<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
	<atom:link href="https://marcozero.org/tag/desigualdade-social/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://marcozero.org/</link>
	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 21 May 2026 14:42:22 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.11</generator>

<image>
	<url>https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/02/cropped-favicon-32x32.png</url>
	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
	<link>https://marcozero.org/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/</link>
					<comments>https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 May 2026 14:42:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[“coisa de rico”]]></category>
		<category><![CDATA[boa viagem]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[Distinção social Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[elites recifenses]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[tese de doutorado]]></category>
		<category><![CDATA[Zona Norte Recife]]></category>
		<category><![CDATA[Zona Sul Recife]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=75550</guid>

					<description><![CDATA[<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/">Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini Cooper, por exemplo. Já o rico da Zona Sul mora num apartamento com nome em inglês e vista para o mar de Boa Viagem, troca de SUV com regularidade, frequenta restaurantes badalados, decora a casa com arquiteto famoso e valoriza áreas comuns instagramáveis no condomínio. </p>



<p>São dois estilos de vida e duas formas de disputa simbólica entre as elites recifenses.<br><br>É isso que mostra a tese de doutorado <em>Classes e classificações na cidade: disputas simbólicas entre frações de elite do Recife</em>, do sociólogo Bernardo Fortes de Moura Arruda, defendida em junho de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Durante a pesquisa para a tese, ele realizou 80 entrevistas — 49 com moradores da Zona Norte e 31 da Zona Sul — e selecionou 50 para análise. Todos as pessoas entrevistadas integram o 10% mais rico do Recife, e algumas o 1%. Entre os entrevistados, há um grande empresário dos setores de energia, cimento e logística, integrante de família tradicional pernambucana de origem açucareira; e uma empresária e filantropa reconhecida pela Forbes, ex-bailarina e fundadora de projeto social de arte e educação.<br><br>O que Bernardo Fortes encontrou na pesquisa mostra que para a elite recifense a fronteira entre a Zona Norte e a Zona Sul não é apenas geográfica. &#8220;O ponto não é dizer que a Zona Norte é mais culta ou que a Zona Sul é apenas ostentação&#8221;, ressalta o sociólogo. &#8220;O que a tese mostra é que esses rótulos são usados na disputa entre as próprias elites. Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem: orla, prédios caros, consumo e visibilidade social. A Zona Norte, por sua vez, precisa narrar seu prestígio por outros caminhos: tradição, memória, arborização, casario, discrição e vida cultural”. Confira a entrevista abaixo.</p>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>A tese mostra que essa disputa entre ZN e ZS é assimétrica: a Zona Norte ataca, a Zona Sul defende. Por que o indivíduo da Zona Norte tem mais interesse em manter essa fronteira?</strong></p>



<p><strong>Bernardo Fortes &#8211; </strong>A assimetria existe porque Zona Norte e Zona Sul não disputam prestígio pelo mesmo critério. Boa Viagem consolidou-se como símbolo visível de êxito econômico: orla, imóveis de luxo, hotéis, restaurantes e consumo de alto padrão. Parte do seu prestígio já está inscrita na paisagem. Morar perto ou diante da praia funciona, nesse imaginário, como emblema de ascensão social.</p>



<p>A Zona Norte também concentra riqueza, mas costuma narrar sua distinção por outros sinais: tradição familiar, antiguidade da ocupação, memória dos antigos arrabaldes do Capibaribe, casarões, sítios e uma sofisticação mais discreta, associada à herança aristocrática e açucareira do Recife. Esses atributos, porém, não aparecem na tese como virtudes naturais da Zona Norte, mas como recursos simbólicos usados por suas elites para disputar prestígio com a Zona Sul.</p>



<p>Por isso, o morador da Zona Norte tende a investir mais nessa fronteira simbólica. A Zona Sul aparece, em muitos depoimentos, como lugar do dinheiro visível, do consumo e da ostentação; a Zona Norte, como espaço da tradição, da discrição, do refinamento cultural e do “bom gosto”. Não é uma descrição objetiva dos dois espaços, mas uma forma de classificação social. A Zona Sul precisa explicar menos seu prestígio porque ele é mais imediatamente reconhecível. A Zona Norte, ao contrário, reafirma sua legitimidade histórica, cultural e moral para se diferenciar do brilho econômico associado à orla.</p>



<p><strong>Gilberto Freyre descreve a urbanização do Recife como um processo traumático, como o estilhaçamento de uma ordem que mantinha os antagonismos sociais em equilíbrio &#8220;à sombra do engenho&#8221;. Esse trauma segue operando nas fronteiras simbólicas entre as zonas do Recife de hoje?</strong></p>



<p>Em Gilberto Freyre, o sobrado urbano aparece como um desdobramento da crise da antiga ordem da casa-grande e senzala. Ao contrário do engenho, que funcionava como espaço relativamente fechado e controlado, a cidade surge como ambiente marcado pela circulação intensa, pela mistura social e pela perda daquele domínio patriarcal mais direto sobre a vida cotidiana. Por isso, o sobrado frequentemente aparece em Freyre quase como uma arquitetura defensiva, hostil à rua e à imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p>Ecos desse processo ajudam a compreender também a formação histórica das áreas de prestígio do Recife contemporâneo. A Zona Norte tradicional começa a se consolidar ainda no século XIX, quando os antigos arrabaldes ligados ao Capibaribe passam a atrair setores das elites interessados em formas de vida mais rarefeitas e protegidas da intensidade social do centro portuário e comercial da cidade, marcado pela circulação de trabalhadores, comércio popular, escravizados, ex-escravizados e pela própria dinâmica anônima da urbanização. Já Boa Viagem e a Zona Sul surgem mais tarde sob outra lógica. A valorização da orla se associa à modernização da cidade, ao automóvel, à verticalização e a um imaginário cosmopolita ligado à vida marítima e ao consumo. Ainda assim, permanece a busca por formas urbanas relativamente seletivas de convivência.</p>



<p>Mas a própria trajetória de Boa Viagem produz uma contradição importante. À medida que a praia se populariza e se transforma no maior espaço público da cidade, atravessado por circulação metropolitana intensa, parte das elites passa a desenvolver uma relação mais ambivalente com aquele espaço. Boa Viagem continua extremamente valorizada como paisagem e símbolo imobiliário de prestígio, mas há uma tendência de deslocamento da sociabilidade das frações mais altas para praias mais seletivas do litoral sul e outros espaços percebidos como mais controlados. Nesse sentido, o trauma descrito por Freyre talvez não sobreviva como permanência direta da casa-grande, mas como continuidade de uma busca recorrente das elites recifenses por espaços protegidos da massificação, da circulação excessiva e da imprevisibilidade da vida urbana.</p>



<p><strong>Você escreve que o mercado imobiliário de alto padrão no Recife atua como um &#8216;operador simbólico&#8217; — não apenas refletindo, mas produzindo as fronteiras entre as elites. Os incorporadores fazem isso conscientemente ou simplesmente captam o que já está no ar?</strong></p>



<p>O mercado imobiliário não cria essas fronteiras sociais sozinho, porque elas já existem historicamente no Recife, mas ele também não atua de forma neutra. Os incorporadores captam desejos, hierarquias e imagens de prestígio já presentes entre as elites e os transformam em mercadoria. O imóvel de alto padrão raramente é vendido apenas como metragem ou localização. O mercado vende pertencimento social junto com o apartamento e o bairro.<br><br>Essa dinâmica aparece na própria forma como determinadas áreas da cidade são apresentadas. Em Boa Viagem, o discurso costuma enfatizar modernidade, consumo, vista para o mar e vida cosmopolita. O edifício na orla funciona quase como um troféu urbano. Já nos bairros valorizados da Zona Norte, o apelo tende a passar pela tradição, pela autenticidade histórica, pela discrição e por referências ao imaginário aristocrático ligado ao açúcar e aos antigos arrabaldes do Capibaribe, algo que muitas vezes aparece até nos nomes dos edifícios.<br><br>Não se trata necessariamente de uma ação totalmente consciente ou planejada para produzir identidades urbanas. O processo é mais difuso. O mercado lê aspirações sociais já existentes e, ao transformá-las continuamente em linguagem de venda, acaba ajudando a reforçar e organizar essas fronteiras simbólicas da cidade.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/foto_horizontal_dupla-300x180.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/foto_horizontal_dupla-1024x613.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/foto_horizontal_dupla-1024x613.jpg" alt="Fotografia em preto e branco de um edifício com fachada de vidro em dois andares. No andar superior, silhuetas de pessoas de pé conversando. No andar inferior, uma multidão maior em movimento. A imagem é espelhada horizontalmente, criando uma composição simétrica." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites
</p>
	                
                                            <span>Foto espelhada de Bernardo Fortes/Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você mostra que os ricos da Zona Norte têm apreço pela caminhabilidade e pela arborização, mas isso em bairros que de certa forma têm uma circulação controlada. Já as elites da Zona Sul preferem o condomínio fechado, o shopping. Ambos se unem pelo medo do centro, que seria um espaço público mais propício ao encontro com outras classes sociais? Você acha que a decadência do centro do Recife está ligada também a um abandono do centro pelas elites?<br></strong><br>Sim, acho que existe uma relação importante entre esses processos. Embora a Zona Norte valorize caminhabilidade, casario, arborização e certa ideia de convivência urbana mais aberta, isso geralmente acontece em áreas relativamente protegidas, com circulação social mais previsível e padrões de convivência mais homogêneos. Nesse sentido, a própria valorização da rua e da circulação a pé parece depender também de uma percepção de segurança e familiaridade social do espaço.<br><br>Isso ajuda a entender uma contradição importante apreendida pela tese. A Zona Norte costuma se apresentar como espaço mais aberto à convivência urbana e à mistura social do que a Zona Sul. Mas, na prática, muitas dessas áreas continuam funcionando dentro de limites relativamente seletivos: espaços públicos bastante frequentados, como a Praça de Casa Forte ou eventos tradicionais do Poço da Panela, são abertos, mas frequentados majoritariamente por pessoas que compartilham códigos sociais parecidos, o que também ajuda a produzir uma sensação maior de familiaridade e conforto na convivência cotidiana.<br><br>Boa Viagem, por outro lado, possui intensa circulação urbana, comércio de rua e uma praia amplamente frequentada. O ponto não é ausência de mistura social, mas formas seletivas de uso desses espaços, como a ocupação mais restrita de certos trechos da praia e o deslocamento do lazer para praias mais exclusivas do litoral sul.<br><br>Nesse sentido, o centro tradicional do Recife acaba representando justamente o oposto dessa lógica: um espaço marcado pela circulação intensa, pelo comércio popular e por encontros urbanos menos controláveis entre grupos sociais distintos. Esse afastamento progressivo das elites em relação ao centro é um dos fatores que ajudam a explicar sua tendência de decadência. Quando escolas tradicionais, cinemas de rua, equipamentos de consumo, galerias, shoppings, investimentos privados e parte da atenção pública se deslocam para a Zona Norte e para a Zona Sul, o centro perde funções sociais, prestígio e capacidade de atrair recursos. Aos poucos, deixa de ser percebido como espaço de moradia, lazer e consumo das elites e passa a ser associado sobretudo ao comércio popular, à circulação intensa e à imprevisibilidade urbana.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">Muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam.</p>
</div>


<p><strong>A simpatia pela esquerda que aparece em alguns entrevistados da ZN é uma posição política efetiva ou mais um marcador de refinamento cultural que distingue a Zona Norte da Zona Sul?</strong></p>



<p>Pode ser as duas coisas. Em alguns entrevistados da Zona Norte, existe um entusiasmo vivido com pautas progressistas, como direito à cidade, preservação do patrimônio histórico, valorização da diversidade e preocupação com minorias. Mas essas pautas também aparecem ligadas a uma estética e a uma forma específica de viver a cidade. Defender ruas arborizadas, casarões antigos, caminhabilidade, vida cultural, convivência urbana e certa mistura social faz parte de um modo de experimentar a Zona Norte e de diferenciá-la simbolicamente da Zona Sul.<br><br>Nesse sentido, a valorização da diversidade também funciona como marcador de refinamento moral e distinção entre frações da elite. Isso não significa que seja apenas pose. Pode haver esforço real de convivência e valorização da diversidade. O ponto é que essa convivência frequentemente permanece seletiva, sem necessariamente romper as hierarquias sociais existentes.</p>



<p><strong>Moradores do Poço da Panela resistiram tanto à construção de um Atacado dos Presentes quanto à de uma UPA no bairro. Ambos estabelecimentos eram voltados a públicos populares. Os argumentos usados foram urbanísticos e ambientais: o impacto no trânsito, a preservação do rio, o microclima. Esses episódios podem revelar que o &#8220;estilo de vida&#8221; que as classes altas da Zona Norte dizem defender é, na prática, também uma forma de gestão do território para manter afastados os serviços e os públicos que não pertencem ao seu círculo simbólico?</strong></p>



<p>Esses episódios sugerem que o estilo de vida defendido no Poço da Panela envolve não apenas preocupações urbanísticas e ambientais legítimas, mas também uma tentativa de preservar a imagem social do bairro, suas hierarquias internas e suas regras implícitas de convivência. A defesa do patrimônio, da arborização, do microclima e da tranquilidade se liga a uma forma específica de viver a Zona Norte: um espaço valorizado justamente por parecer mais calmo, histórico, pouco adensado e socialmente previsível. Quando chegam equipamentos voltados a públicos populares, o incômodo não se reduz ao trânsito ou ao impacto ambiental. Também aparece o receio de que o bairro perca parte do perfil social e da atmosfera simbólica que sustentam seu prestígio.</p>



<p>Como sugere o sociólogo Pierre Bourdieu, a intolerância estética pode funcionar como uma das barreiras mais fortes entre classes. Nesse sentido, preocupações aparentemente neutras com paisagem, circulação ou preservação urbana acabam funcionando também como mecanismos de filtragem social: delimitam quem circula, quem consome e quais formas de presença parecem “adequadas” ao bairro, sem que isso precise ser formulado diretamente em termos de classe.</p>



<p><strong>A tese mostra que Boa Viagem nasceu como espaço de elite porque só era acessível de carro e o automóvel funcionava como filtro social que definia quem podia chegar lá. O condomínio fechado e o shopping herdaram essa lógica?</strong><br><br>A lógica é parecida: transformar acesso em distinção. No início, o automóvel filtrava quem podia chegar a Boa Viagem e convertia distância em privilégio. Depois, condomínio fechado e shopping atualizaram esse filtro por outros meios: portaria, segurança, estacionamento, consumo e controle da circulação. Isso aparece até na relação ambígua com o transporte público: muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam. O interessante é que essa recusa quase não precisa ser justificada: certos meios de transporte já aparecem previamente fora do horizonte cotidiano de uso das elites locais.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, <em>habitus</em> é o conjunto de disposições incorporadas — agir, pensar, perceber o mundo — que uma pessoa adquire ao longo da vida pela socialização, e que orienta seu comportamento de forma quase automática, sem necessidade de reflexão consciente.</p>
<p>&nbsp;</p>
        </div>
    </div>



<p><br><strong>O caso do entrevistado &#8220;Guilherme&#8221; mostra que a família dele abria mão de conforto material para mantê-lo nas escolas <em>certas</em> do bairro das Graças: a escola não transmite apenas conhecimento, mas repertório, rede e <em>habitus</em>. Isso vale para as duas zonas? Tanto a elite da Zona Norte quanto a da Zona Sul investem na escola como rito de inserção ou há uma diferença na forma como cada uma valoriza e usa a escola como instrumento de reprodução simbólica?<br></strong><br>A escola aparece na tese menos como simples transmissão de conteúdo e mais como espaço de formação de redes, repertórios, modos de falar e reconhecer pertencimentos sociais. No discurso dos entrevistados, Instituto Capibaribe e Apoio tendem a aparecer como o ideal de uma formação mais crítica, cultural e intelectualizada, muito associada ao imaginário da Zona Norte. Damas e São Luís, embora tradicionais e elitizados, surgem de forma mais nuançada, ligados a prestígio histórico e formação clássica. Já o Santa Maria aparece com mais frequência como símbolo mais direto de fechamento social e reprodução de classe.<br><br>Mas essa divisão não é mecânica. Mesmo entre moradores da Zona Sul aparecem pais e egressos que reconhecem esse elitismo e evitam o Santa Maria justamente por considerá-lo fechado demais. Ou seja, a escola funciona como rito de inserção nas elites, mas também como espaço onde as famílias escolhem que tipo de elite querem formar e a qual fração simbólica desejam pertencer.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Cunhado pelo sociólogo americano Richard Peterson nos anos 1990, o conceito de <strong>onivorismo cultural</strong> descreve o fenômeno pelo qual as elites contemporâneas passaram a consumir cultura de forma eclética — misturando erudito e popular —, em substituição ao antigo esnobismo que rejeitava tudo que fosse considerado de baixo status.</p>
        </div>
    </div>



<p><strong>A elite da Zona Norte frequenta o forró de Seu Vital, valoriza o artesanato popular e se orgulha de ver os morros pela janela. Esse &#8220;onivorismo cultural&#8221; aproxima realmente as classes altas da ZN das classes populares? Há alguma diferença real na relação das elites recifenses da ZN e da ZS com as classes populares ou é apenas a narrativa que cada uma constrói?</strong></p>



<p>O que aparece na tese não é exatamente uma dissolução das fronteiras de classe pelo “onivorismo cultural”, mas uma forma específica de relação com o popular que também funciona como distinção. Parte das elites da Zona Norte valoriza o forró, o artesanato, os mercados e até a proximidade visual com os morros como sinais de autenticidade cultural e enraizamento urbano.<br><br>Mais do que uma diferença objetiva e absoluta em relação à Zona Sul, isso aparece como parte de uma disputa simbólica interna às próprias elites recifenses. Como o prestígio econômico e imobiliário de Boa Viagem é mais imediatamente reconhecível, frações da Zona Norte tendem a investir com mais intensidade em critérios morais, culturais e estéticos de legitimação, contrapondo tradição, autenticidade e “bom gosto” ao dinheiro percebido como excessivamente visível ou ostentatório.<br><br>Mas essa aproximação com o popular permanece seletiva e hierarquizada. O Bar de Seu Vital revela bem essa ambiguidade: para moradores populares, é comércio cotidiano; para setores das classes médias e altas, aparece como espaço “autêntico” de sociabilidade.<br><br>Eventos como o Segura o Talo [bloco de carnaval da Zona Norte e arrasta milhares de pessoas, principalmente das classes populares] ajudam a mostrar o limite dessa abertura. Quando o popular deixa de aparecer como folclore, tradição ou autenticidade controlável e passa a ocupar intensamente áreas valorizadas da Zona Norte, surgem desconfortos e mecanismos de rejeição. Ou seja, essa boa vontade cultural funciona como trunfo simbólico na disputa entre frações da elite, mas não significa, necessariamente, maior igualdade concreta nas relações de classe.</p>



<p><strong>Os entrevistados “Jaciara” e “José” culpam a si mesmos pelo isolamento social no bairro das Graças e não parecem enxergar as barreiras simbólicas que os excluem. O que sugere que essas barreiras se tornam visíveis para quem já está perto o suficiente, mas para quem está mais distante, elas simplesmente não aparecem. A disputa que a tese descreve é uma briga interna entre frações da elite, ou próximas dela, ou isso se irradia para além das classes altas do Recife?</strong></p>



<p>Esses códigos funcionam como instrumentos de diferenciação e, ao mesmo tempo, como barreiras de entrada. Inicialmente, ajudam as diferentes frações da elite a marcar distinções entre si, definindo formas legítimas de morar, circular, consumir e se comportar. Mas, ao criar etiquetas sociais e códigos de pertencimento cada vez mais específicos, acabam também dificultando a integração de quem ascende socialmente sem ter sido socializado nesses universos.<br><br>Isso vale tanto para a Zona Norte quanto para a Zona Sul. Ambas possuem códigos próprios de pertencimento ligados a formas de vida burguesas, embora valorizem aspectos diferentes. Na Zona Sul, aparecem com mais força códigos ligados à apresentação social, ao consumo de alto padrão, à circulação em espaços privados e à etiqueta urbana das elites. Já em setores da Zona Norte, aparece no discurso uma valorização maior da cultura, da diversidade, da vida de rua, do patrimônio e de repertórios vistos como mais alternativos ou intelectualmente sofisticados. Isso não significa que a Zona Sul não tenha cultura, nem que a Zona Norte realize plenamente essa abertura. Trata-se de imagens construídas na própria disputa entre as zonas.<br><br>Por isso, não basta comprar um apartamento em Casa Forte ou na avenida Boa Viagem. A escolha do endereço não garante integração social. Entrevistei, por exemplo, novos ricos da Zona Sul que moram na avenida Boa Viagem, mas cuja vida social quase não acontece ali: os amigos permanecem em outros bairros, os vínculos seguem ligados aos lugares de origem e a circulação cotidiana continua organizada por redes anteriores à ascensão.<br><br>Isso produz um efeito importante na própria reprodução de classe. Como os pais permanecem parcialmente isolados, também têm mais dificuldade de inserir os filhos nas redes de amizade, sociabilidade e reconhecimento típicas desses grupos. O resultado é que a família consegue chegar ao espaço valorizado, mas nem sempre transforma essa chegada em pertencimento pleno e duradouro. É por isso que estudar os ricos ajuda a compreender as classes sociais como um todo. As barreiras criadas no topo não afetam apenas quem já pertence à elite; elas também moldam os caminhos, os limites e as frustrações de quem tenta ascender.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/05/Rico-BV.jpg" alt="Esta foto mostra uma vista aérea de uma área urbana litorânea, com vários prédios altos e modernos alinhados paralelamente à costa. As construções são predominantemente brancas e cinzas, com variações sutis de cor e design. À esquerda, há uma faixa verde com árvores que acompanha a avenida principal, enquanto ao fundo se estende o mar calmo sob um céu parcialmente nublado." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pesquisador explica que Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Você escreve na tese que perguntas diretas sobre patrimônio e renda geravam desconforto ou eram simplesmente omitidas. Você então passou a medir o capital econômico também por perguntas indiretas, como a comparação entre restaurantes de preferência (Nez Bistro X Ilha da Kosta, por exemplo). O que essa mudança na metodologia da pesquisa revelou?</strong></p>



