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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Doze mulheres chegam ao Senado. Por quais portas?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 21:42:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Ana Carolina Marsicano*e Maria Eduarda Antonino* O plenário do Senado brasileiro tem 81 cadeiras. Durante quase toda a história da República, nem se reuníssemos todas as mulheres que já haviam passado por elas conseguiríamos ocupá-lo inteiro. Isso mudou agora. Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por <em>Ana Carolina Marsicano</em>*<em>e Maria Eduarda Antonino</em>*</strong></p>



<p>O plenário do Senado brasileiro tem 81 cadeiras. Durante quase toda a história da República, nem se reuníssemos todas as mulheres que já haviam passado por elas conseguiríamos ocupá-lo inteiro. Isso mudou agora. Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em mais de dois séculos de história da Casa. Com as 12 eleitas neste domingo, o número chegou a 90. Pela primeira vez, se todas as senadoras da história brasileira pudessem ocupar o plenário ao mesmo tempo, faltariam cadeiras para elas. A imagem ajuda a medir o tamanho da ausência.<br><br>Desde a criação do Senado, em 1826, mais de mil homens passaram pela Casa. Uma mulher só ocuparia uma de suas cadeiras 153 anos depois. Em 1979, Eunice Michiles, da Arena, tornou-se a primeira senadora do Brasil. Não havia sido eleita titular: era suplente de João Bosco de Lima e assumiu após a morte dele. Uma de suas primeiras propostas buscava retirar do Código Civil o dispositivo que permitia ao marido pedir a anulação do casamento caso descobrisse que a mulher não era virgem.</p>



<p>Dois anos depois, outra morte abriu caminho para a segunda mulher no Senado. Laélia de Alcântara, suplente de Adalberto Sena pelo Acre, tomou posse em 1981 e tornou-se também a primeira mulher negra a exercer o mandato. A instituição estava tão pouco preparada para recebê-la que, no juramento de posse, precisou declarar-se “senador”, no masculino. Durante seu curto mandato, defendeu o ingresso de mulheres na Aeronáutica e mudanças no Código Civil para dividir entre marido e mulher a direção da família. Por mais de uma década, a suplência seria uma das principais portas de entrada das mulheres no Senado. A barreira das urnas só foi rompida em 1990, quando Júnia Marise, por Minas Gerais, e Marluce Pinto, por Roraima, se tornaram as primeiras mulheres eleitas diretamente para a Casa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Antes das eleições de 2026, apenas 78 mulheres haviam exercido o mandato de senadora em mais de dois séculos de história do Senado.</p>
	                
                                            <span>Edilson Rodrigues/Agência Senado</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A mudança ganhou outra dimensão em 1994. Benedita da Silva, Emília Fernandes, Marina Silva e Marluce Pinto conquistaram diretamente uma cadeira. Somadas a Júnia Marise, fizeram o Senado começar 1995 com cinco mulheres. Havia algo novo naquela geração. Marina Silva, seringueira do Acre e alfabetizada aos 16 anos, chegou aos 36 como a senadora mais jovem da República. Benedita da Silva, nascida na favela da Praia do Pinto e filha de uma lavadeira, tornou-se a primeira mulher negra eleita diretamente para o Senado. Mulheres começavam não apenas a conquistar suas próprias cadeiras, mas a chegar por caminhos que raramente conduziam até ali. </p>



<p>A arquitetura, no entanto, continuava contando outra história. O Congresso foi inaugurado em 1960, mas o banheiro feminino dentro do plenário do Senado só surgiu mais de meio século depois. Até então, as senadoras precisavam deixar o espaço das votações para usar outro sanitário. E até 1997 sequer podiam usar calças compridas no plenário. Em 2026, outro marco foi alcançado. <strong>Doze mulheres foram eleitas de uma só vez, o maior número desde a redemocratização. A partir de 2027, a bancada feminina deverá chegar a 18 senadoras.</strong> É um recorde histórico — e, ao mesmo tempo, apenas 22,2% das 81 cadeiras.</p>



<p>Mas há outra mudança importante. Durante décadas, a presença feminina pôde ser narrada como abertura progressiva de uma instituição construída por homens. Hoje, saber que mais mulheres chegaram já não basta para dizer em que direção política a Casa está se movendo. Entre as eleitas estão algumas das principais lideranças da direita brasileira. No Distrito Federal, pela primeira vez, as três cadeiras serão ocupadas simultaneamente por mulheres: Damares Alves, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, formando um núcleo expressivo da direita religiosa e bolsonarista. Depois de quase dois séculos perguntando <strong>quando as mulheres chegariam ao Senado</strong>, talvez seja hora de mudar a pergunta: <strong>elas chegaram. Mas que política chega com elas?</strong></p>



<p>As novas senadoras não chegam à Casa pelo mesmo caminho. Algumas acumulam décadas de mandatos e militância partidária; outras estrearam nas urnas após ocuparem posições de primeira-dama; há quem tenha transformado sobrenomes conhecidos em carreiras próprias e quem tenha crescido junto com a reorganização da direita na última década. </p>



<p>A ampliação da representação feminina, portanto, não produziu uma bancada homogênea. Entre as trajetórias mais longas está a de <strong>Luizianne Lins (Rede-CE)</strong>, que passou pela Câmara de Fortaleza, Assembleia Legislativa, Prefeitura da capital e Câmara dos Deputados. Sua atuação se vincula a proteção social, direitos das mulheres, educação, cultura e desenvolvimento regional. <strong>Marília Campos (PT-MG)</strong> também chega depois de décadas de construção política, iniciada no movimento estudantil e sindical e seguida por mandatos legislativos e quatro passagens pela Prefeitura de Contagem. Já <strong>Teresa Surita (MDB-RR)</strong> construiu seu principal capital político em sucessivos mandatos como prefeita de Boa Vista. Nos três casos, o Senado representa uma nova escala de carreiras já consolidadas.</p>



<p>Outras eleitas construíram projeção primeiro em funções não eletivas e redes familiares de poder. <strong>Gracinha Caiado (União-GO)</strong> disputou sua primeira eleição aos 67 anos, depois de passar pela União Democrática Ruralista, trabalhar nos escritórios políticos do marido, Ronaldo Caiado, e ganhar visibilidade como primeira-dama de Goiás e coordenadora das políticas sociais do governo. Sua vitória transformou em votos um capital acumulado entre agronegócio, gestão social e família política. Em Alagoas, <strong>Marina JHC (PSDB)</strong> também chega ao Senado na primeira disputa, após atuar como primeira-dama de Maceió. Sua campanha levou para a escala estadual programas ligados à primeira infância, autismo, saúde e empreendedorismo feminino. </p>



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	                                        <p class="m-0">Fonte: Agência Senado
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>No Amapá, <strong>Rayssa Furlan (Podemos)</strong>, médica, ex-primeira-dama e ex-secretária municipal, conquistou seu primeiro mandato com uma agenda de saúde, inclusão e autonomia econômica das mulheres, ao mesmo tempo em que defende a exploração de petróleo na Margem Equatorial. A família também pesa na trajetória de <strong>Marília Arraes (PDT-PE)</strong>, mas de outra maneira. Bisneta de Miguel Arraes, herdou um sobrenome central na política pernambucana, porém construiu carreira própria como vereadora, deputada federal e candidata à Prefeitura do Recife e ao governo de Pernambuco. Sua trajetória combina herança política e autonomia eleitoral.</p>



<p>No Rio Grande do Norte, <strong>Samanda de Lula (PT)</strong> representa outra rota. Sua experiência eletiva é recente, mas a formação partidária vem dos anos 1990. Trabalhou por anos com Fátima Bezerra, ocupou cargos no governo estadual e presidiu o PT no estado. Eleita vereadora de Natal em 2024, chegou ao Senado dois anos depois, numa candidatura cuja associação ao lulismo aparece já no nome de urna.</p>



<p>Os patrimônios declarados também mostram a heterogeneidade do grupo. Entre os valores levantados, há uma distância que vai de <strong>R$ 476,7 mil</strong>, declarados por Samanda de Lula, a <strong>R$ 8,48 milhões</strong>, de Teresa Surita. Gracinha Caiado declarou cerca de R$ 3,94 milhões; Marília Arraes, R$ 2,6 milhões; Marília Campos, aproximadamente R$ 1,8 milhão; e Carol de Toni, R$ 1,41 milhão. O patrimônio, sozinho, não explica a força eleitoral dessas candidaturas, mas evidencia a diversidade de recursos combinados a redes familiares, estruturas partidárias e mandatos anteriores.<strong></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading"><a></a><strong>A força das mulheres da direita</strong></h2>



<p>Se a eleição ampliou a presença feminina, ela também deslocou essa representação para a direita. Entre as 12 eleitas, a maioria pertence a partidos situados à direita ou à centro-direita. O <strong>PL concentra três — Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni —</strong>, enquanto Republicanos, União Brasil, PSDB e Podemos elegeram uma representante cada. Juntas, essas siglas somam sete das 12 novas senadoras. À esquerda e centro-esquerda aparecem PT, Rede e PDT; o MDB ocupa posição mais ao centro. </p>



<p>O crescimento da bancada feminina, portanto, não correspondeu a uma inflexão progressista no Senado. No Distrito Federal, <strong>Michelle Bolsonaro e Bia Kicis</strong>, ambas do PL, expressam duas formas dessa ascensão. Michelle chega às urnas após ter sido primeira-dama do Brasil e presidente do PL Mulher. Sua candidatura articula capital familiar, liderança partidária e religião, combinando linguagem evangélica, defesa da vida desde a concepção, família, apoio a Israel e pautas de inclusão.</p>



<p>Bia Kicis, por sua vez, chega depois de dois mandatos como deputada federal e de uma carreira como procuradora. Católica, também mobiliza religião, mas sua atuação se organiza sobretudo em torno do conservadorismo moral e das disputas institucionais: oposição ao aborto e às políticas de identidade de gênero, defesa do acesso a armas, voto impresso, anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, críticas ao STF e resistência à regulação das redes sociais. </p>



<p>Em Santa Catarina, <strong>Carol de Toni (PL)</strong> representa a rápida ascensão de uma liderança formada no ciclo político aberto em 2018. Em dez anos, passou de candidata a vereadora suplente em Chapecó a deputada federal, presidente da Comissão de Constituição e Justiça e senadora. No Acre, <strong>Mara Rocha (Republicanos)</strong> combina conservadorismo nos costumes e liberalismo econômico, com defesa da família, redução de impostos, acesso a armas, regularização fundiária e fortalecimento do setor rural.</p>



<p>A predominância da direita, porém, não se restringe ao bolsonarismo. Gracinha Caiado chega vinculada ao agronegócio e ao grupo político de Ronaldo Caiado; Marina JHC e Rayssa Furlan transformaram a projeção como primeiras-damas em candidaturas próprias, combinando agendas de cuidado com redes de poder já consolidadas. Há mais mulheres no Senado, mas elas carregam projetos políticos, bases sociais e trajetórias profundamente diferentes. <strong>Mais representação feminina não significa, por si só, maior peso de agendas progressistas de gênero.</strong></p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>As ausências também dizem muito</strong></h3>



<p>O deslocamento à direita também aparece quando se observa quem ficou de fora. Duas derrotas particularmente simbólicas foram as de <strong>Marina Silva (Rede)</strong> e <strong>Benedita da Silva (PT)</strong>, referências históricas da esquerda associadas, respectivamente, às agendas ambiental e socioambiental e às lutas por igualdade racial, direitos sociais e ampliação da representação política. O contraste é significativo: enquanto essas duas lideranças não chegaram ao Senado, cresceram as bancadas femininas de partidos de direita e centro-direita. De um lado, ficaram de fora trajetórias ligadas aos direitos sociais, ambientais e raciais; de outro, avançaram lideranças associadas ao conservadorismo moral, à segurança pública e, em alguns casos, à mobilização religiosa. </p>



<p>No Rio de Janeiro, a derrota de Benedita tem peso histórico adicional. Primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado, em 1994, ex-governadora, ministra e parlamentar com mais de quatro décadas de vida pública, ela ficou de fora em um estado onde as duas vagas foram conquistadas por candidatos do PL. Em São Paulo, a ausência de Marina Silva reduz no Senado uma das principais vozes nacionais ligadas à agenda climática e socioambiental. </p>



<p>O avanço numérico da representação feminina ocorreu, portanto, simultaneamente a uma recomposição ideológica da Casa em direção à direita. O contraste entre as ausências de Marina e Benedita e a entrada de Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Carol de Toni sintetiza essa mudança.<strong></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading"><a></a><strong>Um mapa ainda desigual</strong></h3>



<p>O recorde também convive com uma grande ausência territorial. Em <strong>16 das 27 unidades da Federação</strong>, nenhuma das duas vagas ao Senado em disputa em 2026 foi conquistada por uma mulher. Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Paraíba, Pará, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo, Sergipe e Tocantins elegeram apenas homens. Isso não significa que esses estados nunca tenham tido senadoras. Vários já elegeram mulheres de projeção nacional, como Vanessa Grazziotin, Lídice da Mata, Rose de Freitas, Eliziane Gama, Simone Tebet, Gleisi Hoffmann, Daniella Ribeiro, Benedita da Silva, Ana Amélia Lemos, Maria do Carmo Alves e Kátia Abreu.</p>



