Ajude a MZ com um PIX de qualquer valor para a MZ: chave CNPJ 28.660.021/0001-52
O rico da Zona Norte do Recife gosta de andar a pé até a padaria, mora num casarão restaurado ou em apartamento confortável em uma rua arborizada. Estudou no São Luís ou no Instituto Capibaribe, frequenta o forró de Seu Vital no Poço da Panela e prefere um carro pequeno e discreto — um Mini Cooper, por exemplo. Já o rico da Zona Sul mora num apartamento com nome em inglês e vista para o mar de Boa Viagem, troca de SUV com regularidade, frequenta restaurantes badalados, decora a casa com arquiteto famoso e valoriza áreas comuns instagramáveis no condomínio.
São dois estilos de vida e duas formas de disputa simbólica entre as elites recifenses.
É isso que mostra a tese de doutorado Classes e classificações na cidade: disputas simbólicas entre frações de elite do Recife, do sociólogo Bernardo Fortes de Moura Arruda, defendida em junho de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Durante a pesquisa para a tese, ele realizou 80 entrevistas — 49 com moradores da Zona Norte e 31 da Zona Sul — e selecionou 50 para análise. Todos as pessoas entrevistadas integram o 10% mais rico do Recife, e algumas o 1%. Entre os entrevistados, há um grande empresário dos setores de energia, cimento e logística, integrante de família tradicional pernambucana de origem açucareira; e uma empresária e filantropa reconhecida pela Forbes, ex-bailarina e fundadora de projeto social de arte e educação.
O que Bernardo Fortes encontrou na pesquisa mostra que para a elite recifense a fronteira entre a Zona Norte e a Zona Sul não é apenas geográfica. “O ponto não é dizer que a Zona Norte é mais culta ou que a Zona Sul é apenas ostentação”, ressalta o sociólogo. “O que a tese mostra é que esses rótulos são usados na disputa entre as próprias elites. Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem: orla, prédios caros, consumo e visibilidade social. A Zona Norte, por sua vez, precisa narrar seu prestígio por outros caminhos: tradição, memória, arborização, casario, discrição e vida cultural”. Confira a entrevista abaixo.
Marco Zero – A tese mostra que essa disputa entre ZN e ZS é assimétrica: a Zona Norte ataca, a Zona Sul defende. Por que o indivíduo da Zona Norte tem mais interesse em manter essa fronteira?
Bernardo Fortes – A assimetria existe porque Zona Norte e Zona Sul não disputam prestígio pelo mesmo critério. Boa Viagem consolidou-se como símbolo visível de êxito econômico: orla, imóveis de luxo, hotéis, restaurantes e consumo de alto padrão. Parte do seu prestígio já está inscrita na paisagem. Morar perto ou diante da praia funciona, nesse imaginário, como emblema de ascensão social.
A Zona Norte também concentra riqueza, mas costuma narrar sua distinção por outros sinais: tradição familiar, antiguidade da ocupação, memória dos antigos arrabaldes do Capibaribe, casarões, sítios e uma sofisticação mais discreta, associada à herança aristocrática e açucareira do Recife. Esses atributos, porém, não aparecem na tese como virtudes naturais da Zona Norte, mas como recursos simbólicos usados por suas elites para disputar prestígio com a Zona Sul.
Por isso, o morador da Zona Norte tende a investir mais nessa fronteira simbólica. A Zona Sul aparece, em muitos depoimentos, como lugar do dinheiro visível, do consumo e da ostentação; a Zona Norte, como espaço da tradição, da discrição, do refinamento cultural e do “bom gosto”. Não é uma descrição objetiva dos dois espaços, mas uma forma de classificação social. A Zona Sul precisa explicar menos seu prestígio porque ele é mais imediatamente reconhecível. A Zona Norte, ao contrário, reafirma sua legitimidade histórica, cultural e moral para se diferenciar do brilho econômico associado à orla.
Gilberto Freyre descreve a urbanização do Recife como um processo traumático, como o estilhaçamento de uma ordem que mantinha os antagonismos sociais em equilíbrio “à sombra do engenho”. Esse trauma segue operando nas fronteiras simbólicas entre as zonas do Recife de hoje?