<p>Quando passei a observar o capital econômico por meio de sinais indiretos, percebi que a posição social aparecia com mais clareza nos estilos de vida do que nas declarações formais de renda. Poucos entrevistados se recusavam totalmente a falar sobre patrimônio ou ganhos, sobretudo porque essas perguntas ficavam para o fim, depois de duas ou três horas de conversa. Ainda assim, o desconforto era nítido. Em alguns casos, esse tipo de pergunta funcionava quase como um sinal de alerta: mesmo feita ao final da entrevista, podia dificultar a indicação de novos interlocutores ou fechar portas para contatos futuros.<br><br>Por isso, comecei a observar outros elementos: o prédio onde a pessoa morava, a escola em que estudou, viagens, carro, casa de praia e padrões de consumo. Muitas vezes, em vez de perguntar diretamente o valor do imóvel, eu procurava depois anúncios de apartamentos no mesmo prédio para estimar o padrão econômico daquele universo.<br><br>A comparação entre Nez Bistrô e Ilha da Kosta ajudou a mostrar isso. A diferença não estava apenas no preço, mas no tipo de gosto mobilizado. Alguns valorizavam fartura, quantidade e sensação de “valer o preço”; outros valorizavam ambiente, curadoria, apresentação, discrição e experiência gastronômica. Esse contraste revelava que a ascensão econômica não apaga automaticamente padrões de socialização anteriores: o modo como cada entrevistado avaliava um restaurante também indicava sua relação com o consumo, com a distinção e com os códigos de pertencimento daquele universo social. No fim, a pesquisa mostrou que o dinheiro, entre essas frações da elite, raramente aparece sozinho. Ele surge incorporado em gostos, estilos de vida, formas de circulação pela cidade e maneiras socialmente legítimas de consumir e demonstrar pertencimento.<br><br><strong>Com base no que você escreve do que o sociólogo Erving Goffman chama de &#8220;gestão da impressão&#8221;, você mesmo passou por um processo de adaptação da sua performance ao longo do campo: trocando o terno pela informalidade, ajustando o vocabulário, modulando gestos e tom de voz para se apresentar como alguém de dentro. Mas a tese também mostra que seus entrevistados fazem exatamente isso o tempo todo: gerenciam a impressão que causam, escolhem o que mostrar e o que esconder, ainda mais diante de um sociólogo quando eles sabiam que estavam sendo estudados. Como você lidou com essa dupla encenação, a sua e a deles?</strong></p>



<p>A pesquisa me fez perceber que a entrevista nunca era um espaço totalmente espontâneo. Eu também estava sendo observado e classificado o tempo inteiro. No início do campo, eu adotava um formalismo que imaginava transmitir seriedade, mas que muitas vezes produzia o efeito contrário: criava distância e pouca identificação.<br><br>Com o tempo, percebi que precisava construir uma imagem de maior proximidade para inspirar confiança. Passei então a modular conscientemente minha própria apresentação: um visual mais casual, mas alinhado aos códigos de discrição valorizados naquele universo, evitando parecer excessivamente formal ou “over”, como alguns entrevistados diziam. Também ajustava linguagem, referências e formas de interação. Falava de viagens internacionais, do bairro onde moro, das escolas em que estudei e de pessoas de frações da elite que eu conhecia. Comentava restaurantes, experiências urbanas e referências culturais que funcionavam como sinais reconhecíveis de familiaridade social.<br><br>Mesmo assim, meu <em>habitus</em> de estudante de humanas frequentemente gerava desconfiança. Muitos entrevistados associavam pesquisadores e intelectuais a uma postura hostil em relação às elites ou ao risco de serem retratados de forma caricatural. Isso fazia com que controlassem bastante a entrevista. Uma entrevistada que está entre o 1% mais rico chegou, por exemplo, a pedir o questionário antes da conversa para saber exatamente o que seria perguntado.<br><br>Então existia uma dupla gestão da impressão. Eu tentava construir uma imagem suficientemente próxima para reduzir desconfianças e conseguir acesso mais profundo ao campo; eles, por sua vez, também administravam cuidadosamente a imagem que produziam diante de um sociólogo. Em vez de tratar isso apenas como um obstáculo metodológico, a pesquisa passou a incorporar essa própria encenação como dado sociológico. Afinal, a maneira como esses grupos controlam sua exposição também revela inseguranças, estratégias de distinção e mecanismos de fechamento social.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">O objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como as elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.</p>
</div>


<p><strong>Você declara explicitamente, e mais de uma vez, que a pesquisa foi conduzida com seriedade e respeito em contraposição a produções que tratam as classes abastadas pelo viés do estereótipo e da ridicularização. E você cita como exemplo desse estereótipo o documentário <em>Um Lugar ao Sol</em>, de Gabriel Mascaro. Em um país tão desigual como o Brasil, não dá vontade de alfinetar essas classes abastadas?</strong></p>



<p>A desigualdade brasileira obviamente produz indignação e tensões reais. Mas transformar a pesquisa em caricatura moral empobrece a análise sociológica. Meu objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como essas elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.<br><br>O ponto central da pesquisa era justamente identificar mecanismos de fechamento social que muitas vezes passam despercebidos. A tese mostra que dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites. Existem códigos de sociabilidade, repertórios culturais, formas de consumo e redes de reconhecimento que também funcionam como barreiras de entrada.<br>Isso desloca a discussão da simples oposição entre “ricos e pobres” para algo mais complexo: como grupos socialmente privilegiados constroem fronteiras simbólicas e reproduzem pertencimento entre gerações. Assim, entender esses mecanismos me parecia sociologicamente mais importante do que simplesmente produzir uma sátira moral das classes altas.</p>



<p><strong>E por que você acha que a sociologia feita no Brasil ainda não estuda as classes altas com mais recorrência?</strong><br><br>Existe, primeiro, uma dificuldade metodológica real. Elites controlam fortemente sua privacidade e possuem maior capacidade de selecionar quem entra ou não em seus circuitos sociais. Conseguir acesso prolongado a esse universo exige tempo, adaptação e construção de confiança. Mas também existe uma tradição forte da sociologia brasileira voltada para pobreza, exclusão e classes populares, o que é compreensível num país profundamente desigual. O problema é que isso às vezes produz um desequilíbrio: estuda-se muito quem sofre os efeitos da desigualdade e menos quem participa de sua reprodução cotidiana.<br><br>Além disso, pesquisar elites exige um equilíbrio difícil. Existe o risco tanto da fascinação quanto da hostilidade moral. Em muitos casos, a caricatura acaba substituindo a análise. Só que, quando a elite aparece apenas como personagem grotesco, perde-se justamente a compreensão dos mecanismos sutis e cotidianos através dos quais as desigualdades continuam sendo reproduzidas.<br><br><strong>Michel Alcoforado virou fenômeno editorial com <em>Coisa de Rico</em>, um livro que expõe, por vezes com humor, ridicularizando e em tom sarcástico, códigos e rituais das elites brasileiras. Mas há vários pontos que ressoam com o que você encontrou na tensão entre as elites da Zona Norte e da Zona Sul. Como você lê esse livro à luz da sua tese?</strong></p>



<p>Michel Alcoforado tem um mérito importante como divulgador. Ele conseguiu levar discussões sobre consumo, comportamento e distinção social para além da bolha acadêmica, mostrando a existência de códigos das classes altas que muitas vezes passam despercebidos e que são fundamentais para definir quem pertence e quem não pertence a determinados universos sociais.</p>



<p>Ao mesmo tempo, parte da academia vê limites nisso, porque a lógica da divulgação e do humor às vezes simplifica conceitos sociológicos mais complexos. Acho que o problema não é existir esse tipo de trabalho, mas parar nele. Quando a análise fica apenas na sátira dos hábitos dos ricos, corre-se o risco de transformar processos sociais profundos em mera curiosidade comportamental.</p>



<p>Minha tese tenta ir além disso. O interesse não era apenas mostrar “coisas de rico”, mas entender como gostos, estilos de vida, formas de consumo e modos de ocupar a cidade funcionam como mecanismos de pertencimento, distinção e fechamento social entre as elites recifenses. Esses códigos não apenas expressam diferenças de classe: eles também moldam a cidade e fazem dela um marcador social, capaz de classificar pessoas, bairros e formas de vida.</p>



<p>E também acho importante dizer que as elites deixaram de ser um tabu absoluto na sociologia brasileira. Existe muita coisa sendo produzida hoje. Eu recomendaria, por exemplo, trabalhos de Miqueli Michetti, Marcella Novais, Michel Nicolau, Renato Ortiz e Valdênio Freitas Meneses. Claro que ainda existe uma dificuldade metodológica real de acesso a esses grupos, mas há diferentes estratégias possíveis de pesquisa. Nem todo estudo sobre elites precisa depender necessariamente de interação direta ou entrevistas profundas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Leia a tese completa</span>

	    <p>Se você chegou até o fim dessa entrevista, é porque se interessou pelo assunto: vale a pena ler a tese completa, que é muito bem escrita e interessante. <a href="https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/37944" target="_blank" rel="noopener">Está disponível aqui, no repositório da UFPB</a>.</p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/">Ricos de Boa Viagem e ricos da Zona Norte: tese de doutorado revela disputas de status no Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/ricos-de-boa-viagem-e-ricos-da-zona-norte-tese-de-doutorado-revela-disputas-de-status-no-recife/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Eleição de Lula renova esperança de Renan e Miguel, da ocupação Aratu, em João Pessoa</title>
		<link>https://marcozero.org/eleicao-de-lula-renova-esperanca-de-renan-e-miguel-da-ocupacao-aratu-em-joao-pessoa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Nov 2022 18:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
		<category><![CDATA[INFÂNCIA]]></category>
		<category><![CDATA[Paraíba]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=52497</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Pedro Paz* A legislação brasileira permite voto apenas para maiores de 16 anos, mas se tivessem esse direito, Renan e Miguel, de cinco e seis anos de idade, que moram na Comunidade do Aratu, no bairro de Mangabeira VIII, na zona sul de João Pessoa, teriam escolhido votar em Luiz Inácio Lula da Silva. [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/eleicao-de-lula-renova-esperanca-de-renan-e-miguel-da-ocupacao-aratu-em-joao-pessoa/">Eleição de Lula renova esperança de Renan e Miguel, da ocupação Aratu, em João Pessoa</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Pedro Paz*</strong></p>



<p>A legislação brasileira permite voto apenas para maiores de 16 anos, mas se tivessem esse direito, Renan e Miguel, de cinco e seis anos de idade, que moram na Comunidade do Aratu, no bairro de Mangabeira VIII, na zona sul de João Pessoa, teriam escolhido votar em Luiz Inácio Lula da Silva.</p>



<p>“Eu vou votar em Lula. Lula vai ganhar. Bolsonaro vai perder, porque Bolsonaro tá caindo. Tá caindo. Lula dá dinheiro pra gente, dá comida, dá sorvete, dá tudo. Dá até casa. Lula vai ganhar. Vai ser presidente”, disse Miguel, com convicção, três semanas antes da votação, em 7 de outubro.</p>



<p>Na ocasião, Renan completou: “Eu também vou votar em Lula, porque é o melhor de todos. É Lula que vai ganhar a partida, Lula vai ganhar. Eu acho que ele vai ganhar. Lula vai pegar e amarrar o Bolsonaro. Ele é muito massa. Bolsonaro é muito ruim, não é, Miguel? Tem um negócio no mar chamado Lula, eu gosto. Não tem nenhum um animal que se chama Bolsonaro. Nós já vota, não é, Miguel? Eu já fui votar. Fui com a minha mãe. E até com o meu pai. Meu pai levou nós na moto”.</p>



<p>Sara Souza, 32 anos, uma das idealizadoras e gestoras da Associação Amigas Solidarias, em atividade na Comunidade do Aratu desde os primeiros meses da pandemia de covid-19 e onde os meninos passam a tarde, de segunda à sexta-feira, no contraturno da escola regular, reforçara a preferência política. “Lula com certeza. Lula com certeza. Todo mundo aqui. Renan falou que o pai dele disse brincando, que está com Bolsonaro. Renan respondeu: “Pois pegue suas coisas e vá-se embora. Você não vai morar mais aqui não, porque a gente só aceita Lula aqui. ‘Ele’ não”, relatou a também educadora do local onde o nosso encontro ocorreu.</p>



<p>Assim como os meninos, Sara queria que Lula novamente presidente para que a realidade brasileira mude. “A gente não aguenta mais sofrer. É muita fome, é muita falta na educação, é muita falta na saúde, é falta em tudo, sabe? E a gente não aguenta mais sofrer. É Lula com certeza”, enfatizou.</p>



<p>O Brasil tinha saído do Mapa da Fome, da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2014, por meio de estratégias de segurança alimentar e nutricional aplicadas desde a década de 1990. Voltou a figurar o mapa em 2015, situação agravada na pandemia de covid-19, a partir de 2020. Neste ano, o <a href="https://pesquisassan.net.br/2o-inquerito-nacional-sobre-inseguranca-alimentar-no-contexto-da-pandemia-da-covid-19-no-brasil/">Segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil</a> mostrou que 33,1 milhões de pessoas não têm garantido o que comer. Isso representa 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome. Conforme o estudo, mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com a insegurança alimentar em algum grau: leve, moderado ou grave.</p>



<p>Proposta do governo federal para o Orçamento da União em 2023, enviada ao Congresso, traz cortes de quase 15% nas despesas e investimentos. Saúde, educação, assistência social e segurança pública foram os setores mais prejudicados. O orçamento de 2023 proposto por Bolsonaro chega a cortar 97,5% dos recursos para novas creches. Só haveria dinheiro para cinco escolas. O projeto do governo prevê R$ 2,5 milhões para o próximo ano. Em 2022, foi de R$ 100 milhões. Em 2021, eram R$ 220 milhões.</p>



<p>No início do mês passado, o governo Jair Bolsonaro bloqueou R$ 2,4 bilhões do orçamento do Ministério da Educação (MEC), afetando as atividades da pasta, sobretudo de universidades e institutos federais de educação, que têm passado por enxugamentos. Todas essas medidas serão revistas neste momento de transição, garantem aliados de Lula.</p>



<p>Renan e Miguel não elaboraram ainda que vivem na Comunidade do Aratu, no bairro de Mangabeira VIII, na Zona Sul de João Pessoa, no Estado da Paraíba. Para eles, o Aratu é o Brasil. Eu acrescentaria que o Brasil de Bolsonaro, por esses meninos terem vivido a maior parte de suas primeiras infâncias durante um governo responsável pela piora das nossas desigualdades.</p>



<p>Na ocupação cuja principal via de acesso se chama Avenida Brasil e que tem a Rua Morta como uma de suas transversais, caminho sem saída onde cadáveres são emborcados, a maioria das famílias vive de reciclagem. Muitos dos moradores estão desempregados e dependem de bicos e do Auxílio Brasil, o programa eleitoreiro de transferência de Bolsonaro.</p>



<p>“A maioria recebe auxílio. Do que era Bolsa Família, agora virou Auxílio Brasil. A maioria recebe. E, assim, segurança alimentar quando numa casa tem mais de cinco pessoas vivendo com R$ 600? Tem segurança alimentar nisso? R$ 600 acho que não cobre despesa de uma pessoa vivendo sozinha, durante um mês. Imagine de cinco pessoas, seis pessoas. Tem famílias aqui que têm seis, sete pessoas dentro de casa”, observa Sara. O Ministério da Cidadania incluiu 2 milhões de famílias no Auxílio Brasil, em agosto, fazendo com que o programa chegasse a 20,2 milhões de beneficiários e atingindo, no referido mês, o maior patamar da história dos programas de transferência de renda do Governo Federal.</p>



<p>Com poucos recursos financeiros e falta de oportunidades de trabalho e de gerar renda, as famílias do Aratu dependem de projetos sociais para comer e perambulam pelas ruas da cidade para catar lixo e conseguir algum dinheiro com reciclagem. Outras recorrem à comercialização de drogas.</p>



<p>Nesse cenário de vulnerabilidades, não são incomuns situações de abuso sexual e de violência envolvendo as crianças. “Muitas crianças nossas já passaram por abuso. Muitas crianças passaram por violência. A criminalidade aqui dentro é demais, demais. Tem de tudo, entendeu? E a maioria tem envolvimento com drogas. Infelizmente. Mas é uma realidade, sabe? E, às vezes, a gente sente muita falta dos pais no cotidiano das crianças. Falta participação das famílias nas atividades da associação”, desabafa Sara.</p>



<p>Sara recebe crianças com idade a partir dos seis anos. As menores ficam em creches, como o Centro de Referência em Educação Infantil (Crei) Márcia Suênia Madruga Alves da Silva e em outra próxima da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Afonso Pereira da Silva, ambas no bairro Cidade Verde II, próximo da Ocupação Aratu. Mas quando, por algum motivo, uma das creches não tem atividade, algumas crianças como o Renan são recebidas de braços abertos.</p>



<p>“Eles são muito carentes de conversa, sabe? Eles vêm pra cá e sentem como se isso aqui fosse um espaço onde têm liberdade. Aqui, eles podem se expressar, podem ter o momento deles de lazer. Podem ter uma comida melhor, onde em casa não tem. Se não tiver lanche, a gente não tem atividade, porque muitas crianças vêm pra cá por conta da comida”, relata a educadora.</p>



<p>Para muitas crianças do Aratu, o lanche oferecido pela Associação Amigas Solidárias é a única refeição do dia. Por isso, repetem duas, três vezes, quando possível. “Eu digo: meu Deus! Esse menino vai passar mal. A gente fica com medo. Mas não fala nada e deixa. Porque eu sei que, quando ele chegar em casa, ele não vai ter nada pra comer”, afirma Sara.</p>



<p>A escola pública e gratuita mais perto da Comunidade do Aratu é a Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental em Tempo Integral Professora Ana Cristina Rolim Machado, que está superlotada. Por isso, muitas crianças têm que se deslocar bastante para estudar, alguns até à praia da Penha ou à Escola Municipal de Ensino Fundamental Índio Piragibe, a alguns quilômetros.</p>



<p>A Prefeitura Municipal de João Pessoa oferece ônibus escolar, mas sem segurança alguma. Sara critica o desleixo: “O ônibus da prefeitura vem, mas o ônibus é aquela coisa, é um caos dentro do ônibus que, às vezes, os pais mandam, mas mandam com o coração na mão, sabe? Sem segurança nenhuma. Sem segurança nenhuma. Muitas vezes não vem monitor dentro do ônibus, então as crianças ficam soltas lá sozinha”.</p>



<p>Segundo Karla Mendonça, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) que realiza pesquisa com crianças e adolescentes no Aratu, o contexto socioeconômico da comunidade é marcado por vulnerabilidades sociais causadas por desigualdades socioeconômicas que impossibilitam o acesso a direitos fundamentais na infância, legitimados em documentos protetivos como o <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm">Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)</a>, de 1990.</p>



<p>“As crianças procuram a associação com aparente ‘autonomia’, buscando acesso a encontros de cuidado e lazer que parecem apreciar, como também possibilidades de socialização. Para as famílias, principalmente as mães, frequentar tal espaço é importante como colaboração à educação das crianças, principalmente ao avaliarem que seus filhos/filhas apresentam muitas dificuldades relacionadas à alfabetização/letramento. As mães possuem ocupações diversas, nas misturas dos trabalhos domésticos, com carrinhos de reciclagem e trabalhos em casas de família como diaristas”, conta a pesquisadora.</p>



<p>Na infraestrutura da comunidade, permeiam a falta de acessos a transportes, ruas esburacadas e sem pavimentação. “A ocupação não possui unidade de saúde e escola, tendo que depender do ônibus escolar municipal para acessar a escola localizada na Penha, bem como outras unidades no bairro de Mangabeira. As violências marcam o cotidiano dessas famílias, tanto por questões da falta de acessos a direitos sociais, como as próprias ações criminais que crescem por entre os becos pela pouca “vigilância” do Estado e que limitam os moradores através do “medo” das ruas”, analisa Mendonça.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Renan-e-Miguel2-225x300.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Renan-e-Miguel2-768x1024.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Renan-e-Miguel2-768x1024.jpg" alt="Dois meninos, um negro à esquerda e outro pardo, à direita, se balançando em um balanço de madeira instalado em um terreno de areia com um muro de tijolos coberto por cimento cinza por trás, com a copa de algumas árvores aparecendo ao fundo, sob céu azul com poucas nuvens." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Miguel e Renan se divertem na Associação Amigas Solidárias. Crédito: Pedro Paz</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Direito de brilhar</strong></h2>



<p>O Brasil e, consequentemente, o mundo ideal de Miguel são representados por uma cama colorida, ilustrada no seu desenho. “Cama é boa pra deitar. E pra ficar relaxando com o celular. Na minha casa tem duas camas. Uma que é do meu quarto, outra que é do quarto da minha mãe. Durmo com meu irmão. Minha mãe fez o quarto pra quê? Pra dormir junto. Uma é pequena e a outra é grande”. Renan dorme com sua mãe. “Meu pai dormia mais minha mãe, mas ela expulsou ele de casa”.</p>



<p>Aparentemente insignificante, a cama colorida do Miguel simboliza possivelmente o direito à moradia, porque Miguel e Renan são crianças que estão crescendo em uma ocupação constantemente sob ameaça de despejo e cujas experiências familiares se assemelham às narradas em<a href="http://dpid.cidadaopg.sp.gov.br/pde/arquivos/1623677495235~Quarto%20de%20Despejo%20-%20Maria%20Carolina%20de%20Jesus.pdf.pdf"><em>Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960)</em></a>, livro autobiográfico de Carolina Maria de Jesus, onde ela relata sua vivência como moradora de favela, mãe e catadora de papel.</p>