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</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>A exceção histórica é o <strong>Piauí</strong>, que se tornou o único estado do país que nunca elegeu diretamente uma mulher para o Senado. O recorde feminino, portanto, convive com uma representação territorial ainda desigual: mais da metade dos estados saiu da eleição sem acrescentar nenhuma mulher às suas bancadas.</p>



<p>A eleição de 2026 mostra que a pergunta já não pode ser apenas quantas mulheres foram eleitas. É preciso perguntar também <strong>quais mulheres chegam ao poder, por quais partidos, por quais caminhos, sustentadas por quais redes e levando que projetos políticos para o Senado</strong>. Em algumas trajetórias, a política municipal funcionou como escola e base eleitoral. Em outras, primeiras-damas transformaram visibilidade em votos. Há ainda o peso das famílias tradicionais, das máquinas partidárias, do sindicalismo e das novas redes conservadoras. <strong>O número de mulheres importa. Mas, para entender o Senado que emerge das urnas, é preciso olhar também para a política que essas mulheres representam.</strong></p>


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        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Ana Carolina Marsicano é pós doutoranda na UNICAMP e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política &#8211; Laberp, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).</p>
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<div class="text-lg leading-6 font-medium text-darker">Maria Eduarda Antonino é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisadora do Laberp.</div>
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		<title>Instituto AzMina lança projeto para orientar escolas a identificar violência digital de gênero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 24 Sep 2026 19:53:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Escolas]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta quinta-feira, 24 de setembro, às 19h, o Instituto AzMina lança o projeto &#8220;Não curto. Não compartilho&#8221;, que reúne uma cartilha educativa e um material audiovisual para auxiliar educadores, escolas, lideranças jovens e famílias sobre o desafio de violências facilitadas pelo uso de tecnologia, sobretudo entre meninas e mulheres. O evento acontecerá online e as [&#8230;]</p>
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<p>Nesta quinta-feira, 24 de setembro, às 19h, o <a href="https://institutoazmina.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto AzMina</a> lança o projeto &#8220;Não curto. Não compartilho&#8221;, que reúne uma cartilha educativa e um material audiovisual para auxiliar educadores, escolas, lideranças jovens e famílias sobre o desafio de violências facilitadas pelo uso de tecnologia, sobretudo entre meninas e mulheres. O evento acontecerá online e as inscrições são gratuitas através de <a href=". A inscrição é aberta ao público e pode ser feita pelo link: https://hoy.bio/at7rrqfoya." target="_blank" rel="noreferrer noopener">formulário</a>.</p>



<p>Segundo a pesquisa &#8220;Disrupting Harm in Brazil &#8211; Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia&#8221;, a cada cinco adolescentes de 12 a 17 anos, pelo menos uma já foi vítima de exploração ou abuso sexual nesse contexto. São diferentes formas de violências que são agravadas quando crianças e adolescentes têm contato cada vez mais cedo com o mundo digital, principalmente com as Inteligências Artificiais Generativas (IAs).</p>



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            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
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                    </figure>

	


<p>Pensando nisso, o projeto conta com um glossário que cataloga 25 práticas de violência digital de gênero, organizadas em sete categorias. Termos como <em>stalking</em>, <em>deepfake porn</em>, <em>sextorsão</em>, <em>doxing</em>, <em>outing</em> e <em>cyberflashing</em> são definidos e contextualizados, com atenção especial a como essas práticas afetam as pessoas de forma desigual.</p>



<p>Além do glossário, a cartilha oferece pontos de observação para os educadores, como: sinais de alerta para que educadores, familiares e colegas identifiquem quando um estudante pode estar sofrendo violência digital; orientações de acolhimento; boas práticas para grupos de <em>WhatsApp</em>; canais de denúncia e rede de proteção; e atividades pedagógicas interdisciplinares, alinhadas a competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para trabalhar o tema em Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, Sociologia e Tecnologia.</p>



<p>Como indicação de aplicação em sala de aula e grupos formados por adolescentes e jovens, a cartilha oferece sugestão pedagógica de como conduzir o diálogo a partir do audiovisual, além de outras maneiras de continuar discutindo o tema junto às tradicionais disciplinas escolares. A proposta é de que as discussões sejam feitas em grupos mistos de adolescentes e jovens.</p>



<p>“Gênero, raça, classe e outros determinantes se encontram nas nossas relações, provocando impactos distintos, principalmente entre mulheres e meninas negras, pessoas LGBTQI+, pessoas com deficiências, idosos, etc. Por isso, a nossa proposta é refletir em coletividade, abrir espaço de fala com nossos jovens e construir junto com eles as estratégias de superação”, conta Mari Leal, gerente do PenhaS — Programa de Enfrentamento à Violência de Gênero do Instituto AzMina.</p>



<p>O material é lançado num contexto em que o Brasil discute os limites da regulação de plataformas digitais e o papel da escola na prevenção de violências que já não distinguem <em>online </em>do <em>offline</em>. Após o lançamento, o produto audiovisual e a cartilha ficarão disponíveis gratuitamente, tanto para acesso online como para download no site <a href="https://azmina.com.br/" data-type="link" data-id="https://azmina.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">AzMina</a>.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/NCNC_INFOGRAFICO-ASSESSORIA-02-HORIZONTAL-1024x724.png" alt="Infográfico sobre “6 sinais de alerta para identificar violência digital de gênero”. Os sinais apresentados são: mudanças de humor, queda no rendimento escolar, faltas recorrentes, uso ansioso ou evitativo do celular, queixas físicas frequentes e comentários indiretos de sofrimento. Cada sinal é acompanhado por exemplos como tristeza, isolamento, baixa concentração, dores sem causa aparente e falas de autodepreciação. Layout em tons de laranja, roxo e azul, com ícones de alerta dentro de janelas que simulam telas de computador." class="" loading="lazy" width="642">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/instituto-azmina-lanca-projeto-para-orientar-escolas-a-identificar-violencia-digital-de-genero/">Instituto AzMina lança projeto para orientar escolas a identificar violência digital de gênero</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Entre “mimimi” e silenciamento, Câmara do Recife vira palco de violência contra mulheres</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 19:13:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Câmara do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Violência]]></category>
		<category><![CDATA[Violência política de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal do Recife. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema direita como responsáveis pelos ataques. O plenário virou um espaço de tensão permanente. Sessões legislativas passaram a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal do Recife. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema direita como responsáveis pelos ataques.</p>



<p>O plenário virou um espaço de tensão permanente. Sessões legislativas passaram a acumular quase que diariamente episódios de tentativas de silenciamento, desrespeito e de desqualificação das falas das mulheres, além de muitas acusações de “mimimi” dirigidas principalmente às vereadoras de esquerda — mas não só. Os ataques extrapolam o ambiente institucional e ocupam também as redes sociais. </p>



<p>Os episódios mais recorrentes envolvem os vereadores Eduardo Moura (Novo) e Thiago Medina (PL) e têm como principais alvos Cida Pedrosa (PCdoB), Jô Cavalcanti (PSOL), Kari Santos (PT) e Liana Cirne (PT), mas também atingem a evangélica Ana Lúcia (Republicanos).</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Violência política de gênero na Câmara do Recife" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/jKesN5Zo-J8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>Em vídeos registrados durante sessões recentes da casa, é possível ver os parlamentares interrompendo falas femininas, fazendo gestos ostensivos e criando tumultos paralelos enquanto as vereadoras ocupam a tribuna. Muitas vezes a discussão abandona completamente o mérito político e se desloca para provocações pessoais e tentativas de desmoralização pública.</p>



<p>As cenas têm se repetido com frequência suficiente para que vereadoras de diferentes partidos passem a identificar o fenômeno não mais como casos isolados, mas como parte da própria dinâmica política instalada na Câmara Municipal.</p>



<p>A vereadora Cida Pedrosa afirma que o centro da disputa não está apenas nas divergências ideológicas entre esquerda e direita, mas no direito das mulheres existirem politicamente dentro das instituições. “O que está em disputa é o direito das mulheres ocuparem os espaços de poder. Quando uma vereadora é interrompida, quando tentam cortar sua voz, quando tentam deslegitimar sua presença naquele lugar, não estão atacando apenas aquela mulher individualmente. Estão atacando o mandato que ela representa, a população que a elegeu e a própria democracia”, diz.</p>



<p>Cida relata que as tentativas de silenciamento acontecem mesmo em situações protegidas pelo regimento interno da Câmara. “Eu sou frequentemente uma das vereadoras mais interrompidas na Câmara do Recife. E isso acontece mesmo quando o regimento garante que uma parlamentar não pode ser interrompida na tribuna, no aparte ou em uma questão de ordem”, explica.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/cida-pedrosa-foto-Guga-Matos.jpeg" alt="A imagem mostra Cida Pedrosa, mulher de meia-idade com cabelos curtos castanhos e óculos escuros, falando ao microfone em um ambiente de conferência. Ela veste uma blusa azul-clara bordada com desenhos brancos e segura um papel enquanto sorri de forma tranquila e confiante. À sua frente há um copo de água, e o fundo está desfocado, sugerindo um espaço formal com outras pessoas presentes." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cida Pedrosa (PCdoB) é uma das vereadoras mais atacadas. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Guga Matos/Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo ela, há um padrão repetitivo de intimidação direcionado às mulheres parlamentares: “toda vez que uma mulher ocupa um espaço legítimo de fala, determinados vereadores tentam atravessar essa fala, falar mais alto, impor o dedo em riste, criar constrangimento público”.</p>



<p>As imagens das sessões confirmam a descrição. Em diversos momentos, as vereadoras tentam concluir suas falas enquanto parlamentares homens conversam alto, fazem comentários paralelos ou provocam interrupções sucessivas. Em alguns episódios, o ambiente se deteriora a ponto de a sessão precisar ser temporariamente interrompida.</p>



<p>Para Jô, “isso revela que a política brasileira ainda carrega uma estrutura muito machista que aceita mulheres desde que elas não incomodem, não enfrentem e não disputem o poder de verdade”. “É por isso que a divergência política faz parte da democracia. O problema é quando a divergência vira silenciamento e humilhação ou tentativa de deslegitimar um mandato eleito pelo povo”, comenta.</p>



<p>Apesar de existir lei para combater a violência política de gênero, Jô acredita que “a lei sozinha não pode mudar uma cultura política construída durante séculos. Para nós mulheres, além da lei, é preciso responsabilização, formação institucional e mudança de prática. Quando uma vereadora é silenciada não é só ela que perde, perde quem votou nela, o debate público e também a democracia”, sustenta.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/jo-foto-camara-recife-300x200.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/jo-foto-camara-recife.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/jo-foto-camara-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Jô Cavalcanti, mulher negra de meia-idade, com cabelo crespo curto e óculos de armação escura, falando ao microfone em um ambiente formal, como uma sala de reuniões ou plenário. Ela veste uma blusa vermelha de gola alta e um blazer preto, transmitindo uma aparência elegante e profissional. O fundo tem paredes de madeira clara, partes de bandeiras e estruturas metálicas, sugerindo um espaço institucional. Sua expressão é atenta e firme, indicando que está discursando ou apresentando algo com convicção." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para Jô Cavalcanti (PSOL), &#8220;a política ainda carrega uma estrutura muito machista&#8221;. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara Municipal do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Violência política de gênero se espalha pelas Câmaras Municipais</h2>



<p>O que acontece no Recife acompanha um processo nacional documentado por organizações de direitos humanos, institutos de pesquisa e organismos internacionais. Levantamentos recentes apontam que as câmaras municipais brasileiras se consolidaram como um dos principais espaços de violência política de gênero no país.</p>



<p>Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema foi produzido pelo Instituto Marielle Franco. O relatório <a href="https://www.violenciapolitica.org/baixe-a-pesquisa2023"><em>Violência política de gênero e raça no Brasil</em></a> reúne relatos de mulheres parlamentares e candidatas de diferentes regiões do país e aponta que interrupções constantes, desqualificação intelectual, ameaças, constrangimentos públicos e tentativas de silenciamento passaram a integrar a rotina institucional de mulheres na política.</p>



<p>Outro levantamento, produzido pela ONU Mulheres em parceria com a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), aponta que a violência política aparece hoje como uma das principais barreiras à participação feminina nos espaços institucionais da América Latina. O estudo identifica que mulheres progressistas, feministas, negras e periféricas figuram entre os grupos mais expostos a ataques.</p>



<p>Dados do Observatório da Violência Política e Eleitoral também mostram crescimento contínuo dos registros de violência política de gênero desde as eleições municipais de 2020.</p>



<p>No Recife, as vereadoras afirmam reconhecer nas sessões da Câmara exatamente os padrões descritos pelas pesquisas nacionais. Para Kari Santos, a violência política deixou de ser excepcional e passou a operar como método de disputa institucional.</p>



