Crédito: Veetmano/AgenciaJCMazella

Pernambuco vem apresentando uma queda sustentável dos óbitos em decorrência da Covid-19, apesar de um patamar ainda alto de casos. Mas, desde o dia 12 de outubro, o estado vem mostrando uma volta do crescimento do “risco pandêmico”, a chamada curvatura de Ricci, que mede a “ebulição” e o “espalhamento” da pandemia. 

Essa informação é calculada, de uma forma não linear e bastante sofisticada, através do cruzamento em rede de uma série de dados, como, por exemplo, número de casos, população e médias dos últimos sete dias, 10 dias e 14 dias. O cálculo computacional é feito pelo Instituto para Redução de Riscos e Desastres de Pernambuco (IRRD), que trabalha com previsibilidades e publicou o alerta no último fim de semana.

Até esta terça-feira (27), o estado já confirmou um total de 160.354 casos da doença, sendo 26.938 graves e 133.416 leves, e soma 8.575 mortes, segundo os dados da Secretaria Estadual de Saúde.

Na avaliação do epidemiologista de dados Jones Albuquerque, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do IRRD, o crescimento recente da curva pode ser fruto de vários fatores, desde a entrada de novos infectantes vindos da Europa até o aumento da circulação de pessoas e das aglomerações, incluindo os eventos de campanhas políticas, com muita gente sem máscara. Para ele, esse cenário dá “muito pano para manga paro o vírus”. 

Ainda é preciso aguardar os próximos dias para saber como a curva irá se comportar e se o crescimento observado nos últimos dias irá se sustentar. Mas, de antemão, ele já aponta para um cenário de alerta, em que é preciso reforçar as medidas sanitárias. Pernambuco, na verdade, nunca deixou a zona de alto risco da pandemia. Nesta segunda (26), dado mais atualizado no IRRD, ainda estávamos num Risco Covid-19 (taxa de infecção X infectantes) entre moderado e alto.

No gráfico abaixo, a parte vermelha indica alto risco. A amarela, moderado. E a verde, baixo. A situação só estará mais tranquila, diz Jones, quando o estado atingir a zona entre o amarelo e o verde e aí ficar, o que ainda não aconteceu desde o início da pandemia.

Além disso, Pernambuco tinha, no último domingo (25), atualização mais recente do IRRD, uma taxa de transmissão (Rt), que indica o ritmo de contágio, de 1.05. Se a taxa  está acima de 1, é porque a epidemia está crescendo. Se está abaixo, é porque está diminuindo. O IRRD comparou o dado atual com o início do plano de convivência das atividades econômicas no estado, iniciado em 1º de junho. No domingo 31 de maio, a taxa de transmissão estava abaixo da atual, em 0,87.

De acordo com Jones, não é possível calcular uma expectativa da taxa de transmissão para próximos meses, pois os cenários podem mudar de uma forma não previsível ao longo do tempo.

O médico sanitarista e doutor em saúde pública pela Fiocruz Tiago Feitosa, da Rede Solidária em Defesa da Vida (grupo multidisciplinar de pesquisadores e trabalhadores), avalia que o que se observa de uns dias para cá é um pequeno repique, que ainda precisa ser observado ao longo da semana se a tendência se confirma. Inícios de semana não são bons dias para olhar esses indicadores, pois geralmente não refletem a realidade, já que a procura pelos serviços de saúde costuma cair nos fins de semana e nas segundas-feiras.

O infectologista Bruno Ishigami, que atua no Hospital Oswaldo Cruz, chama a atenção para um dado do boletim desta terça (27), que mostrou 878 novos casos da doença, sendo 18 (2%) são casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e 860 (98%) são leves. Ele acredita que certamente há atraso de notificações justificando esse aumento, mas em poucos dias houve tantos casos diários desde o início de setembro. 

“Não sentimos tanto o efeito feriado após o 7 de setembro. Talvez esse aumento que estamos sentindo agora seja do 12 de outubro. Precisamos observar a curva de casos nos próximos dias para avaliar se há uma tendência real de aumento”, afirma.

Ishigami também lembra que, “por mais que os mais jovens tenham menos risco, frequentar aglomerações e visitar populações mais vulneráveis (avós, por exemplo) coloca em risco o nosso ciclo social”. As recomendações permanecem: evitar aglomerações, priorizar locais abertos e usar máscara.

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Hospitais privados negam superlotação

Nos últimos dias, muitos médicos relataram à imprensa o aumento na quantidade de atendimentos nas emergências, sobretudo as privadas. Na manhã desta terça (27), o secretário estadual de Saúde, André Longo, se reuniu com representantes do Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde e Laboratórios de Pesquisas e Análises Clínicas do Estado de Pernambuco (Sindhospe) e da Federação de Hospitais Filantrópicos para tratar do assunto.