Em Gilberto Freyre, o sobrado urbano aparece como um desdobramento da crise da antiga ordem da casa-grande e senzala. Ao contrário do engenho, que funcionava como espaço relativamente fechado e controlado, a cidade surge como ambiente marcado pela circulação intensa, pela mistura social e pela perda daquele domínio patriarcal mais direto sobre a vida cotidiana. Por isso, o sobrado frequentemente aparece em Freyre quase como uma arquitetura defensiva, hostil à rua e à imprevisibilidade da vida urbana.
Ecos desse processo ajudam a compreender também a formação histórica das áreas de prestígio do Recife contemporâneo. A Zona Norte tradicional começa a se consolidar ainda no século XIX, quando os antigos arrabaldes ligados ao Capibaribe passam a atrair setores das elites interessados em formas de vida mais rarefeitas e protegidas da intensidade social do centro portuário e comercial da cidade, marcado pela circulação de trabalhadores, comércio popular, escravizados, ex-escravizados e pela própria dinâmica anônima da urbanização. Já Boa Viagem e a Zona Sul surgem mais tarde sob outra lógica. A valorização da orla se associa à modernização da cidade, ao automóvel, à verticalização e a um imaginário cosmopolita ligado à vida marítima e ao consumo. Ainda assim, permanece a busca por formas urbanas relativamente seletivas de convivência.
Mas a própria trajetória de Boa Viagem produz uma contradição importante. À medida que a praia se populariza e se transforma no maior espaço público da cidade, atravessado por circulação metropolitana intensa, parte das elites passa a desenvolver uma relação mais ambivalente com aquele espaço. Boa Viagem continua extremamente valorizada como paisagem e símbolo imobiliário de prestígio, mas há uma tendência de deslocamento da sociabilidade das frações mais altas para praias mais seletivas do litoral sul e outros espaços percebidos como mais controlados. Nesse sentido, o trauma descrito por Freyre talvez não sobreviva como permanência direta da casa-grande, mas como continuidade de uma busca recorrente das elites recifenses por espaços protegidos da massificação, da circulação excessiva e da imprevisibilidade da vida urbana.
Você escreve que o mercado imobiliário de alto padrão no Recife atua como um ‘operador simbólico’ — não apenas refletindo, mas produzindo as fronteiras entre as elites. Os incorporadores fazem isso conscientemente ou simplesmente captam o que já está no ar?
O mercado imobiliário não cria essas fronteiras sociais sozinho, porque elas já existem historicamente no Recife, mas ele também não atua de forma neutra. Os incorporadores captam desejos, hierarquias e imagens de prestígio já presentes entre as elites e os transformam em mercadoria. O imóvel de alto padrão raramente é vendido apenas como metragem ou localização. O mercado vende pertencimento social junto com o apartamento e o bairro.
Essa dinâmica aparece na própria forma como determinadas áreas da cidade são apresentadas. Em Boa Viagem, o discurso costuma enfatizar modernidade, consumo, vista para o mar e vida cosmopolita. O edifício na orla funciona quase como um troféu urbano. Já nos bairros valorizados da Zona Norte, o apelo tende a passar pela tradição, pela autenticidade histórica, pela discrição e por referências ao imaginário aristocrático ligado ao açúcar e aos antigos arrabaldes do Capibaribe, algo que muitas vezes aparece até nos nomes dos edifícios.
Não se trata necessariamente de uma ação totalmente consciente ou planejada para produzir identidades urbanas. O processo é mais difuso. O mercado lê aspirações sociais já existentes e, ao transformá-las continuamente em linguagem de venda, acaba ajudando a reforçar e organizar essas fronteiras simbólicas da cidade.
Dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites
Foto espelhada de Bernardo Fortes/Reprodução
Você mostra que os ricos da Zona Norte têm apreço pela caminhabilidade e pela arborização, mas isso em bairros que de certa forma têm uma circulação controlada. Já as elites da Zona Sul preferem o condomínio fechado, o shopping. Ambos se unem pelo medo do centro, que seria um espaço público mais propício ao encontro com outras classes sociais? Você acha que a decadência do centro do Recife está ligada também a um abandono do centro pelas elites?
Sim, acho que existe uma relação importante entre esses processos. Embora a Zona Norte valorize caminhabilidade, casario, arborização e certa ideia de convivência urbana mais aberta, isso geralmente acontece em áreas relativamente protegidas, com circulação social mais previsível e padrões de convivência mais homogêneos. Nesse sentido, a própria valorização da rua e da circulação a pé parece depender também de uma percepção de segurança e familiaridade social do espaço.