<p>Uma das últimas intimidações que Renan, Miguel e seus pares sofreram se deu em abril de 2019, alguns meses antes da pandemia de covid-19, quando moradores da Comunidade do Aratu receberam 72 horas para saírem das suas casas, mesmo morando na localidade há quase 15 anos e as residências sendo de alvenaria. Na época, ninguém teve acesso à ordem de reintegração de posse e só tiveram conhecimento dela quando o prazo iria se expirar.</p>



<p>A Comunidade do Aratu existe porque as pessoas que vivem nela tiveram e ainda têm o direito à moradia violado pelo Estado brasileiro, embora garantido na Constituição de 1988. Atualmente, o déficit habitacional no país é estimado pela <a href="http://fjp.mg.gov.br/deficit-habitacional-no-brasil/">Fundação João Pinheiro</a> em 5,8 milhões de moradias.</p>



<p>Devido à pandemia da covid-19 e à crise econômica brasileira que se arrasta há anos, existem ainda aquelas famílias que deixaram de poder pagar aluguel ou prestação da casa própria. O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou, por maioria de votos, no último dia 5 de agosto, liminar concedida em junho, pelo ministro Luís Roberto Barroso, para suspender despejos e desocupações até esta última segunda-feira, 31 de outubro, um dia após o segundo turno das eleições.</p>



<p>De acordo com a <a href="https://www.campanhadespejozero.org/">campanha nacional #DespejoZero</a>, mais de 35.285 famílias foram despejadas no Brasil durante a pandemia de covid-19, de março de 2020 a outubro de 2022. E mais de 188.621 estão sob ameaça de remoção. O resultado deste segundo turno para o cargo de presidente renovou a esperança dessas pessoas. De gente como o Miguel, que ganhou a cama que tem de uma doação. O lugar onde ele pode se abrigar para deitar e dormir ainda não é colorido como no seu desenho, mas, agora, haverá mais chances de ser.</p>



<p>Já no Brasil e no mundo ideal do Renan, há comunidades vivendo pacificamente, sob um céu azul claro, e um sorvete gigante, que provavelmente representa a doçura que a vida necessita ter, característica presente na sobremesa gelada à base de lacticínios como leite ou nata, à qual é adicionada fruta ou outros ingredientes e sabores.</p>



<p>Os meninos gostam de consumir itens que constam na cesta básica brasileira, como feijão e arroz. Mas eles também apreciam e reivindicam o direito de desfrutar de outros alimentos. Miguel, por exemplo, suspira ao lembrar de lasanha e de bolo. “Cuscuz com ovo e um cafezinho bem quentinho”, descreve entusiasmado.</p>



<p>Renan prefere feijoada com muito bacon e arroz. “Minha mãe trabalha de cozinhar. Fazendo um monte de coisa deliciosa. E faz em casa pra mim. Ela fez macarrão com molho de tomate. Fica bem gostoso. Minha mãe faz lasanha. Faz bolo de qualquer sabor”, ostenta Renan. Eles comentam, aparentemente envergonhados, que já aconteceu de faltar comida em casa. “Faltou por que minha mãe não tinha mais”, diz Renan.</p>



<p>Evidentemente, crianças como Renan e Miguel também são alvo da publicidade desenfreada, do consumismo, sobretudo na era da rede social digital TikTok. A pesquisa <a href="https://cetic.br/pesquisa/kids-online/">Tic Kids Online Brasil</a> deste ano ressalta que nove em cada dez crianças utilizam internet no Brasil. Ao todo, são aproximadamente 22,3 milhões nessa faixa etária. O estudo indica que o acesso ainda é desigual no país e pode trazer riscos à saúde, como ansiedade, depressão e até mesmo dependência.</p>



<p>Direcionar publicidade ao público infantil, de qualquer produto ou serviço, em qualquer meio de comunicação ou espaço de convivência da criança, é considerada uma prática abusiva e, portanto, ilegal, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, lei de 1990. A gente sabe que, sobretudo nas redes sociais digitais, isso acontece. Além disso, as práticas de consumo podem definir e redefinir muitas relações sociais, provocando desejos, tensões, frustrações. Contudo, o caminho não seria educação para o consumo consciente e uso saudável de telas, tecnologias e mídias, conforme orienta a <a href="https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/uso-saudavel-de-telas-tecnologias-e-midias-nas-creches-bercarios-e-escolas/">Sociedade Brasileira de Pediatria</a>?</p>



<p>Renan se gaba ao dizer que tem um celular só seu e conta que sua mãe possui um iPhone. “Minha vó comprou lá no shopping. Jogo videogame no celular porque não tenho Playstation”. Miguel retruca e manifesta que tem um iphone também. Depois desmente e narra que um tio comprou uma piscina, igual às dos condomínios de luxo nas imediações, no litoral sul de João Pessoa.</p>



<p>“Deus me livre, não é a de plástico. É daquela que fica funda. A casa do meu tio é em um prédio. Meu tio não mora em nenhuma casa, ele mora em um apartamento. Minha mãe trabalha lá. Traz lasanha de lá. Fica lá no Cristo. E é muito longe. Trabalha de faxina, lavando. De vez em quando. Domingo. Sábado”, expõe o garoto. Na casa do Renan tem caderno, lápis, brinquedo, um monte de brinquedo, caminhonete. Na do Miguel, tinha televisão, mas seu tio mandou devolver. “A gente tinha videogame, mas só que quebrou. Era do meu tio também. A minha mãe não tem dinheiro pra comprar outro”.</p>



<p>Renan e Miguel expressam que gostam de ir ao Shopping Mangabeira, que fica perto da Comunidade do Aratu, e ao Parque da Lagoa, no Centro de João Pessoa, para brincar, mas pontuam que é preciso pagar. “Tem que comprar ingresso. Aqui [na associação] não precisa não, porque aqui a gente brinca na hora que a tia quer, não é Miguel?”, pergunta Renan, referindo-se ao balanço, cama elástica e demais brinquedos que estão disponíveis na Associação Amigas Solidárias.</p>



<p>Na procura por explicações para o impeachment de Dilma Rousseff, consumado em 31 de agosto de 2016, um dos argumentos, principalmente no espectro ideológico de esquerda, foi o de que a inclusão pelo consumo da era PT causou despolitização das classes mais pobres, assim como pode ser interpretado os discursos de Renan e de Miguel sobre consumo.</p>



<p>Baseando-se em uma pesquisa de dez anos, a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado publicou <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/14695405221086066?fbclid=IwAR0KA58we14rsDPT08e3I3_rMJnC2A0Zzygy2udfQ8dJyJvlsyCH4DDztmA">artigo</a>, mais outros pesquisadores, em abril deste ano, com uma análise sobre este debate mal resolvido no país, no <em>Journal of Consumer Culture</em>, um dos periódicos científicos de maior prestígio e impacto acerca de estudos sobre consumo.</p>



<p>Aos discutir os impactos políticos na subjetividade de pessoas pobres, provocados por políticas neoliberais como a inclusão pelo consumo no Brasil do século XXI, a pesquisa etnográfica realizada de 2009 a 2014, com novos consumidores em um bairro de baixa renda – Morro da Cruz – na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, concluiu que o consumo não necessariamente despolitiza a experiência humana, como é amplamente assumido na literatura acadêmica sobre o neoliberalismo.</p>



<p>“Em uma sociedade em que os pobres obtêm bens por meio de relações hierárquicas e servis, a possibilidade de comprar fornece uma microesfera de reconhecimento, mas não em termos de ação coletiva clássica ou até mesmo de subversão oculta. Juntamente com o impulso para uma “emergência econômica” nacional, os bens de status tornaram-se veículos de uma subjetividade emergente”, diz o resumo do trabalho, em tradução minha. Os pesquisadores conceituaram essa dinâmica como “o direito de brilhar”. Para eles, o direito de brilhar são formas sutis de autoestima de classe e racial, e empoderamento individual e interpessoal frente ao desafio interclasses, que tem relação direta com a desigualdade social brasileira.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Alimento brincante</strong></h3>



<p>Além dos 13 alimentos da cesta básica brasileira &#8211; carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo e manteiga –, de preparações mais complexas que elaboram com eles e de outros que estão fora dessa lista e que fazem os olhinhos de crianças do Aratu como Renan e Miguel brilharem, há ainda os brincantes, um deles descoberto por Karla Mendonça, que também é professora de Educação de Jovens e Adultos (EJA) em escola pública da Rede Municipal de João Pessoa.</p>



<p>Pela UFPB, Karla pesquisa especificamente as vivências cotidianas das crianças nas intimidades de suas casas e da comunidade, observando as práticas compreendidas em sentidos de &#8220;bem estar&#8221;. Dessa forma, propõe-se esboçar os movimentos da(s) infância(s) que crescem nos territórios Sul da capital paraibana.</p>



<p>O estudo começou em março de 2021, através de uma pesquisa qualitativa inspirada no método etnográfico e cartográfico por entre quatro comunidades situadas nas proximidades do litoral sul de João Pessoa (Penha, Aratu, Jacarapé, Portal do Sol).</p>



<p>Ao chegar à Associação Amigas Solidárias, na Comunidade do Aratu, para realizar uma observação participante junto às crianças que frequentam o espaço no contraturno da escola regular, uma das crianças lhe ofereceu um galhinho para que comesse. Ela não reconheceu a planta e a criança disse que era “bem bom tia”, mas não sabia nomeá-la.</p>



<p>Outras crianças se aproximaram e indicaram a árvore de seriguela, de onde a criança teria retirado o raminho. Elas diziam ser azedinho e outra revelou “que se deixasse, comia o dia inteiro”. Retiraram outro galhinho e lhe pediram para experimentar, o que fez e achou realmente azedinho. Por demonstrar apreciar o gosto, em outros encontros, foi presenteada novamente por outras crianças com o raminho de folha de seriguela.</p>



<p>“Aparentemente, as crianças apreciam o sabor e o graveto azedinho parece ser consumido como um alimento “brincante”, talvez por ser associado, por exemplo, ao consumo de doces acessíveis como pirulitos e bombons. O consumo do raminho parece também ser hábito das infâncias das gerações anteriores, de suas mães, por exemplo. Então essa coleta se movimenta por entre laços em sabores afetivos e de brincadeiras coletivas”, avalia a pesquisadora.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Siriguela-Shutterstock-300x199.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Siriguela-Shutterstock-1024x680.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Siriguela-Shutterstock-1024x680.jpg" alt="" class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para as crianças, a siriguela e seus ramos azedinhos é um alimento divetido de se comer. Crédito Shutterstock</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Na tentativa de saber se haveria alguma explicação científica para esse consumo de raminhos de seriguela, resolvi procurar a Silvanda de Melo Silva, professora titular do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFPB, em Areia, no Brejo paraibano. De acordo com ela, a cirigueleira, nomeada assim na fruticultura, é uma frutífera do gênero Spondias, assim como o cajá, umbu, umbú-cajá, cajarana, umbuguela, cajarana, entre outras espécies deste gênero.</p>



<p>Silvanda de Melo Silva explica que a cirigueleira é uma frutífera cujos ramos jovens apresentam sabor agridoce (açúcar/ácido), muito apreciado. “Na composição desses tecidos jovens, estão presentes açucares, ácidos, pectinas, celulose, vitaminas (C e do complexo B, predominantemente), compostos fenólicos, que comprovadamente promovem benefícios à saúde pela captura de radicais livres, também referido como atividade antioxidante”, afirma.</p>



<p>Segundo a cientista, os compostos antioxidantes são relatados como componentes importantes para a prevenção de doenças crônicas, como cardiovasculares e câncer. As folhas, tecidos jovens, cascas e sucos de frutos das spondias têm sido, inclusive, amplamente utilizados para fins medicinais e não medicinais.</p>



<p>“Todas as partes da árvore são importantes. Um chá de flores e folhas é útil para aliviar várias condições inflamatórias, dores de estômago e tem potencial de cicatrização de feridas”, conta a docente.</p>



<p>Silvanda de Melo Silva recupera que, por exemplo, sobre o cajá, são relatadas na literatura diversas atividades farmacológicas de folhas e caules, que incluem antibacteriana, antiviral, antimicrobiano, antimalárico, anti-helmíntico, antidiarreico, anti-inflamatório, abortivo, cicatrizante, antioxidante, entre outros. Quanto aos frutos das spondias, a coloração pode variar de verde para o amarelo (umbu) e de amarelo para alaranjado (umbu-cajá, cajá e a cajarana do Sertão, respectivamente).</p>



<p>Conforme a pesquisadora, os frutos de casca mais amarelada ou alaranjado são fontes importantes de alfa-caroteno e de beta-caroteno, carotenoides percussores da vitamina A, como o cajá e o umbu-cajá. Frutos de casca de coloração de verde para amarelo, quando maduros, como o umbu, apresentam maior aporte de flavonoides, metabólitos secundários da classe dos polifenóis, componentes de baixo peso molecular encontrados em diversas espécies vegetais</p>



<p>Os carotenoides são importantes pigmentos lipossolúveis responsáveis pelas cores laranja, amarela e vermelha presentes em bactérias, algas, fungos e vegetais. Nos organismos fotossintetizantes, participam como coadjuvantes no processo de fotossíntese e ajudam a proteger contra os possíveis danos causados pela luz.</p>



<p>“Os frutos de Spondias de casca com tons avermelhados, quando maduros (ciriguela, umbuguela), apresentam elevados conteúdos de ácido ascórbico, além de compostos fenólicos, principalmente antocianinas, como quercitrina e miricetina, compostos com reconhecido potencial antioxidante. Além disso, frutos da cirigueleira e da umbugueleira são muito saborosos. Por serem ricos em açucares solúveis e apresentarem um perfeito balanço açúcar/ácidos, sempre nos deixa com saudades do sabor e na expectativa pela próxima safra”, finaliza a explicação a cientista.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Pedagogia do coração</strong></h3>



<p>Pode-se dizer que a Associação Amigas Solidárias funciona como uma segunda casa para as crianças da Comunidade do Aratu. O trabalho começou no meio do primeiro ano da pandemia de covid-19, em 2020, quando todo mundo teve que ficar em casa e a fome aumentou no país.</p>



<p>Sara e Lili iniciaram as ações oferecendo refeições prontas e roupas para as famílias da comunidade. Às vezes, entregavam cestas básicas que conseguiam com doadores. E aí foi começando o trabalho. Especificamente, com as crianças, as atividades foram desenvolvidas um pouquinho depois, com uma colônia de férias que reuniu, de pronto, dez crianças. Naquele momento, perceberam que estavam muito defasadas com relação à educação formal.</p>



<p>“Não sabiam ler, escrever, pegar num lápis, numa tesoura. E aí despertou na gente aquela vontade. Vamos botar um reforço escolar? Vamos! E aí a gente resolveu colocar um reforço escolar!”, conta Sara. Quando abriram as matrículas, as mães se interessaram. Nas primeiras semanas, identificaram um problema pior: as crianças estavam sem ir à escola.</p>



<p>“É, estavam naquela questão remota e aí as crianças de quinto ano, sexto ano, sétimo ano, nono ano sem saber ler e escrever. A cabeça ficou fervendo. Liliane, a gente tem que fazer alguma coisa pra poder mudar essa realidade, eu disse. E aí a gente começou a fazer campanha atrás de professor, falava com amigos, postava no <a href="https://www.instagram.com/amigassolidariasaratu/">Instagram</a> que estamos precisando de voluntários”.</p>



<p>Duas professoras abraçaram a causa e ficaram durante o ano passado todinho com elas. O prédio da associação fica no quintal da casa delas. “A casa de Lili é aqui atrás e a minha aqui do outro lado. Chegamos antes da pandemia”, reitera Sara.</p>



<p>Sara e Lili não têm diploma de Ensino Superior, mas isso não é um problema para elas. “Não, formada não. Só temos a pedagogia do coração. Porque nós não somos formadas, a gente passa pras crianças o que a gente sabe, tá entendendo? Então, assim, tudo que a gente sabe, eu acho que, às vezes, eles aprendem mais do que estar numa escola com uma professora formada, porque a gente traz a vivência, a convivência familiar, sabe? O amor, o respeito. Então a gente vai além da educação em si, do saber ler e escrever”, afirma.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/paz-Lili-e-Sara-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/paz-Lili-e-Sara-1024x768.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/paz-Lili-e-Sara-1024x768.jpg" alt="" class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Lili e Sara ergueram a sede da Associação com recursos de um doador dos EUA. Crédito: Pedro Paz</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Sara foi uma criança que participou de uma associação como a que tem hoje. Ela frequentou a Casa Pequeno Davi, no bairro Baixo Roger, também em João Pessoa, só que próximo do Centro Histórico da cidade. Essa ONG existe há mais de 30 anos.</p>



<p>“Eu tive uma vivência lá, sabe? O meu primeiro emprego eu conquistei porque eu estava na casa Pequeno Davi. Eu fiz um curso de informática na época e conquistei meu primeiro emprego, sabe? Eu tive essa oportunidade que as crianças daqui estão tendo. Então eu acho que é muito mais fácil quando você conhece uma realidade e você consegue entender o que está acontecendo hoje com essas crianças. Além do amor que eu tenho, eu acho que é dom também”.</p>



<p>O edifício inacabado da Associação Amigas Solidárias foi erguido com a ajuda de um brasileiro que mora nos Estados Unidos, chamado Ademar. “Ele não conhece a gente pessoalmente, nunca veio aqui. Às vezes a gente conta e as pessoas acha que é mentira”. O doador conheceu a Sara por intermédio de um amigo dela que também tem projeto social em João Pessoa.</p>



<p>“E aí ele ligou pra mim e perguntou como era o projeto, perguntou como é que se dava as atividades, se tinha lanche, se não tinha. Eu disse que a gente faz aula de recreação, mas que a gente não tinha um espaço adequado pra poder garantir uma segurança melhor pras crianças. E aí ele disse: mas vocês têm um espaço? Tem um local onde a gente possa construir? Aí eu disse tem. Está no papel. Eu já tinha tudo, porque trabalho com CorelDraw, sabe? Design gráfico. E aí eu já tinha a planta da associação”.</p>



<p>Ademar, então, garantiu que construiria o prédio da associação. “Meu Deus do céu, eu chorei tanto nesse dia, chorei tanto, Lili também. Foi muito emocionante pra gente de saber que uma pessoa lá do outro lado do mundo, que não conhece a gente, o nosso trabalho, faria isso por nós, enquanto existem pessoas aqui que não dá esse valor, sabe?”.</p>



<p>Ademar deu dinheiro para levantar as paredes, teto e cobri-los de cimento. Foi isso que disse que faria e fez. A construção ainda está em fase de acabamento. “Porque a gente está fazendo aos poucos, entendeu? A gente, tipo eu e Liliane, a gente não trabalha. Desde quando a gente iniciou esse projeto, eu não trabalho, eu não recebo nada de doações pra mim. E a gente cata reciclagem, muita das vezes a gente catou a reciclagem pra poder botar aqui dentro do projeto e até hoje a gente cata a reciclagem”.</p>



<p>O carro de Sara, que serve ao projeto, está quebrado. “Tá pra sair da oficina, graças a Deus. Deus mandou pessoas pra nos ajudar, sabe? Mas foi bem assim, a dificuldade foi tremenda, três semanas já na oficina e a gente sem carro, perdeu de pegar doações, porque tava sem carro, sabe? Hoje a gente tava sem lanche para as crianças. Mas aí o telefone tocou, vem pegar a banana e a laranja aqui. A gente foi de moto mesmo e já garantiu o lanche das crianças. Então é assim, sabe? É acreditando em Deus que a gente tá fazendo o bem”.</p>



<p>Para Sara, quando ela morrer, levará nada desta vida. Dela ficarão as lembranças das pessoas que ajudou. Ela ainda não tem filhos. Lili tem Victor Hugo e um casal de gêmeos. São mais de 50 inscritos na associação. No horário da manhã, Sara e Lili correm atrás de doações, fazem reuniões. Ainda estão em processo de legalização. Oferecem aulas de capoeira, de karatê, de inglês. No primeiro semestre deste ano, foi ofertada oficina de percussão de maracatu, em parceria com a Associação Maracatu Nação Pé de Elefante, cuja sede fica no Varadouro, no centro histórico de João Pessoa.</p>



<p>Antes de seguir para o Aratu, Sara morava com a mãe. A Lili, de aluguel. E foi no Aratu que viram uma oportunidade de estar em um canto fixo, sem pagar aluguel. “Aqui é uma ocupação. A gente não paga água, nem luz, é tudo clandestino. A gente trabalhava com festa, eu e Lili. E aí na pandemia a gente ficou desempregada. Entendeu?”. Sara diz que ela e Lili são quase irmãs de almas. Se conhecem há mais de oito anos. Sara morou um tempinho na casa de Lili, assim que se separou do ex-marido.</p>



<p>A chegada de moradores da Comunidade de Dubai, no final do ano passado, aumentou a tensão na localidade. “Não mudou nada, pelo contrário. E eu acho que as pessoas todas as noites vão dormir com medo de acontecer a mesma coisa que aconteceu com Dubai. Por que qual a segurança que a gente tem aqui? Nenhuma. A gente não tem regularização fundiária. Agora a segurança que a gente tem, que eu e Lili acredita, primeiramente Deus, e a gente acredita que a associação ela tem um peso aqui dentro”.</p>



<p>Na concepção de Sara, nenhum juiz terá coragem de mandar derrubar uma associação que está atendendo mais de cinquenta crianças. “Então a gente sabe que a gente faz um peso aqui dentro. A gente tem um peso dentro da comunidade. Mas isso não quer dizer que não corre o risco de derrubar”.</p>



<p>Segundo Sara, o vice-prefeito de João Pessoa, Léo Bezerra, já esteve na comunidade. A vice-governadora, “doutora Lígia”, como denomina, também, assim como “o deputado estadual doutor Damião”. “Veio aqui, tiraram fotos, conheceram, perguntaram comé que a gente mantém isso aqui e voltou. E na época das eleições veio muitos. Muitos. Muitos, muitos, muitos. Ah, porque aqui é uma associação, aí vem tirar foto e vai embora”.</p>