<p>“Quando um vereador me interrompe no meio de uma fala, quando vira as costas e começa a conversar alto enquanto eu falo, quando entra com processo na Comissão de Ética porque eu denunciei uma violência de gênero, ele não está discordando do meu argumento. Ele está dizendo que eu não tenho direito de estar aqui”, avalia.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/kari-foto-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Kari Santos, mulher jovem de pele clara e cabelos loiros presos, usando óculos grandes de armação amarela. Ela veste uma camisa vermelha e um blazer preto, com um colar prateado e um pingente pequeno em formato de coração. Kari está sentada em um ambiente formal, possivelmente uma sala de reuniões ou plenário, com microfones e cadeiras de escritório ao redor. Sua expressão é séria e concentrada, sugerindo atenção ao que está sendo discutido." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Na avaliação de Kari Santos, &#8220;violência é estratégia para que mulheres desistam da política&#8221;. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara Municipal do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Segundo Kari, existe uma estratégia contínua de desgaste psicológico e político direcionada às mulheres parlamentares. “Interromper é uma estratégia. Ridicularizar é uma estratégia. Processar é uma estratégia. Tudo isso serve ao mesmo objetivo: fazer com que a gente se canse, se cale, desista”, aponta.</p>



<p>Ela afirma que os ataques não se restringem aos momentos mais explícitos de confronto. Eles aparecem também nas pequenas dinâmicas cotidianas do funcionamento parlamentar. “O deboche, a caricatura da mulher como descontrolada e que faz ‘mimimi’ são instrumentos clássicos para tentar deslegitimar mulheres que ocupam o poder”, detalha.</p>



<p>Kari afirma ainda que a estrutura das casas legislativas ainda opera segundo uma lógica profundamente masculina. “A estrutura parlamentar foi construída para homens e por homens. Não existem mecanismos internos que reconheçam de fato a violência política de gênero nos regimentos ou nas comissões de ética”, critica.</p>



<p>Essa percepção aparece também nas falas de Ana Lúcia (Republicanos), partido que integra o campo conservador. Embora esteja em outro espectro ideológico, ela relata experiências semelhantes dentro da Câmara do Recife. “Quando uma parlamentar não consegue fazer uso da fala na tribuna, que é uma caixa de ressonância, e ela é interrompida, ou o barulho constante pela plateia eminentemente masculina faz com que a gente se desconcentre, isso é para nos ridicularizar”, avalia.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/ana-lucia-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Ana Lúcia, vereadora do Recife, uma mulher de meia-idade com cabelos loiros e lisos, usando óculos de armação dourada. Ela veste uma blusa preta e um blazer claro com detalhes escuros nas bordas, transmitindo uma aparência elegante e profissional. Ana Lúcia está falando ao microfone, em um ambiente formal, possivelmente uma sessão plenária ou reunião institucional, com bandeiras e estruturas metálicas visíveis ao fundo. Sua expressão é séria e concentrada, sugerindo que está abordando um tema importante com firmeza e serenidade." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O que está em disputa, na visão de Ana Lúcia, é dizer &#8220;aqui não é lugar de mulher&#8221;.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Ana Lúcia afirma que a mensagem transmitida pelos ataques é direta. “O que está em disputa é uma única frase: ‘aqui não é lugar de mulher’”, resume. Ela descreve um ambiente em que manifestações de machismo aparecem de maneira naturalizada. “A gente escuta frases como ‘mulher fala demais’, ‘já começou’, ‘é porque é mulher’. Quando pedimos respeito para falar, dizem que somos histéricas, que queremos mandar”, relata.</p>



<p>A vereadora afirma que o problema não está apenas nos episódios individuais, mas na própria composição estrutural da Câmara. “Uma casa com 37 vereadores e apenas sete mulheres já diz muito sobre o quanto precisamos avançar”, contabiliza.</p>



<p>No ano passado, foi sancionada a Lei Municipal nº 19.387/2025, de iniciativa da vereadora, que cria oficialmente a Semana Municipal de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Tentativas de intimidação</strong></h2>



<p>A Marco Zero analisou pelo menos 60 horas de vídeos de sessões plenárias disponíveis no canal oficial da Câmara no YouTube da Câmara. Neles, a repetição dos comportamentos chama a atenção. As interrupções quase sempre ocorrem quando mulheres ocupam a tribuna ou fazem apartes críticos. Em vários momentos, vereadores homens se levantam durante os pronunciamentos, falam simultaneamente ou provocam tumultos paralelos.</p>



<p>As imagens também registram reações corporais típicas dos episódios relatados pelas vereadoras: sorrisos irônicos, gestos de impaciência, conversas paralelas e expressões caricaturais enquanto as vereadoras discursam.</p>



<p>Para as parlamentares, essas atitudes não são casuais. “Elas fazem parte de uma tentativa de ensinar pela punição qual seria o ‘lugar adequado’ da mulher na política”, afirma Kari Santos. “Ser dócil, obediente e silenciosa.”</p>



<p>A vereadora Liana Cirne afirma que a violência política de gênero se intensifica especialmente quando mulheres desafiam estruturas históricas de poder. “Quando uma mulher progressista apresenta projetos que questionam a ordem patriarcal, quando ocupamos a tribuna, quando não baixamos a cabeça, a reação é agressiva”, comenta.</p>



<p>Segundo ela, a violência não é apenas simbólica, “está em disputa quem tem direito de falar, quem tem direito de decidir, quem tem direito de questionar as estruturas de poder.” Liana concorda que o funcionamento da política institucional ainda é moldado por valores patriarcais.</p>



<p>“Como estamos em um lugar que não foi construído para nós (mulheres), eles resistem, seja cortando microfones, ridicularizando nossa aparência ou transformando nossa firmeza em histeria”, argumenta. Liana também relaciona os ataques à incapacidade de parte dos parlamentares de conviver democraticamente com mulheres em posição de poder. “Quando eles não conseguem vencer pelo argumento, recorrem à violência simbólica.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/liana-camara-do-recife.jpeg" alt="A imagem mostra Liana Cirne, mulher de pele clara e cabelos curtos grisalhos, falando ao microfone em um ambiente formal, provavelmente uma sessão plenária ou reunião institucional" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Para Liana Cirne, ataques revelam incapacidade de conviver com mulheres em posição de poder
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Câmara do Recife</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading">A Lei 14.192, a estrutura e os limites da punição</h3>



<p>A violência política de gênero passou a ser tipificada no Brasil em 2021, com a aprovação da <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14192.htm">Lei 14.192</a>. A legislação alterou o Código Eleitoral para estabelecer normas de prevenção, repressão e combate à violência contra a mulher em ambientes políticos. A lei define como violência política qualquer ação que busque constranger, humilhar, perseguir ou impedir a atuação política feminina.</p>



<p>A norma prevê punições para ameaças, assédio, constrangimento público, humilhação e tentativas de impedir o exercício do mandato. Apesar disso, os dados apontam crescimento contínuo dos casos. Mas, para todas as parlamentares ouvidas, é unânime que a lei sozinha não será capaz de mudar a realidade, pois o problema é estrutural.</p>



<p>Segundo levantamento do Observatório da Violência Política e Eleitoral, os episódios de violência política contra mulheres aumentaram significativamente desde a aprovação da lei, especialmente em ambientes legislativos municipais.</p>



<p>Especialistas apontam que uma das principais dificuldades está na aplicação prática da legislação. Muitas das agressões aparecem disfarçadas de “debate político”, “liberdade de expressão” ou “embate parlamentar”.</p>



<p>Liana Cirne afirma que esse é hoje um dos entraves para a responsabilização. “Uma das principais dificuldades é a prova da motivação de gênero. Muitas agressões aparecem disfarçadas de crítica política”, diz.</p>



<p>Ela cita a própria experiência como exemplo dos limites institucionais da legislação: “fui agredida com spray de pimenta em 2021, denunciei, pedi investigação, a Câmara aprovou requerimento de apuração. Mas, e depois? Não houve punição”.</p>



<p>Liana relata que, após o episódio, passou a sofrer ameaças de morte, de estupro e de agressão. “As consequências disso apareceram até no meu desempenho parlamentar. Eu queria que aqueles que tiveram seus segundos de fama me agredindo nas redes fossem punidos. Mas não foram”, lamenta.</p>



<p>Para ela, a ausência de responsabilização reforça a sensação de impunidade. “Mesmo quando há denúncia formal e legislação, a vontade política de implementar justiça é frágil”, acredita.</p>



<p>Ana Lúcia faz avaliação semelhante: “Enquanto tivermos legislação sem aplicabilidade, os índices continuarão crescendo.” De acordo com ela, a violência política muitas vezes é minimizada até dentro das próprias instituições.</p>



<p>“Toda vez dizem ‘agora tudo é violência política’. Não. O que for violência política precisa ser reconhecido e encaminhado”, reivindica. Ela defende que casos sejam levados às comissões de ética das casas legislativas, pois “o vereador precisa responder por isso.”</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Violência afasta mulheres da política</strong></h3>



<p>Embora as vereadoras descrevam diferenças ideológicas entre si, todas convergem em um ponto: a violência política produz efeitos concretos sobre a permanência das mulheres na política institucional. Cida afirma que os impactos vão além do ambiente parlamentar, ao dizer que “a mulher parlamentar tem o mesmo trabalho, a mesma responsabilidade e a mesma tarefa que os homens, mas muitas vezes precisa exercer seu mandato sendo acossada todos os dias. Isso adoece”.</p>



<p>Ela afirma que a violência política pode afastar mulheres da vida pública. “O maior risco é que a violência política faça as mulheres desistirem da política. E isso seria uma derrota para a democracia”, avalia.</p>



<p>Kari também relaciona os ataques à tentativa de impedir o avanço da representação feminina: “cada mulher eleita é uma fissura a mais nessa estrutura construída para nos excluir.” Para ela, o crescimento da presença feminina na política explica parte da reação observada hoje nas câmaras municipais. “Eles têm medo porque nós temos coragem de enfrentá-los”, defende.</p>



<p>“O que a gente não pode aceitar é que dentro de uma casa legislativa eles coloquem suas posturas machistas para fora e a gente silencie”, defende.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/entre-mimimi-e-silenciamento-camara-do-recife-vira-palco-de-violencia-contra-mulheres/">Entre “mimimi” e silenciamento, Câmara do Recife vira palco de violência contra mulheres</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Tempo médio para julgamento de feminicídio em Pernambuco é superior a três anos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Dec 2024 20:02:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[feminicídios]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mais de três anos. Esse é o tempo médio para o julgamento de casos de feminicídio e violência doméstica na Justiça de Pernambuco, de acordo com o próprio Tribunal de Justiça (TJPE). Mais precisamente, são 1.165 dias para feminicídios e 1.302 dias para violência doméstica. Até a primeira metade de novembro, 260 casos de feminicídios [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Mais de três anos. Esse é o tempo médio para o julgamento de casos de feminicídio e violência doméstica na Justiça de Pernambuco, de acordo com o próprio Tribunal de Justiça (TJPE). Mais precisamente, são 1.165 dias para feminicídios e 1.302 dias para violência doméstica. Até a primeira metade de novembro, 260 casos de feminicídios e mais de 40 mil processos de casos de violência contra a mulher aguardavam por uma audiência em primeiro grau, quando o processo dá entrada no judiciário. </p>



<p>A lista de 41.238 processos inclui medidas protetivas de urgência (com 18.159 casos),<strong> </strong>violência doméstica contra a mulher (13.468 casos), violência contra mulher (7.768 casos), 1.348 casos de crime de descumprimento de medida protetiva de urgência, 260 feminicídios, violência psicológica contra mulher com 164 casos, crimes previstos na Lei Maria da Penha, com 35 casos, e 35 homicídios qualificados.</p>



<p>Em 2023, houve 59.451 registros de sentença relacionados à violência de gênero. Neste ano, até o dia 18 de novembro, o TJPE apresentou sentenças em 27.653 processos, o que representa apenas 46,5% em relação ao ano anterior. </p>



<p>Na prática, parentes e amigos aguardam os desdobramentos para que os responsáveis por esses crimes tenham um julgamento sem a certeza de quando vai acontecer. Existem os recursos, as instâncias em segundo grau e as remarcações, como foi o caso do assassino da dentista Emelly Nayane da Silva Ribeiro, de 24 anos, em fevereiro de 2021.</p>



<p>Lívio Quirino de Oliveira Neto foi acusado de asfixiar a dentista, sua esposa, e responde pelos crimes de homicídio qualificado, feminicídio e violência doméstica. Ele iria a júri popular em junho deste ano, mas foi adiado a pedido da defesa do réu. Remarcada para outubro, o julgamento foi adiado novamente por pedido da defesa. Na última quinta-feira (05), o homem foi condenado a 22 anos de prisão.</p>





<h2 class="wp-block-heading">Alternativas possíveis</h2>



<p>Para que os casos de feminicídio tenham mais visibilidade nos sistemas dos tribunais e como uma alternativa para acelerar as audiências desses processos, a plataforma <a href="https://sinalvermelho.v3l0z.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sinal Vermelho</a> foi criada pelo Instituto Banco Vermelho (IBV), que coleta informações sobre casos criminais para a identificação e encaminhamento aos tribunais de justiça parceiros, solicitando a celeridade do processo.</p>



