Ambulâncias fazem fila em frente ao Hospital Getúlio Vargas, no Recife

Profissionais da saúde já falam em colapso do sistema em Pernambuco. O Brasil caminha para ser o epicentro da crise mundial do novo coronavírus e o estado, com 6.876 casos confirmados e 565 óbitos, é o terceiro com mais mortes no país – o primeiro é São Paulo e o segundo é o Rio de Janeiro.

Não há fonte de oxigênio para todos nas UPAs. Está cada vez mais difícil conseguir remoção de paciente para os hospitais por meio da central de regulação de leitos. Ambulâncias do Samu precisam percorrer várias unidades hospitalares ou esperar em filas para conseguir deixar possíveis contaminados porque não há vagas.

A taxa de ocupação média total de leitos era de 91%, até a última terça-feira (28), e de 97% para UTI. O problema é que, além de respiradores, EPIs e leitos, faltam profissionais de saúde, como mostrou reportagem da Marco Zero Conteúdo esta semana. Por mais que se invista, a oferta, naturalmente, não é infinita. A escala de adoecimento é exponencial.

Equipes das UPAs e das unidades de referência da atenção primária não têm outra alternativa senão mandar pacientes graves para casa após medicação. “É uma situação de guerra”, ouvimos de um médico que trabalha no Samu há dez anos e que avalia que o sistema já entrou em colapso.

Ele, que preferiu não se identificar, relatou que, antes da pandemia, costumava receber chamadas a cada três minutos, em média. Agora não há intervalos, é desligando uma e atendendo a próxima. De acordo com a Secretaria de Saúde do Recife, o Samu municipal registrou uma média diária de 50 ocorrências de casos suspeitos em abril.

Segundo apurou a Marco Zero Conteúdo, a falta de fonte de oxigênio já é realidade em pelo menos oito UPAs da Região Metropolitana do Recife: Barra de jangada, Torrões, Curado, Caxangá, Paulista, Ibura, Olinda e Imbiribeira.

“O cenário é crítico, cansativo e exaustivo. Chegamos ao ponto de não ter mais aonde levar pacientes. Já há casos de ambulâncias ficarem rodando de unidade em unidade sem conseguir deixar pacientes, que podem ter agravamento de quadro”, relata o médico do Samu.

A exaustão passa também pela necessidade de estar paramentado, com aqueles macacões totalmente fechados. Como não há troca com o ambiente, profissionais precisam passar até quatro horas com a vestimenta e por isso não podem beber água, se alimentar ou ir ao banheiro. “Muitos colegas, incluindo motoristas, já passaram mal”.

Confira a fila de ambulâncias no Hospital Getúlio Vargas na manhã de hoje (30) e, na sequência, no mesmo vídeo, as imagens enviadas pelo Sindicato Profissional dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do Estado de Pernambuco (Satenpe) mostrando um profissional do Samu passando mal:

No início da manhã de quarta (29), a fila de espera por um leito de UTI tinha 184 solicitações, segundo mostrou a Folha de São Paulo com base nos dados do painel da central de regulação de leitos do estado.

“Os setores destinados à Covid-19 já estão muito cheios. Mesmo que haja vaga em outro setor, não se pode juntar pacientes com e sem suspeita da doença. O paciente com suspeita não pode ficar numa sala ou num corredor de espera, ele precisa ser recebido numa sala específica com pessoas paramentadas”, detalha Mayara Inácio, da coordenação de enfermagem do Samu de Paulista e enfermeira do Hospital Oswaldo Cruz, onde, segundo ela, há filas de quase uma hora de espera por leito.

O que preocupa, diz a enfermeira, é que as pessoas não vêm cumprindo o isolamento: “A Praça de Maranguape, em Paulista, parece férias”. Para ela, o sistema ainda não colapsou, mas está bem próximo de chegar a isso.

Quem trabalha nas unidades de referência de sintomas respiratórios no Recife, reestruturadas dentro da atenção primária à saúde, também relata o caos:

“Está impossível regular paciente. Você passa 50 minutos na linha com a central aguardando e, no final, não tem vaga para absorver. Mesmo cumprindo o protocolo, só estão aceitando os casos realmente graves. Os demais, estamos mandando para casa e monitorando à distância, porque o plantão é diurno e acaba às 19h, não dá para ficar esperando retorno da central para mandar o paciente outro dia”.

O relato é de uma médica que atende numa Upinha e para quem a situação “está bem triste”. “Fora que essas unidades de referências devem ter duas equipes por plantão e a que estou estava funcionando só com uma. É impossível dar conta de tanta gente. O sistema já está em colapso”, acrescenta.

A médica relata ainda que já atendeu pacientes com 93 de saturação (pelo protocolo, o nível pode ir até 96) ou até mesmo com 80 de saturação mesmo no catéter, o que significa que, mesmo ligado à fonte de oxigênio, o quadro é grave e o doente pode precisar de respirador.