<p>A Comunidade do Dubai foi desocupada em novembro do ano passado, após decisão judicial. Mais de 400 famílias ocupavam o local, que fica em uma área de preservação ambiental, com 15 hectares de Mata Atlântica, na mesma região do Aratu. Muitos dos moradores de Dubai foram para a Comunidade do Aratu. Eles são migrantes na própria cidade.</p>



<p>“A comunidade do Aratu é antigona, é enorme. Se você for andar por aqui, você vai dizer meu Deus do céu isso aqui é Aratu, isso aqui é Aratu, isso aqui é Aratu, é infinito assim, sabe. A Comunidade do Aratu é praticamente um bairro. Quando a gente chegou aqui nessa área onde a gente está, a primeira casa de alvenaria que foi construída foi a casa de Lili. O resto era tudo barraco por aqui”.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Construção civil ameaça</strong></h4>



<p>A região onde é localizada a Ocupação do Aratu é cobiçada pela construção civil, especialmente pelas empresas do Grupo Holanda e pela Construtora Alliance.</p>



<p>A área foi adquirida pelo Governo do Estado da Paraíba. Em 1960, foram construídos conjuntos habitacionais. E meados dos anos 1970 e 1980, ocorreu o planejamento turístico para esse local, inicialmente como Projeto Costa do Sol e, em seguida, ficou conhecido como Polo Turístico Cabo Branco. Essa área liga João Pessoa ao Município do Conde, formando uma Região Metropolitana destinada, principalmente, a empreendimentos de veraneio de luxo.</p>



<p>Geralmente, a preservação e conservação do meio ambiente são deixadas de lado devido aos interesses privados, com a desculpa de que movimentará a economia e criará empregos. Enriquecer empresários parece mais importante do que garantir o direto à moradia de cidadãos como os da Comunidade do Aratu, que foram obrigados a experimentar uma ocupação irregular para terem onde morar, por conta de um defeito de cor, como diria a escritora Ana Maria Gonçalves, em um contexto de necropolítica, que faz uso do poder social e político para decretar como algumas pessoas podem viver e como outras devem morrer.</p>



<p>Um indício recente da provável relação promíscua entre Estado e a iniciativa privada é o fato de o empresário Antônio Aldenor de Holanda ter recebido, na penúltima quarta-feira (26), o título de cidadania pessoense durante sessão especial da Câmara Municipal de João Pessoa, realizada na Chácara Paraíso, na avenida Beira Rio, em João Pessoa.</p>



<p>No mesmo dia 26 de outubro, o blog Turismo e Foco noticiou que mais três empreendimentos hoteleiros devem ser anunciados em breve, para se instalar no Polo Turístico Cabo Branco. Segundo o site, “a partir do início das obras de dois resorts no Polo Turístico Cabo Branco – Ocean Palace Jampa Eco Beach Resort e Amado Bio &amp; Spa Hotel – haverá um incremento de mais de 1,7 mil apartamentos, porém, após a conclusão de todo o projeto, a capital paraibana passará a contar com a oferta de mais de 14 mil apartamentos”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Polo-Cabo-Branco-300x125.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Polo-Cabo-Branco.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/11/Paz-Polo-Cabo-Branco.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pólo Cabo Branco, litoral sul de João Pessoa. Crédito: Governo da Paraíba</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Os três empreendimentos hoteleiros terão aporte financeiro de R$ 450 milhões e prometem geração de 3,4 mil empregos diretos a partir do início da operação, de acordo com o site. Dois hotéis serão construídos próximos a Jacarapé e o terceiro do lado oposto, ambos, não se sabe ainda se nas dependências ou no entorno do Parque Estadual Jacarapé, situado na entre o rio Jacarapé e a Praia do Sol, justamente no Litoral Sul de João Pessoa. Serão abertos 1,2 mil apartamentos.</p>



<p>Ainda conforme o blog Turismo e foco, os nomes dos empreendimentos e das empresas investidoras estão em sigilo. Mas já há as informações de que somente um dos projetos abrirá 600 unidades habitacionais de alto padrão e investimento superior a R$ 200 milhões. “Todos os projetos já estão em stand by para serem apresentados ao trade turístico paraibano, o que deve ocorrer num prazo máximo de 30 dias. Um dos grupos queria acelerar essa divulgação, mas os outros dois preferiram aguardar mais um pouco”, diz o site.</p>



<p>Essas foram as informações mais atualizadas que identifiquei sobre o avanço da construção civil na área da Ocupação do Aratu, no Litoral Sul de João Pessoa. O atual governador João Azevêdo (PSB) se reelegeu. Seu partido tem tradição de ceder aos interesses da construção civil, a exemplo do que aconteceu anos atrás, no Recife, em Pernambuco, Estado vizinho, acerca das tentativas de vender o Cais José Estelita, na Ilha de Antônio Vaz, no coração do Recife, a construtoras.</p>



<p>Apesar da eleição do Lula renovar a esperança de crianças como Renan e Miguel, há certo consenso no campo progressista de que a luta continua, porque o bolsonarismo não parece ser um movimento que vai se esfarelar de uma hora para outra. A diferença é que, agora, haverá mais possibilidades de diálogo com o poder central. Na esfera do meio ambiente, são positivos, recentemente, o comprometimento do petista com carta pró-meio ambiente da Marina Silva, condição da ex-ministra para apoiar sua candidatura, e a confirmação de sua participação na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022, a COP27, que acontecerá de 6 a 18 de novembro, em Sharm El Sheikh, no Egito.</p>



<p><strong>*Pedro Paz é jornalista e doutorando em Antropologia pela UFPB e produziu esta reportagem especial com uma bolsa da Formação “Primeira infância e a cobertura das eleições 2022”, uma parceria das organizações Nós, mulheres da Periferia, Alma Preta, Amazônia Real, Marco Zero e Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.</strong></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/eleicao-de-lula-renova-esperanca-de-renan-e-miguel-da-ocupacao-aratu-em-joao-pessoa/">Eleição de Lula renova esperança de Renan e Miguel, da ocupação Aratu, em João Pessoa</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Tragédia humanitária com impacto a partir da gestação</title>
		<link>https://marcozero.org/tragedia-humanitaria-com-impacto-a-partir-da-gestacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Sep 2022 18:42:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
		<category><![CDATA[gravidez]]></category>
		<category><![CDATA[insegurança alimentar]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Infância]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=50780</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Verônica Almeida* O aumento da pobreza e a consequente insegurança alimentar &#8211; que vai da incerteza sobre ter o alimento ou redução na qualidade e variedade (insegurança leve), diminuição da quantidade de comida por falta de condições em obtê-la (insegurança moderada) até passar fome (insegurança grave) &#8211; afetam em cheio da gestação ao desenvolvimento [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tragedia-humanitaria-com-impacto-a-partir-da-gestacao/">Tragédia humanitária com impacto a partir da gestação</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Verônica Almeida</strong>*</p>



<p>O aumento da pobreza e a consequente insegurança alimentar &#8211; que vai da incerteza sobre ter o alimento ou redução na qualidade e variedade (insegurança leve), diminuição da quantidade de comida por falta de condições em obtê-la (insegurança moderada) até passar fome (insegurança grave) &#8211; afetam em cheio da gestação ao desenvolvimento infantil, observam médicos, nutricionistas, epidemiologistas e demais estudiosos da saúde. O agravamento das desigualdades sociais e as vulnerabilidades associadas são temidos e já percebidos de alguma forma no SUS.</p>



<p>“A miséria e a volta do Brasil ao Mapa da Fome rebatem no nosso cotidiano nas ruas, praças, semáforos e, claro, nas unidades de saúde”, diz Carmen Albuquerque, assistente social no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Segundo ela, “estamos diante de uma tragédia humanitária, com a pobreza e a fome piorando indicadores de adoecimento e mortalidade nas atuais e futuras gerações”.</p>



<p>Carmem chama a atenção para as crianças sobreviventes. “Submetidas à fome ou a outros níveis de insegurança, marcadas desde já, comprometendo seu crescimento e desenvolvimento físico, cognitivo e emocional ao longo da vida”. Na rotina de acolhimento às gestantes e parturientes do HC, a assistente social tem feito cada vez mais encaminhamentos aos Centros de Referência em Assistência Social dos municípios, na tentativa de inclusão de mais mulheres em programas de apoio.</p>



<p>A colega Ana Burle, nutricionista também no HC da UFPE, lembra a cruel realidade das mulheres que passam fome e continuam amamentando. “Se uma mãe for desnutrida, fica mais depauperada, pois o aleitamento vai exigir das reservas já escassas do organismo.” O problema de desnutrição mais visto no pré-natal, segundo ela, são mães com anemia. “Fazemos o uso de sulfato ferroso e do ácido fólico pra impedir que o tubo neural do feto venha a ter formação inadequada”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sequelas irreversíveis</strong></h2>



<p>O pediatra Ruben Maggi, do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), com mais de 30 anos de experiência no tratamento de crianças desnutridas em Pernambuco e em outros estados, não tem dúvidas do quanto o cenário atual penaliza gestantes e bebês. “As crianças com menos de 5 anos estão em plena fase de desenvolvimento. Os bebês habitualmente triplicam de peso no seu primeiro ano de vida e continuam a crescer bastante”, explica. Situação de fome e desnutrição nessa idade, sobretudo em menores de 2 anos, gera, segundo o médico, “sequelas às vezes irreversíveis do ponto de vista do cérebro e do desenvolvimento infantil, associado a outras doenças”. Em comunidades indígenas, mais desprotegidas, o problema pode ainda ser maior na opinião de Maggi</p>



<p>Crianças em situação de pobreza, fome ou desnutrição são propícias a doenças infecciosas, tais como diarreias e pneumonias. Além disso há as chamadas mortes perinatais, fruto de gestações não planejadas que não tiveram acompanhamento de qualidade no pré-natal, explica o médico. Ele avalia que nas décadas de 2000 e de 2010 houve melhora significativa da desnutrição infantil no Brasil, em razão da cobertura de pré-natal e de vacinas, atenção básica de saúde em comunidades mais distantes, implantação do Programa Mais Médicos, inicialmente com a contribuição de médicos cubanos. “Essa experiência pioneira melhorou significativamente todos os indicadores”, diz, referindo-se ao Mais Médicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Mais doenças infecciosas</strong></h2>



<p>O temor do retorno de doenças infecciosas em proporções maiores entre a população infantil também preocupa médicos que acompanham por décadas as consequências da desigualdade social na saúde de crianças. Cleusa Lapa, cardiologista do Imip, e o professor aposentado de Cardiologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Lurildo Saraiva, uma referência nos estudos brasileiros sobre febre reumática, alertam para a associação entre pobreza e essa doença negligenciada, que nunca deixou de acometer populações pobres. “Essa associação é histórica. A febre reumática é considerada um padrão de injustiça social e tende a aumentar”, diz Cleusa, considerando o retorno do Brasil ao Mapa da Fome.</p>



<p>Saraiva, que atuou na década de 1970 no Hospital Barão de Lucena, no Recife, lembra o quanto ficou espantado, na era do “mentiroso milagre econômico, com exclusão dos mais humildes”, diante da “incidência de doentes e da mortalidade por cardiopatia valvar reumática, chegando a ver duas meninas mortas, coisa quase extinta em literatura médica na época”. Causada pela bactéria estreptococos, que entra no organismo a partir de uma infecção na garganta, a febre reumática pode danificar válvulas do coração, matando ou deixando o paciente doente para o resto da vida. Sua frequência é comum entre pessoas que vivem em locais úmidos, aglomerados e sem saneamento básico. Ao longo da carreira e até recentemente, antes de se aposentar das aulas no curso médico, Lurildo Saraiva continuava assistindo casos de febre reumática entre crianças e jovens. Publicou o livro <em>Miséria, pobreza e febre reumática</em>, narrando as condições de vida de pacientes que recebia no ambulatório.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Renda e atenção à saúde nas comunidades</strong></h2>



<p>Ruben Maggi observa que “as crianças nascem pobres porque nascem em famílias pobres, lares sem emprego”. Para ele, é fundamental que os governantes ofereçam mais do que um auxílio temporário, pois os valores não garantem o básico. “Precisa gerar empregos, para que a criança nasça numa família com estrutura socioeconômica favorável”. Também defende recuperar conquistas do passado.</p>



<p>“Nas décadas de 2000 e de 2010 tínhamos cobertura vacinal superior a 95%. De lá para cá, por uma série de circunstâncias, e com a pandemia de Covid-19, a cobertura foi comprometida. Em alguns territórios chegamos a ter um terço da população sem a proteção de vacinas, isso é preocupante”, afirma o pediatra, lembrando a reintrodução recente do sarampo no país com a entrada de migrantes desprotegidos contra a doença e falhas na cobertura vacinal.</p>



<p>Garantir uma atenção básica de qualidade no SUS, com cobertura vacinal, acompanhar o crescimento da criança pelo Saúde da Família, reforçar a estratégia, corrigir falhas, garantir uma boa alimentação, estimular aleitamento materno e criar programas de geração de renda que não deixem as famílias mais vulneráveis dependentes de eventuais auxílios emergenciais são recomendações de Maggi para proteger a infância.</p>



<p><strong>LEIA MAIS</strong></p>



<p><a href="https://marcozero.org/primeira-infancia-ameacada-pelo-aumento-da-pobreza-e-da-fome-no-norte-e-nordeste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Primeira infância ameaçada pelo aumento da pobreza e da fome no Norte e Nordeste</strong></a></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/pobreza-como-causa-e-complicador/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pobreza como causa e complicador: prematuridade e bebês de baixo peso</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/reducao-da-mortalidade-infantil-desacelera/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Redução da mortalidade infantil desacelera</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/estado-nutricional-era-preocupante-em-pernambuco-mesmo-antes-da-pandemia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estado nutricional era preocupante em Pernambuco mesmo antes da pandemia</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/norte-e-nordeste-sofrem-mais-fortemente-os-efeitos-das-desigualdades-existentes-no-pais-diz-economista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país“, diz economista</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/sem-creche-maesdeixam-de-trabalhar-e-criancas-tornam-se-mais-vulneraveis/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sem creche, mães deixam de trabalhar e crianças tornam-se mais vulneráveis</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/prefeityura-alega-queconstruiu-2-mil-novas-vagas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Prefeitura do Recife alega que abriu 2 mil novas vagas em creches e quer chegar a 7 mil</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/suplementacao-de-ferro-e-vitamina-para-criancas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Suplementação de ferro e vitamina para crianças</a></strong></p>



<p><a href="https://marcozero.org/desenvolvimento-na-primeira-infancia-e-tema-de-pesquisa-nacional/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Desenvolvimento na Primeira Infância é alvo de pesquisa nacional</strong></a></p>



<p>* <strong><em>Este conteúdo integra a série Eleições 2022: Escolha pelas Mulheres e pelas Crianças. Uma ação do Nós, Mulheres da Periferia, Alma Preta Jornalismo, Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo, apoiada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><p><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">&nbsp;página de doação</a><em>&nbsp;ou, se preferir, usar nosso&nbsp;</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></p></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tragedia-humanitaria-com-impacto-a-partir-da-gestacao/">Tragédia humanitária com impacto a partir da gestação</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>“Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país“, diz economista</title>
		<link>https://marcozero.org/norte-e-nordeste-sofrem-mais-fortemente-os-efeitos-das-desigualdades-existentes-no-pais-diz-economista/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Sep 2022 18:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
		<category><![CDATA[programas sociais]]></category>
		<category><![CDATA[segurança alimentar]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=50807</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Verônica Almeida* O economista Francisco Menezes, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, avalia, nessa entrevista a Marco Zero Conteúdo, por que 58% dos brasileiros estão vivendo com algum grau de insegurança alimentar e como a desigualdade que se perpetua historicamente no Brasil encontrou acolhimento no desmonte de programas criados ao longo [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/norte-e-nordeste-sofrem-mais-fortemente-os-efeitos-das-desigualdades-existentes-no-pais-diz-economista/">“Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país“, diz economista</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Verônica Almeida</strong>*</p>



<p>O economista Francisco Menezes, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, avalia, nessa entrevista a Marco Zero Conteúdo, por que 58% dos brasileiros estão vivendo com algum grau de insegurança alimentar e como a desigualdade que se perpetua historicamente no Brasil encontrou acolhimento no desmonte de programas criados ao longo dos anos. Ele atualmente é analista de políticas púbicas na organização ActionAid, que integra a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), responsável pelo 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, divulgado em junho desse ano, mostrando avanço da fome entre as famílias.</p>



<p><strong>MZ – A recente pesquisa divulgada pela Rede Penssan aponta que voltamos à década de 1990 em matéria de fome, com um aumento de 60% em relação aos últimos quatro anos de pessoas vivendo algum grau de insegurança alimentar. Como os 125,2 milhões de brasileiros (58%) e os 15% passando fome foram parar nessa situação?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; É importante lembrar que a pesquisa realizada pelo IBGE, utilizando a mesma metodologia adotada pela Rede Penssan, mostrou que em 2013 eram 22,9% dos brasileiros em insegurança alimentar, ou seja, bem menos da metade dessa proporção e que 4,2% passavam fome. Naquele momento as Nações Unidas consideraram o Brasil fora do Mapa da Fome. O que causou tamanho retrocesso? Certamente as grandes tragédias não têm nunca uma única causa. Não é correto atribuir exclusivamente à crise econômica ou à pandemia a responsabilidade sobre onde chegamos. Foram feitas escolhas políticas, que prevaleceram com a crise e durante a pandemia e que determinaram os resultados agora constatados pela pesquisa. Tais escolhas geraram desemprego, forte empobrecimento da população e o desmonte de políticas públicas, incluindo as de segurança alimentar. Isso começa em 2016 e se intensifica sobremaneira na vigência do atual governo. É evidente que a pandemia aguçou esse processo, mas também por conta da forma como foi enfrentada.</p>



<p><strong>MZ &#8211; Por que sempre o Norte e o Nordeste se destacam negativamente?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; A insegurança alimentar, sobretudo em suas modalidades moderada e grave, está intimamente relacionada com a pobreza e a extrema pobreza. As regiões Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país, concentrando a pobreza. Com as escolhas políticas aqui mencionadas, esse quadro se agravou. Assinale-se que no caso da Amazônia não é de menor importância a política anti-ambiental que vem sendo praticada, criando dificuldades crescentes para a produção da pequena agricultura. E no Nordeste, a falta de prioridade para a população pobre da região, supostamente por razões políticas.</p>



<p><strong>MZ &#8211; É possível fazer um recorte por Estado nesse inquérito? Qual seria a situação de Pernambuco?</strong></p>



<p>O inquérito fez um recorte por estado e, em breve, será lançado um suplemento específico a respeito.</p>



<p><strong>MZ &#8211; O senhor presidiu o Consea. Que falta o Conselho fez e faz num momento como esse?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES </strong>&#8211; Faz muita falta. O Consea foi responsável pela criação ou avanço de algumas das principais políticas de segurança alimentar que o país estabeleceu entre 2003 e 2015. Na sua relação com os Conseas estaduais captava a realidade vivida nos diferentes territórios, encontrando denominadores comuns para as políticas públicas. Mas não acredito que fosse possível sua atuação no contexto de um governo que despreza a participação social.</p>



<p><strong>MZ &#8211; Segundo o Inquérito da Rede Penssan, a fome atinge principalmente famílias formadas por mulheres e crianças, pretas e pardas, sem acesso à água e emprego e curiosamente do campo, onde são gerados alimentos. Por quê?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; Porque a fome é uma das manifestações mais explícitas das desigualdades. Só poderá ser eliminada, de fato, com radical redução dessas desigualdades e, muito, importante, com ampla participação de representação de movimentos desses grupos sociais na definição das políticas voltadas para seu atendimento.</p>



<p><strong>MZ &#8211; Que políticas de Estado precisam ser urgentemente retomadas no Brasil antes que as novas gerações de crianças morram de fome?</strong></p>



<p><strong>FRANCISCO MENEZES</strong> &#8211; O enfrentamento da fome exige medidas urgentes com capacidade de trazerem resultados imediatos, ao lado daquelas que propiciem mudanças estruturais para de fato eliminar de forma definitiva a fome. A transferência de renda oferece resultados muito rápidos para o acesso aos alimentos. No quadro atual precisa-se substituir o Auxílio Brasil, que é um programa com muitos problemas de concepção por algo semelhante ao que era o Bolsa Família, mas com os valores da linha de ingresso e do repasse corrigidos acentuadamente. Outro programa de imediato impacto é o da Alimentação Escolar, que atende aproximadamente 41 milhões de alunos, com repercussões muito positivas para eles e, também suas famílias, que conseguem reduzir o custo da alimentação no domicílio. Além do que representa de mercado para a Agricultura Familiar e camponesa. Para este, é necessária uma correção significativa do per capita repassado pelo governo federal a municípios e estados. Vale dizer que a fome que hoje atinge a população mais jovem traz consequências no presente, mas também severos comprometimentos físicos e cognitivos dessa geração para o futuro.</p>



<p><strong>LEIA MAIS:</strong></p>



<p><a href="https://marcozero.org/primeira-infancia-ameacada-pelo-aumento-da-pobreza-e-da-fome-no-norte-e-nordeste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Primeira infância ameaçada pelo aumento da pobreza e da fome no Norte e Nordeste</strong></a></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/tragedia-humanitaria-com-impacto-a-partir-da-gestacao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Tragédia humanitária com impacto a partir da gestação</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/pobreza-como-causa-e-complicador/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pobreza como causa e complicador: prematuridade e bebês de baixo peso</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/reducao-da-mortalidade-infantil-desacelera/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Redução da mortalidade infantil desacelera</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/estado-nutricional-era-preocupante-em-pernambuco-mesmo-antes-da-pandemia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estado nutricional era preocupante em Pernambuco mesmo antes da pandemia</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/sem-creche-maesdeixam-de-trabalhar-e-criancas-tornam-se-mais-vulneraveis/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sem creche, mães deixam de trabalhar e crianças tornam-se mais vulneráveis</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/prefeityura-alega-queconstruiu-2-mil-novas-vagas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Prefeitura do Recife alega que abriu 2 mil novas vagas em creches e quer chegar a 7 mil</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://marcozero.org/suplementacao-de-ferro-e-vitamina-para-criancas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Suplementação de ferro e vitamina para crianças</a></strong></p>