Isso ajuda a entender uma contradição importante apreendida pela tese. A Zona Norte costuma se apresentar como espaço mais aberto à convivência urbana e à mistura social do que a Zona Sul. Mas, na prática, muitas dessas áreas continuam funcionando dentro de limites relativamente seletivos: espaços públicos bastante frequentados, como a Praça de Casa Forte ou eventos tradicionais do Poço da Panela, são abertos, mas frequentados majoritariamente por pessoas que compartilham códigos sociais parecidos, o que também ajuda a produzir uma sensação maior de familiaridade e conforto na convivência cotidiana.
Boa Viagem, por outro lado, possui intensa circulação urbana, comércio de rua e uma praia amplamente frequentada. O ponto não é ausência de mistura social, mas formas seletivas de uso desses espaços, como a ocupação mais restrita de certos trechos da praia e o deslocamento do lazer para praias mais exclusivas do litoral sul.
Nesse sentido, o centro tradicional do Recife acaba representando justamente o oposto dessa lógica: um espaço marcado pela circulação intensa, pelo comércio popular e por encontros urbanos menos controláveis entre grupos sociais distintos. Esse afastamento progressivo das elites em relação ao centro é um dos fatores que ajudam a explicar sua tendência de decadência. Quando escolas tradicionais, cinemas de rua, equipamentos de consumo, galerias, shoppings, investimentos privados e parte da atenção pública se deslocam para a Zona Norte e para a Zona Sul, o centro perde funções sociais, prestígio e capacidade de atrair recursos. Aos poucos, deixa de ser percebido como espaço de moradia, lazer e consumo das elites e passa a ser associado sobretudo ao comércio popular, à circulação intensa e à imprevisibilidade urbana.
Muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam.
A simpatia pela esquerda que aparece em alguns entrevistados da ZN é uma posição política efetiva ou mais um marcador de refinamento cultural que distingue a Zona Norte da Zona Sul?
Pode ser as duas coisas. Em alguns entrevistados da Zona Norte, existe um entusiasmo vivido com pautas progressistas, como direito à cidade, preservação do patrimônio histórico, valorização da diversidade e preocupação com minorias. Mas essas pautas também aparecem ligadas a uma estética e a uma forma específica de viver a cidade. Defender ruas arborizadas, casarões antigos, caminhabilidade, vida cultural, convivência urbana e certa mistura social faz parte de um modo de experimentar a Zona Norte e de diferenciá-la simbolicamente da Zona Sul.
Nesse sentido, a valorização da diversidade também funciona como marcador de refinamento moral e distinção entre frações da elite. Isso não significa que seja apenas pose. Pode haver esforço real de convivência e valorização da diversidade. O ponto é que essa convivência frequentemente permanece seletiva, sem necessariamente romper as hierarquias sociais existentes.
Moradores do Poço da Panela resistiram tanto à construção de um Atacado dos Presentes quanto à de uma UPA no bairro. Ambos estabelecimentos eram voltados a públicos populares. Os argumentos usados foram urbanísticos e ambientais: o impacto no trânsito, a preservação do rio, o microclima. Esses episódios podem revelar que o “estilo de vida” que as classes altas da Zona Norte dizem defender é, na prática, também uma forma de gestão do território para manter afastados os serviços e os públicos que não pertencem ao seu círculo simbólico?
Esses episódios sugerem que o estilo de vida defendido no Poço da Panela envolve não apenas preocupações urbanísticas e ambientais legítimas, mas também uma tentativa de preservar a imagem social do bairro, suas hierarquias internas e suas regras implícitas de convivência. A defesa do patrimônio, da arborização, do microclima e da tranquilidade se liga a uma forma específica de viver a Zona Norte: um espaço valorizado justamente por parecer mais calmo, histórico, pouco adensado e socialmente previsível. Quando chegam equipamentos voltados a públicos populares, o incômodo não se reduz ao trânsito ou ao impacto ambiental. Também aparece o receio de que o bairro perca parte do perfil social e da atmosfera simbólica que sustentam seu prestígio.