<p>A ideia da plataforma surgiu após o parente de uma vítima procurar a presidente do IBV para tentar acelerar o processo de feminicídio. “Existe uma distância muito grande entre a sociedade civil e o judiciário. Ao escutar essa demanda dele, eu entendi qual é o problema, ele não sabia de absolutamente nada do processo, que sequer tinha acontecido ainda, não tinha sido oferecida a denúncia ainda&#8221;, afirma Andréa Rodrigues.</p>



<p>Os dados podem ser alimentados pelos próprios familiares. No sistema, eles conseguem acompanhar diretamente o andamento do processo. Na versão beta, oito processos foram cadastrados na plataforma e todos eles foram resolvidos.</p>



<p>“Ao ser cadastrado na plataforma, o processo sobe direto para presidência do TJ, onde eles têm um compromisso de, semanalmente, olhar tudo que chega através dessa ferramenta e encaminhar para coordenadoria da mulher, lá elas já colocam as providências, vão atrás”, afirma Andréa.  </p>



<h3 class="wp-block-heading">Em 2024, foram 45 mil denúncias de violência contra a mulherem PE</h3>



<p>De acordo com os dados da gerência de Análise Criminal e Estatística, da Secretaria de Defesa Social (SDS), nos dez primeiros meses de 2024 foram contabilizados 60 crimes de feminicídios, pouco menos do que os 66 do mesmo período do ano anterior. E, em todo o ano de 2023 foram 82 casos registrados.</p>



<p>Em relação às tentativas de feminicídios, foram 105 em 2023. E, de janeiro a outubro deste ano, o estado registrou 81 tentativas de feminicídios, contra 88 no mesmo período do ano anterior.</p>



<p>Até outubro deste ano, foram 44.942 casos de violência doméstica e familiar contra a mulher. No total do ano anterior, 52.359 registros.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>A SDS classifica a violência doméstica e familiar contra a mulher em: ameaça, calúnia, constrangimento ilegal, dano, difamação, estupro de vulnerável, estupro, homicídio, injúria, lesão corporal, maus tratos, perturbação do sossego, vias de fato e outros crimes por violência doméstica/familiar.</p>
        </div>
    </div>



<p></p>



<h3 class="wp-block-heading">Políticas públicas existem, mas não são bem executadas</h3>



<p>Segundo a SDS, desde o início da gestão Raquel Lyra (PSDB), a Patrulha Maria da Penha, da Polícia Militar de Pernambuco, monitorou 6.413 medidas protetivas de urgência e, dentro desse universo de mulheres sob essa proteção, não há registro de crime de feminicídio. Para enfrantar a violência de gênero, o estado possui 15 Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher, metade funciona em plantão 24 horas.</p>



<p>Embora exista um esforço de grupos e entidades para que o país combata efetivamente o feminicídio e a violência contra a mulher, não parece ser suficiente para evitar esse tipo de crime.De acordo com o  Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, o número de feminicídios no último ano aumentou no país, chegando a 1.467 vítimas. </p>



<p>Especialistas avaliam que a <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lei Maria da Penha (nº 11.340/2006)</a>, criada para combater a violência doméstica e familiar contra a mulher, estabelecendo medidas de proteção e assistência às vítimas e aos familiares, não é aplicada efetivamente no país.“A gente avalia que não foi implementada de fato na maioria dos estados, no Brasil inteiro. A lei que tem capítulos muito importantes da prevenção, mas a sociedade brasileira sempre olha muito mais com o olhar do punitivismo”, afirma Analba Teixeira, articuladora da Campanha Nacional Levante Feminista.</p>



<p>A ativista analisa que, para as políticas públicas contra a violência de gênero se tornem realmente efetivas, é necessário avaliar o contexto onde as mulheres estão inseridas, para além do urbano.“A realidade é muito mais complexa, tem a diversidade dos contextos em que essas mulheres estão inseridas, bem como a desigualdade entre homens e mulheres. Isso tem sido colocado com muita força pelo feminismo negro, pelo feminismo lésbico, que foi muito recentemente incorporado como desafio para nós”, pontua.</p>



<p>A Campanha Nacional Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocício e Transfeminicídio surgiu em março de 2021, em meio à pandemia de covid-19, com o lançamento do manifesto “Nem Pense em Me Matar” e reúne mulheres ativistas, pesquisadoras, integrantes de coletivos e organizações que buscam incidir politicamente para o combate a violência de gênero.</p>



<p>“A nossa perspectiva da continuação da luta, que é essa questão da matança das mulheres, do crescimento da violência contra as mulheres. Eu acho que a gente precisa continuar, enquanto movimento, atuando na denúncia, incidindo sobre a sociedade, atuando e incidindo por políticas públicas que avancem, em políticas que englobem outros contextos. E a gente precisa continuar atuando junto às mulheres negras, tanto no nosso trabalho de formação, como nas redes de solidariedade”, completa Analba.</p>
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		<title>Estudo aponta o tamanho do abismo de raça e de gênero na educação básica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Oct 2024 19:44:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdades]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Raça]]></category>
		<category><![CDATA[saeb]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As desigualdades de gênero e de raça na educação brasileira estão expostas no novo boletim do Observatório da Branquitude, intitulado Desempenho escolar, raça e gênero: o que contam os dados do Saeb 2023. O estudo analisa as médias obtidas por estudantes do 9º ano nas provas de Língua Portuguesa e Matemática do Sistema de Avaliação [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>As desigualdades de gênero e de raça na educação brasileira estão expostas no novo boletim do Observatório da Branquitude, intitulado <em>Desempenho escolar, raça e gênero: o que contam os dados do Saeb 2023</em>. O estudo analisa as médias obtidas por estudantes do 9º ano nas provas de Língua Portuguesa e Matemática do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2023. Há disparidades significativas no desempenho escolar de alunos e alunas brancos e negros em todos os 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.</p>



<p>A pesquisa cruzou as variáveis de raça/cor e gênero dos microdados disponibilizados publicamente pelo Ministério da Educação e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O Saeb acontece a cada dois anos e serve como base para o monitoramento da qualidade da educação em escolas públicas e privadas, além de ser útil para a formulação de políticas públicas.</p>



<p>Os dados analisados no boletim revelam que meninas brancas são o grupo com o melhor desempenho no teste de Língua Portuguesa. As meninas negras obtiveram a segunda maior média na disciplina, exceto nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro, em que os meninos brancos obtiveram uma média maior do que as das meninas negras.</p>



<p>Ainda em Português, os meninos negros ficam com a pontuação mais baixa em relação aos demais grupos estudados em todas as regiões, acima apenas da média geral de cada estado. A exceção foi o Distrito Federal, onde meninos negros ficaram abaixo da média distrital.</p>



<p><strong><a href="https://drive.google.com/file/d/1SuLsm0jZnrLjjnZsR9E_XTmqco7Tekz3/view">Confira aqui todos os gráficos com os desempenhos por raça/cor e gênero por região</a></strong></p>



<p>Já na Matemática, há uma mudança de gênero, mas não de raça/cor. Os meninos brancos assumem a dianteira com as melhores médias em quase todo o país – a única exceção é em Alagoas, onde meninos negros conseguiram a maior pontuação. No geral, meninos brancos se sobressaem aos meninos negros, às meninas brancas e às meninas negras, nesta sequência. Já o segundo melhor desempenho em Matemática é dos meninos negros, seguidos por meninas brancas e meninas negras. Somente em Roraima e Tocantins meninas brancas tiveram o segundo maior desempenho, seguidas de meninos negros e meninas negras.    </p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O <strong>Observatório da Branquitude</strong> é uma iniciativa da sociedade civil criada em 2022 com o objetivo de produzir conhecimento e promover ações estratégicas com foco na branquitude e suas estruturas de poder. Com uma equipe composta integralmente por pessoas negras, a organização foi a primeira no Brasil a ter como tema central a análise da identidade racial branca e suas implicações na sociedade.</p>
        </div>
    </div>



<p>Pesquisadora do Observatório da Branquitude, Nayara Melo ressalta a importância de se considerar a interseccionalidade entre raça e gênero na análise dos resultados. &#8220;É importante observar que tanto o gênero quanto a raça configuram variáveis de peso na distribuição destas médias”, afirma. “Matemática, por exemplo, que se enquadra dentro das ciências duras, é uma disciplina que, historicamente, foi mais enfatizada para o sexo masculino. Percebemos pouco incentivo na inserção de mulheres dentro das ciências duras. Por outro lado, o português, por ter aspectos do que estaria mais associado a uma “sensibilidade”, é mais enfatizado para o sexo feminino”, acrescenta.</p>



<p>“Com esse estudo não estamos querendo avaliar a capacidade do estudante, mas observar que existem condicionantes externos e internos que podem atravessar a trajetória de aprendizagem dos estudantes. Observamos que estudantes negros terminam sendo mais afetados na sua trajetória educacional. É um processo e resultados que já são demonstrados em outras pesquisas, de outros níveis”, afirma Nayara.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Os dados no Nordeste e de Pernambuco</strong></h2>



<p>Em matemática, meninos brancos tiveram as melhores médias no Nordeste, assim como no Brasil. Meninos negros ficaram na segunda posição em oito de seus nove estados. À exceção foi Alagoas, onde pela primeira e única vez nesta análise, meninos negros lideraram o <em>ranking</em> com uma pequena diferença para os brancos, de 251.5 sobre 250.2, respectivamente.</p>



<p>Em português, o Nordeste também segue o Brasil, com meninas brancas à frente, seguida de meninas negras, meninos brancos e meninos negros. Tanto em matemática como em língua portuguesa, Pernambuco segue a mesma ordem prevalente no Nordeste e no Brasil.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/10/graficoNE.png" alt="O gráfico mostra a média das notas de Matemática no SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) por raça/cor e gênero na Região Nordeste do Brasil. As barras representam diferentes estados (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe) e são segmentadas em meninos negros, meninas negras, meninas brancas, meninos brancos e a média geral. Os valores das médias variam entre aproximadamente 217,5 e 266,1. As cores das barras ajudam a diferenciar cada grupo e a média geral." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Observatório da Branquitude</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Políticas públicas específicas</strong></h3>



<p>O boletim do Observatório da Branquitude não é o único a apontar desigualdades no ensino brasileiro. Análises do Saeb feitas por instituições como a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) mostram que adistância no aprendizado entre negros e brancos se acentuou no período de 2007 a 2019. “Quando observamos que essas disparidades de notas são reiteradas em diferentes estudos em relação tanto ao gênero quanto à raça é porque temos grupos que precisam que o Estado esteja mais presente”, afirma Nayara. “Ao observar que temos grupos que são mais atingidos, que carecem de mais apoio institucional do que outros, é necessário que esses grupos também tenham acesso a políticas específicas para eles”.</p>



<p>A pesquisadora afirma que o Governo Federal está se movimentando para colocar em prática políticas públicas que diminuam essas desigualdades. Ela cita como bom exemplo a recriação pelo governo Lula da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), extinta no governo Bolsonaro.</p>



<p>Recentemente, o Ministério da Educação (MEC) lançou a <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/pneerq">Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq)</a>, elogiada por especialistas, e que tem como objetivo implementar ações e programas educacionais voltados para a população quilombola.<br></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/estudo-aponta-o-tamanho-do-abismo-de-raca-e-de-genero-na-educacao-basica/">Estudo aponta o tamanho do abismo de raça e de gênero na educação básica</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Pesquisa financiada pelo Fundo Malala revela desigualdade de gênero na educação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Nov 2022 21:05:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[educação pública]]></category>
		<category><![CDATA[Fundo Malala]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec) lançou a pesquisa “Meninas por uma Educação com Igualdade”, que expõe dados sobre desigualdades de gênero na Educação. O objetivo do levantamento, que compõe uma das ações do projeto Na Trilha da Educação &#8211; Gênero e Políticas Públicas para Meninas, do Fundo Malala, é [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/pesquisa-financiada-pelo-fundo-malala-revela-desigualdade-de-genero-na-educacao/">Pesquisa financiada pelo Fundo Malala revela desigualdade de gênero na educação</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec) lançou a pesquisa “Meninas por uma Educação com Igualdade”, que expõe dados sobre desigualdades de gênero na Educação. O objetivo do levantamento, que compõe uma das ações do projeto Na Trilha da Educação &#8211; Gênero e Políticas Públicas para Meninas, do <a href="https://malala.org/">Fundo Malala</a>, é entender os efeitos das desigualdades de gênero na vida escolar de meninas.</p>



<p>Os resultados da pesquisa, realizada com 438 estudantes do ensino fundamental II das redes de ensino municipal público do Recife, Camaragibe e Igarassu, foram apresentados e durante o seminário “Meninas por uma Educação com Igualdade&#8221;, que aconteceu na manhã desta quarta-feira, na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). O encontro reuniu educadores, estudantes, representantes das secretarias municipais e gestores escolares dos municípios parceiros do Cendhec.</p>



<p>O levantamento mostrou que racismo, assédio, LGBTQIA+fobia, trabalho doméstico e falta de incentivo para a prática de atividades esportivas são problemas comuns apontados pelas adolescentes. Um percentual significativo (94%) das estudantes ouvidas quer que o tema da igualdade de gênero seja discutido nas escolas.</p>



