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Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

São pouco mais de 16h na praça do Diário, no centro do Recife. Em um banco grande, vários homens estão sentados, à espera. A uma dezena de metros, duas senhoras também esperam. Uma, mais velha, com quatro bolsas. A outra, com duas. Todos os bens materiais das duas estão ali naquelas bagagens. A espera é pela sopa, oferecida pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, quase vizinha da praça. Ainda falta três horas para começar a distribuição da sopa.

As duas mulheres compartilham a mesma última refeição: uma fruta-pão que Gerlane Paula da Silva, a mais velha, ganhou e cozinhou. Comeram a fruta pão no dia anterior e na manhã daquele dia. Nenhuma das duas almoçou. “Passamos o dia juntas. Não gosto de ficar perto de onde tem homem e ela também não gosta”, fala a mais nova, Francileide Aparecida Caetano, 53 anos, com um leve sotaque do sudeste.

Ela conta que é de São Paulo, mas que morou por 20 anos em Frei Miguelinho, a 114 quilômetros do Recife. Tinha uma casa para morar, que deixou para trás ao sofrer violência doméstica. O marido tentou matá-la por duas vezes. Conseguiu um auxílio emergencial, mas diz que está há quatro meses sem receber porque seus documentos foram roubados repetidas vezes. Há dez meses mora e dorme nas ruas. “Fui parar na rua porque meu ex-marido arranjou uma outra mulher e tentou me assassinar duas vezes. Foi preso, saiu no outro dia. Voltou a tentar me assassinar porque queria a casa para botar a outra. Eu peguei e fui embora, não queria mais apanhar.Quase morri de fome. Cheguei aqui com uns 80 quilos e emagreci muito. Estou dormindo debaixo de um pé de pau”, diz.

É visível o aumento da população de rua durante a pandemia e a crise social e econômica dos últimos anos. A prefeitura do Recife trabalha com o número de 400 pessoas a mais nas ruas durante a pandemia, totalizando 2.022 pessoas em situação de rua. Mulheres geralmente representam uma fatia menor dessa população, mas é um percentual que vem crescendo (leia mais abaixo). Com vínculos familiares quebrados, com poucas chances de inserção no mercado de trabalho e muitas vezes doentes, física e mentalmente, as mulheres acima dos 50 são o perfil feminino mais numeroso nas filas de doações do centro do Recife.

De aparência frágil, voz baixa e confusa, Gerlane Paula da Silva diz ter 60 anos. Tem filhos, mas não sabe onde estão. Também não lembra há quantos anos mora nas ruas. Passa os dias andando por onde sabe que tem voluntários distribuindo comida: praça Maciel Pinheiro, rua do Imperador, praça do Diário, pátio do Livramento.

Ouve a amiga falar sem concordar com muita coisa. “Não me coloque nisso”, interrompe, quando Francileide reclama da prefeitura. Nas sacolas, leva roupas, alguns poucos produtos de higiene e um lençol, para forrar nos bancos na hora de descansar.

A reclamação de Francileide era sobre os abrigos da prefeitura . “O que a gente pede é uma vida digna. Meu cabelo já é branco, sou uma pessoa de idade. A gente é mulher, queremos tomar nosso banho, fazer a nossa jantinha. Tem gente mais nova que eu dormindo nos abrigos e não consigo vaga”, disse.

Por meio de nota à Marco Zero, a Prefeitura do Recife afirma que há 15 unidades de acolhimento. “Desde 2019, a rede foi ampliada em mais de 48%. É importante ressaltar que essa ocupação sempre foi rotativa e continua sendo. A pessoa em situação de rua é encaminhada para uma unidade de acolhimento por meio da intervenção dos profissionais do Serviço de Abordagem (Seas). As Unidades de Acolhimento atuam conforme o que está previsto na Política Nacional de Assistência Social (2004) e na Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais (2009), oferecendo Proteção Integral e trabalhando no sentido de garantir a reinserção familiar e comunitária dos usuários acolhidos, com funcionamento 24 horas, ofertando moradia, seis refeições diárias, espaço para guarda de pertences, atendimento psicossocial com encaminhamentos para rede de serviços socioassistenciais, disponibilizando todo suporte ao usuário enquanto durar o acolhimento”, diz a nota.

