A proporção de mulheres no mercado de Tecnologia da Informação (TI), um campo estratégico e dominado pelos homens, vem diminuindo em Pernambuco nos últimos anos. E a tendência é que a participação feminina caia ainda mais. Em 2007, elas ocupavam 36,2% das vagas. Em 2017 (último dado disponível), portanto uma década depois, ocupavam apenas 31%. Para se ter ideia da discrepância, a proporção do mercado de trabalho geral no Brasil é de 44% de mulheres para 55% de homens.

Nesse setor tecnológico, elas estão mais presentes nas empresas públicas do que nas privadas, pelo histórico de entrada através de concursos públicos, e têm idade mais avançada que os homens. Com a saída das mais velhas e os processos de privatizações de grandes empresas já anunciados pelo governo Bolsonaro, a exemplo de Serpro e Dataprev, o futuro aponta para uma desproporção ainda maior.

Os números e a análise foram produzidos a partir dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e de um amplo e inédito levantamento realizado pela Norte Pesquisa sob encomenda do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Informática, Processamento de Dados e Tecnologia da Informação de Pernambuco (SindPD-PE).

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De maneira geral, o levantamento comprova que a categoria de TI é altamente profissionalizada, com alto nível de escolaridade, altos salários, dominada por homens  jovens e solteiros. A princípio, o resultado não surpreende. Esse é o perfil do mercado na maioria dos países. O que chama a atenção são as questões ligadas ao gênero.  Paradoxalmente, a maior parte das 604 pessoas consultadas na pesquisa não identificarem discriminação de gênero. Ou seja, a baixa presença feminina não é processada pelo setor, não existindo essa percepção no cotidiano de trabalho.

“Minha hipótese está relacionada a uma tradição de que homens se vinculam a área tecnológica na formação. Isso tem a ver com a nossa formação cultural e cria uma situação particular, uma vez que trata-se de uma categoria pequena, mas estratégica, com capacidade de capilaridade e que presta serviços para outras empresas no setor de informação e estão relacionadas ao poder”, analisa o sociólogo e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Roberto Véras, coordenador técnico da pesquisa.

Para o presidente do Porto Digital, maior empregador do setor no Nordeste e um dos maiores polos de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) do Brasil, “os dados são relevantes e preocupantes, mas não surpreendem”. O problema, segundo ele, começa na origem, pois as meninas não estão cursando tecnologia. “O resultado do Sisu (Sistema de Seleção Unificada) deste ano, mostra que somente 15% das estudantes entraram nos cursos de ciência da computação”, destaca.

Para o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, o problema está na base, no ensino médio (crédito: divulgação)

Para o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, o problema está na base, no ensino médio (crédito: divulgação)

Afora isso, o mercado tem hoje mais demanda do que oferta, então as questões de gênero terminam não sendo prioritárias em muitas empresas que estão mais preocupadas em ocupar as vagas a todo custo. “O ambiente de tecnologia precisa ser criativo, e não só técnico, com gente sentada escrevendo linha de código. Ele precisa ser o mais diverso possível. É uma necessidade econômica das empresas, lugares mais diversos têm melhor produtividade”, alerta Pierre.

Os dados mostram ainda claras diferenças de renda entre homens e mulheres. Elas ainda são a maior fatia nas faixas de renda inferior, enquanto eles se sobressaem nas faixas de renda superior. Enquanto 7,5% dos homens tinham renda bruta mensal individual acima de R$ 8.000,99, esse percentual era de 4,5% das mulheres. Já na faixa de renda de até R$ 988,19 (menor piso negociado para 2017), elas eram 4,5% e eles, 3,8%.

salario_generoMais detalhes dos dados

No cruzamento entre nível de escolaridade e gênero, fica evidente que os homens apresentam maiores proporções de ensino superior incompleto e completo, enquanto as mulheres estão bem à frente entre os que realizaram especialização. Isso mostra que, apesar de elas serem minoria, uma importante fatia consegue desenvolver melhor suas carreiras.

Tabela

No recorte de raça, os números são ainda mais desfavoráveis. O cruzamento de dados mostra que há menos mulheres pretas do que homens pretos nas empresas de TI na Região Metropolitana do Recife.

raça

A divisão por gênero também varia conforme o porte das empresas. A proporção de mulheres é maior nas empresas com mais funcionários. O professor Véras supõe que os negócios de maior parte necessitam de mais gente em setores de administrativo e de serviços, onde, em geral, há maior presença feminina. Os dados a respeito da formação também corroboram com essa análise: entre os que disseram não ter formação em TI, os homens foram 44,4%, enquanto as mulheres foram 12,0%.

Além disso, é entre os homens que o horizonte de tornar-se dono de seu próprio negócio se apresenta com maior relevância, enquanto para as mulheres o destaque fica para o horizonte do concurso público. São as mulheres que também dizem apresentar mais problemas de saúde, inclusive com maior consciência da relação de doenças com suas ocupações no trabalho.

Futuro

Em 2018, o Porto Digital lançou o Mulheres em Inovação, Negócios e Artes (Minas), um programa de equidade de gênero que tem como um dos princípios desmistificar a ideia de que “tecnologia não é lugar de mulher”. O projeto tem financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações por meio de emenda parlamentar da, na época, deputada federal Luciana Santos (PCdoB), atualmente vice-governadora de Pernambuco. Para o fim do ano, está prevista a entrega de uma creche na área do Porto Digital.

Algumas empresas, sobretudo as estrangeiras de maior porte, estão mais atentas no combate à hegemonia masculina, concedendo, por exemplo, licença-maternidade de seis meses para evitar que as mães peçam demissão no retorno ao trabalho. Pierre Lucena também destaca a expansão de empresas em 2018, como a Accenture, que hoje emprega 2,5 mil pessoas. E a atração de outras companhias que não são de TI diretamente, mas que também produzem softwares e que compõe o Porto, como a Fiat.

O objetivo do material do SindPD-PE, dividido em duas partes – a análise da Rais e a pesquisa de desenvolvimento próprio -, foi identificar o perfil dos trabalhadores e das trabalhadoras, com foco em desenvolvimento de softwares e a atividades conexas de consultoria, prestação de serviços, processamento de dados, entre outras. Levou-se em conta aspectos como dados sociodemográficos, formação profissional, inserção no trabalho, vida familiar, vida social, participação política, participação sindical e opiniões sobre temas comportamentais e políticos.

Como lembra o professor Véras, a categoria mudou bastante nas últimas décadas e, atualmente, tem um perfil contrastante, com os segmentos mais antigos ainda presentes, mas com uma parcela de jovens cada vez maior. Diante disso, as bases sindicais têm hoje um grande desafio de conhecer o público e traçar estratégias de atuação. Por isso o leque tão amplo nos aspectos qualitativos da pesquisa do SindPD-PE. Ao todo, foram 48 quesitos, alguns que se desdobram em outras questões. O relatório é um material de 253 páginas.

Para a presidente do SindPD-PE, Sheyla Lima, o levantamento é fundamental para conhecer melhor a categoria, uma vez que o sindicato nasceu, há 34 anos, numa realidade bem distante da atual. “O mundo do trabalho em TI transformou-se e quase dobrou nos últimos dez anos”, diz.

Para efeito de delimitação da base social, o sindicato se ateve aos empregos formalizados. Não foram, portanto, incluídas formas de trabalho autônomo, a exemplo dos contratos de Pessoas Jurídicas (PJs), que representava, em 2016, 12,5% do número de estabelecimentos de produção e serviços de software registrados em Pernambuco.