<p><a href="https://marcozero.org/desenvolvimento-na-primeira-infancia-e-tema-de-pesquisa-nacional/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>Desenvolvimento na Primeira Infância é alvo de pesquisa nacional</strong></a></p>



<p>* <strong><em>Este conteúdo integra a série Eleições 2022: Escolha pelas Mulheres e pelas Crianças. Uma ação do Nós, Mulheres da Periferia, Alma Preta Jornalismo, Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo, apoiada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal</em></strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><p><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p><p><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></p></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/norte-e-nordeste-sofrem-mais-fortemente-os-efeitos-das-desigualdades-existentes-no-pais-diz-economista/">“Norte e Nordeste sofrem mais fortemente os efeitos das desigualdades existentes no país“, diz economista</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Renda básica, salário mínimo estadual e ações afirmativas: três medidas possíveis para reduzir as desigualdades em Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/renda-basica-salario-minimo-estadual-e-acoes-afirmativas-tres-medidas-possiveis-para-reduzir-as-desigualdades-em-pernambuco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 May 2022 19:38:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[desemprego]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
		<category><![CDATA[Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[renda basica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=47438</guid>

					<description><![CDATA[<p>por Tiago Paraíba* É bastante perceptível o aumento da fome e da pobreza nos últimos anos no Brasil. Andarpelas ruas de qualquer cidade brasileira é suficiente para perceber o crescimento do número de pessoas em situação de rua ou do número de favelas. Uma ida ao supermercado também é suficiente para perceber o quanto as [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/renda-basica-salario-minimo-estadual-e-acoes-afirmativas-tres-medidas-possiveis-para-reduzir-as-desigualdades-em-pernambuco/">Renda básica, salário mínimo estadual e ações afirmativas: três medidas possíveis para reduzir as desigualdades em Pernambuco</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Tiago Paraíba*</strong></p>



<p>É bastante perceptível o aumento da fome e da pobreza nos últimos anos no Brasil. Andar<br>pelas ruas de qualquer cidade brasileira é suficiente para perceber o crescimento do número de pessoas em situação de rua ou do número de favelas. Uma ida ao supermercado também é suficiente para perceber o quanto as coisas têm aumentado e que está cada vez mais difícil comprar o básico. Desde o golpe de 2016, a vida da população brasileira tem piorado e piorou de forma ainda mais dramática depois da eleição de Bolsonaro em 2018.</p>



<p>Todo trabalhador e toda trabalhadora brasileira sabem que seu salário é capaz de comprar cada vez menos produtos, e, assim, se vê cada vez mais obrigado a substituições. Em razão disso, tem se tornado comum o/a trabalhador/a cortar itens essenciais da cesta básica, caracterizando a chamada insegurança alimentar, que ocorre justamente quando a falta de dinheiro impede as pessoas de terem acesso a uma alimentação adequada para satisfazer suas necessidades, seja em termos de quantidade, qualidade ou ambos.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A volta da fome</h2>



<p>A insegurança alimentar hoje já atinge mais da metade da população brasileira. Segundo dados da da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (<a href="https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/04/pessoas-com-fome-19-milhoes-inseguranca-alimentar-dispara-no-brasil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rede Penssan</a>), ao final de 2020, 116,8 milhões de brasileiros e brasileiras conviviam com alguma forma de insegurança alimentar, o que equivale dizer que 55,2% dos lares brasileiros estavam nesta situação. Em 2018, esse percentual era 36,7%.</p>



<p>Desse total, quase 20 milhões viviam uma situação ainda pior e passavam fome. Isso significa que 19,1 milhões de brasileiros/as, quase 10% de toda a população, não consegue se alimentar. Números que fizeram o Brasil voltar ao Mapa da Fome da ONU.</p>



<p>Além da fome, o empobrecimento geral de nossa população também é perceptível e sentido por todas e todos. <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2022/03/4994327-renda-do-brasileiro-caiu-97-em-um-ano.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Segundo dados da PNAD do IBGE</a>, apenas entre janeiro de 2021 e janeiro de 2022 a renda média do trabalhador/a brasileiro/a caiu 9,7%.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O aumento da pobreza e das desigualdades sociais</h3>



<p>Para se ter ideia do tamanho do empobrecimento da população brasileira a renda média das famílias brasileiras, em janeiro de 2013, era de R$ 2.558,00. Em janeiro de 2022, ela foi registrada em R$ 2.489,00. Ou seja, mesmo em valores brutos, o trabalhador e a trabalhadora brasileiros empobreceram consideravelmente nesse período de quase uma década. Se considerada a inflação do período, esse empobrecimento é muito maior.</p>



<p>Ainda mais alarmante é a situação dos 40% mais pobres da população brasileira, que, segundo o <a href="https://jc.ne10.uol.com.br/economia/2022/04/14989939-pobreza-grande-recife-tem-40-da- populacao-sobrevivendo-com-rs-275-per-capita.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Boletim Desigualdades nas Metrópoles</a>, vivem com uma renda média per capita de apenas 239 reais. Segundo a mesma pesquisa, o Grande Recife é a região metropolitana do país onde os pobres são<br>mais pobres. Os 40% mais pobres da população vivem com uma renda média per capita de R$ 104,00;<br>essa renda era de R$ 155,00 em 2019.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O desemprego</h3>



<p>O aumento da pobreza e da fome tem relação direta com o desemprego. O Brasil encerrou 2021 com<br><a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencianoticias/ 2012-agencia-de-noticias/noticias/33041-desemprego-cai-para-11-1-no-quarto-trimestre-etaxa- media-anual-e-de-13-2" target="_blank" rel="noreferrer noopener">taxa média anual de desemprego em 13,2%</a>, o que equivale a 13,9 milhões de pessoas desempregadas. Como<br>comparação, <a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2016/03/taxa-media-de-desemprego-ficou-em-85-em-2015- diz-ibge.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em 2015, último ano antes do golpe</a>, a taxa média anual de desemprego foi de 8,5%. Depois do golpe, permaneceu sempre na casa de dois dígitos.</p>



<p><a href="https://jc.ne10.uol.com.br/economia/2022/02/14951807-pernambuco-liderataxa- de-desemprego-do-pais-com-maior-indice-desde-2012.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Em Pernambuco, o resultado foi ainda pior</a>. O estado fechou o ano de 2021 com 19,9% de taxa média<br>anual de desemprego. Assim, o estado terminou o ano passado com o pior índice de desemprego<br>médio anual do Brasil. Além do alto índice de desemprego, Pernambuco também registrou uma taxa de informalidade em 2021 de 51,1% . Ou seja, mais da metade das pessoas que conseguiram trabalhar no ano de<br>2021 tiveram que recorrer à informalidade, índice também <a href="https://www.redebrasilatual.com.br/economia/2022/02/brasil-2021-mais-informalidade-quedarecorde- renda/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">acima da média nacional, que foi de 40,1%</a>.</p>



<p>Todos esses números comprovam o que o PSOL, demais partidos de esquerda e movimentos sociais<br>vêm denunciando há muito tempo: o golpe de 2016 tinha o objetivo de destruir direitos e serviu para<br>piorar as condições de vida da classe trabalhadora. A eleição de Bolsonaro veio para aprofundar ainda<br>mais tudo isso.</p>



<p>Ao mesmo tempo em que piorou as condições de vida da população mais pobre, o governo Bolsonaro<br>contribuiu para que os ricos ficassem ainda mais ricos. Prova disso é que só em 2021, enquanto a<br>fome e a miséria explodiam, <a href="https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/08/27/40-novos-bilionarios-brasileirosforbes. htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Brasil ganhou 42 novos bilionários</a>. A concentração de renda aumentou durante o governo Bolsonaro. Em 2020, o 1% mais rico da população concentrou 49,6% da renda nacional. Em 2019 esse mesmo <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/business/desigualdade-no-brasil-cresceu-de-novo-em-2020-efoi- a-pior-em-duas-decadas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">1% concentrava 46,9% da renda</a>.</p>



<p>Em Pernambuco, como os dados acima demonstram, as condições de vida da população mais pobre<br>também pioraram durante o governo Paulo Câmara (PSB). O estado regrediu nesses últimos anos.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Renda básica</h3>



<p>Para acabar com a fome e reduzir as desigualdades sociais no Brasil e em Pernambuco, é necessário<br>retomar o investimento público com a finalidade de gerar emprego e renda para a população, além de<br>fortalecer as políticas sociais.</p>



<p>Neste sentido, o PSOL e diversos movimentos sociais vêm defendendo a criação de uma renda básica<br>nacional para garantir a toda a população o direito à segurança alimentar e outras necessidades básicas. A experiência do auxílio emergencial provou que isso é possível, e, ao contrário do que diz o discurso oficial do governo, não falta dinheiro.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/05/TiagoPBPSOL-300x200.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/05/TiagoPBPSOL-1024x682.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/05/TiagoPBPSOL-1024x682.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" width="357">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Tiago Paraíba. Crédito: Tom Cabral</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>É possível e necessário também criar uma renda básica estadual em Pernambuco que sirva de complemento à nacional, a exemplo do modelo de transferência de renda adotado pela Prefeitura de Belém/PA, administrada pelo PSOL, que garante um auxílio de até 450,00 para as famílias que vivem em extrema pobreza. Os atuais indicadores sociais desastrosos de Pernambuco exigem que o governo estadual também aja nesse sentido.</p>



<p>As experiências das políticas sociais no país nas últimas décadas, especialmente do Bolsa Família, comprovam que este tipo de política pública, além de possuir eficácia no combate às desigualdades sociais, é capaz também de alavancar o desenvolvimento econômico e possui efeito multiplicador na geração de renda e emprego. A recuperação do poder aquisitivo das famílias beneficiadas por esse tipo de programa faz girar a economia local, criando o efeito de um círculo virtuoso de geração de emprego e renda.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Salário mínimo estadual</h3>



<p>A Lei Complementar 103/2000 autorizou os Estados e o Distrito Federal a implementarem pisos salariais regionais acima do salário mínimo nacional. Atualmente, somente RJ, SP, RS, SC e PR adotam esse modelo e conseguem garantir maiores reajustes aos trabalhadores e trabalhadoras da iniciativa privada que não possuem pisos definidos em acordos ou convenções coletivas.</p>



<p>Diferentemente da renda básica, que se destina aos mais necessitados, o salário mínimo estadual tem como objetivo reduzir as desigualdades das categorias profissionais que enfrentam dificuldades de organização no mundo sindical, a exemplo das empregadas domésticas, e que pode representar mais uma medida a ser adotada por Pernambuco na recomposição da renda de parcela importante da população.</p>



<p>Em 2022, por exemplo, o Estado do Paraná reajustou os salários mínimos desses setores para: a) R$ 1.617,00 (faixa I &#8211; trabalhadores agropecuários, florestais e da pesca); b) R$ 1.680,80 (faixa II &#8211; trabalhadores de serviços administrativos, vendedores do comércio, reparação e manutenção; c) R$ 1.738,00 (faixa III &#8211; trabalhadores da produção de bens e serviços industriais); e d) de R$ 1.870,00 (faixa IV &#8211; técnicos de nível médio).</p>



<p>A instituição do salário mínimo estadual não eleva as despesas com o funcionalismo público e depende da iniciativa do Poder Executivo e aprovação da Assembleia Legislativa, destacando que essa proposta precisa ser articulada com outras ações econômicas e sociais de curto, médio e longo prazo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Ações afirmativas</h3>



<p>Somadas às propostas de renda básica e salário mínimo estadual, precisamos também enfrentar distorções estruturais na dinâmica do trabalho que atingem grupos sociais historicamente discriminados da população, que é o caso de mulheres, negros/as e indígenas, especialmente após a redução dos investimentos sociais pelo Governo Federal e os efeitos da pandemia em Pernambuco.</p>



<p>As famosas e escandalosas fotografias em que preponderam homens brancos no comando político nos governos Temer e Bolsonaro se repetem, infelizmente, em Pernambuco, mesmo com a maioria da população brasileira e pernambucana sendo de mulheres e de negros e negras. O mesmo acontece no retrato dos cargos de chefia nas empresas. Some-se a isso a supressão de indígenas e da população LGBTQIA+ desses espaços.</p>



<p>É dever do constitucional do Estado combater essa desigualdade. Além do compromisso com a diversidade nos cargos políticos, cabe ao poder público promover a equidade nos mais diversos espaços da sociedade. Para isso, as políticas de cotas, que já se mostraram efetivas, por exemplo, para o ingresso de jovens nas universidades, podem e devem ser estendidas para o mercado de trabalho, sobretudo para os cargos de chefia, garantindo espaço e voz de comando para as populações historicamente discriminadas.</p>



<p>Há, ainda, outras formas de incentivo à diversidade que não podem ser negligenciadas, como a promoção de incentivos, por meio de políticas públicas, a práticas inclusivas no mercado de trabalho. Em Pernambuco, por exemplo, vê-se um<a href="https://jc.ne10.uol.com.br/pernambuco/2022/02/14952644-dificil-recomeco-para-os-imigrantes.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> aumento considerável de imigrantes</a>, e pouco se faz para que essas pessoas sejam incluídas de fato na sociedade. Da mesma forma, a situação de pessoas com deficiência também se mostra como uma questão a ser enfrentada pelo poder público, que tem a obrigação de lhes proporcionar oportunidade de acesso à qualificação profissional e a garantia de espaço de trabalho.</p>



<h4 class="wp-block-heading">Conclusão</h4>



<p>O conjunto de ações aqui apresentadas, que partem da transferência direta de recursos para os mais pobres através da renda básica associado à recomposição financeira de parcela dos trabalhadores da iniciativa privada por meio do salário mínimo estadual e à inclusão das ações afirmativas na política de incentivos fiscais, têm a capacidade de contribuir na redução das desigualdades sociais, raciais e de gênero em Pernambuco.</p>



<p>Ao contrário do mantra liberal presente no país e em Pernambuco nos últimos anos, que impõe a redução de direitos dos/as trabalhadores/as e se mostra alheio às distorções sociais proveniente de desigualdades historicamente estabelecidas, deve-se ter em mente que é justamente o processo de inclusão e a presença do poder público que poderá promover a dignidade financeira da classe trabalhadora.</p>



<p>*<strong> Presidente do PSOL em Pernambuco</strong></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/AAABanner-300x39.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/AAABanner.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/AAABanner.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                </figure>

	


<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero…</strong></p><p>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.</p><p>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.</p><p>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.</p><p>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.</p><p><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">É hora de assinar a Marco Zero</a></p></blockquote>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/renda-basica-salario-minimo-estadual-e-acoes-afirmativas-tres-medidas-possiveis-para-reduzir-as-desigualdades-em-pernambuco/">Renda básica, salário mínimo estadual e ações afirmativas: três medidas possíveis para reduzir as desigualdades em Pernambuco</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Rios, pontes e desigualdades na Zona Sul do Recife</title>
		<link>https://marcozero.org/rios-pontes-e-desigualdades-na-zona-sul-do-recife/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Feb 2022 20:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Coqueiral]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade recife]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[Encanta Moça]]></category>
		<category><![CDATA[Entra Apulso]]></category>
		<category><![CDATA[zona sul do recife]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=44108</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Karinne Costa* Territórios são construídos também por suas memórias, histórias e sonhos. Assim, quem vive nas periferias de Recife tem seus vínculos afetivos atravessados pela trajetória repleta de desigualdades desde o seu nascimento e ao longo de toda a sua formação. A “cidade anfíbia”, como diz João Cabral de Melo Neto, tem em seu [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/rios-pontes-e-desigualdades-na-zona-sul-do-recife/">Rios, pontes e desigualdades na Zona Sul do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Karinne Costa*</strong></p>



<p>Territórios são construídos também por suas memórias, histórias e sonhos. Assim, quem vive nas periferias de Recife tem seus vínculos afetivos atravessados pela trajetória repleta de desigualdades desde o seu nascimento e ao longo de toda a sua formação. A “cidade anfíbia”, como diz João Cabral de Melo Neto, tem em seu retrato a marca de um Recife desigual, já em 1953, quando o poeta publicou seu poema <em>O Rio</em>.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ao percorrer o caminho das águas que cortam e conectam a capital, João Cabral desenha, neste mesmo caminho, as paisagens provocadas pelas explorações e contrastes entre sobrados e mocambos, campo e cidade, asfalto e alagados, trazendo, inclusive, o tipo de visibilidade com a qual os territórios periféricos que (re)existem na cidade podem contar: as estatísticas de morte.</p>



<p>Hoje, 68 anos depois da publicação do poema, Recife continua fazendo jus às palavras do poeta, sustentando o título que nenhuma cidade se orgulha: capital brasileira da desigualdade. E isso não é novidade para Recife, afinal, nos censos demográficos do IBGE de 1991, 2000 e 2010, a cidade já ocupava o primeiro lugar no ranking de capitais mais desiguais.</p>



<p>À beira do mar e cenário de um dos cartões postais mais conhecidos da capital, a praia de Boa Viagem, os bairros da Zona Sul recifense não são diferentes do resto da cidade em relação a este fenômeno. Levantamento dos casos de adolescentes baleados na Zona Sul, realizado pelo Instituto Fogo Cruzado de 2018 a 2021 demonstra que a desigualdade se reflete nos números da violência.&nbsp;</p>



<p>De acordo com o Fogo Cruzado, os bairros da Cohab, Pina e Ibura são os três primeiros no ranking de violência contra adolescentes concentrando juntos 69% das ocorrências. Já Boa Viagem, o mais rico dos bairros da região, apresenta 5% dos casos. Foram 38 adolescentes baleados, 95% dos atingidos eram do sexo masculino. A maior parte dos incidentes foram registrados onde o índice de vulnerabilidade social é maior, ou seja, nas comunidades.</p>



<div class="flourish-embed flourish-chart" data-src="visualisation/8571642"><script src="https://public.flourish.studio/resources/embed.js"></script></div>



<p>No entanto, nas comunidades da Zona Sul, o poeta João Cabral é contrariado: não há apenas estatísticas de morte nesses bairros marcados pela violência, pois há muito o que contar da vida da população desses locais.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Muitos Recifes fazem o Recife</strong></h2>



<p>O contraste se reflete na própria paisagem urbana do Recife e, em particular, da Zona Sul: arranha-céus e escadarias, prédios luxuosos e barracões, vias movimentadas, mangues e pontes não muito longe de becos e ruelas. Essa proximidade das diferenças é parte da estrutura socioespacial do Recife.&nbsp;</p>



<p>Parte deste contraste se intensifica após os desastres das enchentes ocorridas nas décadas de 1960 e 1970, quando as construções de habitações verticais voltadas para a classe média se acentuaram, sob o redirecionamento de interesse do mercado imobiliário para a Zona Sul livre das inundações do rio Capibaribe (Boa Viagem, Setúbal e Pina). Enquanto isso, a população pobre seguia instalando-se em áreas de morro do Ibura e Jordão Alto, planícies alagáveis e margens de rios e canais, sobretudo, às margens do rio Jordão e bacia do Pina.</p>



<p>Estima-se que 53% da população total do Recife vive em Comunidades de Interesse Social (CIS) – áreas predominantemente ocupadas por populações de baixa renda e com precariedade de infraestrutura urbana – , muitas destas CIS estão localizadas dentro do perímetro de 74 Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS); mas pelo menos 304 comunidades estão fora da proteção das ZEIS, segundo dados do Plano Local de Interesse Social (2018).</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/GRAFICO-Negros-e-Renda-Media_Prancheta-1-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/GRAFICO-Negros-e-Renda-Media_Prancheta-1-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/GRAFICO-Negros-e-Renda-Media_Prancheta-1-1024x576.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                </figure>

	


<p>No Recife, as ZEIS foram previstas na Lei Municipal de Uso e Ocupação do Solo em 1983. Na mesma década, por iniciativa de setores do movimento popular e da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, ocorreu a instituição da Lei do Plano de Regularização Fundiária das Zonas Especiais de Interesse Social (Prezeis), em 1987. Experiência pioneira no Brasil, a nova lei, além de proteger as áreas contra a especulação imobiliária e garantir que os assentamentos habitacionais populares tenham acesso à terra e à urbanização, contribuiu para promover a participação direta da população nas etapas de planejamento e implantação da urbanização e regulamentação fundiária das Zeis.</p>



<p>Entretanto, comunidades que não estão inseridas no perímetro da ZEIS são territórios onde não existe a perspectiva de regularização fundiária e urbanística que o instrumento permite. Na Zona Sul da cidade do Recife, composta por oito bairros, há 114 CIS, mas apenas 15 são ZEIS. Vamos conhecer a realidade de três dessas comunidades cujos moradores trabalham, lutam e continuam a sonhar para não serem apenas estatísticas de morte.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/01.-Karinne-Rios-pontes-e-desigualdades-infografico03-300x91.png">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/01.-Karinne-Rios-pontes-e-desigualdades-infografico03-1024x312.png">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/01.-Karinne-Rios-pontes-e-desigualdades-infografico03-1024x312.png" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sonhos em Coqueiral</strong></h2>



<p>Uma dessas comunidades sob proteção da ZEIS é Coqueiral. Localizada às margens da Rua Dom João VI/Canal do Jordão, na altura de Boa Viagem, está nos limites do bairro da Imbiribeira e é rodeada por grandes terrenos e galpões comerciais. Os moradores contam com um posto de saúde e uma creche municipal, porém não há escolas públicas, nem na sua vizinhança imediata. A presença da creche no território é recente, após a insistência das mulheres da comunidade. O acesso a equipamentos de educação pública no local sempre foi uma dificuldade. “A gente sempre teve que sair daqui para levar as crianças longe”, conta Janaína Salustiano, que tem dois filhos em idade escolar.</p>



