Crédito: Marco Zero Conteúdo

Ainda estávamos no mês de março quando um profissional da saúde, preocupado com o recrudescimento da pandemia, colocou a mãe no carro e foi até um posto de vacinação contra a covid-19 em Jaboatão dos Guararapes. Era final do expediente e a expectativa dele era conseguir para a mãe alguma sobra das doses aplicadas naquele dia, como havia visto nas reportagens sobre as “filas da xepa” da vacina em estados como São Paulo e Rio de Janeiro. E conhecidos haviam dito que as doses que sobravam eram descartadas – já que só podem ser usadas por algumas horas após os frascos abertos.

Mas, no posto onde ele foi, não encontrou nenhuma fila da xepa, nenhuma dose dando sopa. Nenhuma das três maiores cidades da Região Metropolitana do Recife organizaram oficialmente uma “fila da xepa”. Sem agendamento ou sem integrar os grupos prioritários que estão sendo vacinados, não há opção para a imunização contra a covid-19.

A Marco Zero ouviu as prefeituras do Recife, de Olinda e de Jaboatão dos Guararapes para saber qual a orientação oficial do que fazer com as doses de vacina quando sobram nos postos.

Estratégias para não sobrar

Atualmente, Pernambuco tem três vacinas contra a covid-19: CoronaVac, AstraZeneca/Oxford e, em menor quantidade, Pfizer/BioNTech. A AstraZeneca/Oxford e a CoronaVac são distribuídas em frascos com dez doses, que, se abertos, devem ser utilizados em até oito horas, no caso da AstraZeneca, e em seis horas para a Coronavac. Ambas oferecem também frascos monodose.

Já a vacina da Pfizer é completamente diferente: chega aos pontos de vacinação em pó com um frasco de diluente. Cada frasco tem seis doses e não há opção de monodose. Duram seis horas no cooler com termômetro em que ficam nos postos.

Com doses bem limitadas, os municípios preferem apostar em estratégias de uso total, usando os frascos com apenas uma dose.

Em Jaboatão, a vacinação acontece em duas frentes. Uma volante, que conta com cinco equipes, que atende idosos e doentes acamados ou com dificuldade de locomoção. E os pontos de vacinação, que são nove, com drive thru e atendimento a pedestres, que funcionam das 8h30 às 17h.

Nos pontos, a partir das 15h a recomendação é que os vacinadores utilizem apenas os frascos de monodose. Assim, ao fim do expediente, não há sobras.

“Na parte volante, as equipes já saem com o número de vacinas que irão aplicar naquele dia. E temos uma equipe que trabalha de 17h às 21h. Por conta disso, não temos sobras. Fizemos esse tipo de estratégia para não ter desperdício”, conta a secretaria de saúde municipal, Zelma Pessôa. “Não abrimos frascos multidose depois das 15h, porque a demanda é menor e observamos que não vale a pena”, explica. Jaboatão dos Guararapes aplicou mais de 132 mil doses das vacinas.

Em Olinda, a diretora de Atenção Básica, Kátia Luna, conta que por lá a estratégia é parecida, com o uso da monodose no período vespertino. Quando sobram doses nos frascos, são chamadas pessoas que estavam agendadas para os dias seguintes. “Os postos se articulam para saber quem ainda está com doses. Também vemos a lista de acamados, para levar a dose até a casa da pessoa”, diz. “É melhor fazer assim, atendendo as pessoas que estão na vez, do que fazer uma ‘fila da xepa’, aglomerando pessoas e depois nem ter vacina para aplicar”, comenta.

Recife informa que agendamento pela internet estaria evitando desperdício. Crédito: Daniel Tavares/PCR

A prefeitura do Recife não indicou nenhum representante para falar com a Marco Zero. Enviou uma nota em que afirma que “como o processo de cadastro e agendamento é 100% digital, por meio do Conecta Recife, consegue fazer o uso racional das doses. Dessa forma, o órgão consegue ter controle sobre a quantidade de doses que são aplicadas diariamente e o número de agendamentos realizados, evitando o desperdício de vacinas.”

A nota segue afirmando que “quando há sobras, a Secretaria de Saúde do Recife utiliza diversas outras estratégias, como remanejando as doses para outros locais de vacinação, ligando para pessoas que estejam agendadas para dias subsequentes para adiantar doses ou aplicando segunda dose nos trabalhadores, se estiver dentro do período necessário, que estejam envolvidos com a vacinação”.

A Marco Zero questionou a Secretária Estadual de Saúde sobre qual a orientação em casos de sobras de vacinas, mas não recebeu resposta alguma até o fechamento desta matéria.