Como sugere o sociólogo Pierre Bourdieu, a intolerância estética pode funcionar como uma das barreiras mais fortes entre classes. Nesse sentido, preocupações aparentemente neutras com paisagem, circulação ou preservação urbana acabam funcionando também como mecanismos de filtragem social: delimitam quem circula, quem consome e quais formas de presença parecem “adequadas” ao bairro, sem que isso precise ser formulado diretamente em termos de classe.
A tese mostra que Boa Viagem nasceu como espaço de elite porque só era acessível de carro e o automóvel funcionava como filtro social que definia quem podia chegar lá. O condomínio fechado e o shopping herdaram essa lógica?
A lógica é parecida: transformar acesso em distinção. No início, o automóvel filtrava quem podia chegar a Boa Viagem e convertia distância em privilégio. Depois, condomínio fechado e shopping atualizaram esse filtro por outros meios: portaria, segurança, estacionamento, consumo e controle da circulação. Isso aparece até na relação ambígua com o transporte público: muitos entrevistados dizem usar metrô e ônibus no exterior com naturalidade, mas no Recife simplesmente não os utilizam. O interessante é que essa recusa quase não precisa ser justificada: certos meios de transporte já aparecem previamente fora do horizonte cotidiano de uso das elites locais.
Conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, habitus é o conjunto de disposições incorporadas — agir, pensar, perceber o mundo — que uma pessoa adquire ao longo da vida pela socialização, e que orienta seu comportamento de forma quase automática, sem necessidade de reflexão consciente.
O caso do entrevistado “Guilherme” mostra que a família dele abria mão de conforto material para mantê-lo nas escolas certas do bairro das Graças: a escola não transmite apenas conhecimento, mas repertório, rede e habitus. Isso vale para as duas zonas? Tanto a elite da Zona Norte quanto a da Zona Sul investem na escola como rito de inserção ou há uma diferença na forma como cada uma valoriza e usa a escola como instrumento de reprodução simbólica?
A escola aparece na tese menos como simples transmissão de conteúdo e mais como espaço de formação de redes, repertórios, modos de falar e reconhecer pertencimentos sociais. No discurso dos entrevistados, Instituto Capibaribe e Apoio tendem a aparecer como o ideal de uma formação mais crítica, cultural e intelectualizada, muito associada ao imaginário da Zona Norte. Damas e São Luís, embora tradicionais e elitizados, surgem de forma mais nuançada, ligados a prestígio histórico e formação clássica. Já o Santa Maria aparece com mais frequência como símbolo mais direto de fechamento social e reprodução de classe.
Mas essa divisão não é mecânica. Mesmo entre moradores da Zona Sul aparecem pais e egressos que reconhecem esse elitismo e evitam o Santa Maria justamente por considerá-lo fechado demais. Ou seja, a escola funciona como rito de inserção nas elites, mas também como espaço onde as famílias escolhem que tipo de elite querem formar e a qual fração simbólica desejam pertencer.
Cunhado pelo sociólogo americano Richard Peterson nos anos 1990, o conceito de onivorismo cultural descreve o fenômeno pelo qual as elites contemporâneas passaram a consumir cultura de forma eclética — misturando erudito e popular —, em substituição ao antigo esnobismo que rejeitava tudo que fosse considerado de baixo status.
A elite da Zona Norte frequenta o forró de Seu Vital, valoriza o artesanato popular e se orgulha de ver os morros pela janela. Esse “onivorismo cultural” aproxima realmente as classes altas da ZN das classes populares? Há alguma diferença real na relação das elites recifenses da ZN e da ZS com as classes populares ou é apenas a narrativa que cada uma constrói?
O que aparece na tese não é exatamente uma dissolução das fronteiras de classe pelo “onivorismo cultural”, mas uma forma específica de relação com o popular que também funciona como distinção. Parte das elites da Zona Norte valoriza o forró, o artesanato, os mercados e até a proximidade visual com os morros como sinais de autenticidade cultural e enraizamento urbano.
Mais do que uma diferença objetiva e absoluta em relação à Zona Sul, isso aparece como parte de uma disputa simbólica interna às próprias elites recifenses. Como o prestígio econômico e imobiliário de Boa Viagem é mais imediatamente reconhecível, frações da Zona Norte tendem a investir com mais intensidade em critérios morais, culturais e estéticos de legitimação, contrapondo tradição, autenticidade e “bom gosto” ao dinheiro percebido como excessivamente visível ou ostentatório.
