Close em cor sépia de um homem branco, de barbas fartas e bem desenadas, com cabelo curto que olha diretamente para a câmera.

A medalha de mérito José Mariano, que os vereadores Dilson Batista (Avante) e Michele Collins (PP) pretendem colocar no peito de Jair Messias Bolsonaro, recebe o nome de um dos mais importantes ativistas da luta contra a escravidão no Brasil. José Mariano Carneiro da Cunha também foi um dos políticos mais populares de Pernambuco no final do Império e nos primeiros anos da República. Gilberto Freyre dizia que ele foi o “o pernambucano mais amado pelas multidões”.

Ao longo de sua trajetória, José Mariano chegou a ser chamado pelos senhores de engenho de radical, anarquista e também de “comunista”, conforme conta o historiador e doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Arthur Danillo de Souza.

José Mariano nasceu em 1850, no engenho de sua família, em terras do atual município de Ribeirão, na Mata Sul. Na época, o sobrenome Carneiro da Cunha era sinônimo de poder político e riqueza gerada pela mão de obra nos canaviais e na produção de açúcar. Seu pai, Mariano Xavier Carneiro da Cunha, era tenente-coronel da guarda nacional. Ele, no entanto, contrariou a aristocracia canavieira a qual pertencia e aderiu ao movimento abolicionista ainda na faculdade de Direito, onde se formou na mesma turma de Joaquim Nabuco.

Como ativista, Mariano inaugurou a prática de falar em praça pública, quase sempre em cima de uma carroça, defendendo a libertação dos escravizados diretamente a pessoas de quaisquer classes sociais, ao contrário dos políticos ligados à aristocracia, que só discursavam nos salões elegantes e clubes sofisticados. Ele chamava essa tática de “club popular”. Deu certo: aos 28 anos de idade foi eleito deputado-geral com muitos votos entre os pequenos comerciantes do bairro de São José. A eleição tornou ainda mais intensa sua atuação abolicionista.

O historiador Arthur de Souza, integrante da Núcleo de Estudos Afro Brasileiros da UFPE conta que a sua atuação pública na Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro, passou a conviver com a atuação clandestina e ilegal em Pernambuco. Como parlamentar, apresentou propostas para aumentar o fundo que emancipava negros escravizados com recursos vindos dos impostos sobre o consumo. Fora da lei, ele fazia parte de um dos mais ativos grupos abolicionistas da história do Brasil, Clube do Cupim, formado por ativistas liberais de pelo menos 13 províncias.

Os integrantes do Clube do Cupim providenciavam dinheiro e documentos para cartas de alforria, providenciavam a fuga de escravizados para outros estados ou recebiam e conseguiam trabalho em suas cidades para fugitivos enviados pelos outros participantes do grupo.

Quilombo do Poço da Panela

Uma das maiores proezas do Cupim teve José Mariano como protagonista: na noite de 23 de abril de 1888, 119 pessoas escravizadas, fugindo de seus “senhores”, embarcaram numa canoa de capim no cais que havia no quintal de sua casa, no Poço da Panela, e foram flutuando pelo Capibaribe até o ponto onde hoje está a ponte da Capunga, nas Graças. De lá, havia outros abolicionistas os esperando em dois botes para levá-los no navio Flor de Liz, ancorado no porto do Recife e que os levou para outro estado, provavelmente o Ceará.

Passavam tantos escravizados pela casa de Mariano, que o local era conhecido como “quilombo dao Poço da Panela”.

Por sua atuação, Mariano foi “depurado” (o equivalente a cassado) de seu mandato como deputado do Império.

Mariano abraçou outras causas em sua vida. Em 1891, já na República, ele foi preso no Forte do Brum por ter escrito artigos e participado de protestos contra o autoritarismo e o militarismo do marechal Floriano Peixoto, um linha-dura do exército que foi o segundo presidente do país.

Quando morreu no Rio de Janeiro, em 1912, seu corpo foi embalsamado e enviado para o Recife, onde foi sepultado no cemitério de Santo Amaro em um túmulo exatamente em frente ao do seu amigo, o também abolicionista Joaquim Nabuco. Seu enterro foi acompanhado por 80 mil pessoas.

Busto na cor cinza escuro, de um homem branco com barbas bem desenhadas, tendo junto ao pedestal a estátua de um homem negro, sem camisa.
Crédito: site da Prefeitura da Cidade do Recife

“Vergonha e insulto”

A professora e doutora em História pela UFPE, Suzana Cavani Rosas, pesquisadora das questões agrárias e a escravidão em Pernambuco, não tem dúvidas que a condecoração seria “um insulto à memória e à vida de José Mariano. Ele não iria gostar nada de ver seu nome sendo usado para homenagear um homem que não tem vínculo nenhum com os movimentos populares nem com as camadas mais pobres da população. Pelo contrário, é um fascista”.

Se a homenagem for aprovada, a pesquisadora não rem dúvidas: “Vai ser uma vergonha para Pernambuco. Um vexame”.

A professora traz mais uma informação histórica que torna ainda menos recomendável a homenagem ao presidente usando o nome do abolicionista pernambucano: “Em 1874, na chamada ‘Questão Religiosa’ envolvendo Dom Vital, Mariano defendeu a separação entre Igreja e o Estado. Se posicionar a favor do Estado laico era algo muito avançado para a época”. O episódio ao qual a pesquisadora se refere é o conflito entre o Império e a Igreja Católica iniciado pelo bispo de Olinda, Dom Vital Gonçalves Oliveira, que fechou as irmandades religiosas ligadas à maçonaria, conforme ordem do papa. O problema é que os nobres maçons ocupavam postos importantes na burocracia do Império e o bispo acabou preso.

O racismo de Bolsonaro

Todas essas informações sobre um dos mais aguerridos abolicionistas brasileiros estão disponíveis nos sites da Fundação Joaquim Nabuco, dos jornais locais e da própria Câmara Municipal do Recife, que produziu um documentário em 2012, data do centenário da morte de José Mariano.

Com ajuda do Google, os vereadores também poderão comparar a biografia de José Mariano com as declarações racistas de Bolsonaro, que em 2011, disse para Preta Gil que não corria risco de casar com uma mulher negra, pois “foi bem criado”. Seis anos depois, já como pré-candidato a presidente, Bolsonaro falou em uma palestra que os negros quilombolas “Não servem para nada, nem para procriadores servem mais”. Na presidência da República, Bolsonaro apontou para um de seus apoiadores no “cercadinho” e comparou o cabelo black power do rapaz a um “criatório de baratas”.

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