Sem apoio dos governadores nordestinos, governo Bolsonaro quer conquistar os prefeitos

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Sem o apoio dos governadores ‘paraíbas’, que se uniram em consórcio em oposição à gestão de Jair Bolsonaro (PSL), o Governo Federal tenta se aproximar dos prefeitos para ganhar campo no Nordeste, onde tem os maiores índices de rejeição. A visita do ministro da Secretaria de Governo da Presidência da República, o general Luiz Eduardo Ramos, a Pernambuco, na quinta-feira (3), deixa essa estratégia evidente.

Ramos esteve na Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe) para ouvir as reivindicações dos chefes do Executivo municipal. Não fez anúncios importantes na ocasião, apenas um gesto de aproximação. Trouxe consigo uma apresentação requentada do Plano Nordeste, que prevê aportes de R$ 4,4 bilhões no Nordeste. Esses investimentos já tinham sido anunciados pelo próprio presidente Bolsonaro durante visita a Pernambuco, em maio passado.

Nas contas do Governo Federal, 22 municípios pernambucanos serão beneficiados com repasses de R$ 807,7 milhões até dezembro deste ano, para obras e outras ações de desenvolvimento local. Os critérios de escolha desses municípios não foram detalhados. Pela breve apresentação que a secretária especial de Assuntos Federativos da Pasta, Deborah Arôxa, fez no evento, pouco mais de R$ 2 milhões do valor total estariam contratados até agora com o BNDES.

Deborah também antecipou que, em breve, uma redução dos juros para financiamentos dos entes federativos será anunciado pela Caixa Econômica Federal. “De 10,5% para 4,5%”, disse, sem adiantar quais linhas de financiamento serão contempladas. Os prefeitos aplaudiram, porém tinham outras expectativas com relação ao evento. Esperavam receber do ministro garantias sobre os recursos da cessão onerosa e a inclusão dos municípios na reforma da Previdência. Esses e outros pontos de reivindicação foram apresentadas em carta entregue ao ministro e lida na abertura do evento.

A primeira questão diz respeito à partilha do dinheiro do pré-sal. Inicialmente a proposta era que o valor do leilão fosse dividido entre estados (15%) e municípios (15%). Depois o governo passou a avaliar a divisão dos recursos para emendas parlamentares. “Por causa de uma briga entre Senado e Câmara dos Deputados, os repasses às prefeituras estão ameaçados”, reclamou José Patriota (PSB), prefeito de Afogados da Ingazeira e presidente da Amupe, que cobrou essa questão ao ministro e aos deputados federais que estavam presentes no evento. Patriota também criticou a exclusão dos municípios da reforma da Previdência. O déficit previdenciário das cidades foi lembrado diversas vezes pelos prefeitos. “Deixaram de fora quem mais precisava”, disse o presidente da Amupe.

Há três meses no cargo, o ministro Ramos se esquivou das cobranças dos prefeitos respondendo com simples “não sabia disso” quando confrontado com dados sobre a situação crítica dos municípios. Essa foi a resposta, por exemplo, quando o prefeito Mário Mota (PSB), de Riacho das Almas, perguntou “como é possível fazer educação de qualidade com repasses de apenas R$ 0,36 por aluno para a merenda escolar?”

Na falta de justificativas, o ministro assumiu apenas o papel de intermediador entre os prefeitos do estado que considera estratégico na região e o presidente. “A gente sabe que, para onde Pernambuco pende, o Nordeste vai”, assinalou. Ele deixou claro que a “amizade que tem com Bolsonaro há 46 anos” é sua maior credencial para conquistar apoio do presidente. “Podem ter certeza de que as queixas de vocês vão chegar aos ouvidos dele”, garantiu.

Pela relação de proximidade do ministro com Bolsonaro era de se esperar que eles compartilhassem as mesmas ideias. Não causou espanto portanto que, assim como os principais nomes do Governo Federal fazem, Ramos reproduzisse várias máximas bolsonaristas durante o discurso. Para quebrar o gelo com os prefeitos pernambucanos, por exemplo, recorreu à uma visão estereotipada dos nordestinos. “Já cacei preá e bebi água de coroa de frade (uma espécie de cacto da Caatinga)”, disse, afirmando suas raízes – parte de sua família é de Caicó (RN), mas o ministro mesmo é carioca.

Apesar do protagonismo demonstrado pelas mulheres que trabalham em sua equipe, como Deborah Aroxa que assumiu a fala sempre que o ministro precisou responder questões técnicas, Ramos soltou ao demandar o trabalho de uma assessora: “É bonitinha, mas difícil”, como se estivesse sendo lisonjeiro.

Entre apoiadores e opositores

Antes de conversar com os prefeitos, ao lado de aliados pernambucanos como o presidente do PSL e deputado federal, Luciano Bivar, e os também deputados federais Sílvio Costa Filho (PRB) e André de Paula (PSD), o  ministro Luiz Eduardo Ramos teve como primeira programação em Pernambuco a visita à Estação Cidadania, uma obra no município de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Nada grandioso. Trata-se apenas de um equipamento multiuso de três mil metros quadrados e R$ 3 milhões de investimentos, que ainda está em obras.

Novamente é preciso ler o jogo político. Ramos estava acompanhado do prefeito da cidade, Anderson Ferreira (PR), que tem inserção no segmento evangélico e vem construindo uma relação estreita com o Governo Federal. Esta é a segunda vez que Jaboatão recebe um ministro de Bolsonaro este ano. A primeira foi em setembro, quando a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, apontou os holofotes para programas de violência contra a mulher promovidos pela gestão de Ferreira. Não custa lembrar que 2020 é ano de eleições.

Última agenda da visita do ministro a Pernambuco foi com o governador Paulo Câmara (Crédito: Hélia Scheppa/SEI)

Última agenda da visita do ministro a Pernambuco foi com o governador Paulo Câmara (Crédito: Hélia Scheppa/SEI)

Talvez por acaso (ou não), o ministro deixou o encontro com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB) como último compromisso da agenda. Nem ele, nem o governador falaram com a imprensa após a reunião fechada que tiveram. A assessoria de imprensa do ministro disse que a pauta seria a mesma que ele tinha apresentado na reunião da Amupe, onde falou sobre questões municipais e não estaduais, e disse, simpático, ainda na chegada que “não é inteligente brigar com repórteres”.

Paulo Câmara tem ganhado destaque no consórcio dos governadores do Nordeste e na oposição ao Governo Federal. Recentemente ele representou a região na Climate Week, em Nova York (EUA), falando sobre alternativas sustentáveis de desenvolvimento e de geração de energia. O evento aconteceu em paralelo à Assembleia Geral da ONU, onde Bolsonaro foi amplamente criticado por seu discurso nada sintonizado com os problemas climáticos.

Já tarde da noite, o Palácio do Campo das Princesas enviou texto, sem aspas do governador, detalhando que Câmara apresentou projetos estratégicos para Pernambuco ao ministro, como a conclusão da Ferrovia Transnordestina e da Transposição do Rio São Francisco. Com a mesma proposta de ouvir as demandas de prefeitos e governadores, nesta sexta-feira (4), o ministro Ramos se reúne com o governador da Paraíba, João Azevêdo (PSB) e secretários de estado, em João Pessoa.

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Sobre o autor

Mariama Correia trabalhou por mais de três anos como repórter do caderno de Economia da Folha de Pernambuco. Antes disso, adquiriu ampla experiência atuando como freelancer e em assessorias de imprensa. Tem cursos nas áreas de jornalismo de dados (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fact-checking e mídias digitais (Kings Brighton).

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