Francileide saiu de casa depois que o marido tentou assassiná-la duas vezes. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Com casa e com fome

Bem antes das 17h, quando voluntários começam a distribuir comida na rua do Imperador, Maria Cardoso, 65 anos, está sentada na calçada, ao lado de outras pessoas, também esperando. “Pode sentar aí” e mostra o chão à frente dela, como se apontasse para uma cadeira. A rua é uma segunda casa: catadora de latinhas, com um barraco em Campina do Barreto, faz as refeições todas com o que recebe na rua. Com o que ganha há muito não dá para comer.

“Meus filhos eram todos bebês quando comecei a vir pegar comida aqui. Eles faziam parte do PETI (programa de combate ao trabalho infantil) e ganhava R$ 40 por cada um. Hoje estão todos grandes”, conta. Ela sai de casa antes do dia amanhecer e fica na rua até às 21h30. Pega as doações da rua do Imperador e segue para a sopa na praça do Diário.

Só teve comida suficiente em casa, e condições de cozinhar, quando o pai dos filhos estava vivo. Quando ele morreu, passou a ir buscar alimentos fora. A pandemia foi de altos e baixos. No começo, as doações aumentaram. Havia distribuição de kits de higiene e máscaras, havia distribuição de cestas básicas. Mas foi uma fase que passou. “Agora é muito difícil conseguir uma cesta básica, faz tempo que não vejo”, diz.

Há anos tenta se aposentar, já que foi catadora de latinhas para reciclagem a vida inteira. Ainda não conseguiu. Recebe R$ 400 do antigo Bolsa Família, atual Auxílio Brasil. “Quando recebo compro gás, compro alguma comida. A comida que recebo aqui também levo para uma vizinha muito precisada”, diz. Na rua, tem amigos e amigas.

A prefeitura fornece 1,7 mil refeições diariamente nos dois restaurantes populares, mas não é suficiente. Na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a missa de domingo de manhã ainda está na metade, mas a fila para o almoço que será servido depois já dobra a esquina. São homens e mulheres de várias idades, de crianças a idosos.

Dentro da igreja, Maria do Socorro, 53 anos “por aí assim”, canta todos os hinos. Mora no Arruda de aluguel, mas passa o dia no centro. “Eu dormia por aqui, mas fizeram malvadeza comigo na rua, me chutaram”, lembra. Recebe pensão de um filho doente, de 29 anos. É com esse dinheiro que aluga um quartinho. Mas é insuficiente: volta todo dia para as ruas para conseguir alimentação.

Para receber quentinhas, aos domingos centenas de pessoas fazem fila na igreja do Rosário. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Mais demanda por alimentação

Voluntária na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a contadora Mônica Virgínia da Fonseca conta que, com a pandemia, aumentou muito a demanda por alimentação. Há seis anos, são 20 voluntários que ajudam na preparação das 400 quentinhas ou sopas, entregues todos os dias, com exceção das sextas-feiras. O dinheiro vem de um grupo de anônimos e da contribuição da própria igreja, comandada pelo pároco Dom Marcelo Costa.

“Não aumentou só pessoas que moram nas ruas. Tem pessoas que sabemos que têm moradia, mas não estão conseguindo se alimentar. Antes da pandemia a gente lidava com pessoas que viviam nas ruas. Hoje vem mais gente de fora. A maioria são mulheres e tem muitas idosas, que não têm assistência. São mulheres muitas vezes rejeitadas por marido, filho, neto. Cada uma tem sua história, a maioria tem família também, mas são colocadas de lado”, diz Mônica.

Se a questão da saúde mental e o abuso de álcool e drogas sempre foi importante para a população de rua, com a pandemia se tornou ainda mais intensa.

A técnica social Sandra Albertim, apoiadora do Movimento Nacional da População em Situação de Rua em Pernambuco e presidente do Instituto Ruas Museu, composto por pessoas que já estiveram em situação de rua, lembra que é importante não cair no estigma.

“A rua pode ser um lugar de proteção para mulheres que sofrem violência doméstica. Há pessoas que vão para as ruas pela dor. E se não há um acolhimento e um entendimento do que é a motivação do que leva às pessoas às ruas, vamos ter um quadro de saúde mental que não é tratado”, diz.