“Tem casos graves indo para isolamento domiciliar porque não conseguimos internar todos. Se melhorar no oxigênio, a conduta é ir para casa”, lamenta.

Na semana passada, ouvimos um relato desse tipo. Uma mulher que tem asma chegou com insuficiência respiratória e muita dor de cabeça a uma UPA. Passou o dia sendo medicada na unidade e recebendo oxigênio. No final, foi para casa com prescrição de medicação e sem teste.

“Já estava difícil antes, com pacientes crônicos que precisavam de uma vaga em hospital. Agora então… Está impossível. Fico mal de ver que estão botando gente da atenção primária à saúde para atender emergência. É uma inversão total de prioridades. Sei que o momento pede que estejamos preparados para pessoas que vão ser hospitalizadas. Mas a ponta fica descoberta e aí vamos entrar numa nova onda provocada pela Covid-19 e uma desassistência de outros tipos de demandas de saúde”, pondera a médica da Upinha, que defende a necessidade de mais educação à saúde e atuação nos territórios.

Esta semana, o Conselho Regional de Medicina do Estado de Pernambuco (Cremepe) publicou uma recomendação orientando como deve ser feita a escala de prioridade por leito de UTI e respirador. A recomendação é que a decisão médica obedeça a uma pontuação (Escore Unificado para Priorização – EUP/UTI) baseada no quadro clínico, nas chances de sobreviver, levando também em consideração comorbidades.

Estado reconhece situação crítica, mas não fala em colapso

“Com a abertura de mais leitos, a fila recua. Mas a pressão por atendimento já leva a uma sobrecarga nas unidades de saúde, a despeito dos esforços crescentes. Isso já é muito claro”, comentou o secretário estadual de saúde, André Longo, anunciou, em coletiva no final da tarde de ontem (29).

Reconhecendo que a situação é crítica, ele informou que, nas duas últimas semanas, houve um aumento de 316% na demanda por internações por suspeita da Covid-19 com quadro de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars).

Longo segue frisando que Pernambuco vive um momento de “franca aceleração da curva epidêmica” e é preciso fazer mais isolamento social. “Todos os países que experimentaram afrouxamento no cenário ainda em crescimento se arrependeram”, lembra.

A reportagem tentou entrar no grupo de WhatsApp de jornalistas para envio de perguntas às coletivas de imprensa diárias com secretários de saúde de Pernambuco e do Recife no Palácio do Campo das Princesas. Porém, não conseguiu vaga.

Segundo a secretaria de imprensa do estado, o grupo atingiu a quantidade máxima de participantes (256) e já está difícil conseguir responder a todas as perguntas, por isso não será criado um segundo grupo. A Marco Zero Conteúdo, portanto, ficará de fora das coletivas, assim como blogs e veículos alternativos.

“O grupo de coletivas é para os veículos de comunicação que participavam costumeiramente das coletivas no Palácio. As perguntas de blogs e de outros veículos alternativos podem ser encaminhadas às assessorias das secretarias de estado”, foi a justificativa recebida pelo WhatsApp.

Como jornalistas, sabemos que há uma grande diferença entre tentar uma resposta numa coletiva de imprensa e essa resposta vir através de uma nota oficial enviada por e-mail.

Estas foram as perguntas que enviamos para a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) e gostaríamos de ter tido a oportunidade de fazê-las na coletiva: “Gostaria de saber a avaliação sobre as denúncias e o que define o colapso segundo os critérios e protocolos do Estado de Pernambuco? E já que teremos em maio uma situação bastante difícil, existe a possibilidade de o Governo de Pernambuco decretar lockdown?”.

Em nota, a SES-PE reforça que o estado não tem medido esforços para ampliar a rede de enfrentamento ao Covid-19, com abertura permanente de leitos e contratação de mais profissionais, e que a assistência está sendo garantida à população, apesar do cenário crítico.

“A Central de Regulação de leitos teve sua capacidade duplicada esta semana. O serviço, que até então mantinha instalações na Praça Oswaldo Cruz, no bairro da Boa Vista, passou a ocupar os auditórios do Centro de Convenções de Pernambuco (Cecon-PE), em Olinda, e contratou 141 novos profissionais”, informa a pasta.

Confira os números e a nota completa:

O Governo de Pernambuco não tem medido esforços para ampliar a rede de enfrentamento ao Covid-19 no Estado. Com um cronograma permanente de abertura de leitos, já foram criadas, até agora, 750 vagas exclusiva para a doença na rede pública estadual. Dados do sistema da central estadual de regulação de leitos apontavam uma taxa de ocupação média total de 91%, até a última terça-feira (28). Com relação aos 364 leitos de UTI a taxa era de 97%.

Sobre a fila de espera por leitos de UTI, é importante destacar que houve um aumento de 316% na demanda por interações por suspeita de Covid19. Graças aos esforços do Governo do Estado para a abertura dos novos leitos dedicados à doença e as medidas para garantir o isolamento social, a assistência está sendo garantida à população.