<p>Segundo Janaína, há anos a comunidade reivindica o acesso à educação e lazer no local. “A gente sempre questionou sobre isso, uma escola aqui dentro, que não tem. Uma praça, um lazer para as crianças brincarem não tem. No domingo as crianças não tem onde brincar. O espaço é muito curto. O terreno que hoje é dessa escola grande, era aberto e as crianças tinham acesso, jogavam, mas a escola comprou e saiu botando muro.” Seu filho, Pedro Vinícius, caminha em média seis quilômetros por dia para se locomover de casa para a escola Santos Dumont. Já Maria Clara estuda na escola Sargento Camargo, chega a caminhar três quilômetros no percurso até a escola, na rua Antônio Falcão, bem perto da praia.</p>



<p>“Nós somos uma comunidade meio esquecida. Geralmente só em tempo de eleição que os políticos passam, mas nada melhora, continua do mesmo jeito. E quando chove é muito sofrimento, tem que pendurar as coisas em cima dos móveis pra não perder os objetos… As crianças por dentro da água, rato passando… Fazer o quê? É a rotina da gente.” lamenta Janaína.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/Maria-Clara-14-Pedro-Vinicius-17-e-sua-mae-Janaina-Salustiano-36.-Foto_-Karinne-Costa-1-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/Maria-Clara-14-Pedro-Vinicius-17-e-sua-mae-Janaina-Salustiano-36.-Foto_-Karinne-Costa-1-1024x768.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/Maria-Clara-14-Pedro-Vinicius-17-e-sua-mae-Janaina-Salustiano-36.-Foto_-Karinne-Costa-1-1024x768.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Clara (E) e Pedro Vinícius precisam caminhar alguns quilômetros para frequentar escolas públicas e a mãe deles, Janaína Salustiano, se queixa da falta de espaços de educação e lazer na comunidade. Crédito: Karinne Costa.</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Vivendo na comunidade desde 2002, ela nasceu em Barreiros, na Zona da Mata, veio para a capital para trabalhar como empregada doméstica no apartamento de uma família na avenida Engenheiro Domingos Ferreira, em Boa Viagem. Após algum tempo vivendo no lugar em que trabalhava, Janaína foi apresentada à comunidade do Coqueiral por uma amiga, lá ela conheceu o rapaz que mais tarde se tornou o seu marido, com quem teve filhos.</p>



<p>Hoje, com três filhos, Janaína conta histórias que circulam no território, de como a ocupação começou: “a comunidade era uma vala, um mangue, as pessoas começaram a invadir porque não tinham um lugar melhor pra morar. Então, foram fazendo aterro e cada um construiu sua casa. O canal era um braço do rio Jordão. Os antigos contam que passavam de um lado para o outro se equilibrando pela tubulação de água. Quando eu vim morar aqui, já existia essa ponte. Nessa época, a maioria das casas era de alvenaria, tinha poucas casas que eram de tábua.”</p>



<p>Seu filho, Pedro Vinícius, mora em Coqueiral desde que nasceu. Ele fala com muita esperança nas possibilidades de futuro e, com brilho no olhar, sobre “recuperar a alma da favela”. Aos 17 anos, como muitos jovens rapazes, seu sonho é ser jogador de futebol. Ele treina na Escolinha do Arsenal Futebol e Talentos, que acolhe adolescentes e jovens de várias comunidades da zona sul, e compartilha seus planos, caso a carreira no futebol não engate como esperado: “eu sei que é não é fácil, então, se não der certo, eu quero entrar nas Forças Armadas. E também ver uma terceira opção. Tem muita gente que chega até na quinta, sexta opção, né? Então, eu tô tentando terminar o ensino médio, quando terminar, eu vou tentar o Exército, ou a área de designer gráfico, que eu gosto bastante também.”</p>



<p>O jovem comenta sobre os cenários difíceis das comunidades e expõe algumas das necessidades que são comuns a territórios periféricos: &#8220;a gente precisa de uma favela mais organizada. Ter mais ruas calçadas, ter iluminação melhor, porque aqui nos becos é tudo muito escuro. Precisa também de alguma área de lazer, alguma coisa para a comunidade”.</p>



<iframe width="850" height="478" src="https://www.youtube.com/embed/NurQv5Ahkgk" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen=""></iframe>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Entra Apulso, símbolo de resistência</strong></h2>



<p>Em comparação a outras comunidades do entorno, a comunidade Entra Apulso é uma região diferenciada em relação a acesso a serviços, pois tem duas escolas &#8211; uma municipal e outra estadual -, mais uma creche comunitária, que acolhe cerca de 100 crianças. Há também um posto de saúde e uma quadra de uso comunitário.</p>



<p>Recentemente a comunidade recebeu obras de pavimentação, drenagem e esgotamento sanitário, uma reivindicação antiga dos moradores, que, até 2020, conviviam com esgoto a céu aberto. A obra entregue pela Prefeitura do Recife foi parte da medida mitigadora do vizinho Shopping Center Recife. Hoje, caminhar em Entra Apulso é encontrar, em seus becos e vielas pavimentados, crianças brincando de bicicletas, skates, patins.</p>



<p>Outra iniciativa importante, que potencializa a melhoria e a convivência comunitária no local, é o projeto Pulsa Bairro, do Instituto Shopping Recife, que constrói em conjunto a revitalização em pontos espalhados pela comunidade, através de pinturas homenageando personagens e elementos importantes da história do local, mutirões de limpeza, implementação de micro áreas de lazer, instalação de lixeiras, educação ambiental, entre outras ações, buscando incentivar as boas práticas coletivas.</p>



<p>Dona Luzinete Alves, moradora há mais de 50 anos, é uma das homenageadas do projeto, como representação de parte da história viva do local. Ela viu Entra Apulso se estabelecer, tendo vivenciado a sua ocupação. Luzinete conta que veio de Nossa Senhora do Ó, no Litoral Sul, para morar no Pina, aos 5 anos de idade, junto com sua tia, que a criava. Aos 9 anos foi morar em Boa Viagem, num território conhecido por Mata Sete. Luzinete explica que um braço de Maré separava Mata Sete de Entra Apulso. Ela lembra que atravessava uma ponte para transitar e descreve exatamente a localização: &#8220;do canal pra lá era Mata Sete, do canal pra cá era Entra Apulso ”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/WhatsApp-Image-2022-02-01-at-09.41.12-300x200.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/WhatsApp-Image-2022-02-01-at-09.41.12-1024x682.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/WhatsApp-Image-2022-02-01-at-09.41.12-1024x682.jpeg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Homenageada em pintura nas ruas de Entra Apulso, Luzinete Alves foi uma das primeiras moradoras da comunidade, onde vive há mais de 50 anos, e traz na lembrança as primeiras histórias de resistência da ocupação. Crédito: Marlon Diego</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Com as remoções que estavam ocorrendo na região em função da especulação imobiliária e obras de impermeabilização do canal, a área em que se encontrava Entra Apulso, um imenso alagado, foi sendo ocupada, além das famílias vindas do interior, pelas famílias que estavam sendo removidas nas redondezas. Mas, a conquista do espaço em Entra Apulso também não foi fácil, “a gente construía de noite e era expulso de dia”, conta Luzinete, “foi justamente essa insistência que deu nome ao lugar&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Histórias do Encanta Moça</strong></h2>



<p>À beira do manguezal do Pina, o “Encanta”, como chamam seus moradores, está a pouco menos de quatro quilômetros do centro do Recife, e forma junto com o Bode, Areinha e Beira Rio a área da ZEIS desde 1983. O bairro tem 30 mil habitantes, mas apenas 2.650 estão prestes a receber os títulos de posse.&nbsp;</p>



<p>Seus moradores têm acesso a dois postos de saúde, escolas municipais e uma creche na localidade. A escola estadual mais próxima fica em Brasília Teimosa, comunidade vizinha. Moradores também contam com uma policlínica, que fica nas imediações da ZEIS. Entre as avenidas Domingos Ferreira e Antônio de Góes, a mobilidade é o ponto forte do lugar, o que atrai o interesse das grandes construtoras e imobiliárias do Recife.</p>



<p>Alagamentos são comuns no bairro, o que tem consequências graves, pois o esgotamento sanitário é precário. Nélson de Lima convive com esses problemas desde que nasceu. Hoje, ele representa o bairro na Comissão de Urbanização e Legalização da Posse da Terra (Comul), eleito pelos moradores.&nbsp;</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/Encanta-Moca-Mangue-Pina-FOTO-KARINNE-COSTA.jpg-4-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/Encanta-Moca-Mangue-Pina-FOTO-KARINNE-COSTA.jpg-4-1024x768.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/02/Encanta-Moca-Mangue-Pina-FOTO-KARINNE-COSTA.jpg-4-1024x768.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Vista das palafitas da comunidade Encanta Moça. Crédito: Karinne Costa.</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A maior preocupação do líder comunitário tem a ver com os alagamentos e o manguezal: a questão das moradias em palafitas. “Tem gente que mora há 18, 20 anos por não ter pra onde ir”, conta. Há uma expectativa de que as pessoas que moram nas palafitas do Bode sejam realocadas para os 600 apartamentos dos Habitacionais Encanta Moça I e II, que estão sendo construídos no terreno do antigo Aeroclube, com previsão de entrega para este ano.&nbsp;</p>



<p>Moradores reclamam da falta de transparência do poder público. A proposta prevê a entrega de 600 apartamentos em 2022, mais um projeto de urbanização com centro comunitário, parque infantil, quadra e outros equipamentos. No entanto, além da indefinição por parte da prefeitura sobre as famílias que serão beneficiadas, o volume de palafitas supera o número de apartamentos ofertados. No último levantamento, havia mais de 800 famílias vivendo em situação de vulnerabilidade no Bode. E ainda, das 600 residências previstas, espera-se que 163 unidades sejam entregues para os moradores que foram desapropriadas para a construção da Via Mangue e hoje recebem auxílio moradia.</p>



<p>Segundo Nelson, até então não houve discussões conjuntas com a comunidade local. “São 11,9 hectares. É uma área muito grande, caberia muito mais residências, essa proposta não vai atender a demanda que existe”. Outro alerta sobre o projeto é a proposta de urbanização das margens do Rio Pina, que têm deixado os habitantes inquietos com a possibilidade de mais remoções para a construção de uma “orla” no Bode. Um conselho de moradores foi criado para acompanhar os desdobramentos e insistir no diálogo com o poder público.&nbsp;</p>



<p><strong>* Karinne Costa, 27 anos, é formada em comunicação social pela FBV com especialização em arte-educação pela PUC. Há 6 anos, desenvolve projetos sociais nas áreas de educação, cultura e esportes na comunidade de Entra Apulso, em Recife-PE, e integra o Coletivo Resistir é Pulsar, que atua com foco na valorização da história oral e amplificação das narrativas locais sob a ótica de quem vive no território (Instagram: @resistirepulsar).</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Esta reportagem é resultado da bolsa para o laboratório-escola Dados em Narrativas Jornalísticas, realizado em parceria pela Marco Zero Conteúdo, Instituto Fogo Cruzado, Escola de Comunicação da Universidade Católica de Pernambuco e Fundação Friedrich Ebert.</strong></p></blockquote>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/barra_mz-300x39.png">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/barra_mz-1024x132.png">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/01/barra_mz-1024x132.png" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                </figure>

	<p>O post <a href="https://marcozero.org/rios-pontes-e-desigualdades-na-zona-sul-do-recife/">Rios, pontes e desigualdades na Zona Sul do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Coronavírus revela problemas estruturais de São Lourenço da Mata, líder na taxa de mortalidade em PE</title>
		<link>https://marcozero.org/coronavirus-revela-problemas-estruturais-de-sao-lourenco-da-mata/</link>
					<comments>https://marcozero.org/coronavirus-revela-problemas-estruturais-de-sao-lourenco-da-mata/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 May 2020 20:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[assentamento]]></category>
		<category><![CDATA[atenção básica]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[São lourenço da mata]]></category>
		<category><![CDATA[saúde pública]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://marcozero.org/?p=27663</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por Lenne Ferreira, especial para a Marco Zero Conteúdo Os brinquedos espalhados na ladeira de barro que leva até a casa da agricultora e comerciante informal Cleide Alves dão indício de que tem criançada no terreiro. Um coral de gritos e risadas indica o paradeiro de Izabella, Estefany, Henrique, Bia e Lexton. Os cinco brincam [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/coronavirus-revela-problemas-estruturais-de-sao-lourenco-da-mata/">Coronavírus revela problemas estruturais de São Lourenço da Mata, líder na taxa de mortalidade em PE</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Lenne Ferreira, especial para a Marco Zero Conteúdo</strong></p>



<p> Os brinquedos espalhados na ladeira de barro que leva até a casa da agricultora e comerciante informal Cleide Alves dão indício de que tem criançada no terreiro. Um coral de gritos e risadas indica o paradeiro de Izabella, Estefany, Henrique, Bia e Lexton. Os cinco brincam numa área onde uma construção de madeira inacabada serve de abrigo para a casinha de lençóis, bicicletas e bonecas. O mormaço que exala do chão do meio dia do Assentamento Sítio Tejipió II, área rural de São Lourenço da Mata, com a maior taxa de mortalidade por coronavírus no Estado, parece não importunar o quarteto. Neste universo lúdico infantil, a falta de água, transporte, saneamento, infraestrutura e até uma pandemia de proporção mundial seguem invisíveis aos olhos de quem vive um permanente distanciamento social.</p>



<p> A  família de Cleide mora no Assentamento Sítio Tejipió II há pouco mais  de dois anos. Recifense e ex-moradora de rua, ela se mudou para lá em  busca do sonho de ter o próprio teto e chão para plantar. Ao lado do  companheiro, Edson Pereira, de 49 anos, dos filhos, Adriana, Adriano,  Ana Beatriz, 24, 22 e 5 anos, respectivamente, e dos quatro netos,  Cleide tem passado a quarentena driblando adversidades que já faziam  parte da rotina da família, mas que se agravaram desde que o isolamento  social foi decretado como medida emergencial de combate à Covid-19 em  março passado.A determinação  necessária, no entanto, não freou os números da cidade que ocupa uma  posição de destaque no ranking de vítimas fatais pelo novo coronavírus  em Pernambuco. Na sexta (22), eram 43 óbitos, além de 315 casos  confirmados, entre graves e leves, numa cidade onde não há Unidade de  Terapia Intensiva (UTI) nem hospital de campanha funcionando. Os 40 leitos anunciados pela Prefeitura ainda não foram inaugurados.De  acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), a inclusão do  município no decreto que intensifica as medidas restritivas foi baseada  em critérios epidemiológicos. Recife, Jaboatão dos Guararapes e Olinda  concentram o maior número absoluto de casos e óbitos, configurando o  epicentro da doença em Pernambuco. Mas, de acordo com nota da SES, &#8220;São  Lourenço da Mata, com 291 mortes por milhão de habitante, possui a maior  taxa de mortalidade do Estado, estando entre os 20 municípios do Brasil  com as maiores taxas de mortalidade pela Covid-19&#8221;. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/CRIANÇAS-II-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/CRIANÇAS-II.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/CRIANÇAS-II.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Os netos e netas de Cleide brincam numa construção inacabada alheios às alarmantes estatísticas de contágio do coronavírus em São Lourenço da Mata. Crédito: Lenne Ferreira/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O sinal vermelho disparou com o anúncio da morte do presidente da Câmara dos Vereadores, Cícero Pinheiro (PTB), em 11 de abril. A repercussão da notícia e os primeiros números da contaminação no município não foram acompanhados por medidas imediatas mais extremas, o que podia ser comprovado pelo fluxo intenso de pessoas nas ruas do Centro, onde até cortejo de velório podia ser visto pela avenida principal. Só na última semana, depois do decreto do Governo do Estado restringindo o trânsito de veículos, aumentando a fiscalização em estabelecimentos comerciais e reduzindo a circulação de pessoas em cinco cidades, entre elas São Lourenço da Mata, é que a rotina começou a mudar. O “lockdown”, no entanto, não diminuiu as dificuldades de uma parcela da população desassistida por serviços essenciais.</p>



<p>Com a quarentena obrigatória, a renda da casa de Cleide ficou comprometida. Ela, a filha Adriana e o companheiro, Edson Pereira, fazem parte dos 38 milhões de brasileiros que vivem do trabalho informal e que tiram o sustento da rua. Edson guarda e lava carro, Cleide e a filha vendem pipoca e água mineral em Santo Amaro, Centro do Recife, para onde se deslocavam diariamente. Beneficiárias do Bolsa Família, as duas foram contempladas com o auxílio emergencial, mas contam que a primeira parcela de R$ 1.200,00 não foi suficiente para cobrir os custos familiares. No dia da visita da reportagem, por exemplo, Cleide não tinha gás para cozinhar. O fogão a lenha, feito do lado de fora, ainda estava quente do almoço. “A gente tem contado com a ajuda dos vizinhos que sempre doam alimentos, mas nem uma cesta básica recebemos até agora”, diz Adriana, que precisa descer a ladeira para ter acesso ao sinal de wifi do vizinho mais próximo. A comunidade não conta com água encanada e, por isso, a família costuma lavar roupa com água da cacimba que fica há alguns metros da casa que Cleide conseguiu erguer com materiais que ia achando na rua. Atualmente, a única entidade que presta alguma assistência às famílias do assentamento é a associação dos moradores, constituída há um ano.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/FOGÃO-A-LENHA-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/FOGÃO-A-LENHA.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/FOGÃO-A-LENHA.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0"> Sem gás para cozinhar, Cleide prepara almoço no fogão a lenha construído fora da casa. Crédito: Lenne Ferreira/MZ Conteúdo </p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Erick Arruda é guia turístico, pai de cinco adolescentes e um dos primeiros assentados da área de 22 mil hectares e conta que a localidade não tem acesso aos serviços mais básicos. Para ele, o descaso tem relação com a situação de irregularidade. “Já buscamos as secretarias de Assistência Social, Saúde e até a Celpe para instalar energia, mas ninguém olha pra gente”, denuncia ele, que é presidente da associação dos moradores. O Assentamento Sítio Tejipió II já se chamou Manoel Aleixo (o Ventania) em homenagem ao líder camponês que foi dirigente do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Nascido em São Lourenço da Mata, Ventania foi assassinado sob tortura pela ditadura militar. “Terra para quem nela trabalha” era um dos famosos jargões do ativista que é referência na luta pela reforma agrária no Brasil e batizou o assentamento, que mesmo após a mudança do nome, ainda é conhecido como Manoel Aleixo.<br></p>



<p>A ocupação da área contou com o apoio do Movimento de Lutas Populares (MLP), que perdeu credibilidade depois de ser acusado de cobrar valores indevidos aos assentados, segundo conta Erick. Com a saída do MLP das terras, uma assembleia geral deliberou pela fundação da associação de moradores para atuar na defesa dos interesses da comunidade. O novo nome foi escolhido em referência ao rio Tejipió, que deságua na redondeza. De acordo com Erick, o terreno já foi reclamado na Justiça, que concedeu reintegração de posse à empresa proprietária, mas esta não teve como bancar os custos com a retirada das casas. Desde então, a comunidade luta para ser reconhecida judicialmente e busca sensibilizar o Poder Público tendo como base as dívidas com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) acumuladas pela empresa, que já declarou falência. </p>



<p>“Temos pareceres favoráveis à nossa permanência emitidos pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública. As 300 famílias que vivem aqui não têm para onde ir e a retirada teria um grande impacto social”, alega Erick, que diz já ter enviado ofícios para várias secretarias municipais. A Celpe também foi procurada pela associação, que busca regularizar a energia da área, mas nada foi feito. “O argumento principal é a ação que está em trâmite. Dizem que não podem gastar com instalações em um terreno que pode vir a ser desapropriado”, explica. À noite, o breu só não é maior porque os moradores fizeram gambiarras para iluminar alguns pontos. Outra dificuldade, que é a principal queixa dos moradores, é a falta de atendimento médico. “Nenhum posto é autorizado a abrir prontuário pra gente. Nunca recebemos visitas de agentes de saúde. Desde que começou essa pandemia, a comunidade nunca foi assistida, nem uma cesta básica chegou. Aqui, temos idosos com tuberculose, crianças soropositivas, que estão no grupo de alto risco, mas somos invisíveis”, lamenta Erick.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/VISTA-DO-ASSENTAMENTO-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/VISTA-DO-ASSENTAMENTO.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/VISTA-DO-ASSENTAMENTO.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">No Assentamento Sítio Tejipió II, moradores lutam pela posse da terra para garantir acesso aos serviços públicos mais básicos, como água e energia elétrica. Crédito: Lenne Ferreira/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Implementar política de assistência social do município voltada ao atendimento dos interesses sociais e aspirações da população em situação de risco e vulnerabilidade social” está entre as atribuições da Secretaria Municipal de Assistência Social de São Lourenço descritas no site institucional da gestão, que tem à sua frente o prefeito Bruno Pereira (PTB). De acordo com Kely Morgana, que comanda a pasta, muitos esforços têm sido feitos para conter o avanço do coronavírus na cidade. Sobre a situação do Assentamento Sítio Tejipió II, ela diz que um cadastramento dos moradores estava marcado para acontecer no último mês de março, mas a pandemia adiou a visita de técnicos da Secretaria de Assistência Social. Ainda segundo ela, os moradores do local têm direito a acessar todos os serviços oferecidos à população, mas confirma que o processo judicial que tramita na Justiça é empecilho para a realização de mais ações.<br></p>



<h2 class="wp-block-heading"> <strong>Saúde com cobertura limitada</strong><br></h2>