Mas essa aproximação com o popular permanece seletiva e hierarquizada. O Bar de Seu Vital revela bem essa ambiguidade: para moradores populares, é comércio cotidiano; para setores das classes médias e altas, aparece como espaço “autêntico” de sociabilidade.
Eventos como o Segura o Talo [bloco de carnaval da Zona Norte e arrasta milhares de pessoas, principalmente das classes populares] ajudam a mostrar o limite dessa abertura. Quando o popular deixa de aparecer como folclore, tradição ou autenticidade controlável e passa a ocupar intensamente áreas valorizadas da Zona Norte, surgem desconfortos e mecanismos de rejeição. Ou seja, essa boa vontade cultural funciona como trunfo simbólico na disputa entre frações da elite, mas não significa, necessariamente, maior igualdade concreta nas relações de classe.
Os entrevistados “Jaciara” e “José” culpam a si mesmos pelo isolamento social no bairro das Graças e não parecem enxergar as barreiras simbólicas que os excluem. O que sugere que essas barreiras se tornam visíveis para quem já está perto o suficiente, mas para quem está mais distante, elas simplesmente não aparecem. A disputa que a tese descreve é uma briga interna entre frações da elite, ou próximas dela, ou isso se irradia para além das classes altas do Recife?
Esses códigos funcionam como instrumentos de diferenciação e, ao mesmo tempo, como barreiras de entrada. Inicialmente, ajudam as diferentes frações da elite a marcar distinções entre si, definindo formas legítimas de morar, circular, consumir e se comportar. Mas, ao criar etiquetas sociais e códigos de pertencimento cada vez mais específicos, acabam também dificultando a integração de quem ascende socialmente sem ter sido socializado nesses universos.
Isso vale tanto para a Zona Norte quanto para a Zona Sul. Ambas possuem códigos próprios de pertencimento ligados a formas de vida burguesas, embora valorizem aspectos diferentes. Na Zona Sul, aparecem com mais força códigos ligados à apresentação social, ao consumo de alto padrão, à circulação em espaços privados e à etiqueta urbana das elites. Já em setores da Zona Norte, aparece no discurso uma valorização maior da cultura, da diversidade, da vida de rua, do patrimônio e de repertórios vistos como mais alternativos ou intelectualmente sofisticados. Isso não significa que a Zona Sul não tenha cultura, nem que a Zona Norte realize plenamente essa abertura. Trata-se de imagens construídas na própria disputa entre as zonas.
Por isso, não basta comprar um apartamento em Casa Forte ou na avenida Boa Viagem. A escolha do endereço não garante integração social. Entrevistei, por exemplo, novos ricos da Zona Sul que moram na avenida Boa Viagem, mas cuja vida social quase não acontece ali: os amigos permanecem em outros bairros, os vínculos seguem ligados aos lugares de origem e a circulação cotidiana continua organizada por redes anteriores à ascensão.
Isso produz um efeito importante na própria reprodução de classe. Como os pais permanecem parcialmente isolados, também têm mais dificuldade de inserir os filhos nas redes de amizade, sociabilidade e reconhecimento típicas desses grupos. O resultado é que a família consegue chegar ao espaço valorizado, mas nem sempre transforma essa chegada em pertencimento pleno e duradouro. É por isso que estudar os ricos ajuda a compreender as classes sociais como um todo. As barreiras criadas no topo não afetam apenas quem já pertence à elite; elas também moldam os caminhos, os limites e as frustrações de quem tenta ascender.
Pesquisador explica que Boa Viagem já exibe prestígio na paisagem
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo
Você escreve na tese que perguntas diretas sobre patrimônio e renda geravam desconforto ou eram simplesmente omitidas. Você então passou a medir o capital econômico também por perguntas indiretas, como a comparação entre restaurantes de preferência (Nez Bistro X Ilha da Kosta, por exemplo). O que essa mudança na metodologia da pesquisa revelou?
Quando passei a observar o capital econômico por meio de sinais indiretos, percebi que a posição social aparecia com mais clareza nos estilos de vida do que nas declarações formais de renda. Poucos entrevistados se recusavam totalmente a falar sobre patrimônio ou ganhos, sobretudo porque essas perguntas ficavam para o fim, depois de duas ou três horas de conversa. Ainda assim, o desconforto era nítido. Em alguns casos, esse tipo de pergunta funcionava quase como um sinal de alerta: mesmo feita ao final da entrevista, podia dificultar a indicação de novos interlocutores ou fechar portas para contatos futuros.