É importante destacar, ainda, que a dinâmica de disponibilização de vagas pela Central de Regulação de Leitos para internamento de casos de Covid-19 é extremamente dinâmica: todo dia entram dezenas de pacientes e outras dezenas saem transferidos para hospitais de referência. Além disso, os pacientes que estão aguardando, momentaneamente, a transferência para centros de referência do novo coronavírus são assistidos em unidades de saúde que geralmente contam com estrutura de salas de estabilização, inclusive com pontos de oxigênio e respiradores.

A priorização das transferências é realizada a partir da discussão técnica entre o médico solicitante e o médico regulador, levando em consideração a gravidade do caso e a estrutura disponível nas unidades de saúde onde cada paciente se encontra. Neste sentido, ainda no mês de janeiro, a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco orientou todos os serviços de saúde a estabelecerem planos e fluxos para recebimento e estabilização de pacientes com suspeita de Covid-19.

A Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE) ainda reforça que, com o objetivo de acelerar a assistência aos doentes, dar uma resposta rápida às situações de encaminhamentos e acompanhar o aumento nas solicitações de internamento em todo o Estado, a Central de Regulação de leitos teve sua capacidade duplicada esta semana. O serviço, que até então mantinha instalações na Praça Oswaldo Cruz, no bairro da Boa Vista, passou a ocupar os auditórios do Centro de Convenções de Pernambuco (Cecon-PE), em Olinda, e contratou 141 novos profissionais.

Sobre a divulgação de informações epidemiológicas sobre a Covid-19 em Pernambuco, o Estado lidera, por quatro semanas consecutivas, o ranking de transparência – estudo realizado semanalmente pela organização não-governamental Open Knowledge Internacional. Além disso, a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) divulga, diariamente, boletins epidemiológicos detalhados, inclusive com a divulgação dos dados sobre a ocupação dos leitos.

Samu soma 877 atendimentos em 15 dias

Após publicação desta matéria, a Secretaria Municipal de Saúde do Recife (Sesau) nos respondeu em nota enumerando o crescimento da demanda de chamados por Samu de pacientes com quadros respiratórios e as ações.

O Samu Recife está com 30 ambulâncias e mais de 500 profissionais que se revezam na assistência às pessoas nas ruas. Atualmente 97 desses profissionais estão afastados do serviço por terem apresentado sintomas gripais.

Confira a nota da Sesau na íntegra:

Diante de um cenário de sobrecarga dos sistemas de saúde do mundo inteiro por causa da pandemia de covid-19, o Samu Metropolitano do Recife esclarece que, devido ao momento atual de aceleração da curva epidêmica, houve crescimento no número de chamados para atendimentos de pessoas com sintomas respiratórios e, consequentemente, aumento da demanda nos hospitais, o que justifica a elevação do tempo em que as ambulâncias circulam com os pacientes.

Entre os dias 12 de março e 26 de abril, foram contabilizados 877 atendimentos para casos suspeitos de covid-19. Para se ter uma ideia, em abril do ano passado, a Central registrava de três a cinco ocorrências do tipo, por dia, enquanto, neste mês, o Samu Recife registrou uma média diária de 50 ocorrências do tipo.

Antes da pandemia de covid-19, o Samu Recife tinha mais de 600 profissionais, entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, condutores socorristas e quadro administrativo. A Secretaria de Saúde do Recife contratou emergencialmente mais de 100 profissionais para o Samu e continua chamando outros. O serviço ainda lançou mão de plantões extraordinários para ampliação do serviço e implantação de novas atividades.

O Samu conta, atualmente, com 30 ambulâncias para atender as ocorrências no Recife, das quais 24 são Unidades de Suporte Básico e seis são Unidades de Suporte Avançado (UTIs móveis). São mais de 500 profissionais que se revezam na assistência às pessoas, nas ruas, e mais de 700 em todo o serviço, incluindo a área administrativa. Atualmente, 97 desses profissionais estão afastados do serviço por terem apresentado sintomas gripais.

Sobre a assistência aos profissionais, a Sesau explica que, na base do Samu Recife, foi montado um setor para retirada dos Equipamentos de Proteção Individual (desparamentação), onde há equipes e insumos para realizar um primeiro atendimento aos profissionais que chegam com sintomas de fadiga pelo calor. Além disso, o Samu Recife também tem garantido suporte psicológico para os profissionais e afastamento e testagem daqueles que apresentem qualquer sintoma respiratório.

A Sesau esclarece ainda que o Samu Recife segue todos os protocolos de segurança da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para diminuir os riscos de contaminação pelo novo coronavírus. A recomendação do órgão é que, durante os atendimentos a pacientes com suspeita ou confirmação de covid-19, os profissionais utilizem todos os EPIs, como máscara, touca, protetor facial e luvas, e que as ambulâncias estejam com as janelas abertas e o ar condicionado desligado para aumentar a troca de ar durante o transporte.

(atualizado em 30/4/2020, às 20h09)