<p>Coordenadora do Programa da Criança e do Adolescente e coordenadora adjunta da instituição, a cientista social Katia Pintor pontua a importância da pesquisa no combate às desigualdades: “Ouvir as meninas ajuda o Cendhec a ter elementos para fazer com que essas vozes sejam ecoadas e transformadas em ação, em políticas públicas que garantam direitos previstos na Constituição de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente”. Além da apresentação dos resultados, durante o seminário o Cendhec entregou às secretarias de Educação uma carta de recomendações produzida pelo centro, a partir da experiência do projeto.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/projeto-financiado-pelo-fundo-malala-garante-permanencia-de-meninas-na-escola-durante-a-pandemia/" class="titulo">Projeto financiado pelo Fundo Malala garante permanência de meninas na escola durante a pandemia</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Principais dados</strong></h3>



<p>Realizada entre março e setembro de 2022, a pesquisa foi dividida em dois métodos: quantitativo &#8211; por meio da aplicação de questionários; e qualitativo &#8211; através da formação de grupos focais. As adolescentes consultadas responderam ao questionário no método quantitativo. Já no método qualitativo, um grupo de 71 meninas participou de rodas de discussão sobre desigualdade de gênero e educação, sendo 35 estudantes matriculadas no fundamental II e 36 jovens que estão fora da sala de aula, com até 21 anos. Mães de estudantes, gestores e professoras também foram ouvidas durante o estudo.</p>



<p>O levantamento apontou que 31,5% das alunas já se sentiram incomodadas com atitudes e comentários de meninos. Dessas, 54,4% sentiu que havia maldade e segundas intenções; 53,8% não contou pra ninguém sobre essas atitudes.</p>



<p>Ainda de acordo com o estudo, uma a cada quatro meninas sofre preconceito em ambiente escolar. Segundo o levantamento, 26,9% das meninas entrevistadas dizem terem sido afetadas por algum tipo de prejulgamento e repúdio em suas instituições de ensino. Das vítimas, 38,1% atribuem a ação ao racismo: 27,1% por ter cabelo crespo/enrolado; 11% por ser negra.</p>



<p>Das meninas entrevistadas em Igarassu, Recife e Camaragibe, 59,1% responderam não saber o que é desigualdade de gênero, no entanto, 66% acham que meninas e meninos não têm os mesmos direitos na escola. Sete em cada dez afirmam que seus professores não discutem o tema em sala de aula.</p>



<p>Pedagoga do Cendhec e integrante da Rede de Ativistas pela Educação do Fundo Malala responsável pela realização da pesquisa, Paula Ferreira explicou que o enfrentamento às desigualdades de gênero é um desafio que precisa ser encarado pelas instâncias da educação. “Para combater as desigualdades de gênero no ambiente escolar é preciso que as três redes parceiras do Cendhec, e que participaram da pesquisa, possam pensar em ações e projetos para garantir uma educação mais inclusiva para meninas, principalmente negras e que estão em vulnerabilidade social. Esse levantamento oferece dados importantes para pensar nas melhores estratégias”, afirmou a pesquisadora.</p>



<p><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do<a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do<a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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<p></p>
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		<title>Eleições 2022: desafios e estratégias para aumentar a representatividade nos espaços de poder</title>
		<link>https://marcozero.org/eleicoes-2022-desafios-e-estrategias-para-aumentar-a-representatividade-nos-espacos-de-poder/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 May 2022 23:14:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleição 2022]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[políticas de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Update]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As estratégias para aumentar a representatividade e estimular candidaturas de grupos marginalizados e subrepresentados tomaram conta da comunidade do Bode, na zona sul do Recife, entre quinta-feira e domingo, 5 a 8 de maio. O evento nacional &#8220;+Representatividade&#8221;, iniciativa do Instituto Update, debateu, na Livroteca Brincante do Pina, os desafios e as oportunidades para reduzir [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>As estratégias para aumentar a representatividade e estimular candidaturas de grupos marginalizados e subrepresentados tomaram conta da comunidade do Bode, na zona sul do Recife, entre quinta-feira e domingo, 5 a 8 de maio. O evento nacional &#8220;+Representatividade&#8221;, iniciativa do <a href="https://www.institutoupdate.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto Update</a>, debateu, na Livroteca Brincante do Pina, os desafios e as oportunidades para reduzir as barreiras de entrada na política, com a presença de representantes de todas as regiões do Brasil e também convidadas internacionais do Chile, da Colômbia, do Equador e do México.</p>



<p>A <strong>Marco Zero</strong> cobriu dois dias do evento e publica as principais pautas em duas matérias. Esta primeira sobre uma avaliação das ameaças e oportunidades da conjuntura para o trabalho das iniciativas nas eleições 2022 e a segunda sobre apresentação de casos para aumentar a diversidade nas eleições.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/eleicoes-2022-desafios-e-estrategias-para-aumentar-a-representatividade-nos-espacos-de-poder/" class="titulo">Eleições 2022: desafios e estratégias para aumentar a representatividade nos espaços de poder</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>O objetivo do projeto é fortalecer e promover o intercâmbio entre iniciativas para reverter o quadro de baixa representatividade política de mulheres, povos indígenas, negros, quilombolas e LGBTQIA+ nos espaços de poder e decisão. O Update é uma organização que estuda e fomenta a inovação política na América Latina. A coordenadora do +Representatividade, a recifense Ingrid Farias, destaca que o instituto finalizou, em março, um mapeamento de cerca de 100 iniciativas não partidárias em todo o país que estão atuando para estimular essas candidaturas. O material vai ao ar em breve.</p>



<p>“Realizamos esse mapeamento e promovemos esse encontro porque acreditamos que potencializar o trabalho e a atuação de quem luta por diversidade na política é a estratégia para mudar a estética política dos espaços de poder no Brasil&#8221;, defende Ingrid.</p>



<p>Confira os principais trechos da mesa que reuniu as provocadoras Mônica Oliveira, da Coalizão Negra por Direitos; Braulina Baniwa, da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga); Jolúzia Batista, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea); e Amanda Hurtado, do Processo de Comunidades Negras (Colômbia). A mediação foi de Ingrid.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“A gente quer mais e nós temos pressa”</strong></h2>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Mônica Oliveira, da Coalizão Negra por Direitos</strong>)</li></ul>



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	                                        <p class="m-0">Mônica Oliveira, da Coalizão Negra por Direitos. Crédito: Arnaldo Sette/MZ</p>
	                
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<p>Mônica Oliveira, da <a href="https://www.instagram.com/coalizaonegrapordireitos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coalizão Negra por Direitos</a>, é uma das principais pensadoras da atualidade em Pernambuco. Ela tem colocado nas mesas de discussão a necessidade de apoiar a estratégia ampla em torno do nome de Lula à presidência, mas também a urgência de se posicionar fazendo as leituras necessárias sobre essa aliança. Ao mesmo tempo em que fala da importância de reconhecer os avanços sociais dos governos do PT, Mônica questiona como estão hoje a inserção das pautas históricas e a participação do movimento negro nessa alianças e na construção do programa em torno da volta do ex-presidente.</p>



<p>“Nós tivemos avanços, sim. Mas a mudança não foi estrutural e, por isso, tudo cai rapidamente”, avaliou. “Isso que a gente perdeu agora precisa estar na mesa. Mas, por outro lado, a gente não quer apenas voltar para o que era antes de Bolsonaro. A gente quer mais e nós temos pressa”, defendeu. Mônica também costuma defender que é preciso sempre fazer uma análise do que é o imediato e do que é estruturante. Para ela, o imediato hoje é a estratégia de apoio à campanha de Lula e o estruturante são as pautas de grupo subrepresentados. “Nós precisamos trabalhar para, na próxima, não estarmos reféns de novo”, colocou.</p>



<p>Ela, que também é assessora parlamentar do mandato coletivo das Juntas (Psol) na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), vê como oportunidade o avanço do número de mulheres trans e travestis &#8211; foram 30 no Brasil em 2020 -, assim como a quantidade de mulheres negras e de mandatos compartilhados. “Eu acho que hoje a gente tem mais candidaturas ativistas do que a gente tinha tempos atrás. Isso é um passo estratégico importante”, acredita, lembrando do peso que é o posicionamento explícito dos movimentos sociais em defesa desse tipo de candidatura.</p>



<p>Em sua fala, Mônica trouxe um dado importante. Um levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) apontou que os brancos recuaram 11,8% na quantidade de eleitos, porém isso significa uma redução de apenas 4,6 pontos percentuais na ocupação dos assentos parlamentares. Por outro lado, as mulheres negras avançaram 23,1%. Mas, em contrapartida, isso significou um aumento de apenas 1,8% no quadro geral da ocupação das cadeiras. “O nome disso é racismo”, definiu.</p>



<p>Mônica também reforçou que o espaço ocupado pelos fundamentalistas é um projeto que está sendo instalado há décadas no país. “Eles ocuparam os cursos de direito, o judiciário, o Ministério Público, os cursos de psicologia, o serviço social, a medicina, a enfermagem”, elencou. “Esse projeto visa, como diz Sílvia Camurça, resgatar a ordem. Uma ordem racista, misógina, desse povo que nos odeia. Um ódio planejado que opera na economia, na política, na cultura e no sistema público de saúde para nos exterminar”, colocou.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Estamos sonhando com a bancada do cocar”</strong></h2>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Braulina Baniwa, da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga)</strong></li></ul>



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	                                        <p class="m-0">Braulina Baniwa, da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). Crédito: Arnaldo Sette/MZ</p>
	                
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<p>A <a href="https://www.instagram.com/anmigaorg/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Anmiga</a> é uma articulação que se organiza por biomas (são seis biomas) na luta pelo direito de voz e fala das mulheres indígenas nos espaços de diálogo, a partir do conceito de “corpo-território”. “Precisamos de uma frente política para lutar pelas nossas especificidades de pautas enquanto indígenas mulheres”, explicou Braulina, lembrando que essa participação política começa desde a ocupação, por exemplo, de cargos de professoras, presidentes de associações e coordenadoras de departamentos de mulheres em organizações.</p>



<p>A partir de nomes como Sônia Guajajara, candidata a vice-presidência em 2018 pelo PSOL, e Joênia Wapichana (Rede-RR), primeira deputada federal indígena, foram sendo construídas discussões para fortalecer também as candidaturas estaduais e municipais nos territórios. “Nosso movimento, enquanto movimento nacional indígena, precisa também ocupar outros espaços, passando a estar também dentro das universidades e produzindo narrativas a partir da nossa diversidade de povos indígenas”, defende Braulina, contabilizando que, no país, são mais de 300 povos que falam quase 200 línguas.</p>



<p>Durante a 18ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) este ano, com o tema “Retomando o Brasil: demarcar territórios e aldear a política”, foram lançadas ao menos 30 pré-candidaturas de todo o Brasil para o pleito deste ano. De acordo com Braulina, em 2020, quando a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) lançou a plataforma da campanha indígena, houve 2.177 candidaturas cadastradas. Destas, foram eleitas 236 indígenas, sendo 44 mulheres, um movimento muito fortalecido pela hashtag #parentevotanoparente.</p>



<p>Em 2022, a Anmiga se desafia a acompanhar &#8211; desde a orientação sobre o que é um partido político até a pós-campanha &#8211; as pré-candidatas estaduais e federais. No momento, segundo Braulina, ainda não há informações sobre pré-candidatas indígenas ao Senado. “Esse ainda é nosso maior desafio: como você explica isso tudo dentro dos territórios para as anciãs e a juventude, a importância de fazer política que nos represente por esses candidatos e candidatas”, alerta.</p>



<p>Outro desafio é a questão da logística de ir até esses territórios. Por isso a associação vai promover 28 encontros com mulheres indígenas na ideia de dialogar para além dos ambientes externos e das marchas. “Precisamos falar sobre isso dentro dos territórios, pautando também o cuidado e o acolhimento diante das violências e das consequências da pandemia”, frisa.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Da Colômbia, nasce uma esperança”</strong></h2>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Amanda Hurtado, do Processo de Comunidades Negras (Colômbia)</strong></li></ul>



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	                                        <p class="m-0">Candidatas do Estamos Listas ao Senado na Colômbia. Crédito: Instagram @estamoslistas</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Este ano também haverá eleições presidenciais na Colômbia, com o primeiro turno marcado para o dia 29 de maio. Desta vez, o país tem a oportunidade de eleger o candidato de esquerda Gustavo Petro, líder nas pesquisas, com a primeira vice-presidente negra do país, Francia Márquez-Mina, que tem uma agenda de reparação dos povos negros e originários.</p>



<p>Amanda Hurtado falou do processo de escravização colombiano, do surgimento dos grupos guerrilheiros e dos desafios para enfrentar a elite branca. Também contou sobre a história recente da política em seu país, fortemente marcada por conflitos traumáticos envolvendo governo, guerrilhas e paramilitares, com diversos assassinatos de políticos, sindicalistas, ativistas, estudantes e candidatos à presidência, que fizeram baixas arrasadoras de lideranças das classes populares.</p>