Por isso, comecei a observar outros elementos: o prédio onde a pessoa morava, a escola em que estudou, viagens, carro, casa de praia e padrões de consumo. Muitas vezes, em vez de perguntar diretamente o valor do imóvel, eu procurava depois anúncios de apartamentos no mesmo prédio para estimar o padrão econômico daquele universo.
A comparação entre Nez Bistrô e Ilha da Kosta ajudou a mostrar isso. A diferença não estava apenas no preço, mas no tipo de gosto mobilizado. Alguns valorizavam fartura, quantidade e sensação de “valer o preço”; outros valorizavam ambiente, curadoria, apresentação, discrição e experiência gastronômica. Esse contraste revelava que a ascensão econômica não apaga automaticamente padrões de socialização anteriores: o modo como cada entrevistado avaliava um restaurante também indicava sua relação com o consumo, com a distinção e com os códigos de pertencimento daquele universo social. No fim, a pesquisa mostrou que o dinheiro, entre essas frações da elite, raramente aparece sozinho. Ele surge incorporado em gostos, estilos de vida, formas de circulação pela cidade e maneiras socialmente legítimas de consumir e demonstrar pertencimento.
Com base no que você escreve do que o sociólogo Erving Goffman chama de “gestão da impressão”, você mesmo passou por um processo de adaptação da sua performance ao longo do campo: trocando o terno pela informalidade, ajustando o vocabulário, modulando gestos e tom de voz para se apresentar como alguém de dentro. Mas a tese também mostra que seus entrevistados fazem exatamente isso o tempo todo: gerenciam a impressão que causam, escolhem o que mostrar e o que esconder, ainda mais diante de um sociólogo quando eles sabiam que estavam sendo estudados. Como você lidou com essa dupla encenação, a sua e a deles?
A pesquisa me fez perceber que a entrevista nunca era um espaço totalmente espontâneo. Eu também estava sendo observado e classificado o tempo inteiro. No início do campo, eu adotava um formalismo que imaginava transmitir seriedade, mas que muitas vezes produzia o efeito contrário: criava distância e pouca identificação.
Com o tempo, percebi que precisava construir uma imagem de maior proximidade para inspirar confiança. Passei então a modular conscientemente minha própria apresentação: um visual mais casual, mas alinhado aos códigos de discrição valorizados naquele universo, evitando parecer excessivamente formal ou “over”, como alguns entrevistados diziam. Também ajustava linguagem, referências e formas de interação. Falava de viagens internacionais, do bairro onde moro, das escolas em que estudei e de pessoas de frações da elite que eu conhecia. Comentava restaurantes, experiências urbanas e referências culturais que funcionavam como sinais reconhecíveis de familiaridade social.
Mesmo assim, meu habitus de estudante de humanas frequentemente gerava desconfiança. Muitos entrevistados associavam pesquisadores e intelectuais a uma postura hostil em relação às elites ou ao risco de serem retratados de forma caricatural. Isso fazia com que controlassem bastante a entrevista. Uma entrevistada que está entre o 1% mais rico chegou, por exemplo, a pedir o questionário antes da conversa para saber exatamente o que seria perguntado.
Então existia uma dupla gestão da impressão. Eu tentava construir uma imagem suficientemente próxima para reduzir desconfianças e conseguir acesso mais profundo ao campo; eles, por sua vez, também administravam cuidadosamente a imagem que produziam diante de um sociólogo. Em vez de tratar isso apenas como um obstáculo metodológico, a pesquisa passou a incorporar essa própria encenação como dado sociológico. Afinal, a maneira como esses grupos controlam sua exposição também revela inseguranças, estratégias de distinção e mecanismos de fechamento social.
O objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como as elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.
Você declara explicitamente, e mais de uma vez, que a pesquisa foi conduzida com seriedade e respeito em contraposição a produções que tratam as classes abastadas pelo viés do estereótipo e da ridicularização. E você cita como exemplo desse estereótipo o documentário Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro. Em um país tão desigual como o Brasil, não dá vontade de alfinetar essas classes abastadas?