Ela defende que a complexidade dos diferentes perfis da população de rua têm que ser melhor compreendidos pelas políticas públicas. “Nos últimos dois anos estamos em um período pandêmico onde a questão da saúde mental está presente em todos os lares. Quem está na rua, também está sofrendo com esse adoecimento. A pessoa que está nas ruas naturalmente já vai estar adoecida: ela está em insegurança, há a pressão do território, do isolamento, da invisibilidade. A naturalização da miséria de quem mora na rua é tão grande que não choca mais. Mas aquele ser humano não é invisível e ser tratado como invisível adoece”, afirma.

Sandra acredita que as políticas públicas existentes ao invés de acolher, segregam. “Na questão de álcool e drogas, as políticas estão hoje tão engessadas e existem há tanto tempo dessa forma, que as pessoas circulam dentro dessa política e não há perspectiva de uma mudança na vida pessoal do indivíduo. É algo cíclico: ora estou na rua, ora dentro de um equipamento. E não tem uma perspectiva de saída disso. Significa que o indivíduo está condenado? não, significa que a política pública precisa ser repensada e estruturada para acolher, não punir, e gerar condições para o indivíduo”, critica.

Aumento o número de pessoas com casa, mas sem dinheiro para comprar comida. Crédito: Arnaldo Sete?MZ Conteúdo

No Recife, pandemia aumentou em 24,6% a população de rua

No meio da pandemia, um alerta: o IBGE mostrou que o Brasil voltou ao Mapa da Fome. A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada entre junho de 2017 e julho de 2018, mas divulgada somente em 2020, apontava que 5% da população brasileira, mais de 10 milhões de pessoas, estava em insegurança alimentar grave, quando há falta de alimentos em casa.

De lá pra cá, é visível que a população de rua aumentou. Mas faltam dados nacionais para quantificar de quanto foi esse aumento e qual o perfil de quem está hoje nas ruas. O levantamento nacional mais recente é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), lançado no final de 2020, com dados até março daquele ano, portanto, anterior à pandemia. A Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil traz um aumento de 140% na população de rua do Brasil entre 2012 e 2020, com o o país passando a contar com quase 222 mil pessoas nas ruas.

No próprio estudo os pesquisadores admitem a complexidade de fazer uma estimativa dessas em um país continental como o Brasil. O IBGE, por falta de metodologia, não faz esse tipo de censo. A pesquisa mais completa foi publicada em 2008, o I Censo e Pesquisa Nacional , mas só teve mesmo uma edição, bancada pelo então Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

Fonte: Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil/IPEA

É desse único censo que sai o perfil da população de rua no Brasil: mais de 70% da população tinha alguma atividade remunerada e mais da metade (51%) possuía um familiar na cidade onde estavam. Em 2008, as mulheres representavam 12% dos 31.922 das pessoas em situação de rua. O estudo do IPEA, de 2020, estimou a parcela de mulheres em 35%.

O acesso dessa população ao Sistema Único de Saúde também foi medido pelo Ipea. Das quase 222 mil pessoas identificadas, apenas 98,5%, aproximadamente 45%, eram cadastradas no SUS.

No Recife, equipes da secretaria municipal de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Juventude e Políticas sobre Drogas realizaram, em 2019, um levantamento contabilizando 1.622 pessoas em situação de rua. Agora, em 2022, um estudo preliminar de campo feito pela Assistência Social e da Saúde e por representantes da sociedade civil que fazem parte de Movimentos Sociais da População em Situação de Rua, identificaram 2.022 pessoas. São 400 pessoas a mais em situação de rua no Recife, um aumento de 24,6%.

Em 2020, o IBGE calculou que 5,5% da população recifense está em extrema pobreza. O percentual ficou mais baixo que nos três anos anteriores. Em Pernambuco, o percentual foi de 11,8%, similar ao de 2018. Mas há uma explicação para não ter tido um aumento. Pela primeira vez, o instituto avaliou o impacto dos programas sociais na incidência de pobreza e extrema pobreza. Sem programas sociais, como o auxílio emergencial, 25,4% da população do estado estaria abaixo da linha de extrema pobreza em 2020. Um em cada quatro pernambucanos.

As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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