<p>No início do mês, o candidato Petro chegou a cancelar alguns eventos de campanha por receber, segundo sua equipe, ameaças de morte. Os processos eleitorais da Colômbia têm histórias de atentados que vão desde o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, em 1948, até o homicídio nunca desvendado de Álvaro Gómez Hurtado, em 1995, passando pela campanha de 1990, quando três candidatos foram mortos. A atual campanha de Petro, chamada “Pacto Histórico”, é um projeto, explicou Amanda, que reúne movimentos indígena, negro, ambientalista, campesino e de ex-guerrilheiros. “Um movimento nacional popular e abrangente”, diz.</p>



<p>Ela também faz parte de um movimento político feminista chamado <a href="https://marcozero.org/estamos-listas-as-colombianas-que-estao-prontas-para-ocupar-o-legislativo-de-medellin/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estamos Listas</a> (Estamos Prontas, em português), que luta por transição democrática, justiça econômica, social e ambietal e um futuro de paz. “Da Colômbia, nasce uma esperança. Faremos tudo o que for possível para seguir lutando para que a transição de poder seja real”, torce, dizendo que, ao chegar ao Brasil, pode ver que as questões da política racista são, na verdade, globais. “O que vocês vivem aqui nas favelas e nos bairros contra a população negra é o que vivem os irmãos e as irmãs na Colômbia, na Venezuela, no Equador, no Chile, na África, no mundo”, comparou, frisando a importância de gritar “poder negro”, sendo repetida e aplaudida pela plateia na livroteca.</p>



<p><em>Não há fotos de Amanda Hurtado nesta matéria por motivos pessoais.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>“Vamos ter que fazer imposições dentro dos partidos”</strong></h2>



<p><strong>Jolúzia BatistaA,  do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea)</strong></p>



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	                                        <p class="m-0">Jolúzia Batista, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea). Crédito: Arnaldo Sette/MZ</p>
	                
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<p>Sob sentimentos ambíguos de esperança e desespero, Jolúzia Batista, do <a href="https://www.instagram.com/cfemea_feminista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cfemea</a>, falou dos desafios de enfrentamento do fundamentalismo religioso, que, nas palavras dela, “vem fluindo sobre os escombros de uma população que foi empobrecida por dois anos de pandemia, mas surfando na onda de uma sociedade que guarda uma veia conservadora muito forte”, lembrando o que alguns teóricos chamam de neoconservadorismo. “Um conservadorismo que nós, feministas, temos dito que é um momento do conservadorismo antidireitos, fundamentalista, racista”, explicou, lembrando que são forças que têm avançado ao redor do mundo, revigorando agendas de morte.</p>



<p>Na avaliação de Jolúzia, que também integra a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) e a Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, as várias lutas são para poder colocar as agendas de mulheres nas ruas, para tensionar parlamentares do campo da esquerda e para poder dizer à esquerda que “nós não somos temas específicos nem somos lutas identitárias. Nós estamos no centro, na estrutura, no esqueleto da dominação, das opressões”.</p>



<p>Jolúzia lembrou ainda que a luta em curso é também contra “a indústria da mentira” e as fake news, que têm aumentado estigmas e disseminado ódio e preconceitos, com forças conservadoras que têm crescido no Congresso. “A gente viveu o momento Eduardo Cunha e a gente vive agora o momento Arthur Lira, que é a expressão do coronelismo mesmo”, relembra, falando do engessamento da estrutura que tem impedido as pautas feministas e antirracistas de avançarem. “O que a gente tem conseguido é segurar desgraças”, avalia.</p>



<p>Ao mesmo tempo, Jolúzia vê no momento a oportunidade de alinhar candidaturas e plataformas. Mas ela também chama a atenção para um ponto fundamental: “Toda iniciativa para aumentar mulheres na política é importante, mas não basta ser mulher. Temos que saber onde essas mulheres estão, o que elas estão dizendo, em que lado elas estão, qual é a pauta, a plataforma política e a agenda? Porque a gente tem agora uma bancada feminina que atua no conservadorismo propondo o projeto punitivo achando que está fazendo política para mulher. Mulheres que relativizam o feminismo e nossas vidas e estão relativizando a nossa agenda”.</p>



<p>“É uma bancada que acha que é o feminino, e não o feminismo, não é uma bandeira progressista. Não tem nenhuma vergonha de dizer que chegaram na carreira política pelo título e pela herança coronelista do pai e do avô”, acrescenta. Para ela, também não basta ser de esquerda, é preciso ter uma perspectiva dos movimentos dentro dos partidos. “Vamos ter que começar a fazer mais imposições dentro dos partidos”, acredita.</p>



<p><em><strong>As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Os trezentos e sessenta e cinco dias de Mirtes sem Miguel</title>
		<link>https://marcozero.org/os-trezentos-e-sessenta-e-cinco-dias-de-mirtes-sem-miguel/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Jun 2021 11:17:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[antirracista]]></category>
		<category><![CDATA[caso miguel]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[menino Miguel]]></category>
		<category><![CDATA[Mirtes Renata Santana]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[Torres Gêmeas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma mãe que estava disposta a fazer de tudo pelo seu filho. Saiu de sua casa em plena pandemia e atravessou a cidade no transporte público para cuidar da casa da madame e garantir o sustento e um futuro para o seu amor mais verdadeiro. Passaram trezentos e sessenta e cinco dias, mas para ela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma mãe que estava disposta a fazer de tudo pelo seu filho. Saiu de sua casa em plena pandemia e atravessou a cidade no transporte público para cuidar da casa da madame e garantir o sustento e um futuro para o seu amor mais verdadeiro. Passaram trezentos e sessenta e cinco dias, mas para ela é como se fosse uma vida inteira, porque o norte de sua caminhada agora é outro.</p>



<p>Trezentos e sessenta e cinco dias depois e ela não sai mais de casa para servir à branquitude, a dor e a morte escureceram os fatos e a fizeram enxergar que precisava de conhecimento para derrubar as estruturas do racismo. O luto ficou para depois. Após trezentos e sessenta e cinco dias esse depois ainda não chegou.</p>



<p>Quem dera pudesse passar o dia revirando as fotos e relembrando os momentos felizes que teve nos cinco anos que pôde dividir com o seu único filho. Quem dera a justiça zelasse pela vida de pessoas como ela, de pele escura, vida sofrida e oportunidades limitadas, mas ela sabe bem que não é assim, agora mais do que nunca.</p>



<p>Esmorecer ante a morte era uma opção viável e compreensível, pois perder um filho é ir contra a lei natural da vida, afinal, “o certo é o filho enterrar a mãe e não o contrário”, quantas vezes não ouvimos isso? Mas há uma força que ultrapassa a compreensão de muitos, mas que é comum às pessoas negras. É coisa de pele, como faz questão de escurecer a mãe.</p>



<p>Ancestralidade, negritude e comunidade, são os valores que colocam de pé dezenas e centenas de mães que perderam seus filhos. Não é difícil de entender quando você se encontra com uma delas. Sempre rodeadas de seus semelhantes, mãos e abraços pretos unidos em uma corrente pronta para amparar as dores sem fim de um povo que foi e segue sendo humilhado, à mercê de uma sociedade e de uma justiça escravocratas e racistas.</p>



<p>Em trezentos e sessenta e cinco dias, a trabalhadora doméstica virou estudante de Direito, o núcleo familiar de três pessoas, avó, mãe e filho, se transformou em um corpo social com milhares de integrantes, que, juntos, gritam, escrevem e clamam #justiçaporMiguel.</p>



<p>No asfalto em frente ao prédio de luxo de onde a criança caiu do 9º andar, dezenas de corpos se estiraram e afirmaram: “eu só queria minha mãe”. Quantas crianças pretas do Brasil só queriam crescer felizes, amparadas pelas suas famílias, e acabaram mortas antes mesmo de conhecer as possibilidades para além dos lares, no horizonte do futuro? Quantas mães enterraram seus filhos e junto com eles seus sonhos?</p>



<p>Miguel, que sonhava em ser policial, agora é filho da futura advogada Mirtes Renata. A perda de um filho fez nascer em uma mulher preta o desejo de fazer justiça com suas próprias mãos e voz. Essas mãos pegam os livros de Direito há noite e de dia seguram o microfone em mais um ato pelas ruas da cidade do Recife, na construção de uma luta que tem o objetivo de garantir um futuro digno e seguro para crianças pretas como a sua.</p>



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		<title>A travesti que virou mãe e a família que devia acabar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 May 2021 14:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[dia das mães]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[mães trans]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade trans]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Amanda Palha* Passava um pouco das 19h daquela sexta-feira quando tudo na casa aquietou. Uma luz forte que entrava pela janela entreaberta rasgava o escuro do quarto de casal e repousava sobre o corpo de Apollo, que era temporariamente a única fonte de algum som. Uma pausa, então um grito que anunciou a primeira [&#8230;]</p>
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<p>Por <strong>Amanda Palha</strong>*</p>



<p>Passava um pouco das 19h daquela sexta-feira quando tudo na casa aquietou. Uma luz forte que entrava pela janela entreaberta rasgava o escuro do quarto de casal e repousava sobre o corpo de Apollo, que era temporariamente a única fonte de algum som. Uma pausa, então um grito que anunciou a primeira das últimas contrações. Gradualmente, o cômodo passava a ser habitado por um ser a mais, que ganhava lentamente espaço ao ar livre. Sincronicamente, uma luz dourada começou a brotar no nosso peito, claramente visível atravessando nossa pele, e a gravidade no ambiente pareceu se alterar. Enquanto Linda Leone saía, a luz se expandia gradualmente para as extremidades e nosso corpo, notamos, já não tocava mais o chão. Um forte coro de trompetes acompanhou a saída definitiva do bebê, enquanto nossos corpos levitavam no centro do quarto e a luz que vinha da janela era interrompida pelo vulto de anjos, espíritos e entidades diversas. Até o Sagrado Feminino tentou aparecer, mas ficou um pouco confuso e não chegou a entrar. A parteira, com os cabelos a um vento invisível, ergueu Linda como Simba em nossa direção e a luz do nosso corpo explodiu, lançando-nos à cama, gravidade restaurada, de almas expurgadas.</p>



<p>Estávamos então lá, nós três: pai, mãe e filha, três seres completamente novos. Senti tudo novo. Eu não queria mais o fim da Família, não me sentia mais inegociavelmente feminista e a revolução parecia, ali, uma palavra antiga que o tempo enrugou. A criança nasceu e renasci com ela, quase que exorcizada. A travesti, enfim, virou mãe.</p>



<p>***</p>



<p>Porém não.</p>



<p>Teve muito grito, muito sangue, muita dor. Teve muita violência também. Nove meses de violência, aliás. Institucional, obstétrica, social. E mais um tanto depois. E teve beleza, também, teve muita beleza. E um tanto de apoio e empatia, aqui e ali. E certamente nos transformou e nos transforma todos os dias. Violentamente, aliás. Valores, noções de tempo e espaço, noções de “eu” e de “nós” são desestabilizados a cada passo mais firme que a cria dá. Sinto que é muito como um luto, até. Mas uma coisa que o processo de se tornar mãe <strong>não</strong> é, certamente, é uma redenção.</p>



<p>E alguém pode dizer “óbvio que não!”, mas imagino que outras mães LBT entendam ao que me refiro quando falo das expectativas, a nosso respeito, da maternidade como redenção. Alguns pais GBT também, sobre paternidade. E trabalhadoras do sexo. E mais um tanto de gente, mas o ponto é: o estigma de marginalidade moral, impresso em vidas vistas como devassas, perniciosas, infecciosas até, tropeça de repente nessa coisa romantizada e sacralizada que é a maternidade. A única conclusão possível para o olhar coletivo, moralmente e estruturalmente condicionado &#8211; cristão até quando ateu, inclusive &#8211; é a expectativa de redenção.</p>



<p>“Fulana é lésbica, mas tá com Cicrana e tão até tentando ter filho!”. “Beltrano é gay, mas é super tranquilo, ele e o companheiro tão até pensando em adotar”. “É travesti mas tem uma vida direita, tem família e tudo”.</p>



<p>“São meio diferentes, mas são gente de bem”.</p>



<p>***</p>



<p>No meu caso, esse caldo de expectativas e cobranças exorcísticas envolvendo a maternidade foi jogado pra cozinhar numa panela muito estranha: foi enquanto meu companheiro gestava, no início do ano passado, que viralizaram recortes de um vídeo onde eu afirmava que deveríamos, sim, lutar para destruir a família.</p>



<p>Trata-se de excerto de um debate em que participei no seminário Democracia em Colapso, da Editora Boitempo, em 2019. Recortado de uma debate de duas horas, o trecho de alguns segundos rodou portais evangélicos, perfis de influenciadores cristãos e líderes religiosos e mesmo de candidatos à vereança, sempre acompanhado de ofensas pessoais e teorias conspiratórias sobre uma “ditadura da ideologia de gênero” ou algo assim. Meus canais de comunicação ficaram lotados de ofensas e ameaças de todo tipo.</p>