<p>A ausência de uma política pública dedicada às áreas mais vulneráveis não é denunciada apenas pela população. Agente de endemias desde a seleção simplificada de 2012, Márcio (nome fictício) alega que, mesmo com a crise sanitária vigente, não há orientação nem uma política eficiente no combate ao coronavírus e no atendimento à população. “Eu só tenho máscara para trabalhar porque paguei do meu bolso. As máscaras que foram entregues aos agentes não foram suficientes e não podemos ficar muito tempo com a mesma. Nunca recebi álcool em gel. Também não houve capacitação ou adoção de um protocolo pra gente desempenhar um trabalho com mais excelência. Cada um trabalha do seu jeito. Se depender da Prefeitura, a gente já tava morto”, desabafa. Ele também alega subnotificação de casos por falta de diretrizes que orientem o trabalho de quem atua nos territórios. “Cada um faz do jeito que quer. Muita gente morre e não é computado. Falta informação para a população e pra gente também”.</p>



<p><br>Desde as primeiras notificações de Covid-19, a Secretaria de Saúde implementou iniciativas com o objetivo de conter o avanço do vírus na cidade, segundo informa a secretária Gislayne Calado. Em caráter emergencial, foram criados seis leitos com respiradores para estabilização de pacientes. Os casos mais graves são encaminhados para o Recife. Para ela, o número de óbitos que colocaram São Lourenço entre as cidades com maiores níveis de mortalidade, não tem relação com a falta de UTI. “Atualmente (18/05), dos 358 pacientes notificados no município, apenas quatro precisaram de UTI”, exemplifica. De acordo com a secretária, a cidade recebeu os repasses de R$ 800 mil e R$ 216 mil dos governos Federal e do Estado, respectivamente. O dinheiro foi investido na contratação de profissionais de saúde, aquisição de EPI como máscaras e material de divulgação informativo sobre prevenção, além da estruturação de 40 novos leitos no Hospital Municipal Petronila Campos, que ainda não foram equipados e devem ser entregues à população só no final desse mês. A secretária não soube informar o número de EPIs adquiridos ou de novos profissionais contratados, nem os gastos com os novos leitos, informações que também não estão disponíveis no portal de transparência do município. A reportagem solicitou o valor dos gastos, mas, segundo a Prefeitura, os recursos ainda serão calculados no final do mês para atualização dos dados.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/HOSPITAL-PETRONILA-CAMPOS-300x161.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/HOSPITAL-PETRONILA-CAMPOS-1024x548.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/HOSPITAL-PETRONILA-CAMPOS-1024x548.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0"> A estruturação de 40 novos leitos no Hospital Petronila só deve sair do papel no final do mês. Crédito: Lenne Ferreira/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><br> O Instituto Juventude Criativa, que está à frente de várias ações contra a gestão municipal, aponta falta de transparência e clareza nas informações sobre gastos e faz críticas à gestão.“Apesar das constantes denúncias, infelizmente, ainda nos deparamos com diversas reclamações referentes à área de saúde em São Lourenço da Mata, o que ocorre desde antes da pandemia. A gestão é omissa e coloca os interesses partidários acima dos interesses coletivos ”, avalia Anderson Coutinho, ativista pelos Direitos Humanos, fundador e diretor de relações Institucionais do Instituto Juventude Criativa. A entidade atende pelo menos 500 famílias de bairros como Matriz da Luz, Penedo, Morro da Macaca e Pixete por meio de ações que gerem qualificação profissional, emprego e renda, principalmente para os jovens. Programas como o “Saber mais”, que atende 42 crianças, e “Meninos de Ouro no Boxe”, com 100 beneficiários, estão entre as ações. O Instituto também tem promovido iniciativas para ajudar as comunidades locais mais socialmente vulneráveis. “Fomos a primeira instituição do Brasil a conectar idosos semianalfabetos ao cadastro do Auxílio Emergencial do Governo Federal”, conta Coutinho. Para ele, “carro de som não tem respeito com a população. A Prefeitura precisa investir em mobilizadores sociais”. Embora a Secretaria de Assistência Social afirme que materiais educativos foram distribuídos, gente de bairros até mais estruturados como Parque Capibaribe (Muribara), com 43 casos de Covid-19 confirmados, diz que nunca recebeu os informativos.</p>



<p>No Assentamento Sítio Tejipió II, os moradores vivem por conta própria desde que começou a pandemia, mesmo que já haja casos suspeitos na comunidade. A falta de informação fica comprovada numa conversa com a comerciante Taciana Nicolau, de 39 anos. Ela trabalha numa mercearia dentro do assentamento e faz atendimento sem máscara porque recebeu uma mensagem via Whatsapp que informava sobre a contaminação dos ítens adquiridos pelo governo brasileiro na China, uma fake news que foi desmentida pelo Ministério da Saúde. “Eu mesma não confio não”, insistiu Taciana. A secretária de Saúde Gislayne Calado confirmou que a comunidade é desassistida por causa de sua situação de irregularidade. “A área é descoberta pela atenção primária. A população pode ser atendida em unidades básicas de saúde, mas não pode fazer prontuário”, reconheceu.<br></p>



<p>Apesar de considerar a estrutura atual da Saúde boa “dentro da realidade do município”, Gislayne admite que a demanda populacional é superior à capacidade de atendimento. Ela nega que não exista um protocolo de orientação dos profissionais que atuam na rua no combate ao coronavírus. “No momento, não temos como fazer capacitações para evitar aglomeração, mas os enfermeiros das unidades de saúde, que são multiplicadores das informações, recebem todas as orientações e repassam aos agentes”, garante. Além do Hospital Petronila Campos, que possui três respiradores, São Lourenço da Mata também conta com a UPA Professor Fernando Figueira, com 11 leitos, todos equipados com respiradores que estão divididos entre sala vermelha, amarela e de isolamento. Há ainda 19 Unidades Básicas de Saúde e 26 equipes de saúde da família ativas, segundo o município, que comemora 103 casos de coronavírus curados. <br></p>



<p>Entre as medidas tomadas pela Prefeitura para combater o contágio do vírus na cidade estão: instalação de pias públicas para higienização das mãos, ações educativas na rua (350 horas de carro de som), fiscalização do comércio, aquisição de materiais e equipamentos, higienização de postos de saúde e prédio públicos. Recentemente, a Prefeitura foi acusada de superfaturamento das cestas básicas destinadas à população no período de pandemia, mas negou as acusações em nota que está disponível no perfil do Instagram do chefe do executivo municipal. De acordo com a Secretária de Assistência Social, já foram distribuídas cerca de duas mil cestas com produtos não perecíveis e 16 toneladas de alimentos in natura (macaxeira, banana, batata doce). A entrega das cestas gerou tumultos e muitas reclamações nas redes sociais. <br></p>



<p>Kely Morgana, responsável pela pasta de Assistência Social, pontua que desde que as ações de combate ao contágio iniciaram, a Secretaria montou uma força tarefa para cadastrar pessoas que não estavam no Cadastro Único, disponibilizando pontos de atendimento descentralizados. Ela também afirma que a gestão tem utilizado recursos próprios para aquisição de alimentos já que o Governo Federal não subsidia esse tipo de custo. Segundo ela, o único repasse que a Secretaria recebeu, até agora, foi uma parcela única no valor de R$ 16 mil, que estão sendo usados para auxílio funeral e de moradia e, que, segundo ela, são insuficientes. “A dificuldade é muito grande e precisamos de auxílio do Governo Federal para investirmos em alimentação. Nesse momento, o povo precisa de comida e saúde”, pontua Kely Morgana, que desconhecia os valores repassados pelos governos federal e estadual citados pela secretária de Saúde.<br></p>



<p> Após o fechamento da matéria, a Secretaria de Comunicação enviou um documento onde listava uma série de medidas e realizações da gestão, algumas delas não informadas pelas secretarias e até divergentes como o número de cestas distribuídas e os recursos repassados à gestão. O chefe do poder municipal baixou seu salário em 50% e do secretariado em 25% para economizar e utilizar os recursos no combate à Covid-19. A nota também menciona a compra de três ventiladores pulmonares, distribuição de mil litros de álcool em gel, imunização de 22 mil moradores contra influenza e a entrega de 1000 kits de alimentação para comerciantes e ambulantes, que estão sem poder trabalhar. <br></p>



<h2 class="wp-block-heading"> <strong>Três barragens e torneiras vazias</strong> </h2>



<p></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/RECEPIENTES-VAZIOS-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/RECEPIENTES-VAZIOS.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/RECEPIENTES-VAZIOS.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">No Assentamento Sítio Tijipió II, água só de cacimba. Crédito: Lenne Ferreira/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em um contexto pandêmico, a água está entre as principais ferramentas de combate ao contágio desenfreado de um vírus que fez o mundo todo girar em outra velocidade.<br></p>



<p>A higienização constante das mãos está no topo das recomendações da Organização Mundial de Saúde, mas, em alguns bairros de São Lourenço da Mata, a irregularidade do abastecimento dificulta o cumprimento de uma medida que pode salvaguardar vidas. Embora o direito à água potável e ao saneamento seja reconhecido pela Organização das Nações Unidas, no Brasil, cerca de 15% da população não tem esse acesso garantido.<br></p>



<p>A torneira vazia já faz parte do cotidiano de quem vive tanto na área urbana quanto rural de São Lourenço da Mata. Anderson Costa, educador social de 36 anos, mora em um dos 540 apartamentos do Condomínio Guilherme Ushôa II, que fica no bairro Rosina Labanca, um dos mais populares da cidade. O educador apresentou sintomas da Covid-19 e precisou ficar em isolamento doméstico por 15 dias. “Eu comecei a sentir falta de ar e febre no dia 25 de março, estava trabalhando em Jaboatão e preferi buscar socorro lá mesmo. O motorista da empresa me levou”, conta ele, que recebeu atendimento na UPA de Barra de Jangada. O receio de Anderson em procurar ajuda médica na sua cidade está relacionado ao fato de ele considerar a prestação de serviço ineficiente. “Sempre foi precário e, agora, só piorou. Quando meu filho mais novo nasceu, tentei marcar pediatra, mas só tinha vaga para um ano e meio depois. Infelizmente, não é novidade. Lembro da minha infância toda, minha mãe saindo com a gente bem cedinho para ir para algum hospital no Recife”. A irregularidade e o abastecimento reduzido de água também é motivo de queixa. “Às vezes, ficamos cinco dias sem um pingo de água na torneira. Mas, normalmente, temos água duas vezes ao dia, uma hora pela manhã e uma hora à noite”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/ANDERSON-COSTA_ROSINA-LABANCA-225x300.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/ANDERSON-COSTA_ROSINA-LABANCA.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/ANDERSON-COSTA_ROSINA-LABANCA.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Morador do conjunto habitacional Guilherme Uchôa II, em São Lourenço da Mata, Anderson Costa foi infectado pelo coronavírus e ao sentir febre e falta de ar optou por buscar socorro em Jaboatão dos Guararapes. Crédito: Lenne Ferreira/MZConteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>No Parque Capibaribe, Muribara, Penedo e Tiúma, a população também tem acesso limitado à água. Anderson Coutinho, do Instituto Juventude Criativa, considera que a escassez de água nas casas não deveria ser uma realidade na vida de quem mora em uma cidade rica em lençóis freáticos. “Nós temos três barragens localizadas dentro do nosso território, mas a falta de saneamento dificulta a instalação dos encanamentos da Compesa”. Para Coutinho, as ações de melhoria andam a passos lentos e expõem a população a mais vulnerabilidade diante do vírus. Para garantir mais higienização nas casas dos moradores de bairros populosos, o Instituto Juventude Criativa mobilizou doações que custearam a distribuição de água por carros pipas nos bairros Rosina Labanca, Caiará, Nova Tiuma 1 e 2.<br></p>



<p>Embora abrigue outras duas barragens, Tapacurá e Matriz da Luz, de acordo com a Compesa, São Lourenço da Mata é abastecida pelo Sistema Várzea do Una, que chega a cerca de 85 mil pessoas, por meio da Estação de Tratamento de Água (ETA) Várzea do Una. A localidade de Matriz da Luz é abastecida por um manancial de mesmo nome. A Compesa disse ainda que “São Lourenço da Mata tem um calendário de abastecimento de um dia com água e seis dias sem, em virtude de um crescimento populacional acelerado e maior do que a projeção estimada para a capacidade de distribuição das atuais redes”. O órgão afirmou que, periodicamente, são realizadas manutenções nas unidades elevatórias para incrementar o abastecimento dos bairros. Para o bairro Parque Capibaribe, está prevista a aquisição de novos conjuntos de motobombas que aumentarão a vazão da água distribuída.<br></p>



<p>A Companhia informou que também executou recentemente interligações e desobstruções de rede em várias ruas do bairro Rosina Labanca, além de outras ações para melhorar o abastecimento. Em parceria com o Grupo Tigre, por meio do seu Instituto Carlos Roberto Hansen, e a FortLev, a Compesa também iniciou a distribuição gratuita de 800 caixas d&#8217;água de 500 litros nas áreas com maior incidência de casos da Covid-19 da RMR, conforme base de dados do Ministério da Saúde, contemplando famílias de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social. Em São Lourenço da Mata, a distribuição está sendo realizada nos bairros Capibaribe, Centro, Nova Tiúma, Tiúma e Pixete.<br></p>



<p>Para o Assentamento Sítio Tejipió II, que a Compesa não conseguiu identificar na base de dados, não há previsão de doações e os moradores da comunidade vão continuar percorrendo alguns metros para apanhar água. Acompanhamos o percurso de Carlos Antônio, de 37 anos, vizinho de Cleide , que também está desempregado. Para lavar louça, tomar banho e higienizar a casa, só andando até a cacimba onde a água é mais límpida. <br></p>



<figure class="wp-block-embed-youtube aligncenter wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Cacimba" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/fkzo3-BYCSQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption>Para lavar louça, tomar banho e higienizar a casa, Carlos Antônio e os demais moradores do assentamento têm que enfrentar vários obstáculos para buscar água na cacimba<br></figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading"> <strong>Dois meses de espera para alunos da rede municipal</strong> </h2>



<p>A criatividade dos netos de Cleide preenchem os dias sem aula desde que a rede municipal, obedecendo decreto do Governo do Estado, suspendeu as aulas. Já fazem dois meses e nenhum dos 13 mil estudantes matriculadas na rede de ensino municipal recebeu kit alimentação como ocorreu em cidades como Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes e Recife. Para mães faveladas, a paralisação escolar não representa apenas que seu filho vai ficar sem aula, significa que ele vai ficar sem comida. A merenda escolar faz muita falta na vida de quem tem poucos recursos para compor uma cesta básica mais completa como Iris Cavalcanti, mãe de Yasmim (13), Fábio (12) e André Luís (8). A manicure, que também se vira como faxineira, está parada por causa da pandemia. “O que ajuda são as coisas que semeio. Macaxeira, batata doce e milho ajudam na alimentação diária e, assim, a gente vai vivendo”, conta ela, que é beneficiária do Bolsa Família e recebeu o auxílio emergencial.<br></p>



<p>“Está sendo muito difícil não só para mim como pra todo mundo. Qualquer ajuda nesse momento é bem vinda. As crianças estão desamparadas. Elas só têm mesmo a escola para momentos de aprendizado e estão sofrendo porque já estavam habituadas com a rotina de escola. Espero que isso não venha a impedir o desenvolvimento delas. Em outras locais, as crianças estão tendo pelo menos o amparo de aulas online, mas São Lourenço da Mata ainda não oferece. Estamos sem acolhimento”, desabafa Iris, enquanto os meninos brincam de bola de gude na frente do barraco onde moram. A estrutura da construção de tábuas e lonas ameaça ceder.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/IRIS-E-FILHOS_IMG_20200507-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/IRIS-E-FILHOS_IMG_20200507.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/IRIS-E-FILHOS_IMG_20200507.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Íris Cavalcanti e os filhos vivem há mais de dois meses a falta de acolhimento pela rede municipal de educação. Crédito: Lenne Ferreira/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Enquanto, no Recife, centenas de campanhas são realizadas para fornecer alimentos e material de higiene pessoal para famílias de áreas de fragilidade social, a população de São Lourenço da Mata ainda aguarda mais gestos de solidariedade. Uma das poucas ajudas que chegaram de fora aconteceu com apoio da Central Única das Favelas de Pernambuco, em parceria com o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Políticas de Prevenção à Violência e às Drogas, que enviou mais de 400 cestas básicas, 3 mil máscaras e 500 kits de higiene pessoal. O Instituto Juventude Criativa, entre outros parceiros, fizeram a distribuição, mas nenhuma cesta chegou ao assentamento onde Iris mora. </p>



<p>De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, as aulas online ainda não estão disponíveis porque todo o material pedagógico precisou ser elaborado e está na fase da revisão pela Secretaria de Comunicação. A gestão estuda a possibilidade de produzir material impresso para alunos sem acesso à internet. A secretária de Educação, Lourença Félix, explicou que o atraso na entrega dos kits se deve aos trâmites das licitações. “É um processo muito burocrático porque se trata de verba federal e as pessoas não entendem isso. É necessário fazer levantamento de itens, cotações. A verba que recebemos também não é suficiente para atender a demanda. Vamos gastar muito mais do que os R$ 96 mil que são repassados e vamos ter que complementar com recursos próprios”. Segundo ela, o processo está adiantado e até o início de junho, quase três meses após a suspensão das aulas, os alunos devem receber os kits.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/CLEIDE-NA-PLANTAÇÃO-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/CLEIDE-NA-PLANTAÇÃO.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/05/CLEIDE-NA-PLANTAÇÃO.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para enfrentar o perigo da fome, Cleide planta e colhe no terreno em volta do barraco o alimento consumido pela família. Crédito: Lenne Ferreira/MZ Conteúdo</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Com os pés e a enxada fincados no chão de quem sabe que a fome não espera, Cleide vê na agricultura familiar a única forma de garantir comida no prato da criançada. O terreno em volta do barraco de três cômodos, é onde ela deposita as sementes e raízes que vão alimentar a família mais pra frente. Milho, macaxeira, batata-doce, feijão e melancia são cultivados na terra de onde também brota olhos d’água para irrigar a plantação. “Tô trabalhando na roça porque daqui pra frente ninguém sabe como vai ser”, comenta ela com resiliência. Sobre a cama remendada no quarto-sala, a menina Izabella ignora as coisas do futuro e se diverte assistindo a animação infantil “Tá chovendo hambúrguer” enquanto a avó torce para que chova na plantação.</p>



[Best_Wordpress_Gallery id=&#8221;116&#8243; gal_title=&#8221;São Lourenço da Mata e Covid-19&#8243;]
<p>O post <a href="https://marcozero.org/coronavirus-revela-problemas-estruturais-de-sao-lourenco-da-mata/">Coronavírus revela problemas estruturais de São Lourenço da Mata, líder na taxa de mortalidade em PE</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/coronavirus-revela-problemas-estruturais-de-sao-lourenco-da-mata/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Falta água e presença do Estado: coronavírus aprofunda desigualdades estruturais nas periferias</title>
		<link>https://marcozero.org/falta-agua-e-presenca-do-estado-coronavirus-aprofunda-desigualdades-estruturais-nas-periferias/</link>
					<comments>https://marcozero.org/falta-agua-e-presenca-do-estado-coronavirus-aprofunda-desigualdades-estruturais-nas-periferias/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Apr 2020 14:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Acesso à água]]></category>
		<category><![CDATA[coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://marcozero.org/?p=26734</guid>

					<description><![CDATA[<p>Uma das principais recomendações para prevenção ao coronavírus é lavar as mãos, mas para quem vive em locais em que água na torneira é o evento da semana, não é tão simples. Apesar de em Pernambuco a Companhia de Saneamento (Compesa) estar proibida de cortar a água de quem está inadimplente e ter anunciado medidas [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/falta-agua-e-presenca-do-estado-coronavirus-aprofunda-desigualdades-estruturais-nas-periferias/">Falta água e presença do Estado: coronavírus aprofunda desigualdades estruturais nas periferias</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma das principais recomendações para prevenção ao coronavírus é lavar as mãos, mas para quem vive em locais em que água na torneira é o evento da semana, não é tão simples. Apesar de em Pernambuco a Companhia de Saneamento (Compesa) estar proibida de cortar a água de quem está inadimplente e ter anunciado medidas para minimizar o déficit estrutural de fornecimento em várias regiões, diversos bairros e comunidades relatam que continuam vivendo uma realidade de intenso racionamento.</p>



<p>A rotina de quem convive com a escassez de água, mesmo nas cidades, é frenética: corre para abrir torneiras, abre registro para encher caixa d`água, se houver, enche balde, mais um e outro, lava banheiro, enche todos os recipientes disponíveis, corre para fechar registro para &#8220;a água não ir embora”. Essa maratona é função, principalmente, das mulheres e são elas quem mais estão com medo do coronavírus.</p>



<p>Em Ouro Preto, bairro na periferia de Olinda, em meio à pandemia do coronavírus algumas comunidades passaram 15 dias sem água. Elisângela Maranhão, moradora do bairro e coordenadora de uma ONG em Peixinhos, outro bairro periférico da cidade, conta que a situação não mudou nada desde que as medidas da Compesa foram anunciadas. “Eu moro na Vila da Manchete e tem semana que a água vem uma vez, então você tem que aproveitar e encher tudo. Quando passa mais de 15 dias, a gente tem que comprar um carro pipa”, conta.</p>



<p>Já em Peixinhos, um bairro com mais de 30 mil pessoas, há áreas em que a água chega de três em três dias, outras em que a regra é não saber quando a água vai chegar. &#8220;Era para ter pelo menos uma vez por semana. Está muito complicada a questão da Compesa. Além disso, as pessoas na comunidade estão sem trabalho, a maioria é de trabalho informal”, destaca Elisângela.</p>



<p>Em Passarinho, comunidade da periferia do Recife, o Grupo de Mulheres de Passarinho denuncia há meses a falta de água, que já virou uma marca da comunidade. O bairro é formado por famílias, em grande maioria, chefiadas por mulheres trabalhadoras domésticas. “Agora, com o coronavírus, piorou tudo. A maioria das mulheres é de empregadas domésticas, diaristas. Agora parou tudo, muitas estão em casa. A água continua a mesma coisa, hoje mesmo não chegou, já vamos para seis dias sem água. Como é que você vai limpar a casa, como vai manter a higiene sem água? Está cada vez pior”, denuncia Edcléia Santos, liderança comunitária.</p>



