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Na condição de “delegado eleitoral” voluntário, o empresário e chef de cozinha Jaime Fernandes Alves passou dois dias inteiros acompanhando a movimentação dos seus conterrâneos que foram votar para presidente no consulado português no bairro de Boa Viagem. Na noite do domingo, 18 de janeiro, ele foi tomado por um misto de vergonha e indignação com o resultado da urna do Recife: o candidato da extrema direita que baseia sua campanha atacando os imigrantes em Portugal, André Ventura, teve 49,6% dos votos dos 260 eleitores portugueses que vivem na região e se dispuseram a votar — a abstenção ultrapassou os 95%.
Veja os resultados completosaqui.
Na véspera do segundo turno, previsto para acontecer no próximo domingo, 8 de fevereiro, Alves retornará ao consulado de seu país para votar no candidato da centro-esquerda, Antônio José Seguro, que aparece à frente das pesquisas em Portugal com uma vantagem confortável. No entanto, ele não acredita que o cenário de apatia irá mudar. “A reação possível é a do voto útil. Antônio José Seguro, que é filiado ao Partido Socialista mesmo não sendo um homem da esquerda, recebeu os votos de parte da direita séria e civilizada que existe em Portugal e receberá o voto útil tanto da esquerda, como o meu, que não quer a extrema direita de volta ao poder”, especula o chef.
Jaime Alves revela o motivo de sua indignação. “Não há razão nenhuma para hoje sermos contra os imigrantes. Portugal foi sempre um país de emigração. Nos vários países do mundo existem mais de 4 milhões de imigrantes portugueses espalhados, o que representa 40% da população que vive em Portugal, um país que vive, essencialmente, do turismo e das entradas de receitas enviadas pelos trabalhadores emigrantes portugueses”.
Segundo ele, mesmo quando esses emigrantes retornam para a terra natal depois de aposentados, a economia portuguesa é diretamente beneficiada: quem regressa “do Canadá, da Suíça, da França e de muitos outros lugares, como Luxemburgo e Bélgica, volta recebendo as suas grandes aposentadorias, cinco a seis vezes maiores do que as aposentadorias de Portugal. Isso gera entradas de dinheiro fabulosas todos os dias nos cofres daquele país”.
Esta é uma realidade que ele conhece bem, pois passou a maior parte de sua vida em terras estrangeiras. Antes de migrar para o Brasil em 2009, ano em que abriu um restaurante de comida lusitana em Olinda, ele vivia na cidadedeNanterre, vizinha a Paris, onde também era dono de um restaurante. “Emigrei pela primeira vez aos 11 anos. Fui morar com meus avós e trabalhar como garçom numa taverna no norte da Espanha, pois o salário que se pagava a uma criança na Espanha era maior do que um salário de adulto em Portugal na época da ditadura de Salazar”. Antônio Salazar, inspirador de André Ventura e do seu partido, o Chega, governou o país por 36 anos, de 1932 a 1968.
Imigrantes levam a culpa pelo insucesso alheio
Em seu contato com os eleitores de Ventura que vivem em Pernambuco, Alves costuma ouvir frases como “os ciganos têm mais regalias que os portugueses”, “Portugal está uma bandalheira por causa dos muçulmanos” ou “os hospitais agora só curam os imigrantes”. Não é à toa que um dos slogans do Chega é “Portugal não é Bangladesh”.
Jaime Alves é implacável ao interpretar esse tipo de reação dos eleitores de direita: “as pessoas não conseguem admitir os próprios erros ou as verdadeiras causas de suas frustrações, então culpam os imigrantes pelo próprio insucesso. Culpam ciganos porque não entendem que foram as decisões dos políticos que elegeram que estão entregando os serviços médicos para o setor privado, e que empresários só têm interesse no lucro e não na saúde das pessoas”.
Ele conta que os ciganos estão há 300 anos em Portugal, então são portugueses, mas continuam sendo vítimas de preconceito se são pobres. “Quando o cigano é dono de joalheria, não é discriminado, é visto como português. O jogador Ricardo Quaresma, por exemplo, jogava no Sporting e na seleção portuguesa, mas ninguém o chamava de jogador cigano, e sim de atleta português”. Quaresma, aliás, decidiu participar ativamente da campanha eleitoral pedindo votos contra Ventura.
O chef português também acredita que os interesses financeiros impedem que os políticos e parte da sociedade portuguesa apontem os dedos para os verdadeiros responsáveis pelo aumento da violência em seu país. “Nada dizem sobre os grupos armados brasileiros do PCC e do Comando Vermelho que estão se instalando nos subúrbios das cidades portuguesas. E sabe por que nada dizem? Porque esses grupos armados estão financiando campanhas eleitorais e empreendimentos privados para lavar dinheiro”, acusa.
E por falar em dinheiro, as contribuições previdenciárias dos trabalhadores imigrantes garantem o pagamento de 17% das aposentadorias de portugueses. Só os brasileiros deixam o equivalente a R$ 31 bilhões no sistema de seguridade social de Portugal. Alves recorda esses fatos ao mencionar o constrangimento que o extremista Ventura enfrentou nesta última semana de campanha ao visitar uma área agrícola atingida pelas tempestades que provocaram estragos em, pelo menos, 69 municípios portugueses.
“Vi hoje um vídeo do Ventura indo visitar uma empresa, agora na campanha, e o diretor da empresa foi ao encontro dele e disse ‘queria lhe comunicar que aqui nesta empresa todos os funcionários são imigrantes, são estrangeiros, só um é que não é, só tem um que não é, que é um engenheiro. E do resto, de todos os imigrantes, Portugal não vive hoje sem imigração’. É isso mesmo, sem os imigrantes a economia pararia, ficaria um caos”, contou Alves.
O episódio citado pelo chef aconteceu numa região chamada Torres Vedras, onde o empresário Paulo Maria o confrontou durante um evento de campanha junto a empresários da região. No mesmo dia, o governo de centro-direita anunciou que, por falta de mão de obra na construção civil, teria de abrir “vias de entrada” para mais imigrantes trabalharem na reconstrução nas áreas atingidas pelas tempestades.
Jornalista e escritor. É o diretor de conteúdo da MZ.