<p>De repente, virei “a travesti que quer destruir a família”.</p>



<p>Só que a travesti-que-quer-destruir-a-família também é a travesti-que-virou-mãe. E a travesti-que-virou-mãe, tão perto, tadinha, de ser purificada pela maternidade, falou que quer destruir a família!</p>



<p>Para grande parte de quem saiu em minha defesa naquele processo, a conclusão foi simples: “é que a Amanda se referia à família tradicional, né, essa coisa normativa”. Justifica tudo, né? Afinal, se ela está formando uma família, então não poderia ser contra qualqueeer família&#8230; Ela agora até é mãe!</p>



<p>Equivocam-se, ainda que com boas intenções. Minha posição política nunca foi “contra a família tradicional”, foi contra a família. E eu sei que é menos palatável assim, e que é até mais difícil de me defender por isso, mas é o que é. E não só minha, aliás, porque eu não inventei nenhuma roda sobre isso. São fartas as produções teóricas e políticas sobre o problema da família como instituição, como forma de organizar a vida e a reprodução na nossa sociedade. Não “a família tradicional conservadora”, como se fosse uma questão do tipo de família. A Família, essa forma insalubre e violenta de organizar socialmente a produção industrial de corpos mercadoria.</p>



<p>Se a expectativa era a de que a maternidade me amaciasse sobre isso, preciso contar que a travesti-que-quer-destruir-a-família e a travesti-que-virou-mãe são na verdade amicíssimas! Cada dia na rotina com Linda me comprova o quanto essa instituição é violenta. Física, emocional e psicologicamente violenta. Me faz pensar que é preciso muito condicionamento coletivo, muito reforço ideológico e muita coerção social pra sustentar a ideia de que essa é uma forma saudável de organizar a vida social: uma ou duas pessoas, associadas, últimas responsáveis pela manutenção da própria vida e da garantia de sobrevivência, formação, educação e criação de uma criança. A quantidade de trabalho envolvida nisso – tanto remunerado, quanto doméstico, quanto emocional – é absurda e não só incompatível com uma vida saudável, como também absolutamente inviável de ser dada conta com qualidade.</p>



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	                                        <p class="m-0">Apolo, Amanda e Linda. Crédito: Arquivo Pessoal</p>
	                
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                    </figure>

	


<p>A gente erra o tempo todo. Erra com nós mesmos. Erra um com o outro. Erra com ela. É um sistema que não é feito pra funcionar bem, só pra funcionar, a pulso mesmo.</p>



<p>É preciso muito condicionamento e violência para nos convencer de que se trata de um sacrifício lindo e natural, ao ponto de nos impedir de sonhar (ou lembrar) formas outras de dar conta da vida coletiva. Formas outras de cuidar, de criar, de compartilhar e de viver.</p>



<p>Eu posso ter “virado mãe” quando Linda nasceu, mas a gente vai sendo feita mãe desde cedo. Desde sempre. Mesmo pela negação e pela marginalização – e nosso caso, LBTs, quase sempre pelo segundo. Desde sempre somos ensinadas pelo mundo que a família é o grande referencial do bom e do bem; que a adequação a essa instituição é o termômetro para a felicidade; que esse é o destino natural de todo mundo; que desviar das suas normas nos faz sujas, nos custa violências e violações; que essa instituição é a fonte última de sentido para nossas vidas; que ser quem a gente é ofender essa instituição; mas que essa instituição sempre estará lá para nos redimir.</p>



<p>Mas sabe? Não existe realmente redenção. O nascimento de Linda não cicatriza as feridas que me trouxeram até aqui, nem as de Apollo; não me blinda das violências que a sociedade reserva para corpos como o nosso e certamente não arrefece meu desejo e meus esforços de revolução. Pelo contrário, só os fortalece. Criar Linda me faz querer mais do que nunca destruir a família, para que ela e as próximas possam conhecer outra forma de viver.</p>



<p>Porque a mão do meu companheiro segurando a minha, não é sobre “família”, é sobre carinho e cumplicidade. O respirar tranquilo da minha filha quando deita no meu colo é sobre um bem-querer que explode o peito. O cheiro tranquilizante do colo de mainha é sobre segurança e gratidão. A vontade de estar junto, o querer bem, o amor se assim quiser chamar, nada disso &#8220;é&#8221; família. Apenas &#8220;estão&#8221;. E por estarem hoje, “família”, estão também cheios de coisas que não são. É para que um dia possam ser plenos que precisamos construir outras formas para eles estarem.</p>



<p><strong>* Amanda Palha é travesti, bissexual, mãe, feminista e anticapitalista. É educadora popular e Trv. em estudos de gênero.</strong></p>
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		<title>Erica Malunguinho: alternar o poder é ter raça e gênero como fundamento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Débora Britto]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jan 2020 18:54:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Alternância de Poder]]></category>
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		<category><![CDATA[Erica Malunguinho]]></category>
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		<category><![CDATA[Raça]]></category>
		<category><![CDATA[Reintegração de posse]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nascida no bairro de Água Fria, no Recife, a deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho (Psol-SP) é também a primeira mulher trans negra a ocupar um cargo legislativo no Brasil (juntamente com Robeyoncé Lima e Erika Hilton, eleitas em 2018, integrantes de mandatos coletivos em Pernambuco e São Paulo) e, acredite, no mundo. Ainda [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nascida no bairro de Água Fria, no Recife, a deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho (Psol-SP)  é também a primeira mulher trans negra a ocupar um cargo legislativo no Brasil (juntamente com Robeyoncé Lima e Erika Hilton, eleitas em 2018, integrantes de mandatos coletivos em Pernambuco e São Paulo) e, acredite, no mundo. Ainda assim, essa definição não dá conta de quem Malunguinho é e da política que constrói há anos, seja com o quilombo urbano que criou &#8211; a <a href="https://www.instagram.com/aparelhaluzia/">Aparelha Luzia</a> &#8211; seja no <a href="https://www.almapreta.com/editorias/realidade/erica-malunguinho-o-dia-da-posse-da-primeira-deputada-negra-trans-do-brasil">processo de &#8220;reintegração de posse</a>&#8221; que deu início ao entrar de branco, da cabeça aos pés, na cerimônia de posse na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Não só ela, mas uma multidão do povo preto vestindo branco, do candomblé, a acompanhou. </p>



<p>Também no dia a dia, Erica e seu gabinete, a <a href="https://www.instagram.com/mandataquilombo/">Mandata Quilombo</a>, transformam radicalmente a atmosfera da Alesp. Com um gabinete formado apenas por pessoas negras, ali reside um fragmento do que está por vir: a ocupação legítima da maioria da população nos espaços de poder. Radical, inclusive, é a palavra que define o projeto político-pedagógico da sua legislatura. Raça e gênero são os dois fundamentos inegociáveis da ação política de Erica. </p>



<p>Após o primeiro ano de legislatura, a deputada avalia que 2019 foi o ano de aprendizado e &#8220;sistematização&#8221; das lutas do povo negro dentro da institucionalidade. &#8220;Foi um ano de entender como é que a institucionalidade se torna um lugar possível, viável ou não viável para as lutas, as pautas e as questões que vêm da sociedade&#8221;, explica. </p>



<p>Neste primeiro ano, ela aprovou a criação das frentes parlamentares em <a href="https://ponte.org/a-vez-da-populacao-lgbt-na-assembleia-legislativa-de-sp/">Defesa da População LGBTGI+</a> e da População em Situação de Rua, temas até então invisibilizados ou pouco debatidos na casa legislativa. </p>



<p>Após meses de uma primeira tentativa de entrevista, a repórter Débora Britto, da Marco Zero Conteúdo, pôde conversar por cerca de duas horas com a deputada sobre o balanço da Mandata, política partidária, o projeto político do povo negro, ancestralidade, relação com as esquerdas e eleições 2020, entre outros temas. Não por acaso, os caminhos iniciados há tempos pela ancestralidade possibilitaram, finalmente, este encontro. </p>



<p>Confira abaixo a entrevista. </p>



<p><strong>Como tem sido a experiência de construção do Projeto Político Pedagógico Mandata Quilombo? ?</strong></p>



<p>Somos uma equipe, uma coletividade que foi escolhida e pensada a partir do compromisso que essas pessoas já mantinham nas suas militâncias diversas, em diversos espaços. O desafio era sistematizar essas lutas políticas e colocá-las dentro da institucionalidade. Porque o projeto político pedagógico diz respeito a nós, que fazemos parte do processo, mas diz respeito, obviamente, também, a como isso é distribuído, comunicado e compartilhado com a população.<br></p>



<p>Uma das nossas ações se chama Terreiro Político Pedagógico, que consiste na distribuição, no compartilhamento. A gente vai para as quebradas, para diversas cidades do interior para propor um letramento político. No sentido mais clássico e mais tradicional, que é o seguinte: o que faz uma deputada estadual? O que é da competência do Estado, da deputada, do Executivo, o que é do Judiciário? Desde este básico, que é muito importante para a gente compreender nosso posicionamento e a produção da nossa crítica e saber aonde nós enquanto sociedade podemos solicitar, nos manifestar, enfim, para não colocar tudo dentro de uma coisa só e não conseguir acionar os mecanismos e dispositivos certos.<br></p>



<p>Sempre estamos em um processo de escuta, mas é nesse momento que a gente ouve as demandas dos bairros, das cidades e traduzimos essas demandas para o que eu, como deputada, poderia vir a incidir. Então em muitos momentos a gente cria documentos nesses encontros com a população, requerimentos de informação. Eles servem como mecanismo de fiscalização, porque uma das atividades do legislativo é fiscalizar o Estado, as leis&#8230;<br></p>



<p>Outra coisa são os projetos de lei. As pessoas têm muito desejo por projetos de lei, mas objetivamente funcionam mais para agitação política do que para mudança de algum paradigma. Dificilmente um projeto de lei será aprovado, sendo meu ou de outras pessoas do campo progressista. Então, funciona mais a gente colocar na esfera pública. É uma ferramenta importante do legislativo, que a gente usa e que também fazemos com as pessoas. Isso é o Terreiro Político Pedagógico.</p>



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	                                        <p class="m-0">Integrantes da Mandata Quilombo no dia da &#8220;reintegração de posse&#8221; por Erica Malunguinho. Crédito: Heitor Salatiel</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p><strong>Foi difícil compor um gabinete apenas com pessoas negras?</strong></p>



<p>O que faz essa mandata ter sido eleita é exatamente esse compromisso com a radicalidade. Assim, não diz respeito à exclusão de alguém ou à acepção de alguém. Diz respeito a colocar dentro do debate público a imagem e o debate que nos fez ser eleitas. E o que nos fez ser eleitas foi um compromisso radical em relação ao racismo. E ao machismo. Nada mais que justo que a população preta esteja lá. Porque ninguém pergunta quando tem um gabinete só com brancos? Eu não escolhi que as pessoas fossem negras, assim. As pessoas são negras. Mas antes e junto a isso elas são advogadas, internacionalistas, historiadoras, jornalistas, militantes dos movimentos sociais. São travestis. É quase uma coincidência elas serem negras [entre risos]. Mas acho que é nesse sentido que se desvela o racismo institucional de forma muito objetiva.<br></p>



<p>Estou falando, sim, de usar de nossas forças e energias para fazer o contraponto necessário de forma radical para que haja o reequilíbrio das forças. Um reequilíbrio da balança e para isso acontecer a sociedade precisa, sim, pactuar um novo processo civilizatório que partirá – e tem que partir – da nossa compreensão e da projeção a partir das mulheres negras. </p>



<p>É a máxima da Angela Davis, as mulheres negras se movem e movem o mundo. Não é contra ninguém, não é sobre exclusão de ninguém. É que uma vez que as coisas deste lado se resolvem, frutificam, estão em uma outra dimensão, deslocada da vulnerabilidade, a sociedade tem um ganho como um todo.</p>



<p><strong>Palavras que surgem quando se fala da mandata é a questão da reintegração de posse e alternância de poder. Quais são os caminhos que você enxerga para, de fato, nessa alternância de poder, mudar as estruturas? Um legislatura vai dar conta?</strong></p>



<p>Uma legislatura não dá conta, é impossível, a gente sabe. O poder, o biopoder, está comprometido e emaranhando em uma lógica muito perversa e muito bem articulada que tem o nome de capitalismo, inclusive, mas que obviamente isso tem atualizações.<br></p>



<p>A gente tem uma urgência de discutir e debater o que significa capitalismo e como age o capital, pensando em uma lógica que entenda raça como fundamento e como a distribuição e apagamento dos corpos se deu a partir também dessa diferenciação racial e do projeto normativo de gênero. A gente precisa atualizar a narrativa para discutir o capitalismo.</p>



<p>Eu não consigo perder de vista que nós, no decorrer de um projeto de poder extremamente violento, totalitário como sempre foi o projeto do ocidente, o projeto colonialista – nós deixamos marcas e registros fundamentais nessas culturas e nesses territórios. O que eu quero dizer com isso é que a despeito de toda a opressão nós fundamos a cultura brasileira. Nós devolvemos de forma muito generosa para esse país, esse Estado, tudo que o faz se reconhecer como o lugar que é.</p>