Os representantes das unidades hospitalares relataram que há um aumento de pessoas nas emergências com sintomas gripais leves na última semana, mas que isso não tem por enquanto nenhuma consolidação estatística para que se possa dizer que está havendo uma segunda onda ou um aumento significativo de casos. 

Segundo o Sindhospe, diferentemente do que vem circulando nas redes sociais, os serviços particulares não estão com superlotação dos leitos. Estão operando dentro da normalidade, inclusive com desmobilização de leitos de Covid-19 e retomada da assistência das outras doenças.

De acordo com os dados enviados pelas unidades, hoje, são 132 leitos de enfermaria nos serviços privados, com uma taxa de ocupação de 21%. Em relação à UTI, são 202 vagas, 74% delas ocupadas.

“Com a reabertura das atividades econômicas e o retorno da intensa circulação de pessoas, alguns serviços da rede privada nos relataram uma maior procura de pacientes com quadros respiratórios leves na última semana, o que pode ser impacto, inclusive, da falta de cuidados da população durante o feriado do dia 12 de outubro”, disse o secretário André Longo. O gestor lembrou que, diferentemente do início da pandemia, quando a indicação era que os casos leves permanecessem em casa, agora, a população está procurando mais a rede ao surgirem os primeiros sinais sugestivos da doença. 

“No entanto, essa procura se deve pelos mais diversos quadros e não necessariamente da Covid-19, já que há uma série de outras doenças que continuam circulando e provocam sintomatologia semelhante”, pontuou.

As análises epidemiológicas das últimas semanas mostram um leve aumento, de 1,1%, nas suspeitas de casos leves nos últimos 15 dias. Essas oscilações, diz Longo, estão dentro de um patamar esperado no cenário atual da pandemia no estado.

Atualmente, a rede estadual possui 933 vagas de enfermaria exclusivas da Covid-19, com ocupação de 46%, ou seja, mais de 500 leitos disponíveis. De UTI, são 785 leitos, com ocupação de 75%, ou seja, com 200 vagas disponíveis para acolher pacientes. Especialistas ouvidos pela Marco Zero avaliam que 75% de ocupação é um patamar alto. Mas, em seu pronunciamento, Longo garantiu que a rede continua com capacidade de mobilização para, se necessário, retomar leitos para assistência à Covid-19.

Readaptação de leitos

Apesar dos números oficiais não apontarem para uma segunda onda, o governo do estado vem realizando ações internas de readaptação de leitos em meio a emergências superlotadas com os mais variados tipos de enfermidades.

O Hospital Dom Hélder Câmara, no Cabo de Santo Agostinho, por exemplo, adaptou seis leitos da área verde da emergência, ou seja, destinados a pacientes com problemas de saúde considerados leves, para atender, exclusivamente, suspeitos de infecção pelo Sars-CoV-2. Com isso, a unidade mais do que dobra sua capacidade passando de quatro para dez leitos.

Em Caruaru, no Hospital Mestre Vitalino, duas vagas da área vermelha foram colocadas à disposição para doentes que se enquadram no protocolo da Covid-19. Atualmente, duas pessoas com sintomas da doença estão internadas no setor da unidade destinado aos pacientes mais graves.

O aumento de vagas para vítimas da Covid-19 nas duas unidades de saúde foi informado nesta segunda e terça (26 e 27) em boletins internos da Secretaria Executiva de Atenção à Saúde do Governo de Pernambuco.

Ainda de acordo com o relatório de ocupação dos leitos dos hospitais metropolitanos, ao qual a reportagem da Marco Zero teve acesso, a emergência do Dom Hélder está superlotada com 89 pacientes em tratamento para outras doenças, quando a capacidade é de apenas 20 pessoas. A situação se repete no Mestre Vitalino, onde há 64 pessoas em um espaço equipado para atender no máximo 33 adultos.

Embora não tenham registro de pacientes com Covid-19 neste início de semana, nos hospitais Pelópidas Silveira, no Recife, e no Miguel Arraes, em Paulista, não há mais vagas caso apareça novos casos. As duas unidades, que juntas têm 58 leitos de emergência, já operam no momento com 182 doentes, sendo 27 deles na área vermelha.

Nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), até o fim da tarde desta terça-feira, pelo menos oito pacientes esperam desde a segunda por leito de enfermaria e de UTI para serem transferidos. São pessoas internadas nas UPAs Curado, Caxangá, Cabo, Engenho Velho, Olinda, São Lourenço, Paulista e Torrões. Nessas duas últimas, estão os casos mais grave que necessitam de vagas de terapia intensiva.

Atualizado em 29/10/2020