<p>Além disso, ela alerta que, diferente de outros bairros do Recife, na comunidade não há carros de som da Prefeitura avisando sobre o coronavírus. &#8220;As pessoas estão continuando a vida, no meio da rua, o comércio está todo aberto”.</p>



<p>Diversos grupos e coletivos comunitários têm se organizado para cobrar o fornecimento regular de água e também de doações para quem está em situação de maior vulnerabilidade. É o caso do <a href="https://www.facebook.com/ColetivoForcaTururu/">Coletivo Força Tururu</a>, grupo criado na comunidade do Tururu, na periferia de Paulista. Os integrantes começaram uma campanha online para alertar moradores e pressionar por medidas concretas. Eles também mobilizaram doações para distribuir cestas básicas. &#8220;A situação para algumas áreas da comunidade está tranquila porque devido ao racionamento algumas casas já têm cisterna, mas em outras não. Em algumas casas e ruas tá faltando água ainda. Na comunidade temos caixa d’água e poço, mas na realidade do Tururu a caixa não enche e não existe tratamento”, relata Cidcleiton Luiz, integrante do Coletivo Tururu.</p>



<p>O relato evidencia como há desigualdades dentro da desigualdade e, para isso, a mobilização e cobrança por mudança precisa ser permanente.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/04/IMG_0508-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/04/IMG_0508-1024x682.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/04/IMG_0508-1024x682.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto: Coletivo Força Tururu</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mais pobres estão mais vulneráveis</strong></h3>



<p>Além da água, outros problemas estruturais colocam famílias que vivem em áreas periféricas, em geral muito adensadas, em situação de maior vulnerabilidade. Socorro Leite, coordenadora da ONG Habitat para Humanidade, que faz parte da Articulação Recife de Luta, lembra que no Recife, por exemplo, os bairros que sofrem com falta de água são regiões que historicamente mais sofrem com arboviroses, que são doenças causadas por vírus como o da dengue, do Zika vírus e febre chikungunya.</p>



<p>Daí surge outro problema que precisa ser pensado desde agora: com o racionamento de água, as pessoas precisam armazenar água, muitas vezes, de maneira inadequada, favorecendo a proliferação do mosquito transmissor de doenças. &#8220;A precariedade da infraestrutura afeta diretamente a saúde das pessoas”, alerta Socorro. &#8220;A questão da água é muito importante, para mim é prioridade. Se as comunidades dizem que não está chegando água na ponta, eu acredito e vejo que nada está se alterando. E aí tem a coisa das condições de moradia, muitas famílias já estavam em situação que não ajuda no isolamento social”, explica.</p>



<p>Pensando nisso, a Articulação Recife de Luta vem se mobilizando para denunciar também outros aspectos que têm colocado a população mais pobre e trabalhadora vulnerável ao coronavírus, como a exposição no transporte público. “As empresas de ônibus reduziram a frota e estão demitindo funcionários, mas os ônibus continuam lotados. Se você tem que sair para resolver alguma coisa, você é submetido a um transporte cheio, o que não ajuda na prevenção. Tem que ter algum tipo de mediação do governo do estado, estamos falando de uma concessão pública e eles têm que intervir para que o transporte não seja vetor de transmissão da doença”, exige Socorro. Em <a href="https://www.instagram.com/p/B-ciUYLJrr5/">nota</a>, a Articulação denunciou a situação e vem exigindo posições do governo estadual sobre essa e outras questões.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Por liminar, Compesa está proibida de cortar água</strong></h3>



<p>Após posicionamento de organizações e movimentos da sociedade civil sobre a urgência da água, a Defensoria Pública do Estado entrou com representação e ganhou uma liminar que determina que a Compesa, assim como outras empresas de serviços essenciais, não cortem fornecimento a clientes inadimplentes. O defensor público Fernando Debli, que está à frente da mediação, explicou que, em função da emergência, a prioridade da ação foi garantir que nenhuma pessoa tenha a água cortada por falta de pagamento.</p>



<p>O esquema de racionamento praticado pela Compesa em diversos bairros e comunidades, sendo que alguns recebem água na torneria de 10 em 10 dias, é mais difícil de resolver neste momento, ele explica. Isso porque a Compesa alega que há problemas estruturais para fazer chegar água nesses locais, o que exigiria mais estudos técnicos para pressionar a empresa. &#8220;Estamos atrás de entender a real abrangência desse problema. Acontece que é uma situação muito complicada porque exige aparato técnico especializado e profundo. O problema da água é muito generalizado, a principio a gente resolveu aceitar esses termos para que as coisas fossem feitas de imediato”, explicou.</p>



<p>Como resultado do acordo, ficou decidido que desde 14 de março, quando o governo do estado oficializou a situação de emergência sanitária, até o fim do decreto devido à pandemia de coronavírus não está permitido o corte de água e esgoto por falta de pagamento. Além disso, a Compesa também se comprometeu a isentar o pagamento de cerca de 120 mil residências da tarifa social, e enviar carros pipa nos locais onde não há rede de abastecimento.</p>



<p>Outro ponto definido é que a Compesa deveria apresentar à Defensoria um plano emergencial para execução de 43 obras estratégias &#8220;para viabilizar obras consideradas de pequeno e médio portes para otimizar a distribuição de água da Região Metropolitana do Recife, sem prejuízo da adoção de outras medidas, em conjunto com o governo do estado”. </p>



<p>De acordo com o defensor, este é o ponto mais complicado de resolver, mas que ele considera positivo. &#8220;Há um grande problema histórico e, de fato, é difícil que de um dia para o outro a Compesa consiga fornecer água para todo mundo. A princípio a gente se contentou com isso porque queremos ver a eficácia dessas medidas, mas estamos atentos para considerar novos fatos”, afirmou.</p>



<p>Segundo Debli, a Defensoria ainda está na fase de monitorar o cumprimento, ou não, dos termos do acordo. &#8220;A gente tem recebido bastante relatos de pessoas denunciando que Compesa e Celpe continuam cortando fornecimento de água e energia por falta de pagamento. A partir das denúncias vamos tomar atitude mais aprofundada quanto a isso”.</p>



<p>Saiba como entrar em contato e realizar denúncias à Defensoria Pública de Pernambuco <a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2020/04/WhatsApp-Image-2020-04-02-at-12.53.46.jpeg">aqui</a>.<br></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/falta-agua-e-presenca-do-estado-coronavirus-aprofunda-desigualdades-estruturais-nas-periferias/">Falta água e presença do Estado: coronavírus aprofunda desigualdades estruturais nas periferias</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/falta-agua-e-presenca-do-estado-coronavirus-aprofunda-desigualdades-estruturais-nas-periferias/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Aumento da desigualdade e otimismo do mercado: a velha nova ordem mundial está de volta ao Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/aumento-da-desigualdade-e-otimismo-do-mercado-a-velha-nova-ordem-mundial-esta-de-volta-ao-brasil-2/</link>
					<comments>https://marcozero.org/aumento-da-desigualdade-e-otimismo-do-mercado-a-velha-nova-ordem-mundial-esta-de-volta-ao-brasil-2/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Oct 2017 00:49:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[Fórum Social Mundial]]></category>
		<category><![CDATA[governo Temer]]></category>
		<category><![CDATA[relatório Oxfam]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://marcozero.org/?p=5697</guid>

					<description><![CDATA[<p>Seria irônico se não fosse trágico. Na semana em que a Oxfam Brasil divulga relatório alarmante sobre a desigualdade no país, o Fórum Econômico Mundial informa que avançamos no ranking de competitividade global. Alguns dirão que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas não estaria justamente aí o problema, considerando que [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/aumento-da-desigualdade-e-otimismo-do-mercado-a-velha-nova-ordem-mundial-esta-de-volta-ao-brasil-2/">Aumento da desigualdade e otimismo do mercado: a velha nova ordem mundial está de volta ao Brasil</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Seria irônico se não fosse trágico. Na semana em que a Oxfam Brasil divulga relatório alarmante sobre a desigualdade no país, o Fórum Econômico Mundial informa que avançamos no ranking de competitividade global. Alguns dirão que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas não estaria justamente aí o problema, considerando que o que nos faz retroceder de um lado é o que garante o crescimento do outro?</p>
<p>O relatório da Oxfam define a crise fiscal vivida pelo Brasil entre 2014 e 2015 como o ponto de inflexão a partir do qual, ainda no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, houve uma mudança de rumo na política econômica que passou a repercutir na política redistributiva. E que esse processo se agravou bastante no pós-impeachment.</p>
<p>“As reformas profundas que têm sido propostas nos últimos 16 meses afrontam o que preconiza nossa Constituição, e ameaçam reverter o processo de construção de nosso Estado de bem-estar social, em um período de crise econômica. Isto ocorre à revelia da população que, mesmo desconfiando do Estado, espera do setor público o atendimento de suas necessidades básicas. Existe evidente e acelerada redução do papel do Estado na redistribuição dos recursos em nossa sociedade, o que aponta para um novo ciclo de aumento de desigualdades”.</p>
<p>A trajetória de queda lenta da desigualdade no país – redução de 37% para 10% da população abaixo da linha da pobreza entre 1988 e 2015 – cessou e começamos 2017 com 16 milhões de brasileiros nessa faixa e uma perspectiva de terminarmos o ano com mais 3,6 milhões de pessoas passando a viver entre os mais pobres dos mais pobres, segundo o Banco Mundial.</p>
<p><strong>O mundo real e a percepção do empresário</strong></p>
<p>As reformas que preconizam o futuro sombrio para o combate às desigualdades sociais, segundo a Oxfam, são as mesmas que impulsionaram o Brasil, depois de quatro anos de queda, a voltar a subir no ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, em parceria com a Fundação Dom Cabral. O Brasil deixou o 81º lugar no ranking e agora é o 80º, num total de 137 países. Avanço de uma só posição, mas muito festejado pela tríplice aliança entre governo, mercado e mídia.</p>
<p>O Brasil melhorou em 10 dos 12 itens avaliados. “A eficiência do mercado de trabalho subiu três posições. Esse pilar foi claramente afetado positivamente pela reforma trabalhista, sendo as altas mais expressivas percebidas nos subfatores qualitativos referentes à cooperação nas relações com o empregador do trabalho (+12 posições) e profissionalização da gestão (+11 posições)”, diz o Relatório Global de Competitividade 2017-2018 do Fórum Econômico Mundial.</p>
<p>A grave crise institucional que comanda a agenda pública nacional nos últimos dois anos envolvendo os Três Poderes da República, a crise de representatividade do Congresso Nacional mais conservador da história recente do país, as recorrentes denúncias de violações de direitos e seletividade nas investigações da Operação Lava-Jato passaram ao largo da avaliação do Fórum, que destacou a “independência do Judiciário e a força das normas de auditoria e relatórios” e para o qual ficaram evidenciados “os ganhos de credibilidade das instituições brasileiras durante o processo de renovação, luta por maior transparência e combate à corrupção”.</p>
<p>A alta mais expressiva do Brasil se deu no item Inovação com o avanço de 15 posições, consideradas a capacidade de inovar (ganho de 19 posições), qualidades das instituições de pesquisa científica (ganho de 9 posições) – não esqueçamos aqui dos cortes drásticos de recursos federais para as áreas de ciência e tecnologia -, a despesa das empresas com pesquisa e desenvolvimento (12 posições) e a colaboração universidade-indústria (20 posições).</p>
<p>O detalhe é que essas variáveis todas não são fruto de análise de dados objetivos, mas de percepções subjetivas dos executivos colhidas em entrevistas e refletem o seu “otimismo” no momento em que a desigualdade social volta a crescer. O único item com dados concretos sobre inovação é o índice de pedidos de patentes (justamente o único subfator em que o Brasil caiu duas posições). O mundo real contradizendo o mundo idealizado do nosso empresariado.</p>
<p><strong>Paraíso fiscal ou modelo de negócios?</strong></p>
<p>Façamos agora uma pausa para um rápida viagem à cidade de Zug, na Suíça. Antes disso convém explicar que a Suíça lidera o ranking de competitividade global. Um modelo, portanto, para o empresariado brasileiro e do mundo. Pois bem, Zug, um povoado de 15 mil habitantes entre Zurique e Davos, tem registrada 30 mil empresas. Zug tem mais sedes de empresas multinacionais do que o Rio de Janeiro com 6,5 milhões de habitantes, embora todas em salas modestas com cinco ou seis funcionários. Lá está, por exemplo, a Burguer King, que tem como maior acionista o bilionário brasileiro Jorge Paulo Lemann.</p>
<p>Zug caiu no radar do jornalista inglês Andy Robinson quando este cobria as reuniões anuais do Fórum Econômico Mundial, em Davos, nos alpes suíços. Lá onde uma vez por ano os homens mais ricos do mundo se reúnem para analisar relatórios de competitividade, bater palmas para políticas de ajustes fiscais implementadas mundo a fora e planejar ações de filantropia a países do terceiro mundo abalados por desastres naturais e políticos, como o Haiti. Andy mata a charada: “Zug é o cantão da Suiça – país classificado como paraíso fiscal pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – onde se pagam menos impostos sobre o lucro e outros ganhos de capital”. Um fator que, certamente, contribui decisivamente para o aumento da competitividade do país líder do ranking.</p>
<p>Zug é, afinal, um pequeno símbolo das idealizações competitivas do “mercado” e a Suíça o paraíso onde se escondiam mais de 8 mil contas não declaradas à Receita pela elite brasileira. Reveladas após vazamento feito por funcionário do HSBC suíço que veio à tona em 2015.</p>
<p><strong>A festa do andar de cima</strong></p>
<p>Voltemos ao Brasil. Aqui onde os ventos da desigualdade sopram sem barreiras. Onde fechamos a semana com mais um relatório. Desta vez produzido pela consultoria Capgemini. Em 2016, quando a economia brasileira afundou com uma queda de 3,6% no PIB e 14 milhões de desempregados, o Brasil viu aumentar em 10,7% o número de milionários, índice superior à média mundial (7,35%). São considerados milionários todos aqueles que possuem US$ 1 milhão ou mais em ativos disponíveis para investimento, excluindo imóveis em que residam, artigos de coleções e bens de consumo duráveis.</p>
<p>A riqueza acumulada pelos milionários brasileiros subiu de US$ 3,7 trilhões em 2015 para US$ 4,2 trilhões em 2016. Passamos de 148,5 mil super-ricos para 164,5 mil. As explicações para tremenda falta de sintonia com o mundo real (de recessão econômica, alta do desemprego e aumento da pobreza verificado no ano passado) está no “otimismo” do “mercado” com a queda da ex-presidenta Dilma Rousseff e a expectativa da retomada da economia. Foi na arena da Bolsa de Valores que a festa do andar de cima aconteceu. A bolsa brasileira foi a que mais subiu em todo o mundo no ano passado com alta de 69% em dólar. Não importa que as expectativas tenham sido frustradas no mundo real, os ganhos financeiros foram devidamente computados. Lembremos que os recordes de transações na bolsa continuam se acumulando em 2017.</p>
<p>Até que ponto o descompasso entre o boom do mercado financeiro e o aumento da desigualdade deve ser aceito com naturalidade pelos brasileiros? Da mesma forma como vamos nos acostumando a ver o crescimento no número de moradores de rua cascavilhando sacos de lixo nas calçadas para se alimentar? Ou crianças tomando as esquinas das grandes cidades pedindo moedas a motoristas impacientes nos semáforos?</p>
<p><strong>Democracia importa</strong></p>
<p>Para a Oxfam Brasil, o país precisa de mais e não menos gastos sociais em saúde e educação; menos de uma reforma previdenciária e mais de uma reforma tributária na qual quem tem mais pague mais e quem tem menos pague menos (com menos impostos sobre consumo e mais sobre patrimônio e lucro); combate à discriminação racial e de gênero (que só reforça e estigmatiza a desigualdade social); geração de emprego estável e formal; política consistente de valorização do salário mínimo; e defesa da democracia.</p>
<p>“A redução de desigualdades requer um sistema democrático saudável. No Brasil, durante o período da ditadura militar, até as primeiras eleições gerais com voto direto em 1989, o índice de Gini para renda variou, mas não saiu do patamar do 0,750. A partir de então, começou uma trajetória de redução que nos levou ao patamar de 0,620 em 2013. A possibilidade de escolher governos não explica sozinha a trajetória histórica, mas a ausência de democracia certamente é um empecilho à redução de desigualdades”.</p>
<p>No cruzamento das análises dos relatórios da Oxfam Brasil e do Fórum Econômico Mundial fica evidente a qual agenda o governo Temer tem servido. Fica evidente também o quanto a crise de representatividade política, o aumento do desemprego casado com a flexibilização das leis trabalhistas, a redução dos gastos sociais e do tamanho do Estado brasileiro, o incremento do discurso antidemocrático e o boom do mercado financeiro estão direta ou indiretamente relacionados.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/aumento-da-desigualdade-e-otimismo-do-mercado-a-velha-nova-ordem-mundial-esta-de-volta-ao-brasil-2/">Aumento da desigualdade e otimismo do mercado: a velha nova ordem mundial está de volta ao Brasil</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/aumento-da-desigualdade-e-otimismo-do-mercado-a-velha-nova-ordem-mundial-esta-de-volta-ao-brasil-2/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Edilson acerta ao apontar Recife como a &#8220;capital da desigualdade&#8221;. Mas é assim desde os anos 1990</title>
		<link>https://marcozero.org/edilson-acerta-ao-apontar-recife-como-a-capital-da-desigualdade-mas-e-assim-desde-os-anos-1990/</link>
					<comments>https://marcozero.org/edilson-acerta-ao-apontar-recife-como-a-capital-da-desigualdade-mas-e-assim-desde-os-anos-1990/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Sep 2016 00:26:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[candidato]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade social]]></category>
		<category><![CDATA[Edilson Silva]]></category>
		<category><![CDATA[eleição]]></category>
		<category><![CDATA[índice de Gini]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<guid isPermaLink="false">http://beta.marcozero.org/?p=2987</guid>

					<description><![CDATA[<p>“Recife é a capital brasileira da desigualdade”, Edilson Silva em entrevista à Rádio Olinda no dia 21 de setembro, replicada no twitter oficial do candidato. A declaração de que o Recife é a capital da desigualdade tem sido utilizada nas entrevistas concedidas pelo candidato do Psol, Edilson Silva, para defender que a prefeitura invista mais [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/edilson-acerta-ao-apontar-recife-como-a-capital-da-desigualdade-mas-e-assim-desde-os-anos-1990/">Edilson acerta ao apontar Recife como a &#8220;capital da desigualdade&#8221;. Mas é assim desde os anos 1990</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="color: #111111;"><span style="font-weight: bold;">“Recife é a capital brasileira da desigualdade”, Edilson Silva em entrevista à Rádio Olinda no dia 21 de setembro, replicada no twitter oficial do candidato.</span></p>
<p style="color: #111111;">A declaração de que o Recife é a capital da desigualdade tem sido utilizada nas entrevistas concedidas pelo candidato do Psol, Edilson Silva, para defender que a prefeitura invista mais recursos nas áreas sociais e em benefício das populações mais vulneráveis, como aquelas que ainda moram em palafitas.</p>
<p style="color: #111111;">A assessoria do candidato informou que a afirmação está baseada em dados do IBGE. O Truco Eleições 2016 – projeto de<em>fact-checking</em>da<a style="color: #337ab7;" href="http://apublica.org/">Agência Pública</a>em parceria com a<a style="color: #337ab7;" href="http://marcozero.org/">Marco Zero Conteúdo</a>em Recife – checoua declaração de Edilson e concluiu que ela é verdadeira, mas que o último levantamento do índice que melhor mede a concentração de renda nos municípios, o Gini, é de 2010. Portanto, a fala do candidato do Psol precisa ser contextualizada para evitar associar o quadro da desigualdade na capital pernambucana a algo novo, recente. Por isso, ele recebe a carta “Tá certo, mas peraí”.</p>
<p style="color: #111111;">O índice de Gini, criado pelo matemático italiano Conrado Gini, mede o grau de concentração de renda, apontando a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos. Numericamente varia de zero a um. O valor zero representa a situação de plena igualdade, onde todos recebem a mesma renda. O valor 1 está no extremo oposto, reflete a desigualdade plena, quando um grupo pequeno de pessoas detém toda a riqueza de uma comunidade.</p>
<p style="color: #111111;">No Brasil, o índice de Gini é divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O órgão investiga a distribuição de renda nos municípios durante os censos demográficos realizados a cada dez anos. O IBGE também realiza investigações sobre rendimentos anualmente, trimestralmente e mensalmente, por meio da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) e a PNAD Contínua, mas não divulga o índice de Gini a partir destes dados.</p>
<p style="color: #111111;">Os índices de Gini municipal mais recentes são relativos aos anos de 1991, 2000 e 2010. Nos três levantamentos, Recife ocupa o primeiro lugar em desigualdade. E o mais grave: a cada avaliação piora o índice aproximando-se do 1. Em 1991, 0,6739; em 2000, 0,6789. Subindo para 0,6894 em 2010. De todas as 27 capitais brasileiras, além do Recife, apenas Vitória (ES), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Salvador (BA) registram pioras continuadas, a cada dez anos, na concentração de renda.</p>
<p style="color: #111111;">Os índices do Brasil variaram de 0,6366 em 1991, a 0,6060 em 2000 e 0,5670 em 2010. Sempre abaixo dos índices da capital pernambucana.</p>
<p style="color: #111111;"><a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/09/índice-de-gini.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-2988" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2016/09/índice-de-gini.png" alt="indice-de-gini" width="610" height="655"></a></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/edilson-acerta-ao-apontar-recife-como-a-capital-da-desigualdade-mas-e-assim-desde-os-anos-1990/">Edilson acerta ao apontar Recife como a &#8220;capital da desigualdade&#8221;. Mas é assim desde os anos 1990</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/edilson-acerta-ao-apontar-recife-como-a-capital-da-desigualdade-mas-e-assim-desde-os-anos-1990/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