<p>O que significa depois de projetos tão violentos de apagamento, totalizantes, somados à versão moderna de tudo isso, junto com o mito da democracia racial, o projeto eugenista, a gente estar de pé? Sobrevivendo ainda, infelizmente, mas presentes. Isso significa muitos algos.<br></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Agora como é que eu vejo esse processo e projeto de alternância de poder e reintegração de posse? Tomar ciência absolutamente disso. Tomar ciência que a despeito da opressão, a despeito da morte, das violências sistemáticas, estruturais, institucionais nós sabemos o que fazer. E me interessa muito e me dedico muito a pensar nessas tecnologias sociais negras e estratégias políticas para pensar em um novo marco civilizatório.</em></p></blockquote>



<p>Eu acredito fielmente que essa expansão de consciência, a expansão do valor e da beleza que tem em tudo isso é que nós haveremos de garantir um outro projeto político de nação, sem dúvida. Obviamente, tendo a arte e a cultura emaranhada com a política, como sempre esteve. Alternar o poder é isso, não significa esquerda ou direita, significa outra coisa. Significa um compromisso por princípio e fundamento com o que faz te dizer uma pessoa negra, se dizer uma pessoa negra.</p>



<p>A nossa missão nesse processo, nesse projeto é que se a gente quer pactuar um novo projeto civilizatório é fundamental que a gente se coloque novamente como seres políticos constantes. Não apenas nas eleições. Sujeitos e sujeitas políticas constantes é incidir de forma radical pela periferia, a gente tomar decisão política de investimento social, econômico, tecnológico na população preta que foi empobrecida. É disso, é daí que há de estruturalmente se modificar toda a institucionalidade e a estrutura como um todo.<br></p>



<p>Por isso é necessário rediscutir o capitalismo, economia, projeto econômico. Porque o que se ouve muitas vezes num discurso clássico da esquerda, baseado – não todos – num pedaço da teoria marxista, inviabiliza à população negra o acesso econômico e a possibilidade de circulação econômica, do dinheiro, enfim, da produtividade. Acho que é preciso reatualizar isso, repensar como um projeto de curto, médio e longuíssimo prazo.</p>



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<div class="ratio ratio-16x9"><iframe title="Entrevista com a deputada Erica Malunguinho" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/HAf3oUNjXHU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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<p><strong>Como você enxerga o projeto político da Mandata Quilombo na história do projeto político do povo negro para o Brasil? Sendo uma mulher trans, negra, nordestina, deputada eleita por São Paulo, acredita que a Mandata atualiza ou traz novas questões para o movimento negro?</strong></p>



<p>Eu não acho que há nada novo. Eu acho que há formas diferentes de dizer que nós precisamos viver, que nossas vidas não estão em negociação. No decorrer da história isso foi se realizando com as possibilidades discursivas das suas épocas, seus momentos e seus pressupostos a partir do próprio tempo.<br></p>



<p>Mas é um fato que se a gente lançou o pretuguês aqui dentro, incidiu linguisticamente, a gente já estava dizendo que a gente não ia viver à submissão da lógica colonialista. </p>



<p>Nós somos vanguarda, sempre fomos. Nós somos seres movidos à ancestralidade: é passado, presente e futuro. Então essas amálgamas estão em constante mutação nas nossas experiências do cotidiano porque simplesmente nós precisamos a todo momento pensar. Desde o trajeto que vai feito, a roupa que será usada, o que fazer para não se foder e o que fazer para ter garantia de alimento, de escolarização, de um teto. Essas existências estão em constante movimento, mutação. Um exercício que é até exaustivo para a permanência da vida. Todos os dias a gente está pensando um milhão de coisas e isso obviamente gera uma musculatura existencial que diz sobre muita coisa.<br></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Criamos décimas inteligências. Terceiras, quartas, quinta, décimas inteligências. A gente faz tudo, absolutamente tudo. Pergunta para uma mãe preta que tem um salário mínimo e tem que sustentar 6 sendo camelô, vendendo cerveja enquanto as freviocas passam.</em></p><p><em>É essa força motriz, sabe? Agora a transformação dessa força motriz é para que ela seja uma diretriz. Eu vejo que há a sistematização de um processo histórico e um cuidado com essas narrativas, histórias, construções e ela é levada para a institucionalidade e para a esfera pública.</em></p></blockquote>



<p>Isso diz respeito à minha história de vida. A primeira vez que eu vi uma travesti foi no maracatu. Diz respeito a entender a arte e a cultura como parte da existência e da sociabilidade cotidiana das pessoas.</p>



<p><strong>Como você enxerga na sua construção política e na construção da Mandata Quilombo a relação com a branquitude?</strong><br></p>



<p>Acho que tem uma coisa muito objetiva que é que a mandata é preta, então ela já está dizendo alguma coisa. Bastante coisa, na verdade.<br></p>



<p>É um projeto radical em relação ao fundamento de gênero e de raça. Eu fui eleita. Tem uma coisa que é muito importante, são importantíssimas as candidaturas que aconteceram no Brasil, como das Juntas, da própria Bancada Ativista&#8230; essas composições que se lançaram coletivamente. Tem a Robeyoncé Lima (Juntas/PE), aqui, que é minha amada, e na Bancada Ativista tem a Erika Hilton. A pergunta que eu tenho que fazer é: elas seriam eleitas sozinhas? Ou se fossem elas na cabeça da chapa? Isso é uma preocupação. </p>



<p>Porque eu estou dizendo isso? Porque eu fui eleita absolutamente dessa forma que você está vendo. Sem nenhuma concessão do ponto de vista discursivo, do ponto de vista do debate racial e de gênero.</p>



<p></p>



<p><strong>Foi eleita, inclusive, a despeito do apoio do partido</strong>&#8230;<br></p>



<p>Exatamente. Então, é esse o projeto que é esperado. E tem uma coisa que eu falo sempre: a branquitude não é indivíduo. É um sistema. Tem indivíduos que reproduzem o sistema, assim como o sistema que vai produzindo o indivíduo. Não é sobre isso. Não é sobre um sujeito, é sobre uma lógica de poder. Se não se entende a partir desse pressuposto, tem um problema muito sério do qual eu não abro mão. Eu não negocio. Não há espaço para negociação em torno do racismo ou da violência de gênero. </p>



<p></p>



<p><strong>Já aconteceram casos de violência ou racismo com integrantes da Mandata ou com você?</strong><br></p>



<p>É óbvio que podem ter comentários racistas, mas eu não tomo conhecimento. Já aconteceu várias vezes com as meninas na Alesp. Já aconteceram várias situações, inclusive. É que tem uma coisa que é mais polida comigo, porque sou a deputada. </p>



<p></p>



<p><strong>Vocês chegaram a tomar alguma atitude, institucionalmente?</strong><br></p>



<p>A gente tem uma ilha, estamos sempre juntas. Nem todo mundo circula. E as pessoas do gabinete, da Mandata estão muito letradas em relação ao racismo. Então vem e volta. A gente não acumula essas violências. Teve uma situação que uma assessora de alguém veio colocar a mão no meu cabelo e perguntar como eu dormia. Eu fui muito tranquila, segurei a mão dela, e falei que ela estava provando que existe racismo no Brasil. Né? Disse &#8220;Como é que você pode achar meu corpo tão diferente, tão estranho, tão exótico ao ponto de você tocar, quando eu sou a maioria da população? Outra coisa, não se toca na cabeça de uma pessoa do candomblé. Mas eu sou pedagógica com você porque você é uma pessoa muito legal, se não fosse eu ia decepar a sua mão&#8221;. Soltei a mão dela.<br></p>



<p>A gente tem um preparo. Mas eu preciso fazer essa afirmação: a Alesp é menos violenta, neste sentido, do que a gente imaginava. Ela é mais tóxica quando você vê os projetos horrorosos que passam, projetos que elaboram a transfobia. É mais relacionado à transfobia e ao debate público sobre violência de gênero, principalmente. <br></p>



<p>O racismo se pratica lá na violência policial. Em relação à legitimação da violência policial. Como projetos e como discurso político. Isso eu posso dizer. Além da transfobia. Com o racismo estrutural eles são mais polidos.</p>



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<p><strong>Após um ano de mandata e sendo 2020 um ano de eleições municipais, como você vê os limites e possibilidades de construção dentro dos partidos?</strong><br></p>



<p>Todos ruins, todos incipientes, todos extremamente apegados às mesmas hóstias que os fundaram num processo histórico e estrutural. Não conseguem ainda olhar com a radicalidade necessária o fundamento racial, tampouco de gênero. Todos.</p>



<p></p>



<p><strong>E o quão independente dá para ser de um partido? Você está no Psol…</strong><br></p>



<p>Eu acho que os partidos ocupam um lugar muito importante e necessário dentro de um processo democrático. Mas eles só têm sentido se eles forem uma resposta imediata do que a sociedade civil clama.<br></p>



<p>Então quando se fala em voltar para as bases eu acho muito triste. Eu nunca saí das bases, gente. Talvez tenha algo aí que precise ser visualizado. E antes de um projeto de partido, precisamos ter um projeto de sociedade. E um projeto de sociedade que perpassa, que está atrelado, comprometido com a desconstrução dessas violências estruturais.<br></p>



<p>Eu sempre digo que não há esquerda no Brasil. As pessoas da esquerda estão ficando bravas comigo. Só há esquerda quando raça for colocada como fundamento, como questão crucial e que desemboca em classe. Mas raça aqui é onde se distribui as relações de poder. Não dá para achar que aqui classe é como se constrói a esquerda europeia. <br></p>



<p>Nós ,enquanto sociedade civil, precisamos constantemente revalidar as nossas forças que antecedem e justificam os partidos. Não o contrário. E aí a resiliência partidária neste momento histórico é de simplesmente ouvir e agir em função dessa escuta.</p>



<p></p>



<p><strong>Isso não tem acontecido?</strong><br></p>



<p>Aonde? Eu quero ver se a Vilma Reis vai ser candidata em Salvador. Se a Vilma Reis não for candidata em Salvador isso é muito sério. Significa que o PT não ouviu nada. Se eles querem descer ladeira abaixo, que desçam. Só não leve o povo preto junto mais. A gente quer ver, eu quero ver nas eleições municipais qual será. É muito fácil colocar a gente sem viabilizar a candidatura. Porque a gente aumenta o coeficiente eleitoral</p>



<p></p>



<p><strong>E fortalece certa narrativa&#8230;</strong><br></p>



<p>A gente está falando de outra coisa. Estaremos de olho. Se querem romper, que rompam. Se querem continuar rompidos, que continuem. Agora saibam que é isso, não dá. Serão engolidos também porque os reaças estão a todo vapor, a extrema direita está a todo vapor. E se você não conta com a força de uma militância que trabalha efetivamente com paixão não há projeto. Porque trabalhar por desespero é uma coisa, agora trabalhar por paixão e por acreditar no projeto político é outra. E agora não adianta colocar qualquer pessoa, como o de sempre, porque é de x ou y, para as pessoas votarem, porque a pessoa é simpática. Não, as pessoas querem se ver. As pessoas precisam serem vistas. A gente precisa romper com esse ciclo vicioso da representatividade que não chega às populações que foram colocadas à margem desse processo histórico de decisão.</p>



<p></p>



<p><strong>Você já disse em outras entrevistas que Bolsonaro não representa o fim do mundo para o povo negro, que sempre esteve de fora dos projetos de desenvolvimento. Você continua sustentando essa ideia? Acredita que Bolsonaro ou o bolsonarismo é uma ameaça à democracia?<br></strong></p>



<p>Bolsonaro é o fim de qualquer noção de civilidade. Ele é a legítima, legitimada força que corresponde às violências desse projeto de civilização ocidental, brancocêntrica. É a tempestade colonial de novo, isso sustentado novamente pelo fundamentalismo religioso, novamente pelo poder econômico. Os mesmos de sempre.<br></p>



<p>Agora o que eu falo que não é o fim do mundo é que ele não nasceu agora. Bolsonaro é uma construção histórica, social, de poder, que em uns tempos ou outros da história mais ou menos eles estiveram presentes.<br></p>



<p>Mas uma coisa eu posso te dizer, o estado de exceção sempre esteve presente. O genocídio da população negra tem um crescimento vertiginoso e não foi agora. A gente sabe em quais anos foi. A gente precisa olhar de novo isso. É óbvio que eu não comparo e acho que eu gostaria de estar criticando o Fernando Henrique agora, por exemplo. Mas a gente tem que chegar neste limbo, neste fosso para produzir crítica por algo que nem deveria ser passível de crítica. É tão execrável que para formular uma crítica é difícil. É execrável, é um ser vazio, é perverso, ignorante. Mas que corresponde a um projeto de poder.<br></p>



<p>Ele não é o fim do nosso povo, de jeito nenhum. Cabral não foi, as capitanias, nem Dom João e etc. Nunca foram. Agora é óbvio que ele encampa um projeto de morte. Ele está legitimado para isso e no fundo, ou no raso, a gente tem visível esse projeto perverso e espero que tenhamos coerência e coragem para construir um projeto radicalmente oposto a isso. E isso obviamente não perpassa pelas concessões, ou pelas formas de fazer concessão que aconteceram até então.</p>



<p></p>
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