A desigualdade brasileira obviamente produz indignação e tensões reais. Mas transformar a pesquisa em caricatura moral empobrece a análise sociológica. Meu objetivo não era ridicularizar entrevistados, mas compreender como essas elites constroem pertencimentos, classificam a cidade e produzem fronteiras simbólicas.
O ponto central da pesquisa era justamente identificar mecanismos de fechamento social que muitas vezes passam despercebidos. A tese mostra que dinheiro e escolarização formal não garantem automaticamente pertencimento pleno às elites. Existem códigos de sociabilidade, repertórios culturais, formas de consumo e redes de reconhecimento que também funcionam como barreiras de entrada.
Isso desloca a discussão da simples oposição entre “ricos e pobres” para algo mais complexo: como grupos socialmente privilegiados constroem fronteiras simbólicas e reproduzem pertencimento entre gerações. Assim, entender esses mecanismos me parecia sociologicamente mais importante do que simplesmente produzir uma sátira moral das classes altas.
E por que você acha que a sociologia feita no Brasil ainda não estuda as classes altas com mais recorrência?
Existe, primeiro, uma dificuldade metodológica real. Elites controlam fortemente sua privacidade e possuem maior capacidade de selecionar quem entra ou não em seus circuitos sociais. Conseguir acesso prolongado a esse universo exige tempo, adaptação e construção de confiança. Mas também existe uma tradição forte da sociologia brasileira voltada para pobreza, exclusão e classes populares, o que é compreensível num país profundamente desigual. O problema é que isso às vezes produz um desequilíbrio: estuda-se muito quem sofre os efeitos da desigualdade e menos quem participa de sua reprodução cotidiana.
Além disso, pesquisar elites exige um equilíbrio difícil. Existe o risco tanto da fascinação quanto da hostilidade moral. Em muitos casos, a caricatura acaba substituindo a análise. Só que, quando a elite aparece apenas como personagem grotesco, perde-se justamente a compreensão dos mecanismos sutis e cotidianos através dos quais as desigualdades continuam sendo reproduzidas.
Michel Alcoforado virou fenômeno editorial com Coisa de Rico, um livro que expõe, por vezes com humor, ridicularizando e em tom sarcástico, códigos e rituais das elites brasileiras. Mas há vários pontos que ressoam com o que você encontrou na tensão entre as elites da Zona Norte e da Zona Sul. Como você lê esse livro à luz da sua tese?
Michel Alcoforado tem um mérito importante como divulgador. Ele conseguiu levar discussões sobre consumo, comportamento e distinção social para além da bolha acadêmica, mostrando a existência de códigos das classes altas que muitas vezes passam despercebidos e que são fundamentais para definir quem pertence e quem não pertence a determinados universos sociais.
Ao mesmo tempo, parte da academia vê limites nisso, porque a lógica da divulgação e do humor às vezes simplifica conceitos sociológicos mais complexos. Acho que o problema não é existir esse tipo de trabalho, mas parar nele. Quando a análise fica apenas na sátira dos hábitos dos ricos, corre-se o risco de transformar processos sociais profundos em mera curiosidade comportamental.
Minha tese tenta ir além disso. O interesse não era apenas mostrar “coisas de rico”, mas entender como gostos, estilos de vida, formas de consumo e modos de ocupar a cidade funcionam como mecanismos de pertencimento, distinção e fechamento social entre as elites recifenses. Esses códigos não apenas expressam diferenças de classe: eles também moldam a cidade e fazem dela um marcador social, capaz de classificar pessoas, bairros e formas de vida.
E também acho importante dizer que as elites deixaram de ser um tabu absoluto na sociologia brasileira. Existe muita coisa sendo produzida hoje. Eu recomendaria, por exemplo, trabalhos de Miqueli Michetti, Marcella Novais, Michel Nicolau, Renato Ortiz e Valdênio Freitas Meneses. Claro que ainda existe uma dificuldade metodológica real de acesso a esses grupos, mas há diferentes estratégias possíveis de pesquisa. Nem todo estudo sobre elites precisa depender necessariamente de interação direta ou entrevistas profundas.
Se você chegou até o fim dessa entrevista, é porque se interessou pelo assunto: vale a pena ler a tese completa, que é muito bem escrita e interessante. Está disponível aqui, no repositório da UFPB.
Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Contato: carolsantos@marcozero.org