Estamos Listas. Foto: Divulgação

selo ocupa políticaUma pequena revolução acontece em Medellín, na Colômbia. Lá, mais de duas mil mulheres decidiram dar um basta na hegemonia masculina da política local. Juntas, criaram um movimento político que vai disputar vagas no conselho da cidade – no sistema brasileiro, seria algo como a câmara de vereadores. A proposta do Estamos listas – estamos prontas, em português – é construir uma plataforma coletiva e mostrar que as mulheres devem estar presentes em todas as esferas do poder político.

“Pensamos em começar pelo local e depois nos espalhar. Por enquanto, estamos prontas para chegar à assembleia legislativa do município de Medellín. Também estamos prontas para trabalhar a partir das instâncias legislativas e locais. E, depois, para muitas outras coisas: cuidar das finanças públicas, cuidar da população, cuidar do meio ambiente”, afirma uma das integrantes do movimento, Isabel Pérez, que participa, junto com a também integrante Marta Lopez, do encontro Ocupa Política, que começa nesta quinta-feira (29). Aqui no Recife, elas vão trocar experiências com outros movimentos e participar da roda de diálogo “Atuando em frentes: valorizar o que nos une por um objetivo comum” neste sábado pela manhã.

Confira a programação do encontro Ocupa Política no Recife

O Estamos listas não é um partido político. É um movimento de cidadãos, uma figura política que existe na Colômbia e que pode participar de eleições, se tiver determinado número de assinaturas. A cada eleição, é preciso colher as assinaturas. Desta vez, foram necessárias 15 mil para que o Estamos Listas pudesse concorrer. As eleições acontecem no dia 27 de outubro.

Ação do Estamos listas em Medelín. Foto: Divulgação

Ação do Estamos Listas em Medelín. Foto: Divulgação

O movimento ainda é novo, começou a ser pensado em 2017 e tomou forma no ano passado. “Surgiu de um pequeno grupo de mulheres, que sentiram a necessidade de se verem representadas na política de Medellín”, conta a ativista pelas mulheres negras Marta Lopez. “Historicamente as mulheres, os negros e os povos indígenas ficam excluídos da política”, diz. Em Medellín, quase 53% da população é formada por mulheres, mas elas ocupam apenas 5 das 21 cadeiras do conselho. “Vimos nestas eleições uma oportunidade de fazer uma representação feminista”, conta Lopez.

Na campanha para as eleições, que acontecem no dia 27 de outubro, o movimento defende sete pontos, dispostos em um manifesto lançado em setembro do ano passado. Em uma cidade profundamente desigual, a pauta de segurança perpassa quatro desses pontos, como a prevenção ao feminicídio e a luta pelos direitos humanos. As Estamos Listas também defendem a educação sexual e afetiva nas escolas e políticas públicas relacionadas aos direitos reprodutivos das mulheres. “Nós acreditamos em uma política que cuide de todos e de todas. Que seja a favor da vida e da ética”, afirma Marta.

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Para fortalecer o movimento e crescer mais rápido, e também garantir as 15 mil assinaturas, a estratégia adotada pelas Estamos Listas se assemelha a um esquema de pirâmide: cada mulher foi convocada a chamar mais cinco e assim por diante. Assim, foram formados 37 “círculos de confiança”, hoje compostos por entre 30 e 100 mulheres. “São mulheres que se conhecem de alguma maneira. Nos une a vontade de participar da vida política e também o amor pela cidade, o desejo de poder viver bem nela”, diz Marta.

Como não é um partido, o Estamos Listas tem mais dificuldade em conseguir financiamento. A maioria do trabalho de divulgação e de ações do movimento é feito de forma voluntária. Cada mulher que se inscreve para participar do movimento também paga uma pequena taxa de 20 mil pesos, algo em torno de R$ 24. Outra parte do financiamento vem da venda de souvenirs e de bebidas nos eventos promovidos pelas Estamos Listas. Há também algumas doações, que no caso de associações políticas, não podem ultrapassar os R$ 1 mil. “É uma campanha bastante austera, feita realmente da solidariedade e do coletivo”, resume Isabel.

Homens são cotistas no Estamos Listas

A eleição dos conselhos municipais da Colômbia é feita por legenda e se dá por meio de uma lista fechada: os nomes mais acima têm mais chances de serem eleito e são escolhidos pelo partido ou movimento. O conselho de Medellín – uma metrópole com mais de 2,5 milhões de habitantes – é formado por 21 cadeiras. A intenção do Estamos Listas é conseguir eleger pelo menos uma das 14 mulheres que estão na disputa – Isabel Pérez é uma delas. Assim como no Brasil, a Colômbia mantém um sistema de cotas por gênero nas candidaturas.: 30% da lista deve ser de um dos gêneros.

No caso do Estamos listas, dos 20 nomes da lista (escolhidos em votação interna), seis são de homens, o que equivale a 33% dos nomes em disputa pelo movimento. Os homens ficaram no final da lista, ou seja, com pouquíssimas chances de serem eleitos. “Foram homens escolhidos por nós e que da sua parte se dispuseram a estar neste lugar. Ou seja, ocupar  os últimos lugares da lista e contribuir, dali, com o movimento de mulheres”, comenta Isabel.

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Ao contrário do Brasil, no entanto, não há cota para financiamento – desde as últimas eleições, a legislação brasileira também garante a reserva por gênero de no mínimo 30% do financiamento. “Consideramos que as cotas de gênero são importantes, são uma vitória dentro do processo de incluir mais mulheres na política, mas são insuficientes. Em geral, a cota é mal gerida: serve só para ter mulheres dentro das listas, mas são mulheres que têm menos financiamento, que têm menos marketing e têm menos know how de como fazer política. Estar na lista não significa que realmente elas tenham possibilidades reais de chegar aos cargos”, diz Isabel.

Para as representantes do Estamos Listas, é necessário representação, leis que favoreçam a participação política e um ambiente menos machista para que mais mulheres entrem na política institucional. “As mulheres têm que ver que é possível chegar lá, mulheres normais, que fazem outras coisas, mas se interessam por política. Temos que modificar a forma de fazer política e abrir espaço, mostrar que também é um lugar de mulheres. E a partir de movimentos que realmente se mostrem democráticos, que respeitem e não sejam só letra miúda dentro dos estatutos dos partidos, que não seja só lei de cota, mas um esforço e um comprometimento real”, acredita Isabel.