Busca ativa

Apesar de boa arte da população estar ansiosa pela vacina, muita gente ainda deixa de comparecer no dia agendado tanto para primeira quanto para a segunda dose. Em um ponto de vacinação de Jaboatão dos Guararapes, ontem (quarta-feira, 5 de maio), das 250 pessoas que estavam agendadas para o turno da manhã, apenas 91 compareceram.

Para evitar a falta, funcionários da prefeitura ligam para essas pessoas, para que compareçam ou reagendem a vacina. Em Olinda, a prefeitura decidiu ir atrás de quem faltou tomar a segunda dose. Um ônibus, com vacinas, faz paradas nos bairros e comunidades onde a secretaria municipal de saúde identifica que há um maior número de pessoas que faltaram à segunda aplicação.

Olinda recebeu mais de 90 mil doses de vacinas contra covid-19. De acordo com a secretária de saúde, os idosos acima de 60 anos do município já foram praticamente todos vacinados com a primeira dose. “E na idade de 60 anos, calculamos que 98% já recebeu a primeira dose”, diz.

Mesmo com a escassez de CoronaVac no país, estes dois municípios ainda têm doses para a aplicação, porque fizeram um estoque reserva. Em entrevista nesta quinta-feira, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, anunciou que pode haver outro hiato de entregas da CoronaVac após o dia 15 de maio, por conta das declarações do presidente Bolsonaro sobre a China, fornecedor do insumo da vacina.

Pfizer, a estrela

Pernambuco recebeu na segunda-feira passada o primeiro lote da vacina da Pfizer, feita com a inovadora tecnologia de RNA mensageiro, que “imita” uma proteína do SarsCov-2, levando o corpo humano a produzir anticorpos. A vacina tem alto percentual de eficácia, superior a 95%. Em dois estudos publicados nesta semana, a vacina se manteve com alta eficácia também para às novas variantes do coronavírus, em relação a casos graves e mortes.

Não à toa, a chegada da vacina causou certo frenesi. Em São Paulo, onde não há agendamento, postos ficaram cheios e houve até quem recusasse a vacina da AstraZeneca – que também tem boa eficácia. No Brasil, não há como escolher que tipo de vacina tomar.

Vacina da Pfizer está destinada a grávidas, puérperas e pessoas com comorbidades. Crédito Hélia Scheppa/SEI

A Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco orientou o uso da vacina da Pfizer para pessoas com comorbidade e grávidas e puérperas. Em Olinda, dois postos estão imunizando com a Pfizer: um na Facho e outro no Clube Atlântico. Não é preciso fazer agendamento.

“É uma vacina que todo profissional de saúde gostaria de receber, com a eficácia de 95% que merecemos. Uma pena não ter chegado antes”, diz a diretora Kátia Luna. “Aqui em Olinda, estamos imunizando com a da Pfizer apenas grávidas e puérperas,”, diz. “Quando há sobras nos frascos, a equipe de vacinação se dirige ao Hospital e Maternidade Tricentenário e aplica nas gestantes que estão lá. É um hospital com uma demanda grande e há mais grávidas lá do que sobras de vacinas”, explica. Olinda recebeu 2.300 mil doses da Pfizer e Jaboatão, 4.266. O restante das 17.550 entregues a Pernambuco nesta semana foram destinadas ao Recife.

A vacina da Pfizer tem uma logística própria, já que precisa ser acondicionada em uma temperatura entre -25°C e -15°C. Todas as doses ficam em freezers do Governo do Estado até serem entregues aos municípios. A vacina, então, pode ser guardada em até 8°C por, no máximo, cinco dias. Aberto, o frasco de seis doses tem que ser totalmente usado em até seis horas.

Balanço da vacinação

De acordo com o boletim de ontem (05/05), Pernambuco aplicou 2.134.313 doses da vacina contra a Covid-19, das quais 1.424.532 foram primeiras doses. O boletim afirma que segunda dose foi aplicada em 201.029 trabalhadores de saúde; 24.716 povos indígenas aldeados; 47 em comunidades quilombolas; 4.744 idosos institucionalizados; 134.589 idosos de 60 a 69 anos; 263.074 idosos de 70 a 79 anos; 42.650 idosos de 80 a 84 anos; 38.155 idosos a partir de 85 anos, além de 777 pessoas com deficiência institucionalizadas; totalizando 709.781 pessoas que já finalizaram o esquema.

Ainda falta muito para que Pernambuco imunize sua população. Até agora, o estado aplicou menos da metade das vacinas que recebeu (48,62%), seja por fazer reserva para a segunda dose ou pelo não comparecimento do público alvo aos postos. Pouco menos de 15% da população pernambucana recebeu ao menos uma dose e metade disso (7,38%) recebeu a segunda. Pernambuco ocupa a décima primeira posição entre os estados que mais imunizaram com a segunda dose no Brasil.

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