entre evidência e convicções absolutas. Em muitos gabinetes e territórios que conheci, sustentar ideias baseadas em fatos e reflexão crítica nunca foi apenas um exercício técnico — foi, muitas vezes, um ato de resistência.

Lançado em 1960 e inspirado em um julgamento real ocorrido nos Estados Unidos nos anos 1920 (Julgamento de Scopes, Tennessee), o filme transforma um tribunal em arena pública, com roteiro preciso e atuação magistral dos atores. A história é simples e poderosa. Em uma pequena cidade conservadora, um professor é levado a julgamento por ensinar a Teoria da Evolução das espécies a seus alunos, contrariando uma lei local baseada em interpretações religiosas. O que poderia ser apenas um processo jurídico se converte rapidamente em algo maior.

Não se julga apenas um homem, mas a própria possibilidade de que ciência, dúvida e pensamento crítico tenham lugar em sociedade. Ao concentrar quase toda a ação no tribunal, o diretor faz uma escolha decisiva: expor o conflito diante da comunidade e da imprensa, revelando como sociedades amedrontadas recorrem ao fundamentalismo para preservar certezas e silenciar o novo.

Em O Vento Será Tua Herança, o julgamento não é jurídico — é moral.

Não se trata apenas de fé, mas de poder. Quando convicções absolutas passam a orientar leis e decisões públicas, a razão se torna suspeita. O pensamento crítico, então, deixa de ser virtude e passa a ser visto como ameaça à ordem. Esse deslocamento é o coração do filme — e talvez seja também uma das chaves para entender muitos conflitos contemporâneos.

Uma das frases mais duras da narrativa é quando o advogado de defesa afirma que “o progresso nunca é uma barganha; sempre se paga um preço.” E o preço costuma ser cobrado justamente de quem ousa questionar. Em salas de aula, tribunais, instituições e políticas públicas, sustentar ideias baseadas em evidências e justiça social frequentemente significa enfrentar moralismos, interesses e silêncios organizados.

Henry Drummond, o advogado da defesa, vivido por Spencer Tracy, vocaliza o centro ético da história ao afirmar: “Estou tentando estabelecer o direito de cada pessoa pensar.” Não se trata de vencer um adversário, mas de preservar um princípio civilizatório. Pensar, ali, deixa de ser um gesto individual e passa a ser um ato político, — como nos ensinou Paulo Freire.

Em outro momento, o filme lembra que “uma ideia é um monumento maior do que uma catedral.” Talvez porque ideias livres desloquem estruturas rígidas e revelem fragilidades que muitos preferem ocultar. Em tempos de anti-intelectualismo e de tentativas recorrentes de transformar crenças pessoais em política pública, O Vento Será Tua Herança deixa de ser apenas um clássico e se impõe como espelho do presente.

Ao revê-lo hoje, penso no Brasil que conheço tão bem. Um país onde a dúvida frequentemente precisa se justificar, onde a crítica é confundida com afronta e onde o medo — esse velho aliado do autoritarismo — segue sendo mobilizado. O julgamento encenado no filme ecoa sempre que o pensamento crítico é tratado como ameaça à ordem.

Uma das lições mais desconcertantes do filme é acompanhar a disputa jurídica e moral de dois amigos de longa data que pensam diferente e concluir que discordar não exige destruir o outro — algo que parece cada vez mais raro em nossos dias.

Onde começa o fundamentalismo? E qual é o preço de sustentar o direito de pensar?

Mas há ainda uma camada que insiste em permanecer: a da responsabilidade ética. Aquela que não depende de cargo, instituição ou visibilidade. Aquela que se manifesta quando alguém decide sustentar uma ideia mesmo sabendo o custo que ela cobra.

Se há um vento que herdamos, que seja o da coragem.
O do pensamento vivo.
O da resistência corajosa, diante de certezas fabricadas e dos fundamentalismos que tentam reduzir o mundo ao seu tamanho, como tantas vezes alertou José Saramago.

Em tempos de ruídos e respostas fáceis, se reforça que pensar continua sendo um ato político. E, às vezes, o mais urgente.

Bom filme! E, depois, que conversas este filme ainda nos convoca a ter?

  • Onde assistir: O Vento Será Tua Herança pode ser encontrado em plataformas de aluguel e compra digital (como Apple TV, Google Play, YouTube e Amazon) e em edições físicas (DVD/Blu-ray).

*Médica sanitarista e psiquiatra, atuou como gestora pública e integrou o staff do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), onde se aposentou como especialista em políticas públicas do escritório regional para os estados de Alagoas, Paraíba e Pernambuco.

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Marco Zero Conteúdo

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